Pesquisa da UFG diagnostica câncer por meio da cera de ouvido

Método desenvolvido no Laboratório de Métodos de Extração e Separação é barato e simples, com potencial para detectar o câncer precocemente

Câncer cera de ouvido
Equipe do Lames já desenvolveu filtro de água utilizando borra de café | Foto: Reprodução / UFG

A equipe do Laboratório de Métodos de Extração e Separação (Lames) da Universidade Federal de Goiás (UFG) desenvolveu uma técnica para diagnosticar o câncer por meio de análise da cera de ouvido. A inovação, batizada de cerumenograma, tem potencial para se tornar um procedimento de diagnóstico barato e rotineiro. A equipe, comandada pelo pesquisador Nelson Antoniosi, publicou seus achados na revista Nature neste mês.

Nelson Antoniosi começou a investigar a composição química do cerúmen (cera de ouvido) com objetivo de diagnosticar doenças em conjunto com sua orientanda, a pesquisadora egípcia Engy Shokry, em 2014. A dupla, que trabalhou com detecção de intoxicações e diabetes, passou a apurar variações químicas presentes no cerúmen de animais com câncer. Com a evolução do estudo para humanos, um universo de 102 amostras foi analisado – 51 de indivíduos saudáveis e 51 de doentes – e a taxa de precisão com que o câncer foi corretamente apontado foi de 100%. 

Além da precisão, Nelson Antoniosi enumera vantagens do cerumenograma: “Além de ser não-invasivo, não são necessários gastos com uma nova tecnologia; nós aproveitamos um equipamento que já existe em vários institutos de pesquisa e demos a ele uma nova aplicação”. O custo esperado para o procedimento, caso seja adotado em larga escala, fica em torno de R$ 400 – abaixo dos gastos atuais com diagnóstico de câncer.

Segundo o pesquisador, o próximo passo do Lames é apurar a técnica, que já é capaz de detectar qualquer tipo de câncer – carcinoma, linfoma e leucemia – em qualquer estágio. Nelson Antoniosi acredita que seja possível aprimorá-la para identificar o subtipo da doença – em qual órgão ocorrem. Para isso, os pesquisadores do Lames precisarão de muito mais do que 102 amostras. Ao fecharem uma parceria com os hospitais A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo, e Araújo Jorge, em Goiânia, os pesquisadores esperam ampliar sua base para mais de setenta mil amostras.

Conforme a publicação da revista Nature, 158 compostos voláteis foram identificados no cerúmen, sendo que 27 destes podem ser biomarcadores para o câncer. Nelson Antoniosi explica: “Isso é possível porque o metabolismo da célula cancerosa é diferente do das células normais. Algumas substâncias aumentam, surgem ou diminuem em metabolismos com a doença. Queremos caracterizar perfis químicos para cada subtipo de câncer.”

Em setembro, Nelson Antoniosi apresentará a pesquisa na Universidade de Cambridge, Inglaterra, e em breve divulgará os resultados de outra pesquisa envolvendo cerumenograma em cães. Caso a tecnologia seja de fato adotada, poderá se tornar tão corriqueira quanto hemogramas, já que sua realização depende apenas da coleta do cerúmem com haste flexível com ponta revestida por algodão.

Câncer cera de ouvido
Integrantes do Lames, João Marcos Gonçalves Barbosa (à esquerda) e Nelson Roberto Antoniosi Filho (à direita) | Foto: Nelson Antoniosi

A importância do diagnóstico precoce

O médico oncologista e cirurgião de cabeça e pescoço Antonio Paulo Gontijo atesta a importância de exames de rotina para a detecção do câncer. Para os tumores mais comuns, como os de próstata e mama, existem exames de rotina. Mas cânceres de cabeça e pescoço geralmente chegam ao médico em estágio avançado, identificados por dentistas e otorrinolaringologistas. “A saúde pública não contempla diagnóstico precoce de cânceres menos frequentes. Só o que podemos fazer é a prevenção primária: conscientizar sobre importância de boa alimentação, estilo de vida saudável, evitar cancerígenos como cigarro, bom sono, atividade física.”

Antonio Paulo Gontijo afirma que nos estágios tardios o tratamento se complica. O estadiamento tem uma escala de um a quatro – 80% dos tumores de cabeça e pescoço são detectados em estadiamento três e quatro. “Existem três tipos de tratamentos: quimioterapia, radioterapia e cirurgia. No início, você pode resolver a situação com uso de apenas uma ‘arma’. Em estágios avançados você normalmente tem de usar tudo.”

O cirurgião complementa, revelando os benefícios que um diagnóstico prático e barato poderia trazer: “Infelizmente, no Brasil, os tumores ainda são diagnosticados em estadiamento avançado, às vezes quando a cura já é impossível. É uma questão com diversos motivos: o SUS atravessa uma crise sem precedentes e, neste país continental, o paciente frequentemente tem de ir longe para receber tratamento e diagnóstico. Quando trata-se de câncer, o diagnóstico retardado em seis meses faz toda a diferença.”

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