Pré-diabetes, condição clínica que esconde um sério risco de saúde pública sobre o qual pouco se fala

O diabetes, doença que causa mais de 70 mil mortes por ano no Brasil, não acontece do dia para a noite. Ao contrário, dá sinais de que está chegando e médicos alertam: os sinais precisam ser identificados o quanto antes

O sedentarismo, aliado ao sobrepeso crescente da população, é uma das principais causas do aumento de casos de pré-diabetes e de diabetes | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Já levantei cedo para nadar. Segundas, quartas e sextas, das sete às oito da manhã, lá estava eu para percorrer os mil metros do exercício. Eu não era nenhum prodígio, nenhum Michael Phelps ou um Thiago Pereira e nem queria, afinal, aos 28 anos, a idade para ser um nadador profissional já havia passado há muito. Eu só queria nadar, manter a forma, cuidar da saúde. Não sei quando parei. Fui parando. Dormindo mais tarde por conta do trabalho, levantar às seis se tornou um fardo. A preguiça também não ajudava muito, se é que me entende. E a ansiedade… ah, essa exigia muito de mim, fisicamente, digo. Muitas calorias diárias para alimentar a bendita e, como pode adivinhar, não demorou muito para a barriguinha aparecer; para isso, a cerveja contribuiu bastante também. Talvez, esse conjunto de fatores tenha me feito entrar aqui hoje. Isso e minha mulher, que acha que vou morrer.

E o senhor? Acha que vai morrer?

Um dia, claro, como todo mundo. Mas espero pelo menos ver um neto correndo pela casa. Minha filha mal chegou aos oito anos, então… só posso partir daqui a uns anos. Hahaha

Daniel, o senhor tem 40 anos, é muito novo ainda, mas seu organismo está desequilibrado. O senhor está comendo demais e comendo mal. Sua glicemia está alta e isso tem provocado mudanças perigosas no seu corpo.

O que quer dizer com isso?

O senhor possui a diabetes tipo 2, doença que é provavelmente resultado desses onze ou doze anos sem fazer exercícios físicos. O senhor está com sobrepeso e, por sua pressão arterial, eu diria que também está hipertenso. Se não se cuidar, pode ter um infarto e não ver sua filha sequer entrar na faculdade.

Diabetes é tão sério assim?

A consulta de Daniel é fictícia, mas não difícil de ser imaginada e é provável até que já tenha acontecido com alguém em termos bastante semelhantes. Isso porque o número de pessoas com diabetes no mundo tem aumentado a cada ano e a maioria delas, homens principalmente, só chegou a obter a doença por falta de um acompanhamento médico constante.

Atualmente, a estimativa é de que 387 milhões de pessoas no mundo tenha diabetes, número que deve alcançar 471 milhões em 2035. Cerca de 80% desses indivíduos vivem em países em desenvolvimento, como o Brasil, país em que há mais de 16 milhões de diabéticos, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgados em abril do ano passado.

O número de diabéticos está aumentando por vários fatores, é claro, como o crescimento e o envelhecimento da população, a maior urbanização e a maior sobrevida de pacientes com a doença, mas a principal causa é a progressiva prevalência da obesidade e do sedentarismo. Assim, não é de se espantar que, com sobrepeso e sem fazer exercícios físicos há 12 anos, nosso Daniel tenha perdido o controle de sua glicemia.

Agora, voltando à última pergunta que o personagem fez ao médico imaginário: o diabetes é assim tão sério? Para responder a pergunta, bastaria dizer que, em 2015, mais 70 mil brasileiros morreram em decorrência da doença. Porém, a resposta ficaria demasiadamente vaga, então, é melhor que um médico real o faça.

Paulo César Veiga Jardim, cardiologista e professor titular da Faculdade de Medicina da UFG, achou alguns minutos para falar com este repórter no consultório em que atende no novo prédio da Liga de Hipertensão Arterial do Hospital das Clínicas. Muito didático, respondeu à pergunta e sua explicação pode ser reproduzida da seguinte maneira:

Todas as pessoas precisam de glicose, açúcar, para sobreviver. É um combustível, uma energia, para todas as atividades do dia a dia. E a glicose que circula no sangue é quebrada pela insulina, que a transforma em outras substâncias para abastecer músculos, cérebro e assim por diante. Para que isso ocorra, é necessário que glicose e insulina estejam em equilíbrio. Toda vez que a glicemia está elevada, há um aumento na produção de insulina pelo pâncreas. Isso ocorre para reequilibrar as coisas. Então, existe uma variação: em jejum, a glicemia fica lá em baixo; após a alimentação, ela sobe.

