Uma cidade sem gestão

Goianienses de todas as regiões reclamam de problemas e não titubeiam em proclamar desapontamento com o prefeito, que prometeu muito e pouco ou nada cumpriu

Na Vila Monticelli, lixo acumlado é um dos problemas mais citados pelos moradores do bairro | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Durante uma semana, o repórter visitou 14 bairros da capital, ouviu goianienses que, espontaneamente, se dizem abandonados pelo prefeito Iris Rezende Machado (MDB). Por vezes, lembram-se do entusiasmo da campanha do emedebista, em carreatas e passeatas pelo bairros, apertos de mãos e abraços que ficaram apenas nos registros.

Com a Coligação “Experiência e Confiança” (MDB-PRP-DEM-PDT-PRTB-PTC), Iris venceu, no primeiro turno, Vanderlan Cardoso (PSB), com 57,70% dos votos válidos, ou seja, 379.318 sufrágios, sempre com a promessa de fazer a melhor administração de sua vida política.

Leandra Nartins: “Preciso mandar um recado para o prefeito Iris Rezende” | Foto: Fabio Costa / Jornal Opção

Não é o que se encontra nos corredores de Cais na iminência de fechamento, nas ruas com os problemas de mobilidade, na porta de Cmeis e nos bairros afastados, onde os olhos da administração parecem não enxergar o que não está funcionando. A reportagem conversou com goianienses, moradores das regiões Norte, Noroeste, Sul e no Centro. “Quais problemas você enfrenta em Goiânia?” foi a pergunta a donas de casas, comerciantes, vendedores ambulantes e transeuntes. “Saúde. Falta saúde”, repetia Leandra Martins Souza, 40 anos, moradora do Centro da capital.

“Vou falar porque eu preciso mandar um recado para o prefeito. Precisei de um médico no Cais Vila Nova, mas não tinha. Então fiquei indo de um lado para o outro”, conta. Para ela, os problemas da Saúde são “um crime”. “Não é difícil perceber que tem gente morrendo nas filas.”

O caso de Leandra não exceção, mas uma regra. Dificilmente, goianienses não apontavam a falta de assistência médica como um dos piores problemas da cidade.

A poucas quadras do apartamento de Leandra, Adeilson Mota, de 43 anos, ensaia uma fala que fuja do discurso agressivo de um morador minutos antes que, quase gritando, mandou todos os políticos às favas. “Não quero xingar, apenas chamar atenção para a falta de revitalização do Centro. Este lugar é um inferno de dia, com ladrões, sem estacionamento, sem estrutura alguma de dia e um mausoléu à noite. É preciso que o prefeito, que pode usar toda sua estrutura administrativa, olhe para o Centro com olhos de administrador, não apenas como um político em seu cargo. Coloque tudo o que eu disser, sem tirar absolutamente nada”, fez questão de dizer.

Enoque Pereira: “Nenhuma ação é visível para melhorar o Centro” | Foto: Fabio Costa / Jornal Opção

O comerciante Enoque Pereira Costa, de 65 anos, complementa Adeilson: “Nenhuma ação é visível para melhorar o Centro. É como se não existisse, como se fosse um lugar fora de Goiânia, sem identidade. Falta mesmo é uma política para revitalizar, valorizar o comércio. Um estudo bastaria para entender do que estamos falando”, sugeriu Enoque, há 28 anos na Rua 3.

Revitalizar é dar uma nova vida, construir espaços de convivência, sobretudo para valorizar o estilo art déco de vários prédios no Centro. Projetos de Cultura — o chorinho é uma exceção — dariam mais força para a reocupação da região, valorizando a memória da cidade. “Precisamos de projetos culturais. Isso também é política pública”, apontou Wesley Fontoura, vendedor ambulante.

Caos na Saúde

Sônia Marques: “Por falta de vagas, já cuidei de cinco crianças” | Foto: Fabio Costa / Jornal Opção

Rosevaldo Moreira, de 49 anos, remendava o pneu da bicicleta em uma borracharia do Setor Cândida de Queiroz enquanto a mulher dele, Luciana Brito Moreira, 38, comentava o caso de um vizinho que chegou às pressas na Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro em dezembro passado. “Ele morreu porque demoraram a atendê-lo. Aqui na cidade há velhos e crianças abandonados”, diz. Luciana refere-se também ao netinho de 3 anos que não consegue vaga em uma creche na região. “Se não fosse eu para cuidar dele, minha filha não conseguiria trabalhar nem estudar.”

