Que lição tirar do caso Lochte?

A história contada pelo americano ganhou as manchetes nacionais e em vários países. Um “assalto” cinematográfico, com direito a bandidos disfarçados de policiais

A equipe de natação dos EUA: Lochte (segundo da esquerda para a direita) mentiu sobre assalto em que os assaltantes não levaram seus pertences | Foto: Reprodução

A equipe de natação dos EUA: Lochte (segundo da esquerda para a direita) mentiu sobre assalto em que os assaltantes não levaram seus pertences | Foto: Reprodução

Afonso Lopes

Para nós, brasileiros, não é tão difícil assim imaginar a cena. O sujeito está transitando dentro de um táxi no Rio de Janeiro e, de repente, uma blitz da polícia. O taxista, obviamente, atende à ordem de parar. Ao estacionar, descobre-se a verdade: não são policiais, são bandidos armados até os dentes. Voz de assalto, o cidadão entrega tudo o que o marginal pede.

Foi isso o que o nadador americano Ryan Lochte disse ter passado no Rio de Janeiro ao retornar, com outros três atletas da natação de seu país, de uma festa que varou a madrugada. Ninguém duvidou dele em um primeiro momento. A cena, para nós, é comum o suficiente para saber que bandidos realmente montam blitz falsas no Rio. Aliás, também em São Paulo, e vez ou outra em grandes capitais. Então, por que não deveríamos acreditar que a vítima da vez teria sido Lochte e seus companheiros de balada?

A história começou a levantar dúvidas porque a bandidagem resolveu abrir mão dos aparelhos celulares, objetivo de cobiça número um da malandragem brasileira. Como assim, sofrer um assalto e não perder, além da carteira, dinheiro, cartões, documentos, o celular último tipo? As redes sociais no Brasil identificaram a falha da versão. A polícia carioca mais ainda, e foi lá conferir os vídeos gravados pela segurança na Vila Olímpica. O que os policiais viram confirmaram as suspeitas levantadas pelos celulares poupados: os caras chegaram tranquilões, “baleados” apenas pela noitada regada a caipirinha ou sabe-se lá mais o quê. Carteiras, credenciais, celulares, tudo no devido lugar.

Os americanos ficaram indignados. Boa parte deles, pelo menos. Há a possibilidade de patrocinadores do nadador cancelarem seus contratos para não associar a imagem de suas marcas com uma fraude como Lochte. É um grande atleta, sim, mas como pessoa se revelou um pobre coitado desmiolado. Para nós, brasileiros, qual lição a tirar desse lamentável episódio?

Imagens mostram os atletas num posto de gasolina e saindo de uma festa uma festa na Lagoa, na Zona Sul do Rio: ao saírem disseram ter sido assaltados

Imagens mostram os atletas num posto de gasolina e saindo de uma festa uma festa na Lagoa, na Zona Sul do Rio: ao saírem disseram ter sido assaltados

Verossímil
Inicialmente, mudemos o local da fantasia criada pelo americano. Vamos supor que o episódio narrado por ele tivesse acontecido em Barcelona, na Espanha. Ou em Lisboa, Portugal. Seria um “deus-nos- acuda” amplo, geral e irrestrito. Todas as forças de segurança desses países seriam imediatamente acionadas para dar início à caçada aos bandidos disfarçados de policiais. Até porque seria uma ação inacreditável. As populações se mobilizariam, e não apenas nas redes sociais.

Por aqui, alguns setores dizem que Lochte prejudicou a imagem dos Jogos e do Rio, com prejuízos futuros. Mesmo com o desmentido. A verdade é que com o americano ou sem ele, a imagem do Brasil lá fora é um lixo. E isso não é, ao contrário da modinha das redes, complexo de vira-lata. É real, é práxis. A indignação tupiniquim contra o dano de imagem causado por Lochte deveria servir como ponto de partida para uma mudança de atitude de todos, população e governos.

Grosso modo, e mal comparando, o que Lochte fez foi igual a um cidadão que vai andando por ruas imundas, desembrulha uma balinha e joga o papel no chão. Aí, olha-se para o autor. Se for um estrangeiro famoso, posamos de indignados e revoltados. Quando é que o país todo vai se indignar com a sujeira geral e não apenas com a atitude errada de casos assim? Por que permitir que bandidos de todas as espécies, violentos ou não, ajam impunemente em todas as grandes cidades brasileiras? O Brasil é campeão mundial de assassinatos, vem batendo recordes ano após ano. E não se tem movido uma palha para mudar essa triste realidade macabra. O Brasil é um dos campeões mundiais de mortes no trânsito, e vem subindo esses índices. E o que se tem feito para mudar isso? Nas grandes metrópoles, policiais são impedidos de passar em alguns bairros. Agora mesmo, no Rio de Janeiro, integrantes da Força Nacional foram atacados. Um soldado morreu. Os bandidos continuam lá, do mesmo jeito. E não vão sair, a não ser para ampliar a zona de exclusão. Até quando será assim? Até quando vamos nos incomodar com o papel da balinha no meio do lixão? l

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