O tortuoso caminho de Dilma para chegar aonde chegou

O processo de impeachment é um filho de muitos pais: foram vários os erros cometidos pelo PT, por Lula e por Dilma até desembocar no cenário deste fim de semana 

Presidente Dilma | Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Presidente Dilma | Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Elder Dias

O Jornal Opção é uma publicação semanal, cuja edição sai aos domingos. Por isso, quando a maior parte das pessoas estiver lendo este texto, seja impresso no papel ou visualizado na tela do computador ou do smartphone, o caso do impeachment vai ser, com trocadilho e tudo, voto vencido na Câmara dos Deputados.

Em tese, essa aprovação só deveria servir para enviar a mensagem ao Senado de que a matéria merece apreciação, para averiguação de crime de responsabilidade (o motivo pelo qual se pode, de fato, dar fim a um mandato presidencial). Caso os senadores julguem que o caso é de abrir investigação, o titular do cargo – a presidente Dilma Rousseff (PT) – é retirado por 180 dias. Para o trâmite, assume a condução dos trabalhos o ministro-chefe do Supremo Tribunal Federal (STF); no Planalto, sobe a rampa o vice Michel Temer (PMDB).

É uma trauma para a democracia, não há dúvida. Que, no entanto, não ocorre somente por um fator. Em termos políticos, tudo começa ainda em 2009, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolhe a ministra Dilma Rousseff, que nunca tinha disputado uma eleição, para ser sua sucessora. O fato de ser mulher pe­sou na escolha, mas, mesmo assim, o PT tinha então duas políticas bem experimentadas, a senadora Marina Silva e a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy. Talvez por entender que não fossem exatamente de seu grupo, Lula preferiu sua chefe da Casa Civil. Dilma se tornou, a partir de então, a “mãe do PAC”.

Com a economia do País batendo recordes, não foi complicado para o petista repassar a ela seu capital eleitoral. Em 2010, Dilma foi eleita e não foram poucos os que a tiveram como “o poste de Lula”. Talvez até o próprio acreditasse que poderia manipulá-la. Não foi o que aconteceu. Ela se impôs e governou a seu modo e, em um momento, Dilma chegou a índices superiores ao de seu antecessor. Era então considerada a “faxineira” do País, por retirar de suas pastas ministros herdados que eram suspeitos de corrupção.

Porém, a “marolinha” que Lula não sentiu em 2008 a atingiria, já forte, anos depois. Com a retração da China, a economia brasileira sentia o baque inicial. As manifestações de 2013, que começaram difusas e focadas na prestação de serviços públicos – especialmente o transporte –, deram uma guinada à direita e se converteram em algo totalmente diferente do inicialmente verificado: em vez de black blocs, o ano seguinte veria camisetas amarelas. Os adesivos “Fora Dilma e leve o PT junto”, de início raros e em picapes e automóveis mais caros, começaram a se popularizar.

A batalha pela reeleição, contra o senador Aécio Neves (PSDB), por um momento pareceu perdida. Dilma ganhou, por pouco. Mas o País já estava radicalmente dividido. Sua vitória foi seguida de uma histérica recusa da derrota por certos setores da oposição e da população em geral. A eficiência da urna e­letrônica foi contestada pela primeira vez em quase 20 anos de seu uso. A Operação Lava Jato, que já começara a fazer estragos na imagem do governo durante a campanha, decolou de vez e o juiz Sérgio Moro se tornou a estrela de 2015.

Mas, no início do ano passado, um outro fator seria ainda mais crucial para a via-crúcis de Dilma Rousseff: a vitória de Eduardo Cu­nha (PMDB-RJ) à presidência da Câmara dos Deputados. Em meio ao ajuste fiscal que o governo se imporia como necessário pa­ra superar o avanço da crise, o peemedebista impôs pautas-bombas e populistas que teriam dois e­feitos: desgastar ou desmoralizar o governo diante da opinião pública; e trazer mais despesas ao erário.

Neste ponto, Dilma cometeu um erro grave. Ou, talvez seja melhor dizer assim, deixou de dar uma cartada difícil, mas extremamente necessária: chamar a única pessoa que poderia, naquele momento, fazer frente a Cunha para que ela não perdesse a batalha no Con­gresso – seu antecessor Lula. A habilidade política do ex-sindicalista poderia ter feito a diferença? É bem provável que sim.

Enquanto isso, duas crises — a econômica e a ética — nutriam e desenvolviam uma terceira, a crise política. Os codinomes “petralha” e “coxinha” passaram a fazer parte do dia a dia dos cidadãos e, como havia muito tempo não acontecia, as conversas sobre política invadiram os botecos, as resenhas pós-pelada, os papos depois da missa ou do culto. O termo “pedalada fiscal” se popularizou e, mais, se tornou motivo de pedidos de impeachment, que se sucederam nas mãos de Eduardo Cunha. Este, apesar de emparedado por múltiplas denúncias na Lava Jato e por mentir em depoimento ao dizer não ter contas no exterior, manobrava todo o processo. Finalmente, em dezembro, ele aceitou um dos 37 pedidos.

Veio o fim do ano e dois meses de relativa folga para o governo, embora Moro e sua Lava Jato continuassem a fazer estragos. Em março, explodiu a que parecia ser a principal bomba do juiz de Curitiba: a condução coercitiva do ex-presidente Lula pegou o mundo político de surpresa. Ele depôs no posto da Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas, suspeito de esconder patrimônio – um sítio em Atibaia (SP) e um tríplex no Guarujá (SP).

O governo se assustou. A prisão de Lula parecia iminente, assim como a ameaça do impe­achment se tornava aterradora. Talvez tentando matar dois coelhos com uma cajadada só, Dilma Rousseff, um ano mais tarde do que deveria, anunciou Lula como ministro-chefe da Casa Civil. Na prática, Lula tomaria o poder. Mas havia um áudio no meio do caminho. Poucas horas depois, o juiz Sérgio Moro liberava o sigilo da 26ª fase da Operação Lava Jato, que continha uma fala da presidente naquela tarde: pedia para Lula assinar o termo de posse para usar “se fosse necessário”. Este e outros áudios – com Lula se dirigindo a ministros e outras pessoas – subiram o clamor público pró-impeachment aos maiores níveis já observados.

E assim chegou abril. As redes sociais focaram o tema como nunca. A imprensa de grande alcance mostrou claramente um posicionamento favorável ao impeachment. Os deputados ficaram acuados diante da pressão popular e da mídia, que instalou placares virtuais sobre os votos de cada parlamentar (prós, contras e indecisos). O resultado, seja ele qual venha a ser, deixa como saldo: uma etapa “pró-forma” do impeachment no Senado; um País dividido; alguém combalido na Presidência e a necessidade de união política para reverter o quadro da grave crise. l

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