A tatuagem de hena do deputado e os brasileiros que acreditam em Papai Noel de agosto

É nas mãos de uma Câmara com centenas de figuras de caráter amoral que está a reforma política, um passo fundamental para mudar os rumos a partir do que há de mais sagrado para uma Nação: a democracia

Deputado Wladimir Costa, o “Wlad”, e a polêmica homenagem de hena | Foto: Reprodução

Elder Dias

Na semana anterior à votação, pelo Con­gres­so, da autorização de investigação do presidente Michel Temer (PMDB) por crime de corrupção passiva pelo Supremo Tribunal Federal (STF), um deputado federal resolveu fazer aquilo que parece ser quase um fetiche, devido à recorrência: “aparecer”, no sentido de ganhar visibilidade, ainda que de forma maquiavélica, usando os meios sem preocupação moral alguma, desde que atingissem os fins.

No fim de semana antes da votação, Wladimir Costa (SD-PA) – “Wlad”, para os mais íntimos – se deixou fotografar sem camisa em um evento de entrega de caminhões de lixo, em Salinópolis, no litoral paraense, a 220 quilômetros de Belém. Trajava camisa regata amarela, bermuda jeans e, no ombro direito, uma tatuagem com a inscrição “Temer” e a bandeira nacional. Na ocasião, ele disse que era uma homenagem ao “melhor presidente da história do Brasil” e que havia pago R$ 1,2 mil pela novidade, que garantia ser uma marca definitiva. “Doeu um pouco, mas eu lembrava do Temer e passava a dor”. Na quarta-feira, 9, a coisa mudou: ele confessou que a tatuagem tinha saído com água e sabão. Era de hena, uma espécie de tinta muito usada para férias de curtas temporadas e que é indolor. Em tom jocoso, completou dizendo que tinha bebido e que o tatuador – não revelado – o tinha enganado. Iria pedir os R$ 1,2 mil de volta.

Wladimir Costa é o mesmo cara que, ao voltar contra Dilma Rousseff (PT) em maio do ano passado, soltou um rojão de confete em pleno plenário, ao mesmo tempo em que gritava como um cerimonialista de micareta, enrolado na bandeira do Pará. Durante aquele seu minuto de glória, chamou o ex-presidente Lula de “bandido” e a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) de “ladra”.

Mais que um fanfarrão, Wladimir Costa é um ser amoral. Não tem qualquer escrúpulo em enfiar o nome de Deus no discurso, se necessário, para sustentar suas mentiras. Da mesma forma, não tem pudor algum ao zombar das várias acusações que lhe pesam, como a de liderar um esquema de desvio de recursos por um convênio firmado entre uma organização não governamental – que ele próprio dirige – e a Secretaria de Esporte e Lazer do Pará; ou de ser réu por crime de peculato no STF, onde também responde, em conjunto com o irmão Wlaudecir Costa, por desvio de dinheiro usando servidores fantasmas. Não fosse a inércia da Justiça, ele nem teria votado a favor de Temer: em julho do ano passado, o Tribunal Re­gional Eleitoral do Pará (TRE-PA), o condenou por uso de caixa 2 e por omitir o gasto de R$ 410 mil na prestação de contas de sua campanha eleitoral de 2014. Como foi em primeira instância, “Wlad” continua com o mandato.

Agora, por conta da tatuagem e da repercussão inédita que ganhou, ganhou também uma acusação de assédio contra uma jornalista que lhe pe­diu para ver a figura – “para você, só se for o corpo todo” – e talvez responda outro processo, por injúria contra o jornalista Ricardo Boechat, depois de divulgar uma montagem em que o microfone dele é substituído, na foto, por um pênis com a frase “Ricardo ‘Bichat’ e o microfone de nervos”. Cabe também crime de homofobia.

