Produção de soja deve atingir patamar recorde

Em 2018, os números da soja devem superar os do ano passado e a agricultura seguirá desempenhando papel fundamental na economia

Fernando Leite/Jornal Opção

O Instituto Brasileiro de Ge­ografia e Estatística (IBGE) divulgou, na quinta-feira, 1º, dados relacionados ao Produto Interno Bruto (PIB) do País, que cresceu 1%, impulsionado pelo acréscimo de 13% da agropecuária devido às altas produções de milho e soja.

“A safra recorde [de milho e soja] representou a principal contribuição para o resultado positivo do PIB no ano”, pontua a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, em nota à imprensa. É um claro sinal do importante papel desempenhado pela agricultura na economia brasileira — a chamada âncora verde é a principal responsável por colocar a economia do País de volta aos trilhos.

Em 2018, as previsões dão ainda mais ânimo. De acordo com a Agroconsult, a safra de soja 2017/18 deve atingir o patamar recorde de 117,5 milhões de toneladas, superando os 114,6 milhões de 2016/17.

Outra projeção otimista é em relação às exportações: das 117,5 milhões de toneladas, 71,3 milhões devem ser exportadas — em 2017, este número girou em torno de 68 milhões.

Um dos motivos que justificam tais prognósticos é a seca na Ar­gen­tina, terceiro maior produtor e ex­por­tador de soja do mundo — atrás do Brasil e dos EUA. A tendência é que a escassez de chuvas no país vizinho eleve a procura pela soja brasileira.

Ao Jornal Opção, o secretário-adjunto de Política Agrícola do Ministério da Agricul­tu­ra, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Sávio Pereira, estima um impacto “muito positivo”, uma vez que “o crescimento do PIB deve ser ainda maior”.

Goiás

A soja foi o produto mais exportado por Goiás em 2017, ultrapassando a marca dos US$ 2,6 bilhões e correspondendo a 38,82% de todas as exportações do Estado — só em dezembro foram US$ 65 milhões, o que representa um aumento de 21,47% na comparação com o mesmo período em 2016.

Dos 10 maiores parceiros comerciais, apenas Estados Unidos (7º), Itália (8º) e Hong Kong (9º) não com­­praram soja goiana no ano passado, enquanto China (1º), Holanda (2º), Índia (3º), Rússia (4º), Irã (5º), Co­reia do Sul (6º) e Japão (10º) o fizeram.

Para Sávio Pereira, o crescimento do PIB deve ser maior em 2018 | Antônio Flávio diz que agronegócio ajudou a minimizar a crise | Cristiano Palavro ressalta importância da soja na geração de empregos

Titular da Superintendência Exe­cutiva de Agricultura, ligada à Se­cre­taria de Desenvolvimento Eco­nô­mico, Científico e Tecno­lógico e de Agricultura, Pecuária e Irrigação (SED), Antô­nio Flávio Camilo de Lima argumenta que, quando a agricultura vai bem, os demais segmentos da economia acabam sendo beneficiados.

Segundo ele, o setor contribuiu para que a crise em Goiás fosse sentida em um grau menor. “O agro­negócio é o segmento de maior peso em nossa economia e, graças ao crescimento constante na produção e na competividade, os efeitos da grave crise que atingiu o país foram, em parte, amenizados.”

Analista técnico do Instituto para o Fortale­cimento da Agro­pecuária em Goiás (Ifag), Cristiano Palavro avalia que se não fosse a agropecuária, que conseguiu manter bons índices de desenvolvimento, a crise teria se agravado.

Citando dados do Ifag, Palavro indica que, somente na produção primária, a soja movimenta mais de R$ 11 bilhões em Goiás, contribuindo significativamente para a geração e distribuição de divisas financeiras, gerando empregos e promovendo o desenvolvimento socioeconômico. Uma safra positiva, ressalta, certamente impactará positivamente o resultado do PIB no Estado.

Ademais, cabe mencionar que a soja goiana abastece uma vasta cadeia industrial ligada a este segmento no Estado, que processa a oleaginosa para formulação de farelos proteicos e óleos vegetais.

Desafio

Jefferson Vieira de Castro defende o investimento em tecnologia | Foto: Renan Accioly

O economista Jefferson de Cas­tro Vieira, professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), reforça a importância da soja na pauta econômica em Goiás, especialmente por meio do agrosserviço nos municípios em que o produto está inserido, onde passa a ser desenvolvido um mercado de agrônomos, assistência técnica e venda de insumos e fertilizantes. “O agronegócio contribuiu para manter a taxa de desemprego em um nível baixo.”

Jefferson diz que a exportação de commodities deve ser, sim, incentivada, pois aumenta a arrecadação e o número de empregos. Contudo, o grande desafio, segundo ele, é vendê-la com valor agregado. “A soja tem uma composição interessante na alimentação. No óleo, no leite e nos sucos, entre outros derivados.”

Jefferson de Castro Vieira sugere que o investimento em ciência, tecnologia e inovação é essencial para agregar valor à soja, além de evitar ou amenizar pragas que podem prejudicar a produção e, consequentemente, a economia.

