Casos recentes de mortes envolvendo acidentes vasculares cerebrais (AVC) em pessoas jovens, como a do jogador de futebol Thiago Reis, de 19 anos, e a do arquiteto Talles Sousa, de 39, chamaram a atenção para a ocorrência da doença entre pessoas fora das faixas etárias normalmente associadas ao problema.

A neurologista especialista em neurologia vascular Lorena Bochenek explica que, embora o AVC seja mais comum entre idosos, pessoas jovens também estão sujeitas à doença. Entre os fatores de risco estão sedentarismo, obesidade, doenças cardíacas, hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo e uso de drogas psicoestimulantes.

Segundo a médica, um dos aspectos que mais chamam a atenção são os casos de jovens que desconheciam condições preexistentes, como a hipertensão, até sofrerem um AVC. “São jovens que não sabiam que tinham pressão alta. As pessoas têm dificuldade de ir ao médico quando estão bem. E esse bem não necessariamente significa que estão bem, mas que pelo menos não estão sentindo nada”, afirma.

Para Lorena, a falta de uma cultura de prevenção contribui para que algumas dessas condições sejam descobertas apenas após complicações. “Não tem essa cultura preventiva de ir ao médico para ver se está bem. Porque, se a gente tiver esse comportamento de ir ao médico de forma regular, vamos fazer o diagnóstico precoce sem ter sintomas.”

A médica também aponta que uma rotina marcada por estresse, ansiedade e privação de sono pode desencadear uma série de comportamentos e alterações no organismo que aumentam os fatores de risco para o AVC. O aumento de adrenalina, por exemplo, pode afetar a frequência cardíaca e a pressão arterial, enquanto alterações nos níveis de cortisol podem interferir no metabolismo.

“Geralmente, as coisas não são isoladas, uma coisa leva à outra”, explica. Segundo Lorena, esses fatores podem estar associados ainda à alimentação inadequada, obesidade e tabagismo. “No final das contas, o AVC fica lá na pontinha do iceberg. […] O AVC é consequência de uma descompensação de outras doenças.”

Outros fatores associados ao AVC em jovens incluem episódios de dissecção das artérias carótidas ou vertebrais e o uso de drogas psicoestimulantes. Entre mulheres, a médica também cita a combinação de enxaqueca com aura, tabagismo e uso de anticoncepcionais como fator que aumenta o risco de AVC.

Sintomas podem ser minimizados pela idade

Lorena alerta que a idade pode levar pacientes e pessoas próximas a minimizarem sintomas neurológicos e atribuí-los a condições menos graves, como ansiedade, enxaqueca, labirintite, falta de sono ou alimentação inadequada. “Por ser jovem, justifica com qualquer outro título: ‘Ah, é uma enxaqueca, é uma labirintite, não dormi bem, não comi bem, estou ansioso e sou jovem, então não é uma doença grave’”, afirma.

“Só que a gente precisa mudar esse raciocínio. A idade não nos torna imunes a um AVC.”

Entre os principais sinais de alerta estão fraqueza ou perda súbita de movimento em um lado do corpo, dificuldade repentina para falar ou articular as palavras, assimetria facial, perda súbita da visão, dificuldade repentina para caminhar ou perda do equilíbrio, além de outras alterações neurológicas que aparecem de forma súbita.

Por isso, a neurologista ressalta a máxima de que “tempo é cérebro”. Ao identificar sintomas desse tipo, a orientação é procurar imediatamente um serviço de emergência. “Quanto antes for esse diagnóstico de AVC, nós temos a chance de fazer uma medicação intravenosa que aumenta muito a chance de reverter o déficit. Mas essa medicação só pode ser feita nas primeiras quatro horas do AVC”, explica.

A demora na procura por atendimento pode reduzir as possibilidades de tratamento e aumentar o risco de sequelas. Segundo Lorena, esse atraso pode ser especialmente comum entre pacientes jovens justamente porque eles não consideram inicialmente a possibilidade de um AVC.

AVC, enxaqueca ou ansiedade?

Alguns sintomas também podem se assemelhar aos de enxaqueca ou crises de ansiedade. Lorena ressalta, no entanto, que a diferenciação deve considerar fatores como o histórico do paciente, o contexto, a recorrência e a duração dos sintomas — e que, diante de um déficit neurológico súbito, é necessário buscar atendimento médico.

No caso da enxaqueca, podem ocorrer alterações visuais e formigamentos, geralmente associados à dor de cabeça e a episódios semelhantes anteriores. Já uma crise de ansiedade pode provocar sintomas físicos como dor de cabeça, desconforto no estômago, formigamento nos braços e sensação de falta de ar.

A gente sempre vai levar em consideração o contexto, o tempo de duração daquele sintoma e a recorrência para entender se é mais para um quadro de ansiedade, labirintite, enxaqueca ou AVC”, explica.

A neurologista reforça que nem mesmo profissionais de saúde devem atribuir imediatamente alterações neurológicas à ansiedade sem investigar causas orgânicas. “Nós temos que fazer exames complementares para diferenciar uma crise de ansiedade, por exemplo, de um AVC. […] A gente tem que descartar a causa orgânica, a causa do cérebro.”

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