Qualidade de concorrentes pode abalar Iris Rezende e Waldir Soares

Líderes nas pesquisas quantitativas têm problemas sérios nas qualitativas; base aliada pode sofrer com a fragmentação de candidaturas

Iris Rezende e Delegado Waldir: líderes num cenário muito antecipado em que podem ocorrer muitas mudanças

Iris Rezende e Delegado Waldir: líderes num cenário muito antecipado em que podem ocorrer muitas mudanças

Cezar santos

Há quem diga que está muito cedo para avaliar os cenários da eleição de outubro. Afinal, faltam mais de oito meses. A questão é que o calendário eleitoral tem seus caprichos, seu tempo próprio. Na verdade, a pré-campanha começou no ano passado, está em pleno curso, logo haverá as convenções e em seguida a campanha propriamente dita. Ou seja, não está cedo coisa nenhuma.

O cenário atual traz Iris Rezende, do PMDB, e Delegado Waldir Soares, do PSDB, na dianteira. É o que indicam os primeiros levantamentos, feitos mais para consumo interno dos partidos. A concorrer com eles, conforme os bastidores, Vanderlan Cardoso, do PSB — este sim, em plena pré-campanha já há alguns meses –, o tucano Giuseppe Vecci (PSDB), Virmondes Cruvinel (PSD), Luiz Bittencourt (PTB) e Adriana Accorsi (PT).

Para registro, no ninho tucano mais dois pré-candidatos se apresentaram nos últimos dias: Anselmo Pereira, o vereador presidente da Câmara Municipal de Goiânia, e – não ria, leitor — o também vereador por Goiânia Dr. Gian, que anunciou disposição para disputar as prévias do partido, marcadas para 21 de fevereiro. Ainda no PSDB, o deputado Delegado Waldir deu mostras nos últimos dias de que poderá abrir mão de disputar as prévias, desde que o governador Marconi Perillo pedir.

Mas o fato é que neste momento há dois nomes na frente, Iris Rezende e Delegado Waldir. Na análise desse cenário, algumas indagações podem ser feitas e as respostas podem ajudar a clarear o panorama para o leitor/leitor.

Seria bom ou ruim para Iris e Waldir disputarem com tantos concorrentes? Pelo visto até agora, como já dito, os mais prováveis são Vanderlan, Vecci (nesse caso, Waldir estaria em outro partido que não o PSDB, como ele ameaçou fazer várias vezes se fosse preterido entre os tucanos), Virmondes, Bittencourt e Adriana.

Giuseppe Vecci, Vanderlan Cardoso, Virmondes Cruvinel, Luiz Bittencourt e Adriana Accorsi

Giuseppe Vecci, Vanderlan Cardoso, Virmondes Cruvinel, Luiz Bittencourt e Adriana Accorsi

E para a base aliada marconista, é positivo ou negativo ir com cinco nomes, disputando com Iris Rezende e Adriana Accorsi?

Marqueteiros, pesquisadores e cientistas políticos respondem a essas perguntas, analisando um cenário ainda um tanto precoce. Não se ode esquecer que muitas coisas podem mudar até as convenções e nomes que estão colocados hoje poderão ser expurgados do processo no jogo das articulações.

Pesquisador-chefe do Grupom Consultoria e Pesquisa, Mário Rodrigues Filho diz que para Iris Rezende e Delegado Waldir, os dois nomes à frente, é muito bom que tenha muitos candidatos. Aí, diz, os dois garantem-se e a negociação vai para o segundo turno. Ele observa que candidaturas inexpressivas não adianta nada.

Mas se tiver candidatos com peso, observa Mário, aí divide o eleitorado e só o segundo turno dará a resposta. “Se colocar um monte de gente que ninguém conhece, que ninguém sabe quem é, sem representatividade, não vai mudar o quadro em nada. Candidato com menos de 10% não entra no jogo, não conta. Foi o que ocorreu na eleição de Paulo Garcia, que ganhou no primeiro turno numa eleição que tinha muitos candidatos com baixa performance, sem competitividade.”

Mário Rodrigues diz que Delegado Waldir é uma incógnita. Ele diz que o policial ganhou para deputado, mas não tem perspectiva para prefeito. “Já vimos gente que teve muito voto para senador e quando foi disputar cargo executivo foi pífio. É o caso do Demóstenes Torres, que teve 1 milhão e meio de votos para senador e quando foi para governo ficou nos 90 mil votos. Iram Saraiva também foi assim. Então Waldir é uma incógnita, mas ele pode ser um elemento de força.”

