O engenheiro civil Gilberto Rossi, de 41 anos, é um profissional bem sucedido. Especializado na área de pontes e viadutos, trabalhou nas reformas e construção das obras para a Copa do Mundo de 2014, em Cuiabá. Entretanto, ele afirma que, sempre se sentiu “burro” e que todas as suas conquistas foram obtidas com maior esforço do que fora necessário a seus colegas. Rossi só descobriu a razão para sua insegurança em 2020, quando seu sobrinho de 9 anos foi diagnosticado com um distúrbio que lhe causa as mesmas dificuldades escolares que Gilberto tinha na infância: a dislexia. 

“Meu sobrinho é igualzinho a mim”, afirma Gilberto Rossi. “Ler exige dele um trabalho enorme. Basta abrir um livro em frente ao garoto para a sua atenção ir embora. A mãe recebia reclamações dos professores porque ele não copia as lições da lousa no caderno, que é desorganizado. Eu também era, e sou, assim – até hoje tenho dificuldade de ler em voz alta e faço confusão com a gramática”.

A dislexia é um distúrbio genético que dificulta o aprendizado e a realização da leitura e da escrita. A lentidão na aprendizagem, dificuldade de concentração, palavras escritas de forma estranha, dificuldade de soletrar e troca de letras com sons ou grafias parecidas são alguns sinais de dislexia. Se não forem abordados, os problemas reduzem o potencial acadêmico e o fracasso escolar, por sua vez, pode fazer com que o indivíduo sinta-se inseguro, ansioso e até deprimido. 

Segundo a Associação Brasileira de Dislexia, o distúrbio está presente entre 5% e 17% da população mundial, podendo afetar a área visual e auditiva. Apesar de ser o distúrbio de maior incidência nas salas de aula, um estudo apresentado na Associação Britânica de Dislexia afirma que cerca de 70% dos profissionais das áreas de saúde e educação têm pouco conhecimento sobre ele.

Reconhecendo a dislexia

Felizmente, o diagnóstico precoce e a intervenção feita por uma equipe multidisciplinar tem a capacidade de melhorar significativamente o desempenho das pessoas que têm o distúrbio. Maria Ângela Nogueira Nico é fonoaudióloga pela Universidade de São Paulo (Usp), especializada em psicopedagogia clínica, e presidente da Associação Brasileira de Dislexia (ABD). A profissional trata da dislexia há 34 anos e afirma que, com o passar dos anos, a conscientização sobre o distúrbio aumentou muito, mas ainda há obstáculos a serem superados. 

“Os profissionais mais importantes para o tratamento precoce do distúrbio são os professores”, comenta Ângela Nico. “Geralmente são eles que primeiro percebem que a criança troca letras, têm atraso na linguagem, e podem falar com os pais sobre a dislexia. Na pandemia, isso mudou um pouco porque os pais passaram a acompanhar a educação dos filhos mais de perto e muitos perceberam suas dificuldades. Por isso, hoje muitos adultos nos procuram. Os adultos também se beneficiam da intervenção e devem procurar ajuda profissional.”

Ângela Nico: “Os adultos também se beneficiam do tratamento e devem procurar ajuda profissional” | Foto: Reprodução

O diagnóstico não é simples. A dislexia é um distúrbio específico que afeta áreas e funções do cérebro relacionadas com a linguagem, mas existem outras condições com causas diversas que também geram dificuldades de aprendizagem e que não devem ser confundidas com a dislexia. Por isso, é importante que o diagnóstico seja feito por uma equipe multidisciplinar que irá avaliar diversos aspectos da cognição do paciente, diz Ângela Nico. “A maioria das pessoas que nos procuram não têm dislexia; é comum que a criança não aprenda a ler no período esperado porque na verdade tem um quociente de inteligência (QI) abaixo da média, por exemplo, e precisam de um tratamento diferente daquele dado aos disléxicos”.

A avaliação multi e interdisciplinar envolve ao menos um fonoaudiólogo, psicopedagogo e neuropsicólogo, que irão aplicar exames neurológicos, de audição, processamento auditivo e visão. As análises das áreas distintas podem revelar qual a natureza da dificuldade do paciente. “Antigamente, o médico fazia um ditado e, caso a criança trocasse as letras, já diagnosticava com dislexia. Isso causava um grande problema porque fazia com que pacientes com deficiências intelectuais passassem anos sem tratamento.”

As causas de dislexia estão relacionadas com fatores genéticos que causam o desenvolvimento tardio do sistema nervoso central, problemas nas estruturas do cérebro e comunicação pouco eficaz entre alguns neurônios. No entanto, isso não afeta a inteligência da criança ou sua personalidade (é comum o estigma equivocado da criança que não gosta de ler por ser “preguiçosa”). Por ser genético e hereditário, na anamnese com crianças, muitos reconhecem em si mesmos os sintomas. 

