Repórter mostra que rota nacional da cocaína passa por Goiás

Allan de Abreu, da revista Piauí, transformou quatro anos de informações inéditas sobre o mercado das drogas ilegais em livro detalhado sobre o assunto

Repórter Allan de Abreu ao lado de plantação de coca na Bolívia | Foto: Arquivo pessoal

Yago Sales

Quando cheguei ao final do livro “Cocaína: a Rota Caipira” (Record, 2017, 823 páginas), do jornalista Allan de Abreu, 38 anos, tive a impressão de ter em mãos o triunfo do repórter que se aprofundou como pôde para mesclar todos os aspectos do narcotráfico nos quatro anos em que se dedicou à investigação.

Submerso na linguagem do crime organizado, cheio de códigos, em interceptações telefônicas, flagrantes e documentos obtidos com exclusividade, o repórter uniu todos os elementos para uma reportagem que não passa despercebida.

Para compreender o submundo e escrever o livro, Allan de Abreu vasculhou tudo sobre a produção da coca na Bolívia, a vida luxuosa e milionária de traficantes, a sedução das mulas para viagens que resultaram em mortes e prisões, a busca incansável de policiais que ficam dias de tocaia em pistas de pousos clandestinas e a corrupção de membros do judiciário e da polícia. Cada história desencadeada nos 29 capítulos da obra.

O jornalista revela que a rede do narcotráfico vai muito além dos dados frios e impessoais. Nas mãos de Abreu, os números, os inquéritos, frases desconexas em ligações interceptadas ganham nome e identidade.

Cada capítulo da obra é um mergulho aos bastidores que explicam a dinâmica utilizada pelo crime organizado, como tentam driblar a polícia, até escondendo drogas em pranchas de surf.

Mestre em literatura radicado por 15 anos fora dos grandes veículos de São Paulo, o jornalista traz uma profunda interpretação da “rota caipira” – que perpassa os países que produzem a coca, matéria-prima da droga: Colômbia, Bolívia e Peru – e os estados brasileiros que concentram o consumo e a distribuição, como Rio de Janeiro e São Paulo. Inclusive Goiás.

Autor percorreu a rota de uma das drogas mais devastadoras | Foto: Divulgação

Para o Jornal Opção, o autor explica que o tráfico de drogas perdura há mais de três décadas. “Isso provocou um crescimento assustador das organizações criminosas, notadamente o PCC, que hoje opera em escala transnacional, contra uma polícia mal aparelhada e repleta de divisões políticas”, diz.

Acostumado a cobrir as apreensões de drogas para o jornal “Diário da Região”, de São José do Rio Preto – ele deixou o veículo em fevereiro deste ano para compor a equipe da revista Piauí, especializada em reportagens de fôlego -, Abreu imergiu em documentos obtidos com exclusividade e conta com elementos da literatura de não-ficção para reconstituir cenários que o leitor nem imaginaria que pudessem existir.

O trabalho do repórter chama a atenção para perfis de diferentes traficantes das facções criminosas como a paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e a carioca Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele conta como o envolvimento de organizações compostas por políticos, advogados, policiais e até um pastor conseguem fugir da fiscalização. E como cada um deles foi perseguido por policiais, presos e, alguns, corrompendo autoridades, soltos.

“Com um texto ágil, afiado e enxuto, o jornalista Allan de Abreu conduz o leitor através dos labirintos do submundo poroso do narcotráfico e suas conexões com o interior paulista, a chamada ‘rota caipira’”, escreveu o consagrado jornalista Domingos Meirelles (vencedor de cinco prêmios Esso, cinco Vladimir Herzog e dois Jabuti) no prefácio do livro.

Vivendo ao lado da “rota caipira”, no interior paulista e o Triângulo Mineiro, Allan, como todo grande repórter, não demorou a perceber que a região era propícia para a sobrevivência do tráfico no Brasil. Nos quatro anos em que se envolveu com a apuração do livro, o jornalista se dedicou a entrevistar policiais, promotores, juízes e compreendeu dinâmica do narcotráfico no Brasil. Não satisfeito, procurou, com a ajuda de policiais, cocaleiros brasileiros, paraguaios e bolivianos.