Na Vila Monticelli, Sônia Mar­ques Ferreira, 54 anos, atende o repórter com desconfiança. Em uma rua suja, onde o caminhão do lixo demora até uma semana, conforme contou, para buscar o lixo, ressalta a violência no bairro. Mas ela tem uma tese: falta de vagas em Cmeis. Ela própria passou os últimos anos cuidando de crianças na humilde casa de dois cômodos em um puxadinho. “Por falta de vagas, já cuidei de cinco crianças, hoje consigo cuidar apenas de uma. Mais por dó da mãe”, diz, acariciando a menina.

Edmilson Caetano: “A dengue é sem dúvidas o pior problema, viu?” | Foto: Fabio Costa / Jornal Opção

Algumas ruas esburacadas adiante, o vigilante Edmilson Caetano Rocha, 46 anos, reclama que o mato alto e os problemas com a falta de esgoto têm favorecido a propagação de doenças na região. “A dengue é sem dúvidas o pior problema, viu? Falta de um acompanhamento melhor da Prefeitura”, disse.

Ainda na Vila Monticelle, José Gonçalves da Silva, 71 anos, assume que nunca deixou de votar em Iris Rezende. Ele disse que ainda tem esperança de a gestão “deslanchar para melhor”. “Tenho esperança no Iris, mas ele precisa andar pela cidade”.

José Gonçalves: “Tenho esperança no Iris, mas ele precisa andar pela cidade” | Foto: Fabio Costa / Jornal Opção

Mato alto favorece ladrões

Adonaldo Albuquerque, 84 anos, mora há 37 anos no Setor Leste Vila Nova. Antes de confirmar que votou em Iris, reclamou que depois de um ano, o prefeito parece não se lembrar dos “velhos, das crianças sem escolinha, das mães e dos moradores de rua que se espalham pela cidade”. Ele meneia a cabeça, desapontado, enquanto aguarda na fila de uma lotérica.

Mato alto no Estrela Dalva é apontado como maior problema da região | Foto: Fabio Costa / Jornal Opção

Valda Lima, de 33, emenda o assunto com uma indagação: “e meus dois filhos pequenos, sem vaga na creche?” Ela é vendedora de óculos de sol, agulhas, tocas e tantas outras coisas que carrega em uma bolsa nas costas.

Ela não votou em Iris Rezende. “Sabia que ele não ia cumprir as promessas”, afirma. Mesmo assim, sentiu alegria quando o então candidato a prefeito acenou para ela quando a passeata passou semanas antes da eleição. “Ele parecia muito comprometido com a cidade, com a gente que é pobre. A sorte é que tenho uma menina de 17 anos que cuida dos menores.”

A 13,5 km dali, no Setor Estrela Dalva, o repórter ouve o burburinho em um grupo de moradores. Um ladrão aproveitou o descuido da porta entreaberta, entrou em uma residência improvisada em um antigo bar e levou o botijão de gás. Alertado por um vizinho, o dono montou em uma moto e encontrou o espertalhão enfiando o botijão em meio ao mato alto.

“Dei uns tapas nele e peguei de volta”, disse, ofegante, a vítima de mais um furto na região. “Aqui, a falta de limpeza e mato alto são de grande ajuda para os ladrões.”

O aposentado Antônio Cândido mostra área de
onde surgiu cobra. Ele pede limpeza para o bairro | Foto: Fabio Costa / Jornal Opção

Aos 75 anos, dos quais os últimos 30 no bairro, Antônio Cândido aponta com a bengala para um dos maiores problemas do lugar: o matagal em frente à residência. Conforme narrou em detalhes para o repórter, teve de usar a bengala para, primeiro afastar, depois matar uma cobra coral que entrou em sua casa.

