Procura-se

O PMDB começou a construir a 5ª derrota ao governo estadual e ainda pode perder a Prefeitura de Goiânia

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Waldir soares aparece com o dedo em gatilho, enquanto Iris Rezende desaparece para aparecer “salvando a pátria” | Fernando Leite/Jornal Opção

Henrique Morgantini
Especial para o Jornal Opção

Uma eleição não se disputa nos menos de três meses de campanha autorizada pela Justiça Eleitoral. Tampouco vence-se ou se é derrotado pelo trabalho realizado no período. O conjunto de ações que levam quadros e partidos a um pleito somado às estratégias desenvolvidas e bem executadas durante a corrida pelo voto no tempo oficial é que separam vencedores de derrotados.

E é com base neste cenário que torna-se possível afirmar que o PMDB está construindo com afinco e uma sutil competência para o fracasso sua quinta derrota em 2018. Com um detalhe cruel: está tão fechado no compromisso de se autodestruir, que é bem possível que consiga perder o único prêmio de consolação que lhe tem sobrado, a Prefeitura de Goiânia.

Somente torcedores afirmam categoricamente que Iris Rezende vence com tranquilidade as eleições municipais da capital no ano que vem. Quem quiser se ater só um pouco aos fatos vai perceber que o caos e as trapalhadas das disputas estaduais se alastram como um tumor profundo chegando na organização e na imagem da legenda e de seus quadros na sucessão municipal.

Iris Rezende: fez questão de não eleger um herdeiro de seu legado | Fernando Leite/Jornal Opção

Iris Rezende | Fernando Leite/Jornal Opção

Este não é um vaticínio, mas um alerta.

Para começar a compreender isso, basta perceber no volume da agenda do partido e de seus integrantes e, so­bretudo, no conteúdo dela. Comparar com a agenda semelhante do principal partido antagonista, o PSDB, é um bom exercício para criar uma régua, um parâmetro. A agenda política do PSDB goiano pode ser uma aula de soberba e com até algumas pitadas de delírio, mas ainda assim é coerente com o que a legenda e seus integrantes têm desenvolvido no Estado ao longo dos anos.

O PSDB pode exagerar nas ambições, mas conquistou o direito à hipérbole.

Ao passo que no PMDB, o odor de formol vindo da mesa de decisões só não é maior que o cheiro da ausência dos seus dirigentes pensantes. A imagem de Iris Rezende poderia muito bem estampar um enorme cartaz por todo o Estado com fontes vermelhas e gigantes dizendo “Procura-se”. O principal líder do partido, o artífice da oposição em Goiás, tem a mania recorrente de desaparecer quando uma derrota surge. E como só tem surgido derrotas, Iris é uma figura muito mais imaginária como político do que real, efetiva, presente.

Iris é menos frequente que Papai Noel e o Coelho da Páscoa que, mesmo fabulares, surgem todo ano.

O que mais chama atenção é: todo mundo dentro do PMDB e até de legendas que negociam e gravitam em torno de Iris avaliam esta postura como algo da maior naturalidade. É a banalização do absurdo.

Em entrevista ao Jornal Opção, o novo presidente do PSDB estadual usa de seu perfil técnico e equilibrado para destilar sonhos. No entanto, o tucanato dos goyazes tem a coerência assegurada pela sua organização e os resultados políticos para tentar voos mais audaciosos. Afrêni Gonçalves se dedica pouco a dizer acerca da sucessão municipal. Não é um assunto menor, ou menos importante, mas apenas tornou-se apêndice de uma projeção muito mais arrojada que é a de lançar Marconi Perillo como candidato à Presidência da República em 2018. E contra Lula. E vencer.

Eu falei que tinha delírio no meio.

Enquanto isto, no PMDB, o debate gira em torno de uma agenda mais negativa que um termômetro debaixo da asa de um pinguim. O último debate que o PMDB se meteu e que ganhou visibilidade na imprensa foi no processo de expulsão do empresário mais rico de Goiás. Júnior Friboi foi fritado da legenda por iristas revoltosos que se sentiram traídos porque Friboi teria apoiado Marconi Perillo nas eleições do ano passado. Como se, ao não apoiar Marconi e ter ficado ao lado de Iris, o resultado pudesse ser outro. Quem derrotou Rezende foi o eleitor de Goiás, não Friboi.