Tudo no corpo humano oscila; isso é fisiológico, é normal. Porém, existem algumas situações em que esse equilíbrio se quebra. Algumas são raras, como alguma alteração no pâncreas, que para de produzir insulina, fazendo a glicemia subir e causando diabetes. Esta é a diabetes tipo 1. Já o tipo 2 é mais comum, visto que é resultado de um processo que acontece ao longo dos anos e está relacionado aos hábitos de vida.

O tipo 2 é bastante frequente em idosos, isso porque, quando a pessoa envelhece, pode acontecer de o pâncreas ficar mais “cansado” e produzir menos insulina, que começa a faltar para queimar a glicose. Contudo, cada vez mais, a doença tem acometido pessoas mais jovens, como o Daniel, que na nossa história tem apenas 40 anos. Por quê?

Paulo César responde: “A população mundial está comendo demais e muito mal. Alimentos industrializados têm um alto teor calórico e põem o corpo para trabalhar pouco, pois a comida é trabalhada pela indústria para facilitar a digestão. Isso faz com as pessoas comecem a engordar. Então, o mundo está gordo. No Brasil, mais de 50% da população está acima do peso e, na medida em que o porcentual de gordura do corpo aumenta, a insulina tem mais dificuldade para quebrar a glicose. Isso porque a gordura aumenta a resistência à ação da insulina sobre a glicose”.

Com uma ação menos eficiente da insulina no corpo, o resultado é o pâncreas aumentar, por necessidade, a quantidade de insulina para fazer frente à resistência. Chega um momento, porém, em que o pâncreas se exaure, assim, progressivamente, a glicemia vai aumentando. Subindo demais, mesmo quando a pessoa está em jejum, a glicemia permanece mais alta do que era antes e a esse fenômeno dá-se o nome de Síndrome da Resistência à Insulina.

“É claro”, ressalta o cardiologista, “que toda pessoa tem uma pré-disposição genética diferente, mas qualquer um que tenha hábitos de vida não saudáveis tem a possibilidade de, ao longo da vida, desenvolver a Síndrome de Resistência à Insulina e acabar chegando ao diabetes.”
E é verdade que o diabetes pode causar problemas cardíacos? Paulo César explica que, do ponto de vista do sistema circulatório, toda vez que há o desbalanço entre a glicose e a insulina, uma série de hormônios são modificados, o que causa consequências na parte interna dos vasos, em que o endotélio, algo que seria como o “verniz” que existe dentro dos vasos, começa a se alterar.

Esse “verniz” produz substâncias que fazem dilatação, contração, estimulam o crescimento da parede do vaso, propicia a possibilidade de se alterar o colesterol etc. Assim, o indivíduo que tem Síndrome da Resistência à Insulina, com a alteração do endotélio, tem riscos maiores de ter uma série de doenças cardiovasculares de maneira geral, de ficar hipertenso, por exemplo. “Até que um dia essa pessoa tem um infarto. É claro que tudo isso não acontece da noite para o dia. É um processo, mas o risco existe”, garante o cardiologista.

Agora, se Daniel, o personagem, tivesse entrado em nosso consultório imaginário anos antes, a probabilidade é que tivesse ouvido um diagnóstico diferente. Talvez, nosso médico fictício não identificado pudesse ter lhe dito: “Daniel, o senhor está pré-diabético”. O que isso significa? Aqui, entramos no ponto central a ser abordado por esta reportagem.

O que é o pré-diabetes

Diabetes tipo 2, o mais comum, não surge da noite para o dia; é fruto de um processo. Chega um momento, assim, em que o equilíbrio entre glicose e insulina do indivíduo está bagunçado, fazendo a glicemia ficar mais alta que o normal, mas ainda não alta o suficiente para caracterizar como diabetes. A essa zona acinzentada dá-se o nome de pré-diabetes.