Ferrugem asiática pode gerar prejuízo de mais de US$ 2 bilhões

Ferrugem asiática causa desfolha das plantas cerca de 20 dias após primeiros sintomas

A ferrugem asiática, ou ferrugem da soja, é uma doença causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi. Foi relatada pela primeira vez nas Filipinas em 1914. No continente americano, chegou ao Paraguai em março de 2001. No Brasil, o primeiro caso foi registrado dois meses depois em lavouras no Oeste e Norte do Paraná, disseminando-se rapidamente pelas principais regiões sojicultoras do Brasil.

Em Goiás, a doença foi detectada também na safra de 2001/2002, bem como nos Estados do Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Na atual safra, há o registro de 37 casos em terras goianas.

Altamente agressiva, a ferrugem asiática pode provocar desfolha total nas plantas cerca de 20 dias após o surgimento dos primeiros sintomas. Atualmente, é a principal doença da cultura da soja em solo brasileiro.

Professor da Escola de Agro­nomia da Universidade Federal de Goiás (UFG), Marcos Gomes da Cunha explica que a disseminação do fungo se dá essencialmente pelo vento, sendo impossível contê-la.

Marcos Gomes, da UFG: “Conter a disseminação do fungo é impossível” | Ériko Tadashi, do Mapa: “Controle deve ser feito com fungicidas” | Luciana Celeste conta que UFG fornece monitoramento gratuito

Lesões esporuladas na superfície inferior das folhas são os sintomas mais comuns, mas é importante e pode aparecer lesões nas duas superfícies, nos pecíolos e pequenas hastes, aponta o doutor em Fitopatologia pela Universidade da Califórnia em Davis, nos EUA. “Incialmente, as lesões são marrom-alaranjadas ou marrom claras quando jovens se tornando marrom escuras ou pretas com a idade.”

Marcos Gomes da Cunha conta que ferrugem asiática normalmente não mata as plantas. Entretanto, causa desfolhamento precoce, maturação prematura e redução do número e peso das sementes. “As perdas em lavouras onde não é realizado o controle têm sido bastante severas, sendo observadas nas situações mais críticas reduções acima de 70% na produtividade.”

Prevenção

“O produtor deve realizar o monitoramento da lavoura e o controle químico com fungicidas registrados logo após os primeiros sintomas ou preventivamente”, alerta o auditor fiscal federal agropecuário do Departamento de Sanidade Vegetal (DSV), vinculado ao Mapa, Ériko Tadashi Sedoguchi.

A decisão sobre o momento de aplicação, segundo ele, é técnica. “É necessário levar em consideração os fatores necessários para o aparecimento da doença, como presença do fungo na região, idade das plantas e condição climática favorável, a logística de aplicação, a presença de outras doenças e o custo do controle.”

Docente do curso de Agronomia da UFG – Regional Jataí, Luciana Celeste Carneiro explica que a universidade oferece o serviço de monitoramento gratuitamente, em parceria com o Sindicato Rural da cidade. “Amostras de folhas da propriedade são levadas aos locais de monitoramento para que, sob microscópio estereoscópio, as primeiras lesões, não visíveis a olho nu, sejam detectadas e o início do crescimento epidêmico da doença seja anunciado.”

Doutora em Fitopatologia pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), Luciana adverte que o atraso na aplicação, após constatados os sintomas inicias na propriedade, pode acarretar em redução da produtividade, caso as condições climáticas favoreçam o progresso da doença.

O custo estimado em decorrência da ferrugem asiática no Brasil é de US$ 2,2 bilhões, considerando o gasto médio dos fungicidas e da operação de aplicação somados à perda em grãos e arrecadação.

Medidas de controle

1 – Observar o período de vazio sanitário onde não se tem plantas de soja no campo com vistas à redução de esporos de Phakopsora pachyrhizi nos primeiros plantios, diminuindo, assim, a possibilidade de incidência da doença no período vegetativo e, consequentemente, diminuindo o número de aplicações de fungicida .

2 – Semear preferencialmente cultivares precoces e no início da época recomendada para cada região;

3- Evitar cultivos adensados, pois dificultam que o fungicida atinja o terço inferior e médio da planta;

4 – Monitorar a lavoura a partir da emergência e intensificá-la próximo à floração;

5 – Evitar plantios tardios;

6 – Eliminar restos culturais de soja, plantas voluntárias e lavouras abandonadas.

Produtores acreditam na força do campo

Beto Brucceli e Joel Ragagnin minimizam danos da ferrugem asiática

O produtor rural José Ro­berto “Beto” Brucceli, de Rio Verde, lamenta os prejuízos causados pela ferrugem asiática. “A doença dizima a produção e destrói toda a reserva de energia armazenada pela folha da soja. Um potencial de 60 sacos pode cair para 20.”

Entretanto, Joel Ragagnin, de Jataí, pensa que as consequências não serão tão grandes neste ano, haja vista que os produtores goianos estão investindo bastante em controle de pragas. Na visão de Beto, os danos da doença em Goiás têm sido muito menores do que na região Sul, por exemplo.

No tocante à expectativa para 2018, Joel demonstra otimismo em função da seca na Argentina e da conjuntura internacional. “Estamos esperançosos. Os levantamentos indicam que a safra será muito boa.” Já Beto é mais realista e diz que espera colher basicamente a mesma quantidade do ano passado.

Ambos produtores ouvidos pelo Jornal Opção acreditam na força do campo como forma de impulsionar a economia. “Goiás não existiria sem o agronegócio. Se não existisse a soja, não teria nem shopping em Rio Verde”, arremata Beto.

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