O próximo passo do PMDB pode ser criar um processo de expulsão dos goianos com título de eleitor do Estado a fim de garantir a permanência e a sobrevida de Iris Rezende.

E o cartaz segue: Procura-se.

Afrêni Goncalves anuncia um rol de pré-candidatos tucanos à Prefeitura de Goiânia e em quase todos é possível encontrar mais defeitos que qualidades. Afe­rimen­tos iniciais dão conta de que o deputado federal Waldir Soares seria o nome com maior apelo e penetração popular.

E mesmo assim trata-se de uma personalidade questionável em diversos termos e com discurso sectário baseado na bala. É um xerife de coldre quente que ameaça processar colegas deputados que perguntam se ele passou ou não nos exames psicotécnicos da Polícia Civil. Seu slogan corporal, por assim dizer, é posar para fotos com o indicador esticado e o polegar erguido, simulando um revólver. Um personagem autêntico caído direto de um filme do faroeste spaghetti. É de encher os olhos de Giuliano Gemma de inveja.

O corpo fala. O de Waldir, atira antes, pergunta depois.

Este é o melhor do PSDB.

Acontece que, mesmo assim, a legenda tem legitimidade para estar animada. Isso porque tem construído há tempos o caminho que pode levar à vitória. O PSDB não esperou chegar aos 35 do segundo tempo para correr atrás da bola, ou seja, naqueles dois meses e pouco de campanha. Do outro lado, enquanto há o aquecimento, a preleção, a escalação dos jogadores e o treino com bola para dar harmonia no time, há um silêncio jocoso, amador.

E o cartaz: Procura-se.

A impressão que se tem é que Iris Rezende some da vista de todos e da agenda política da oposição para que sintam a sua falta e só então um grupo o busque para resolver a situação. É o craque, que chega para decidir. Iris antes vinha nos braços do povo e se acostumou com este passeio. Agora, vem nos braços de meia dúzia de peemedebistas da velha guarda cansados demais para carregá-lo. Com os anos e as eleições e as derrotas, tornam-se cada vez mais fracos e Iris cada vez mais pesado.

Somente um apaixonado ficaria cego o bastante para perceber que Júnior Friboi era uma peça decisiva no processo de renovação e reoxigenação do partido. Como quadro e possível candidato, Friboi é um arremedo de projeto, uma suposição, mas como integrante, está claramente disposto a investir em si próprio, e isto significa inflar financeiramente a agremiação que lhe acomodar.

Não é fácil abrir espaço e aturar Júnior Friboi. Ele faz o que na política é chamado de “sincericídio”: fala demais, fala o que não deve, é um constante manjar a repórteres. Mas é inegável que o PMDB precisava muito mais de Friboi do que o contrário. A tal capilaridade do PMDB que é tantas vezes colocada à mesa como uma carta decisiva para desempatar o jogo a seu favor está cada vez mais desgastada. O eleitor de Iris está morrendo, desistindo, sumindo. E em seu lugar, o partido tratou cuidadosamente de não colocar ninguém. Deixou o espaço vago, como uma espécie de Monu­mento à Memória do Passado. Não renovou e não deixa renovar.

O PMDB exibe a capilaridade política de uma cabeça que vai ficando careca.

O PSDB pavimenta as estradas que foram abertas por Iris e seus aliados. Vai jogando cal, piche por sobre a história e a reescrevendo. Dentro do PMDB, alguns poucos nomes tentam atuar como oposição, caso do deputado José Nelto que, quando não está gastando fôlego quase saindo nos tapas com Santana Gomes na Assembleia Legislativa, reúne as forças que sobram no comando de uma tímida estrutura de jornalistas para fazer o enfrentamento nas redes sociais e na lide da pauta política. São heróis desnutridos de uma causa isolada. Fazem muito, e fazem bem, mas ainda é pouco porque ninguém investe, com medo de desperdiçar dinheiro, afinal, cedo ou tarde, nos braços dos velhinhos virá – impávido – Iris Rezende para decidir as eleições. Nelto e sua estrutura são movimentos quixotescos de quem ainda tenta ser oposição em Goiás.

E enquanto isto, por onde se andar em Goiás, usando o tipo certo de olhar para observar, é possível ver uma sucessão de placas melancólicas, tortas, insistentes, com a aquela imagem e os dizeres desesperados: “Procura-se”.

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