Experiente repórter investigativo, organizou-se em meio a pilhas de documentos que obteve com fontes que lhe confiaram sob a condição de mantê-las sob anonimato. Não por acaso ele conseguiu a confiança de cada uma delas.

Em 2011, o jornalista irritou a Polícia Federal quando divulgou escutas telefônicas de um esquema de corrupção dentro da delegacia do Ministério do Trabalho em São José do Rio Preto. Quatro anos depois, um juiz acatou o pedido do Ministério Público e determinou a quebra do sigilo telefônico do repórter e de toda a redação do jornal em que trabalhava.

No mesmo ano, o jornalista foi acionado novamente pela Justiça por publicar escutas telefônicas feitas por policiais civis enquanto investigavam um sequestro em Rio Preto (SP). Sempre pressionado para apontar suas fontes, o repórter não cedeu.

Sem apoio destas fontes, ele mesmo assume em entrevista ao Jornal Opção: o trabalho não teria êxito e se tornaria uma referência. O livro de Allan de Abreu deve ser lido como manual da boa reportagem, do comprometimento com a boa escrita e com a verdade.

 

Goiano vendia cocaína para Fernandinho Beira-Mar

Livro “Cocaína: A Rota Caipira” é fruto de quatro anos de levantamento de histórias e informações | Foto: Divulgação

Entre os traficantes retratados em “Cocaína: a Rota Caipira”, o goiano Leonardo Dias Mendonça, considerado o maior traficante entre 1997 e 2002, protagoniza um capítulo que muito explica as artimanhas dos criminosos: a cooptação de policiais, advogados, políticos e juízes. Muitos dos quais, depois de investigações da polícia, são apontados como membros de organizações criminosas.

A mando de Leonardo, que, conforme o livro, era um ex-office boy de Goiânia, o advogado Amaury Perez ficou com a missão de favorecer a quadrilha junto à Justiça. “Na tentativa de livrar os membros do grupo, especialmente Leonardo, de qualquer responsabilidade penal decorrente do comércio ilegal de drogas em larga escala”, escreve Allan.

A respeito da relação promíscua do advogado e seu cliente, o juiz substituto da 5° Vara da justiça Federal de Goiânia, José Godinho Filho, responsável pelo julgamento do grupo em 2003, escreveu: “Prestava-se a papel baixo e desprezível para um advogado, como o oferecimento de promessas indecorosas a funcionários da Justiça”.

O traficante goiano começou sua atuação no narcotráfico em meados dos anos 1980, quando foi garimpeiro no Suriname. Foi lá, com o ditador surinamês Dési Bouterse e com o seu filho Dino Bouterse, que trabalhava à época na embaixada do Suriname em Brasília, que Leonardo envolveu-se com o tráfico de drogas e armas.

O ex-office boy levava armas do Suriname para as Farc na Colômbia e as trocava por cocaína. Não demorou para que Leonardo logo começasse a fechar negócio com os cartéis colombianos. A droga era transportada para a Guiana, Suriname, São Paulo e Rio de Janeiro.

Um dos principais “clientes” de Leonardo, Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, era uma parceria que teria sido reforçada pelo convívio de ambos na selva colombiana. Leonardo vendia para o traficante carioca abastecer o Rio de Janeiro. Foi ali, no meio da mata, que Leonardo apresentou Beira-Mar às Farc, no fim de 2000.

Mas, dois anos depois, Leonardo rompeu com Beira-Mar após uma dívida. “Avisa o Leonardo que se ele não pagar pode tirar a família dele toda do país, porque só vamos liberar as crianças. Vamos pegar irmão, irmã, funcionário”, ameaçou o traficante carioca.

No percurso do narcotráfico, Leonardo se associou a outro traficante. Emival Borges das Dores, conhecido como “goiano”, em depoimento ao qual o repórter teve acesso, detalha os números assustadores da atuação do bando. Em 1998, o grupo comprava em média de 200 quilos de cocaína mensalmente. Em 2001, dobrou para 400 quilos. Ainda conforme depoimentos de Emival, Leonardo enviou à Colômbia armamentos pesados: fuzis – que incluíam os modelos AR-15 e AK-47 – e pistolas.