Brasileiros que foram às ruas para tirar o PT do poder estão apáticos diante de uma situação mais grave: o golpe legislativo com uma reforma política que garante sobrevivência aos atuais deputados | Foto: Vanessa Carvalho/ Brazil Photo Press

O Congresso é repleto de figuras que têm o mesmo caráter de Wla­dimir Costa. Só que são menos espalhafatosos, menos afetados, menos exibicionistas. E são mais dissimulados, mais persuasivos, mais articulados. A ficha corrida, porém, é muitas vezes a mesma, talvez um pouco menor ou até maior em ocorrências.

É nas mãos de uma Câmara dos Deputados com centenas de figuras com o mesmo caráter que está a reforma política, um passo fundamental para mudar os rumos a partir do que há de mais sagrado para uma Nação: a democracia. Sem eleições justas e um sistema político equilibrado, a democracia já nasce doente.

No caso brasileiro, a própria urgência de reforma política indica o grau de enfermidade da democracia. É preciso mudar o sistema “para ontem”. De fato, os últimos acontecimentos políticos demonstram o quanto a expressão “as instituições estão funcionando” – quase um mantra durante o ano passado, especialmente em relação ao impeachment de Dilma – perdeu o sentido. O ministro Marco Aurélio Mello, ao devolver o mandato a Aécio Neves (PSDB-MG) e livrá-lo da cadeia, lhe fez praticamente uma ode – ultrapassando o necessário tecnicamente para passar a incensá-lo; o fato de Michel Temer ter escapado de ser julgado pelo STF depois de negociar votos de forma clara é grave e demonstra essa espécie de quebra de contrato institucional; porém, nada há de mais maligno do que ver iminentes réus da Operação Lava Jato regulamentando não uma reforma política digna – o que jamais passaria por suas cabeças –, mas a própria sobrevivência dentro do Congresso e, por conseguinte, longe da cadeia.

A aprovação do chamado “vo­to distritão” – em que serão escolhidos os mais votados, tornando a eleição na prática tão majoritária quanto a de governadores e senadores – vem para facilitar a permanência dos que já estão no Congresso. O que está ocorrendo, na prática, é como chamar argentinos para dizer quem é melhor, se Maradona ou Pelé.

Mais do que isso, o despejo de bilhões para o fundo partidário, com a óbvia concentração nos maiores partidos, vai fazer com que os recursos fiquem sob domínio não de agremiações plurais e democráticas, mas organizações suspeitíssimas com donos e caciques de grande poder e, na maioria das vezes, presididas ou lideradas por sujeitos na mira da Justiça. Basta ver a lista: presidente nacional do PMDB, senador Romero Jucá (RR); presidente nacional (licenciado) do PSDB, Aécio Neves; e presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR). Todos bastante envolvidos em denúncias de corrupção e outras acusações a partir de investigações policiais.

O quadro político brasileiro é tão ou mais grave do que o econômico. Na verdade, a crise econômica brasileira é aguda, de duração relativamente curta, ainda que dure alguns anos a mais. Já a crise política é crônica, secular, consequência de uma República mal formulada. E, em um momento crucial, a população se encontra totalmente alheia, à espera de algo messiânico (e aqui mora outro perigo, de que trataria outro texto inteiro). O ciclo de movimentação “cívica” – iniciado de forma anárquica em 2013 e que acabou ganhando cores patrióticas nos anos seguintes – parece ter se encerrado com a queda do PT. Talvez o jeito seja pedir, de presente de natal, ainda em agosto, que Papai Noel nos dê deputados novos. Para o deleite do gado marcado, que venham sem hena.

Uma resposta para “A tatuagem de hena do deputado e os brasileiros que acreditam em Papai Noel de agosto”

  1. Irenice R da Silveira disse:

    Parabéns, Elder Dias! Muito coerente seu texto.O povo brasileiro está descrente com isso tudo.Essa inércia se deve unicamente a falta de justiça que há no Brasil.Sabendo se impunes,essa corja toda aposta nessa reforma política que darão a eles o direito de estarem acima dos anseios do povo para continuar os desmandos e a bandalheira.Oxalá houvesse algum salvador da Pátria, sem rabo preso pra fazer uma devassa ,colocando esses “Wladis” pra fora do sistema eleitoral pra sempre.Que Deus tenha misericórdia de nós!

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