Só falta formalizar o divórcio

Não dá mais pra segurar: o coração da aliança em Goiânia explodiu. Os dois partidos devem lançar candidatos próprios à Prefeitura de Goiânia em 2016

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A primeira “engenharia política” da aliança com o PT foi feita por Maguito Vilela; Iris Rezende depois a aceitou, mas a gestão problemática do prefeito Paulo Garcia decretou o rompimento | Foto: reprodução / Jornal Opção

Afonso Lopes

Era pra ser eterna, e foi mes­mo, mas só en-quanto durou. O que começou com aproximação de um setor importante do PMDB goiano na eleição presidencial de 2002, quase se concretizou em 2006, até finalmente ser efetivada em 2008, em Goiânia. A aliança entre petistas e peemedebistas chegou ao fim, e provavelmente os dois partidos vão partir com candidatos próprios nas eleições do ano que vem. É um final melancólico, desgastado, mas de certa forma natural diante de alguns acontecimentos.

Em 2002, o então senador Ma­gui­to Vilela apoiou declaradamente a candidatura de Luiz Inácio Lula da Sil­va apesar de seu partido, o PMDB, ter indicado a deputada fe­de­ral Rita Camata como vice na cha­pa liderada por José Serra, do PSDB. Naquele ano, como disputou o go­verno de Goiás contra o tucano Mar­coni Perillo, candidato à reeleição, o gesto de Maguito foi considerado apenas um lance estratégico que lhe interessava regionalmente. Não era. Pode até ter servido para esse propósito também, mas não apenas.

Em 2004, nas cidades do Su­doeste do Estado sob a sua influência direta e de seu grupamento político, os candidatos do PMDB formaram chapas nas disputas municipais com vices do PT, como ocorreu na então capital regional do maguitismo, Jataí.

Nas eleições estaduais de 2006, por muito pouco a aliança PMDB/PT não terminou em casamento. Houve a fase de flerte, namoro, noivado e alguns chegaram até a encomendar o bolo da festa. Na última hora, setores resistentes do PMDB, os iristas, vetaram o nome indicado pelo PT para compor, como candidato a vice-governador, a chapa liderada mais uma vez por Maguito Vilela.

Finalmente

O casamento eleitoral dos dois partidos aconteceu somente nas eleições de 2008, quando Iris Rezende foi candidato à reeleição. O PT aceitou até que o próprio Iris influenciasse o processo de escolha interno petista do candidato que depois foi oferecido como vice, Paulo Garcia. Naquele momento, era só alegria o esperado casamento dos dois partidos, tanto que Iris anunciou sua perenidade pelas próximas eleições.

Isso realmente aconteceu. Em 2010, o peemedebista deixou a Prefeitura de Goiânia certo de que conseguiria trabalhar o apoio dos petistas. Foi exatamente isso o que ocorreu, com o PT marcando presença na chapa majoritária com a candidatura do ex-prefeito de Goiânia Pedro Wilson, exatamente aquele que havia sido derrotado por Iris na disputa de 2004, em Goiânia, quando tentava a reeleição. Era, sem dúvida, uma prova concreta de que a rivalidade entre os dois partidos estava definitivamente superada.

Em 2012, Paulo Garcia foi o can­­didato à reeleição. Não foi fácil. Primeiramente, ele teve que ven­cer a desconfiança de sua potencialidade eleitoral dentro do próprio PT. Depois, enfrentou fortíssima resistência do diretório metropolitano do PMDB, que insistia na tese de candidatura própria. Iris precisou intervir com mão de ferro para garantir a aliança dos peemedebistas com os petistas mais uma vez.

Começo do fim

As eleições de 2014 marcaram definitivamente o início do esfriamento da paixão entre PMDB e PT. E a confusão foi tamanha que não dá nem para apontar a causa principal. No PMDB, a presença de Júnior Friboi, que se insinuava como provável candidato peemedebista ao governo, seria a razão apontada pelos petistas para lutar por candidatura própria. Afinal, dizia-se, Friboi era inaceitável para os padrões políticos do PT de Goiás.

Às vésperas do último prazo de desincompatibilização para as eleições de outubro, o então prefeito Antônio Gomide, de Anápolis, anunciou sua renúncia e que iria disputar o cargo de governador. Iris, que havia renunciado a qualquer pretensão interna no PMDB em relação à candidatura, recuou e voltou para a guerra interna contra Friboi. Semanas depois desse gesto, o peemedebista disse que esperava que o PT recuasse e mantivesse aliança com ele e o PMDB. Os petistas nem levaram em conta os apelos de Iris.

Ao mesmo tempo, em Goiânia, a administração do prefeito Paulo Garcia entrou em parafuso. Denúncias de corrupção, paralisação temporária de alguns serviços públicos e outros problemas geraram bastante desgaste. Na reta final da campanha, o próprio PT implodiu na capital, com dois dos três vereadores do partido, inclusive Tayrone di Martino, então candidato a vice-governador de Antônio Gomide, votar contra projeto de reajuste do IPTU, considerado por Paulo Garcia como fundamental para o equilíbrio financeiro de sua administração. Tayrone foi suspenso do PT e chegou a renunciar a sua candidatura a vice, gerando desgastes na campanha de Gomide, que já não navegava em águas tranquilas.

Desde então, o PMDB ameaça romper a aliança com os petistas em Goiânia. Nas últimas semanas, o próprio Iris Rezende teria “lavado as mãos” e desistido de resistir ao rompimento. Tanto é que o deputado estadual José Nelto, ligado ao irismo e líder da bancada do PMDB na Assem-bleia Legislativa, tem sistematicamente apontado criticamente os problemas administrativos da Prefeitura de Goiânia. Fez tanto que irritou parte dos assessores diretos e mais íntimos do núcleo de poder comandado por Paulo Garcia, que responderam aos ataques nas redes sociais na semana passada.

O casamento PT/PMDB, portanto, acabou. Falta agora formalizar o divórcio. Resta saber apenas se essa separação será litigiosa e barulhenta, com prejuízos para todos os lados, ou se o instinto de preservação e sobrevivência vai prevalecer.

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