Quando a reportagem percorreu o bairro, na quarta-feira, 7, garis varriam as ruas, mas, segundo Antônio, o serviço vem apenas uma vez por semana. “Estou acostumado com a sujeira, principalmente com caminhões que jogam lixo aqui.”

Moradores da região pediram para que a Prefeitura, além de terminar a duplicação da via, punisse quem jogasse resto de entulho, lixo hospitalar e até carcaça de animais. “É muito perigoso no período da chuva por causa da dengue”, alertou Breno Ferreira, de 16 anos.

Educadora Marlúcia Alves de Oliveira mostra IPTU e cobra melhorias
| Foto: Fabio Costa / Jornal Opção

O aumento do IPTU irritou a educadora Marlúcia Alves de Oliveira, 43 anos. Moradora do Estrela Dalva há 29 anos, se junta ao coro de reclamações a respeito do mato alto. Abismada com o aumento do imposto do ano passado para cá, mostra com desânimo a conta que ainda esta semana vai ter de pagar. “Pagamos, mas é evidente que não vamos ter retorno.”

A motorista e os buracos

Em um único dia, Josiane Custódio, motorista de aplicativo, teve de
acionar seguradora duas vezes por causa de pneus dilacerados em buracos | Foto: Fabio Costa / Jornal Opção

Josiane Custódio Borges, 34, bióloga, motorista do Uber há um ano e quatro meses, tem uma história curiosa com os buracos e asfaltos remendados nas ruas de Goiânia. No dia 3 deste mês, de manhã, saiu para atender a um chamado do aplicativo. Josiane transitava em uma rua do Bairro Goiá quando sentiu um baque no lado direito do carro. Desceu e viu que o pneu ficou dilacerado ao passar por um buraco.

Nilton Campos pretende nomear número de contato da Regulação de “Não atende nunca” | Foto: Fabio Costa / Jornal Opção

Ela ligou para a seguradora. Enquanto esperava o socorro avaliava o estrago. Depois de tudo resolvido, religou o aplicativo e rodou até a noite para suprir o tempo perdido. Mas, quando quase chegava perto do cliente, no Setor Moinho dos Ventos, outro baque. “Tive de chamar de novo o suporte da seguradora, pois o carro caiu em um outro buraco. Eu dirijo horas, em várias regiões da cidade, e sofro com as pancadas das rodas nos incontáveis buracos em praticamente todos os bairros da cidade.”

Enquanto a motorista do aplicativo sofre com os buracos, o borracheiro Nilton de Campos, 50, aproveita-se da situação. Em frente ao seu estabelecimento no Setor Norte Ferroviário um buraco já provocou pelo menos três acidentes este ano. “Para mim, os buracos não são problemas tão graves, mas a saúde, sim, tem me dado dor de cabeça. Olha as minhas costas”, ele levanta a camiseta suja de graxa.

Valdir Moreira: “Como se o nosso IPTU não pudesse contribuir para uma atitude mais eficaz” | Foto: Fabio Costa / Jornal Opção

“Estou com a coluna inchada. Vê se consigo marcar exame na Central de Regulação. Posso até ligar lá agora, quer ver?”, diz, fazendo menção de ligar no contato que ele pretende nomear como “Não atende nunca”. Brincalhão, Nilton apenas trabalha no bairro, mas, no Finsocial, onde mora, ele relata que o problema maior é a quantidade de crianças sem vagas em creche.
No Norte Ferroviário, a unanimidade são os pontos de alagamentos — em Goiânia totalizam 52. Às margens do Córrego Capim Puba, a frutaria de Valdir Moreira dos Santos, 58 anos, alaga todos os anos. “É um problema que a Prefeitura não resolve. Como se o nosso IPTU não pudesse contribuir para uma atitude mais eficaz. Quando chove a Defesa Civil vem aqui, sempre acompanhada de um monte de jornalistas, câmeras, e só.”

A costureira Zeralda Aparecida Fosco, 75 anos, aposta que todos na região incluiriam, além dos alagamentos, queda de árvores e bueiros entupidos. “Olha, menino, a gente falta ser arrastado quando chove. Ficamos ilhados”, conta, enquanto remenda tiras de pano. “Acha que ainda vou perder meu tempo votando em quem promete, promete, mas no final não está nem aí para nós?” l

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