Com o tráfico, Leonardo adquiriu um patrimônio milionário. A Justiça não conseguiu dimensionar o valor, pois os bens estavam distribuídos entre mais de cem laranjas. “Eram fazendas com milhares de cabeças de gado, principalmente no Pará e Mato Grosso, além de postos de combustíveis no Maranhão e mansões em Goiânia, base de atuação da quadrilha”, escreve Allan.

Confira abaixo a entrevista completa concedida pelo autor do livro “Cocaína: a Rota Caipira” ao Jornal Opção.

Entrevista | Allan de Abreu

Talvez a mais marcante reação ao seu livro “Cocaína: a Rota Caipira” (Record, 2017, 286) é pelo número de páginas, por onde transitam histórias que surpreendem pelo ineditismo. Parece que você não queria parar de apurar.
O livro foi crescendo durante a apuração. Foram surgindo histórias correlatas, que se encaixavam entre si. Aí comecei a alinhavar a narrativa tendo como fio condutor a geografia: a rota caipira.

O livro tem elementos do new journalism, tipo de escrita praticada desde o século XX por jornalistas como Gay Talese, Truman Capote e Tom Wolfe. Esta forma de contar histórias – também chamada de literatura de não-ficção – é a oportunidade de o repórter narrar histórias que não couberam nas páginas de um jornal. Você acredita que esta é uma tendência que deve aumentar no jornalismo?
Sim. É inegável que certas pautas não cabem em um jornal ou revista, tanto no papel quanto no on-line. Requerem a perenidade e a profundidade de um livro. Como o texto naturalmente é maior, o desafio de um jornalista/escritor é fisgar o leitor e prendê-lo ao longo de toda a obra para que não a abandone no meio. O melhor retorno que um autor pode ter é ouvir do leitor que não conseguiu parar de ler o livro. Para isso, contamos com estratégias de ficcionalidade, que a literatura oferece – não confundir com ficção, já que o compromisso do jornalista é com o fato.

O seu livro é muito fidedigno porque é baseado em documentos inéditos de investigações da Polícia Federal. Esta facilidade, digamos assim, de ter acesso a investigações já lhe deu dores de cabeça. Um juiz chegou a pedir a sua quebra de sigilo telefônico e a do jornal “Diário da Região” por causa de informações que você obteve para reportagens. Como foi isso?
Em maio de 2011 publiquei reportagem com escutas telefônicas de uma investigação do Ministério Público Federal (MPF) contra um esquema de corrupção na delegacia do Ministério do Trabalho em Rio Preto. O procurador do caso, Álvaro Stipp, exigiu que eu lhe revelasse a fonte que me repassou o inquérito. Como me neguei a isso, ele determinou o meu indiciamento por coautoria em quebra de sigilo telefônico, o que é um completo absurdo, já que jornalista não tem o poder de quebrar sigilo. O inquérito seguiu e, em 2014, o juiz Dasser Letière Jr determinou a quebra do meu sigilo telefônico e de todo o jornal a fim de se chegar à fonte. A decisão seria suspensa em liminar do STF um ano depois, e desde então segue à espera do fim do julgamento.

A partir da experiência com o trabalho de investigação para o livro, como funciona o narcotráfico no Brasil?
O maior problema do Brasil é a imensidão da fronteira com países produtores de cocaína e maconha, o que permite a entrada, em grande escala, de drogas e armas. Essa situação perdura há mais de três décadas, o que provocou um crescimento assustador das organizações criminosas, notadamente o PCC, que hoje opera em escala transnacional, contra uma polícia mal aparelhada e repleta de divisões políticas.