Conscientização

Hoje, a dislexia é melhor compreendida. Ângela Nico comenta que a ABD é a única associação brasileira reconhecida pela International Dyslexia Association, o que faz com que a associação tenha um intercâmbio de pesquisadores e informações com outras associações sobre o tema ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, disléxicos já têm direito a mais tempo para concluir provas escolares, exames na faculdade e entrevistas de emprego.

O Brasil aprovou sua primeira lei federal sobre o tema apenas em novembro de 2021 (Lei Nº 14.254). Ângela Nico afirma que não se trata de caracterizar os disléxicos como limitados, mas sim de garantir que tenham condições de realizar seu potencial. “Às vezes, ouvimos os pais dizerem ‘meu filho é dislexico, ele não pode ser reprovado na escola – pode sim! Os disléxicos são inteligentes, eles apenas têm de ser educados de maneira diferente.”

Enquanto no âmbito educacional a dislexia tem sido melhor compreendida, as dificuldades continuam no mundo profissional brasileiro. Ângela Nico afirma: “atualmente, uma das maiores preocupações é esclarecer os adultos que continuam sofrendo com a dislexia. A dificuldade se manifesta para conseguir empregos, por exemplo, quando uma redação escrita é exigida dentro de um prazo. É preciso conscientizar os recrutadores de que, caso o cargo não tenha relação com a capacidade de escrita rápida, os candidatos disléxicos não têm menor competência do que os demais.” Empresas multinacionais buscam parcerias com a ABD para tratar funcionários brasileiros no exterior, mas no Brasil, o assunto permanece pouco conhecido. 

Tratamento

Embora a dislexia não tenha cura, é possível levar uma vida normal se o paciente receber uma intervenção especializada desde cedo. O tratamento com fonoaudiólogo e psicólogo permite criar estratégias para superar a confusão entre grafemas e fonemas semelhantes, afirma Ângela Nico. “A principal dificuldade é a leitura, mas a aquisição dessa habilidade está relacionada com a capacidade de memória, ritmo, percepção temporal e espacial – fatores que são trabalhados de forma especializada no tratamento.”

Outra importante distinção entre a dislexia (um transtorno de aprendizagem) e a dificuldade de aprendizagem por outras causas é que o esforço por via da alfabetização tradicional pode melhorar a capacidade de leitura de crianças que não possuem o distúrbio, mas gera pouco aprendizado nas crianças disléxicas. O tratamento tem duração variável, mas é lento e, para que não haja desistência, requer o esclarecimento e comprometimento da escola e da família do disléxico. 

Os adultos também podem se beneficiar da intervenção profissional. É o caso de Gilberto Rossi, que há menos de um ano tem sido acompanhado por fonoaudiólogo. “No tratamento, você realiza vários exercícios que estimulam a leitura, escrita e visão”, explica. “A fonoaudióloga também irá te ensinar algumas estratégias para superar as dificuldades com as palavras e as dificuldades que surgem no cotidiano por conta da dislexia. O processo exige muita repetição e às vezes o esforço para manter a concentração é exaustivo, mas vale a pena! Em pouco tempo já consigo sentir melhora, e, mesmo quando encontro alguma barreira, sei que posso superá-la com as técnicas que aprendi na terapia.” 

Um mundo sem consciência da dislexia

Em 1983, o colaborador do Jornal Opção Jorge Wilson Simeira Jacob fundou a ABD, motivado pelo desejo de ajudar jovens como seu próprio filho. O empresário e escritor entrou em contato pela primeira vez com o distúrbio quando a professora de seu filho afirmou que a criança tinha dificuldades de compreender textos. Por dois anos, Jorge Jacob procurou auxílio profissional, encontrando diversos charlatões pelo caminho. 

Jorge Jacob, fundador da ABD | Foto: Jornal Opção

“Naquela época, praticamente ninguém sabia o que era a dislexia”, afirma. “Descobri o que era a dislexia porque outro de meus filhos estudava na Inglaterra, e comentou comigo que existia uma associação que tratava da dislexia, ainda com poucos estudos, em uma fase inicial da compreensão do distúrbio. Fui até lá conversar com representantes da associação, que ficaram surpresos com o interesse de um brasileiro por um tema tão novo.”

Jorge Jacob se tornou membro da associação para receber materiais divulgados aos associados, como estudos científicos e novas publicações. Criou então a ABD com auxílio de amigos interessados no assunto e buscou parcerias com instituições de outros países. “Eu percebi que os disléxicos estavam nas mãos de charlatões. Em viagens pelo mundo em busca de soluções, encontrei vigaristas que vendiam remédios e ‘óculos para deixar de confundir as letras’. Como poucas pessoas entendiam do assunto, era fácil enganar as pessoas. Hoje, felizmente, existe mais esclarecimento, embora ainda haja muito a ser feito.”

Em 40 anos, a ABD realizou inúmeros testes diagnósticos e intervenções. Os dados gerados nestes atendimentos formam um acervo estatístico que é um patrimônio científico sobre o distúrbio e é consultado por profissionais de diversos países. Em intercâmbio com associações estrangeiras, a ABD ajuda a identificar e educar disléxicos em todo o mundo.