Volta das chuvas não pode fazer a imprensa esquecer a crise hídrica

Um jornalismo comprometido com questões graves não só pode como deve firmar posição firme em defesa da água e do Cerrado

Reservatório do Rio Descoberto, praticamente seco: crise hídrica em Brasília abrangeu até estação chuvosa

Elder Dias

Até que ponto, e em que situações, jornalistas devem se envolver com uma notícia que aparentemente vá além de seu foco imediato? Profissionais da comunicação podem, ao mesmo tempo, se mostrar bem-informados e alienados ao escreverem um texto? Às vezes, contaminados pela repetição do “modus operandi” da própria área de cobertura, redige-se um artigo totalmente dispensável e se ignora a real notícia ou o fato sobre o qual verdadeiramente valeria a pena escrever.

Dias atrás, a repórter política Eliane Cantanhêde, que integra as equipes do canal Globonews e do jornal “O Estado de S. Paulo”, deu margem ao exato exemplo a que remonta o parágrafo de abertura. É possível que um jornalista perceba um fato importante, cite-o e, ao mesmo tempo, não lhe dê a devida atenção, justamente por não ensejar uma apuração de seu alcance direto, à primeira vista. Que Cantanhêde é competente, isso é inegável. Sua trajetória por alguns dos maiores veículos da grande imprensa nacional já serviria de convincente cartão de apresentação a quem não a conhecesse. Mas isso não a impediu de ser acometida da visão retalhada que pode afetar os jornalistas de faro apurado, mas direcionado.

Na terça-feira, 31, ela publicou, no “Estadão” e em outros diários importantes, o artigo “Estresse ou ressaca?”. A primeira frase: “Finalmente chove em Brasília, após uma seca insuportável e em meio a um racionamento de água cruel e constrangedor”. Pontuou o fato, chamando a atenção para um problema grave. Mas essa introdução de nada mais serviu ao restante do texto, que discorreu sobre conjecturas dos três Poderes em meio a uma semana “morta” para o trabalho por conta do feriado de Finados, que ocorreria dois dias depois. Ainda que mostre saber por onde andava o presidente da Câmara dos Deputados – “Rodrigo Maia (…) viajou para Israel, Portugal e Espanha até a semana que vem” – ou faça referências a problemas de instabilidade do Judiciário – “o STF está dividido ao meio, com a presidente Cármen Lúcia tentando contemplar correntes divergentes” –, não há nada que ela já não tenha tangenciado ou que não poderia deixar para outra ocasião.

A estiagem “insuportável” que abre o texto de Cantanhêde era a grande notícia em uma semana de volta das chuvas. Encravado no coração do Cerrado, o Distrito Federal passou este ano pela pior seca de sua história. Como a jornalista escreveu, houve um racionamento “cruel” e “constrangedor”. Porém, para o interesse nacional, Brasília só existe como centro de decisões políticas. A cidade em si e o Distrito Federal, com todos os seus problemas graves, raramente integram as manchetes nacionais. Ao ligar a TV no “Jornal Na­cional”, o morador do Entorno do DF se chocará com a violência no Rio e talvez saberá sobre algum megafestival de música em São Paulo. Mas, no que dependesse da mídia hegemônica, não saberia da crise hídrica que assola sua própria região há um ano e impõe um penoso rodízio de abastecimento desde janeiro, ainda em plena estação chuvosa.

Eliane Cantanhêde: a “seca insuportável” não virou notícia

Existem duas Brasílias: a que pertence ao Brasil e a que integra a Região Centro-Oeste. A primeira se limita aos prédios administrativos dos três Poderes e é interessante apenas pelas mil pessoas ou menos – presidente, ministros, secretários, deputados, senadores, procuradores, juízes – que dispõem de algum poder. A segunda é o restante: os milhões de habitantes da cidade e o milhão das demais cidades do Entorno.

Quase 3,5 milhões de cidadãos vivem a situação pouco digna de restrição do acesso ao abastecimento. Têm de controlar o gasto com limpeza, higiene e até mesmo alimentação. Caminhões-pipa passaram a fazer parte da cena. Isso não no meio da Caatinga, mas em uma região conhecida como “berço das águas”.

Um artigo interessante de Eliane Cantanhêde, com seu alto poder de repercussão, poderia versar sobre como a elite da classe política nacional – embora “elite” não tenha necessariamente uma conotação positiva para esse caso – instalada na capital federal fecha os olhos à discussão de um flagelo absurdo. Quais são as causas da seca tão prolongada? É um incômodo passageiro ou um tormento que veio para ficar? Que medidas o governo federal tem tomado contra essa crise hídrica debaixo de seu nariz? Sua estratégia é fingir que é um problema do governo do Distrito Federal (GDF)? O que há em projeto de lei no Congres­so Nacional para mudar as políticas públicas para a água? Qual prognóstico há para o caso específico? Como remediar a situação?

Cantanhêde poderia ter feito todas essas perguntas em um texto durante o último ano. Certamente reverberariam em alguma comissão parlamentar ou teria ressonância na tribuna, por algum deputado que o usasse para abrir a polêmica. Um assunto que não é bochicho de bastidores, nem fofoca de plenário, nem um “furo” de menor grau que lá na frente poderia se confirmar; é debate de política pública em seu nível mais nobre.

A imprensa política se acostumou aos horrores das negociações, a tal ponto de praticamente validar o esforço do governo em comprar sua base de apoio no Congresso. Tudo passa como expediente “normal” nas palavras e nos comentários da maioria dos jornalistas da área. Mas não pode passar em branco, pelos grandes nomes da comunicação nacional, um debate que se põe tão flagrantemente grave como a escassez da água no Cerrado. É um fato muito grave para ser ignorado pelos atores do debate político central e, principalmente, por quem tem a condição de propô-lo.

Em Correntina, no Oeste da Bahia, a poucas centenas de quilômetros do Distrito Federal, a população se revoltou contra projeto de irrigação que retiraria água do Rio Arrojado. Centenas de pessoas invadiram uma fazenda e destruíram os equipamentos. Um jornal local chamou o caso de “Mad Max tupiniquim”. Em entrevista ao Jornal Opção em dezembro de 2015, o professor Altair Sales Barbosa já alertava para o que chamou de “guerra pela água” no Oeste da Bahia – ele é natural de Correntina. O espaço dedicado ao tema pelos grandes veículos de comunicação tem sido pequeno.

Da mesma forma, isso vale para Goiás e sua imprensa. Com a chegada das chuvas, o abastecimento da Grande Goiânia tende a voltar ao normal e o tema da crise hídrica, consequentemente, tende a ser posto de lado. Não deve ser. Não pode ser. Até porque é um problema muito mais amplo do que simples adequações no sistema e obras de novos reservatórios. O que está em xeque é o Cerrado como lugar para viver. Se fossem duas pessoas comentando sobre a própria desidratação, o que o Distrito Federal diria a Goiás? “Eu sou você amanhã”. Os políticos precisam debater seriamente os rumos das políticas para a água, enfrentando questões difíceis como planos diretores sustentáveis, outorgas para irrigação, redução da fronteira agrícola, consumo industrial e intensificação da fiscalização ambiental. Quem pode pôr esse debate em destaque? A imprensa. Uma imprensa ética e comprometida não só pode – deve firmar posição em defesa da água e do Cerrado. Mesmo em plena época de chuva.

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