É possível diferenciar o tráfico de drogas como de LSD, maconha, haxixe, crack, heroína com o da cocaína? Qual consegue melhor, e como, ultrapassar as fronteiras do Brasil?
A mais rentável, sem dúvida, é a cocaína, pela proximidade da produção (Colômbia, Peru e Bolívia) e pela alta demanda tanto nos grandes centros consumidores brasileiros quanto na Europa e Estados Unidos. A maconha é a mais pulverizada no Brasil, pelo uso mais frequente, enquanto as demais são bem mais setorizadas.

Você teve acesso a inúmeras informações para conseguir reconstituir os bastidores de apreensões, a vida antes, durante e depois da prisão de traficantes. Como foi conseguir estes documentos, inclusive gravações?
Meu histórico como jornalista me auxiliou demais. A fonte sabia que eu manteria o off a todo custo.

Quando se fala em jornalismo investigativo, alguns estudiosos o diferem em dois conceitos: quando o repórter apenas divulga investigações da Polícia ou do Ministério Público, por exemplo, e o trabalho investigativo do próprio repórter. Você enxerga esta diferenciação?
Sim. Essa divisão é detalhada no livro “Os elementos do jornalismo”, de Bill Kovack e Tom Rosenstiel. Meu livro não é resultado de jornalismo investigativo, já que compila investigações policiais e do Ministério Público. É um jornalismo sobre investigações.

Em algum momento se sentiu em perigo?
Não estive em perigo em nenhum momento. Produzir esse livro representou um grande amadurecimento como repórter. É um aprendizado espetacular do jornalismo de longo alcance.

Como foram alguns encontros com traficantes e cocaleiros? Como chegou até eles?
Tive o apoio da PF e da polícia boliviana, que me levou até os cocaleiros.

E como foi o convencimento para entrevistas? O clima é tenso, mas nada que os impeça de falar, já que essa atividade é permitida na Bolívia.

Como está sendo a receptividade do livro por policiais, juízes e até criminosos
Extremamente positiva. Surpreendente, até. Eles veem no trabalho a descrição do trabalho deles, e isso é muito gratificante.

A descriminalização resolveria o problema?
Não creio. Aumentaria o número de dependentes e não acabaria com o tráfico, que sempre vai vender a droga mais barata, já que naturalmente o traficante não paga imposto.

O livro narra em detalhes histórias de monitoramento da Polícia Federal, apreensão de drogas, fugas e prisões. Você já esteve em um desses momentos?
Devido ao grande risco dessas operações, jornalistas nunca participam. Então, eu sempre chego depois.

E, mesmo com tantas apreensões, não se tem a impressão de que a Polícia Federal está enxugando gelo?
Sim. Esse é um problema histórico da Justiça brasileira. Não há igualdade de condições.

Quem são as mulas caipiras?
O perfil varia conforme a rota. Para atravessar a fronteira com a Bolívia, por exemplo, são pessoas pobres, descendentes de índios. Para enviar a cocaína para a Europa, os traficantes preferem jovens bonitos (geralmente modelos) para não chamar a atenção da polícia.

O cerrado goiano também é utilizado para esta rota. Qual o papel de Goiás para a manutenção do narcotráfico? Aqui é mais fácil os aviões pousarem e as drogas serem levadas em caminhões e carros para o Sudeste?
Sim. Goiás está no centro do Brasil. A partir do Estado é possível enviar a droga para Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. Além disso, a topografia plana facilita o pouso de aviões, e a malha viária extensa possibilita o escoamento rápido da droga.

Você trabalhou quantos anos no interior de São Paulo? Enfrentou dificuldades para produzir reportagens de fôlego em uma cidade pequena?
Trabalhei 15 anos no interior, a maior parte em um jornal combativo e com linha editorial independente, o que é raro por lá. Isso me possibilitou investir em pautas de fôlego.

Atualmente você está na Piauí. Por que só agora decidiu sair do interior paulista?
A oferta era irrecusável, com possibilidade de crescimento na carreira de jornalista. Só existem craques na revista, o que possibilita um aprendizado constante.

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Arthur de Lucca

“Primeiro Comando da Caoital” em São Paulo e no Rio?
Não seria “Comando Vermelho” no Rio?

Arthur de Lucca

“Capital” onde saiu “caoital”