O cientista político Pedro Célio discorda de Mário Rodrigues e acha que se houver muitos concorrentes isso pode enfraquecer Iris e Waldir. Observando que é muito cedo para fazer análise mais acurada, Pedro diz que em princípio, sim, muitos candidatos no jogo podem ensejar uma mudança de cenário, que neste momento tem Iris e Waldir na dianteira.

Mas analisando especificamente do ponto de vista de Iris Rezende, Pedro Célio lembra que o peemedebista tem um eleitorado cativo e quanto mais dispersão de votos entre vários candidatos, melhor para ele. “Para Iris, quanto mais candidatos, melhor. No final, a matemática pode ajudá-lo no segundo turno, que é praticamente certo.”

Sobre Waldir, o cientista político afirma que o eleitorado dele ainda não tem um perfil caracterizado, definido, embora haja indícios de como seja. “Waldir se comunica muito pelas redes sociais, então não se tem uma informação consistente. O discurso dele centrado em segurança é meio volátil, não se fixa em candidatura ou num programa específico, já que o tema tem universalidade e qualquer outro candidato pode também adotar esse discurso na campanha.”

Para Pedro Célio, a base governista fragmentada, com muitos nomes, pode ajudar a provocar o segundo turno justamente pela dispersão de votos.

Proposta diferente

O publicitário Léo Pereira prefere fazer uma análise meio “contra” os dois líderes. Ele afirma que se a eleição em Goiânia neste momento tem Iris e Waldir dois na frente, isso se dá pela própria inércia política da cidade. Para Léo, a eleição é sem favorito. “O cenário está totalmente aberto e o eleitorado está totalmente sem imaginário até pelo desastre da atual gestão, que engloba também a gestão de Iris Rezende”, afirma.

Segundo Léo Pereira, se aparecer gente com uma mensagem interessante, com projeto decente, a eleição pode tomar outro rumo que não esse que o atual cenário tenta insistir que estaria definido com Iris Rezende e Waldir. Ele diz que Goiânia sente falta de uma discussão séria de projeto real há muito tempo, o que, aliás, é fato também no Brasil. “Em Goiânia isso é ainda mais nítido pelo desastre da última gestão. Se houver candidatos qualificados, com bons projetos, e que antecipem seus processos com qualificação, e com política de comunicação qualificada também, é óbvio, a eleição vai ser decidida no debate.”

O também publicitário Hamilton Carneiro diz que é natural que Iris Rezende e Waldir Soares estejam na frente, já que estão em evidência há mais tempo. Mas essa leitura, diz, não é confiável porque o processo ainda está muito precoce. Quando outros nomes são colocados, começa a haver certo movimento. “O quadro vai permanecer ou mudar? Ainda não se sabe”, diz.

Hamilton diz que, em tese, o fato de haver muitos candidatos na campanha pode ajudar o eleitor a se definir mais rapidamente por um ou outro que está na frente, por que esses vários outros candidatos ainda não têm presença tão forte em Goiânia, como Iris e Waldir.

“Mas, evidentemente, depende da proposta de cada um, do desempenho, da credibilidade que consigam passar. O tanto de candidatos não importa tanto, mas sim a qualidade deles como concorrentes dos líderes. Candidato bom vai embaralhar, candidato fraco pode acentuar a frente de Iris e de Waldir. A movimentação de campanha é que vai decidir”, diz Hamilton Carneiro.

Liderança nas quantis, mas mal nas qualis

Estar na frente nas pesquisas é sempre bom, mas há circunstâncias que podem atrapalhar a permanência nessa posição no decorrer da campanha. Essa questão diz respeito à expectativa do eleitor quanto ao perfil do candidato. Isso é mais bem medido nas pesquisas chamadas qualitativas. É por aí que avaliam o quadro goianiense para outubro o experiente publicitário Renato Monteiro e o cientista político Francisco Tavares, coordenador do programa de mestrado de ciência política da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Renato Monteiro diz que é verdade que Iris Rezende e Waldir Soares lideram nas pesquisas quantitativas, mas, ele observa, tem-se que considerar também as pesquisas qualitativas, que “gritam” tanto quanto as quantitativas. Ele afirma que nas qualis fala alto o aspecto de mudança, de novidade, de cara nova, de jeito novo de governar. São aspectos que Iris não encarna. Quanto a Waldir, é uma incógnita.

