Quem vai assumir as rédeas do cavalo xucro chamado Brasil?

Entre a funesta eleição de 2014 e a arapuca de Joesley para o presidente tampão, as cisões só aumentaram. O que fazer de nossa melindrosa democracia?

Ministra Carmen Lúcia, a presidente do Supremo Tribunal Federal: entre os movimentos por eleições diretas passaram-se mais de 30 anos, mas as escolhas dos brasileiros têm lhes pesado sobre os ombros | Fotos: Divulgação

Elder Dias

A gravação feita pelo megaempresário Joesley Batista em uma noite de março no Palácio do Jaburu, numa visita não oficial ao presidente Michel Temer, serviu para transfigurar a semana de todos em Brasília e no Brasil. A frase “tem que manter isso, viu?” – intervenção de Temer enquanto o dono da JBS falava sobre ajuda à família de Eduardo Cunha –, foi o epicentro da crise política detonada pelo furo jornalístico de Lauro Jardim, do jornal “O Globo”, no começo da noite de quarta-feira.

Protestos espontâneos começaram a pipocar imediatamente por todo o País. Em São Paulo, como no ano passado, a Avenida Paulista ficou colorida, desta vez mais de vermelho do que de amarelo, nas cores do fla-flu ideológico das ruas; em Brasília, apesar do desenho paisagístico que intimida e apequena mobilizações, centenas se ajuntaram em frente ao Palácio do Planalto. Lá se reunia uma atônica e acuada cúpula de governo.

Em todas as manifestações, uma reivindicação que há mais de três décadas não se ouvia então se destacou: “Diretas Já!”. A última vez que o brasileiro foi às ruas para exigir o direito de votar tinha sido em 1984, quando o regime militar estava no fim, depois da abertura de Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo, os dois generais do fim do período da ditadura. Milhões ocuparam as ruas, na que foi, provavelmente, a maior e mais uníssona manifestação cívica popular da história brasileira.

Uma palavra que não tem nada a ver com a conjuntura atual da Nação: “uníssona”. Desde 2013, quando as jornadas de junho foram o estopim da insatisfação nacional, o espírito cívico não encontra sossego. Se por um lado isso evoca um sentimento saudável – o de que o brasileiro parece agora, de fato, começar a se importar com as coisas que transcorrem em seu País, por outro mostra uma faceta maligna e diabólica: o crescer da intolerância.

Em 2014, com a crise financeira dando seus primeiros sopros e os primeiros trabalhos da Operação Lava Jato iniciando a maior crise política da história, enquanto o PT preparava a reeleição de Dilma Rousseff para emendar o que seriam 16 anos de projeto de poder, o País se cindiu de vez entre as turmas ligadas ideologicamente favoráveis e contrárias ao governo. Nunca se ouviu falar tanto em “direita” e “esquerda”; chamar alguém de petista virou xingamento; popularizaram-se os substantivos-adjetivos “coxinha”, “petralha”, “esquerdopata”, “militonto”, entre outros.

No meio do caminho das urnas veio ainda o petrolão, mas nem assim Aécio Neves (PSDB) mostrou algo consistente para levar a oposição à vitória. Por outro lado, nunca houve terceiro turno mais comprido: seu partido entrou imediatamente com recurso contra a chapa vencedora, contestando o resultado da eleição, e o caso se protela até hoje, dois anos e meio depois, com a titular Dilma derrubada por impeachment e o vice Temer com um pé e meio fora do Planalto.

Entre a funesta eleição de 2014 e a arapuca de Joesley para o presidente tampão, as cisões só aumentaram, a ponto de o intelecto não ter mais ascendência sobre o desejo irascível de ver o outro lado afundar. Dessa forma, mesmo que o País seja prejudicado no todo, as mobilizações ocorrem pela metade: as reformas da Previdência e trabalhista – que tratam de temas que merecem, sim, ser discutidos, mas jamais serem levados adiante por um governo já gestado com ilegitimidade política desde o processo de impeachment – são vistas menos pelo que contêm, mas pelo viés ideológico que passaram a evocar os posicionamentos favoráveis e contrários à sua aprovação.

Como o peemedebista deve estar com seus dias de plantão no Planalto contados nos dedos, resta procurar um novo comandante para a precária nau tupiniquim. Ou um peão de rodeio domar um país xucro. Pela lógica e pela lei, deveria assumir o cargo, então, algum dos chefes dos outros Poderes: pela ordem, o presidente da Câmara dos Deputados; o presidente do Senado; ou a presidente do Supremo Tribunal Federal. O problema é que os chefes do Legislativo estavam tão atolados na Lava Jato quanto agora ficou Temer: o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) é “Botafogo” na lista da Odebrecht, onde o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) responde pela alcunha de “Índio”.

Sobra a ministra Carmen Lúcia, a dona da cadeira principal do STF. Ainda que as garras da Lava Jato pareçam agora fazer sombra sobre um ou outro de seus pares – é o que começa a se desenhar com revelações dos delatores da JBS que pesam sobre gente importante do Judiciário –, deve ser ela a conduzir o País rumo a seu novo presidente. Que pode ser a própria Carmen, caso seja o que a Constituição preconiza: eleições indiretas.

Não poder escolher nas urnas quem vai dirigir seu País até o fim do próximo ano – caso não haja emenda constitucional – é algo irritante a um povo que tem se acostumado a lidar com a democracia, apesar de seus efeitos colaterais – afinal, todos os políticos acusados, réus ou presos na Lava Jato foram aprovados por crivo popular. E se o brasileiro não pode agora escolher o iminente sucessor de Michel Temer, isso se deve em grande parte a um controverso colega de Carmen Lúcia: o ministro Gilmar Mendes, a quem muitos consideram um “político de toga”. Ele poderia ter dado agilidade, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ao julgamento da chapa Dilma –Temer. Pelo contrário, sua conduta praticamente forçou com que o prazo para eleições diretas, até dezembro de 2016, se esgotasse.

Entre os nomes cotados para assumir a cadeira interina da Presidência da República está também o do hoje ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Ele e Carmen são tidos, até o momento, como nomes não afetados pela tempestade de delações e implicações negativas. Meirelles, de modo especial, é visto como aquele que pode garantir a “estabilidade” do País – leia-se continuação da aplicação da cartilha de política econômica e projetos reformistas.

Eleições diretas? Podem até ocorrer, se fatos novos vierem à tona e a revolta da população parecer incontornável à classe política, como ocorreu em certo momento de 2013. Fica a pergunta, quase que em forma de curiosidade mórbida: qual seria hoje o “set list” de políticos que teriam coragem de pedir voto aos brasileiros? E qual nome poderia, enfim, trazer de volta alguma fagulha de harmonia à Nação?

Ministra Carmen Lúcia, a presidente do Supremo Tribunal Federal: entre os movimentos por eleições diretas passaram-se mais de 30 anos, mas as escolhas dos brasileiros têm lhes pesado sobre os ombros

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