O termo popular funciona como um chamariz à população e opera como um alarme, pois significa dizer à pessoa: você corre o risco de se tornar diabético. Do ponto de vista de saúde pública, é interessante, pois pode impedir muitos de alcançar a doença, reduzindo os níveis de mortalidade.

É possível identificar o pré-diabetes de duas maneiras: do ponto de vista clínico, pessoas com sobrepeso, sedentárias e estressadas têm uma grande chance de ter alterações. Do ponto de vista laboratorial, identifica-se a condição se a glicemia de jejum do indivíduo estiver entre 100 e 125 mg/dL e se a glicemia estiver entre 140 e 199 mg/dL duas horas após a ingestão de 75 gramas de glicose.

Paulo César Veiga Jardim, cardiologista: “O pré-diabetes é quando a relação entre glicose e insulina no organismo começa a se modificar” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O número é um marcador e pode variar também entre 105 e 127 mg/dL. Isso porque, no geral, uma glicemia abaixo de 100 mg/dL é considerada normal e acima de 127 mg/dL como já pertencente ao diabetes. O cardiologista Paulo César Veiga Jardim entende a condição da seguinte forma:

“É como se você estivesse de moto andando numa estrada e eu te falasse: ‘Ali na frente tem uma ponte quebrada. Se você continuar, vai cair’. Se você continua, em alguma hora, vai cair e isso pode demorar menos ou mais, porque eu não sei a distância, só sei que a ponte está quebrada. É isso o que acontece com quem está sob esse risco”. Em outras palavras, o pré-diabetes é o sinal de alerta que mostra a necessidade de cuidados maiores com a saúde por parte de quem tem.

Que tipo de cuidados? Prática de exercícios físicos, modificação alimentar e a melhor escolha dos alimentos são os principais cuidados, como aponta a nutricionista Mônica Laboissière. “Não consumir comidas muito gordurosas é importante, pois esses alimentos favorecem o ganho de peso, o que, por sua vez, predispõe a pessoa a ter diabetes”, orienta.

Mônica diz que, do ponto de vista nutricional, alguns hábitos têm aumentado o número de pessoas com pré-diabetes. “Algumas dietas de modismo pioram o quadro. Um exemplo: a tapioca. A tapioca tem pouca fibra e dizem que ela tem um índice glicêmico menor. É mesmo? Duas colheres de sopa de tapioca tem um índice glicêmico de 117, com 56 gramas de carboidrato. O pão 50 gramas tem 28 gramas de carboidrato e 101 de índice glicêmico. Então, não é verdade”, explica.

Mônica Laboissière, nutricionista e Gustavo Dafico, endocrinologista | Fotos: Fernando Leite / Jornal Opção

Outra relação que tem atrapalhado a glicemia de muitos é a batata doce e o arroz. Segundo a nutricionista, o índice glicêmico dos dois é semelhante, o da batata doce é 77 e o do arroz é 81, e as pessoas têm substituído alimentos do cotidiano, que têm mais chances de serem equilibrados, por outros alimentos com conceito errado. “Trocar arroz por batata doce achando que vai diminuir o índice glicêmico é um equívoco. Além disso, a saciedade do arroz é maior e ele tem aminoácidos. Mais: se for um arroz parboilizado ou integral, ele tem fibras e a presença de fibras na dieta ajuda muito no controle da glicose”, observa.

É certo que algumas pessoas não gostam de arroz integral, por achar o grão muito duro, além da demora em cozinhar. Para esses, Mônica indica o arroz parboilizado, que não tem esses “defeitos”. “Além disso, ele tem um índice glicêmico menor, o que ajuda bastante.”

Outra moda comentada pela nutricionista é a dos sucos detox, indicados para emagrecer e “desintoxicar” o corpo das substâncias prejudiciais consumidas no dia a dia. Entretanto, para Mônica, não é bem assim. “Estão misturando tudo, batendo maça com laranja. Então, são sucos com índice glicêmico alto, com muito açúcar e frutose. Quando se tem muita frutose é necessária muita insulina. Logo, esses sucos estão contribuindo para índices glicêmicos altos. A fruta é importante, mas o excesso prejudica”.