“As pessoas querem dar um crédito de confiança a alguém que encarne essa mudança, como ocorreu em 1998, quando o eleitorado elegeu Marconi, que não tinha nenhuma experiência administrativa, contra o experiente Iris Rezende. O eleitor confiou em Marconi, que realmente fez os dois primeiros governos muito bem avaliados, embora os outros dois não”, diz Renato.

Outro “grito” nas pesquisas qualitativas é a questão da segurança. A população exige e quer uma maior participação do município na segurança pública, diz Renato. Nesse aspecto, percebe-se que o voto no Delegado Waldir não é cristalizado, mas segmentado. “E aí temos de lembrar que Adriana Accorsi, também no discurso de segurança, mesmo numa conjuntura desfavorável do PT, já se posiciona muito bem em Goiânia.”

Então, quando se considera as pesquisas qualis, é ruim para Iris o fato de haver muitos candidatos. Renato lembra que o peemedebista é mais conhecido, mas nos critérios das qualis, o perfil dele não é o melhor. “Por isso mesmo, vejo possibilidades de crescimento entre os nomes evidenciados até agora, Giuseppe Vecci, Virmondes Cruvinel, Luiz Bittencourt, o próprio Waldir e Vanderlan Cardoso. Vecci, Bittencourt e Virmondes podem crescer, estes dois últimos a depender de coligação, estrutura de campanha, tempo de TV.”

Renato lembra que Vanderlan também aparece estagnado nas qualitativas, diferente de eleições anteriores. “Aparecem elementos de que talvez o perfil dele seja pequeno para Goiânia, talvez até porque na eleição passada a exposição dele não tenha sido muito boa.”

Renato Monteiro diz que, preliminarmente, Iris está dentro do segundo turno. “Mas acho que essa eleição reserva muitas surpresas, não a ponto de tirar Iris do segundo turno, mas há sim um desejo de mudança. Há descrença no eleitorado.”

O publicitário diz que o fato em si de haver muitos nomes pode ser bom para Iris e para mais uma ou duas candidaturas. Ele lembra que a campanha será mais curta, haverá o dobro de comercias na TV, com metade do tempo dividido igualitariamente. “Acho que não haverá a clássica polarização entre o PMDB de um lado e a base marconista de outro, penso que isso não interessa nem ao governo neste momento.”

O cientista político Francisco Tavares afirma que é preciso partir do ponto de que pesquisas, principalmente quantitativas, com sete ou oito meses de antecedência não dizem tanto quanto as qualitativas. Significa, portanto, apenas que o fato de Delegado Waldir e Iris Rezende estarem na frente se deve ao recall.

“As pessoas se lembram que eles existem, o que não significa necessariamente voto na urna, não dá para projetar se isso vai dar mais ou menos votos. Antes de a campanha começar é interessante observar o potencial do candidato para poder mobilizar votos durante a campanha”, afirma.

Tavares conta que as pesquisas qualitativas as quais teve acesso, dão conta de que um nome como Delegado Waldir tem teto, por ser extremamente polêmico. Ele mobiliza de forma extremamente radical um eleitor ou outro, mas da mesma forma afasta um grupo importante do eleitorado. “Então, talvez, a votação dele não vá muito mais longe do que o que ele já tem nas pesquisas, o que não é suficiente para elegê-lo.”

O acadêmico diz que em relação a Iris Rezende, as pesquisas qualitativas mostram certo desgaste dele com o eleitorado e que ele não representa novidade. Então, embora os dois, Iris e Waldir liderem, não significa que sejam os favoritos.

A segunda questão, diz Francisco Tavares, é que por mais candidatos que haja, deve haver polarização entre o campo marconista e a oposição, que nesse caso provavelmente não será petista, dado que além de um momento de antipetismo no País, há a acrescentar uma baixíssima avaliação do prefeito Paulo Garcia. Isso certamente levará à polarização entre PSDB e PMDB, sejam quais foram os candidatos. Mesmo considerando que não é certo que Delegado Waldir vá pelo PSDB e que também não é certo que o PMDB vá com Iris.

Publicitário Renato Monteiro: é preciso ver as qualis | Cientista político Francisco Tavares: base prejudicada | Publictário Marcus Vinicius Queiroz: e o debate?