A nutricionista indica que alguns pré-diabéticos são, inclusive, pessoas que tentam ter hábitos mais saudáveis. “O açúcar mascavo tem um índice glicêmico alto e um poder edulcorante [capacidade de adoçar] baixo. Então, para adoçar uma limonada, por exemplo, se usa bem menos açúcar simples do que açúcar mascavo. Tenho um paciente que ficou pré-diabético em nome de usar coisas naturais. Passou a usar açúcar mascavo, mas usava mais. É um engano”, relata.

Por isso, o acompanhamento nutricional é de suma importância. É o que garante o endocrinologista Gustavo Dafico Bernardes, para quem o termo pré-diabetes não é o mais apropriado. “Utilizamos porque o diabetes ainda é uma doença estigmatizante. Então, quando se diz ao paciente que ele diabético, é como se fosse uma tatuagem que ele vai carregar para o resta da vida”, diz.

Nessa fase, explica ele, antes de se tornar diabético, a pessoa tem um risco maior de ter doenças cardiovasculares, como doenças coronarianas, angina e até a evolução para um infarto. “Porém, isso é reversível. Basta seguir o tratamento de maneira adequada. Por isso, o diagnóstico precoce é importante”, garante.

O interessante é que, segundo Gustavo, em raros casos se usa medicamentos para reverter o pré-diabetes. Na maioria das vezes, é o próprio comportamento que resolve. “Remédios são usados apenas em casos especiais, em que o paciente tem outra comorbidade e não pode realizar nenhum tipo de atividade física. Mas isso deve ser analisado caso a caso”, ressalta.

“As pessoas têm consciência de que é preciso ter uma vida mais saudável, mas é necessário pôr em prática”

Haroldo Souza, endocrinologista: “Educação alimentar e estímulo à atividade física são fundamentais. Se não fizermos isso, teremos um mundo de obesos e um mundo de pré-diabéticos e diabéticos”

O diabetes é uma doença séria e que pode causar transtornos imensos às pessoas, podendo levar, inclusive, a perda da visão, amputação de membros e também à morte. Assim, é importante falar sobre o assunto. Mas quem? Governo, famílias ou os dois? Para Haroldo Souza, endocrinologista e médico do Hospital Geral de Goiânia Alberto Rassi (HGG), os dois.
Ele cita como exemplo uma política pública que tentaram implantar nos Estados Unidos.

Aumentaram a carga de refrigerantes, ao passo em que se tentou educar as pessoas para diminuir o consumo de bebidas açucaradas, principalmente em crianças. Houve campanhas em escolas e a primeira dama Michelle Obama tentou fazer muito isso”, afirma.

Isso é essencial, na visão do médico. “A educação alimentar e o estímulo à atividade física são coisas fundamentais que precisamos fazer hoje. Se não fizermos isso, teremos um mundo de obesos e, consequentemente, um mundo de pré-diabéticos e diabéticos. E esse número já tem crescido muito, sobretudo nos países em desenvolvimento”, ressalta.

Agora, Haroldo é assertivo ao dizer que os pais também têm que pensar sobre o que estão fornecendo a seus filhos. Segundo ele, a Associação Americana de Pediatras, por exemplo, preconiza que até os dois anos de idade não é recomendável dar nada de açúcar para a criança, até para não estimular esse gosto. “Então, isso é algo muito dos pais estarem dispostos a modificar seus próprios hábitos. Se a pessoa for acostumada, desde cedo, a comer mais alimentos integrais, esse será um hábito natural para ela e não forçado”, diz.

Para ele, as pessoas até têm consciência disso, mas é necessário que elas coloquem em prática, o que dá mais trabalho, mas é o único caminho. “É bom, por exemplo, dar preferência para os alimentos integrais. Um pão integral estimula muito menos o pâncreas que um pão branco ou um pão francês. Também é importante comer carboidratos com moderação e também proteínas e frutas, ao passo em que se diminui alimentos gordurosos. Quando comemos muito ‘junk food’, contribuímos muito para o ganho de peso. Ou seja, precisamos ter uma dieta equilibrada”.

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