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Base aliada

O cientista político diz que a fragmentação na base aliada é muito ruim para ela. Melhor seria ela estar coesa, até por que é certo que será uma eleição em dois turnos. “Mas mesmo com muitos candidatos, não significa que ela não se una no segundo turno, a não ser que a campanha seja muito tensa, agressiva e deixe desgastes. Não acredito que isso aconteça. A tendência é que mesmo com muitos candidatos, a base marconista fique coesa no segundo turno.”

Mas para a base aliada, o problema que Francisco Tavares percebe é de outra natureza, que não apenas no chamado teatro de operações das eleições em Goiânia. A questão, diz ele, é que o grupo político ao redor do governador Marconi Perillo enfrenta uma clara fadiga de material. “São muitos anos desse grupo político no poder, associado a uma crise fiscal. Começa a haver uma crise interna, o que pode dificultar, por exemplo, no enraizamento da campanha nos bairros, no apoio de vereadores. Isso pode atrapalhar o grupo do governador.”

Mas, por outro lado, sabe-se que o PT, seja em âmbito nacional seja na administração de Paulo Garcia, também não enfrenta um bom momento. A dúvida, diz Tavares, é como o PMDB vai se posicionar quanto a isso, por que ele também é associado ao governo federal e à rejeição que este sofre e por Iris ter apoiado Paulo. “A campanha vai ser isso: ver como cada um dribla as profundas rejeições que sofre no eleitorado. Isso será mais importante que as próprias coligações a serem formadas.”

Iris não está “cômodo”

O publicitário Marcus Vinicius Queiroz começa dizendo que se está valorizando demais a posição de Iris Rezende hoje, que não é tão cômoda e amadurecida como as pessoas estão traduzindo. Lembra que nas eleições anteriores, o peemedebista sempre começou com tetos mais altos nas pesquisas fora do período eleitoral.

Normalmente, em março, Iris tinha por volta de 40%, 42% até 45%. “Vamos lembrar que ele saiu com mais de 70% de aprovação da prefeitura antes de ir para a campanha ao governo. E hoje, em nenhuma pesquisa, ele ultrapassa 32% das intenções de voto, sendo o mais conhecido, o que saiu de uma experiência administrativa recente e tem recall muito alto. Por isso, a situação de Iris não é cômoda e acho que ele está muito preocupado”, diz Marcus Vinicius.

O publicitário também acredita que há espaço muito grande para se promover um debate na cidade, o que se mostra uma exigência do eleitor em todas as pesquisas qualis, diferentemente do que houve até a eleição de Paulo Garcia.

Segundo ele, o número de candidatos não vai interferir nesse processo. Será a qualidade dos candidatos que vai interferir no quadro. “Na campanha anterior teve muitos candidatos, mas como houve muitos equívocos, não só de nomes como de estratégias, Paulo acabou se elegendo com o menor número de votos das últimas eleições, com muita abstenção, muitos votos nulos. Paulo teve pouca representatividade, mesmo tendo Iris de cabo eleitoral.”

Marcus Vinicius diz que quem se identifica com Iris não é por causa do PMDB. No caso do Waldir Soares da mesma forma, quem se identifica com ele não o faz porque o deputado é da base aliada ou se não será da base aliada no momento do voto (no caso de ele sair do PSDB para disputar por outra sigla). Mesmo porque, lembra, há um ano Waldir age como independente. Segundo o publicitário, para Iris e Waldir, vai depender da qualidade dos concorrentes e das estratégias que eles adotem, e não do número de concorrentes.

O publicitário lembra ainda que a campanha será atípica, com regras novas, com menor tempo. Além disso, há o cansaço normal do eleitor, a avaliação baixa do sucessor de Iris, com a continuação dos problemas da cidade, etc. “Tudo isso embaralha o cenário. Aparentemente Iris tem uma intenção de voto alta, mas é a mais baixa que ele já teve.”

Mas, e para a base aliada marconista, ter muito candidatos atrapalha ou ajuda? Marcus Vinicius diz que isso é só para quem entende, porque a população mesmo está pouca ligada nesse aspecto. “Na eleição executiva, o eleitor escolhe muito de forma pessoal. A identificação se dá pela postura do candidato, pela proposta. O eleitor não faz essa análise se a base tem cinco ou seis candidatos. Isso é mais de interesse do jogo de poder do que uma realidade na expectativa ou na visão do eleitor.”

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