O que faz do ex-presidente petista liderança inabalável nas pesquisas

Mesmo depois de seis anos e meio de quando deixou o cargo após dois mandatos e alvo de cinco processos na Justiça, três deles oriundos das investigações da Lava Jato, ex-metalúrgico pernambucano mantém força

Lula, mesmo com o desgaste causado por processos e o impeachment de sua sucessora, mantém figura de liderança | Foto: Lula Marques/Agência PT

Augusto Diniz

Mesmo com 46% de rejeição, de acordo com a última pesquisa presidencial realizada pelo instituto Datafolha e publicada pela “Folha de S.Paulo” na segunda-feira, 26, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou apenas Lula, lidera com 30% e 29% das intenções de votos em todos os cinco cenários de disputa apresentados em que o petista aparece de oito diferentes no levantamento. “Os que o escolhem comparam o ex-presidente Lula com outros governos e dão a ele esse recall mesmo com os problemas enfrentados por Lula nos últimos anos”, analisa o cientista político Malco Camargos, professor da Pontifícia Uni­versidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG).

Com 71 anos, Lula, caso seja pré-candidato a presidente da República em 2018, terá perto de seu aniversário de 73 anos ao final da campanha eleitoral. O maior líder hoje dentro do Partido dos Trabalhadores faz aniversário no dia 27 de outubro. Dois dias depois de completar 66 anos, Lula descobriu um câncer na laringe, que foi tratado até fevereiro de 2012. Além disso, o petista deixou o cargo de presidente há seis anos e meio e é alvo de cinco processos judiciais, três deles ligados às investigações da Operação Lava Jato.

Cientista político Malco Camargos: “Eleitor compara Lula a governos Dilma e Temer ao declarar preferência” | Foto: Reprodução/Facebook

As acusações contra Lula são por corrupção ativa, lavagem de dinheiro, organização criminosa, tráfico de influência e tentativa de obstrução das investigações da Lava Jato. “Os dados das últimas pesquisas não significam que essa vantagem vai permanecer. Neste momento, eles servem mais para a formatação da estratégia dos partidos na busca para aglutinar outros partidos em um projeto para 2018”, observa Malco. O cientista político lembra que, pelos processos contra Lula, há também a possibilidade de o petista nem ser candidato. “Não quer dizer também que teremos os mesmos nomes que aparecem agora disputando o cargo de presidente.”

O médico e historiador Luís Mir mostra bastante ceticismo ao avaliar as pesquisas eleitorais realizadas nos últimos anos no Brasil. “Eu não conheço a metodologia e não confio nesses levantamentos.” Apesar das críticas à metodologia e como os resultados dessas pesquisas são apresentados, Mir diz que é compreensível uma “memória de uma pequena bonança econômica” e um “paliativo de distribuição de renda” que aconteceu nos dois governos de Lula. Pensamento comungado com o cientista político da PUC-MG, que vê na avaliação positiva dos mandatos do petista e dos primeiros quatro anos de sua sucessora, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), grande parte da preferência dos eleitores nos dados apresentados pelo Datafolha.

Para Mir, Lula nem os outros dois nomes que aparecem logo atrás do petista, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) e a ex-senadora Marina Silva (Rede), conseguem se firmar até 2018. “Lula é um homem com sérios problemas de saúde e não tem como enfrentar uma maratona eleitoral. E o que está posto até o momento depende do que acontecerá até a conclusão dos trabalhos da Lava Jato.”

O historiador afirma que os resultados das pesquisas não passam, nesse momento, de algo “hipotético e estratosférico”, já que não levam em conta as possíveis mudanças nas regras políticas e quais agentes podem ou não estar prestos até lá. “Não tem o menor senso ou base de realidade. A Lava Jato vai ser quem vai definir a legalidade e o formato de financiamento da campanha. Nenhum partido tem como dizer agora quem será o seu candidato pela situação policial-política que vivemos.”

Mir avalia que a liderança de Lula aponta para um recall eleitoral que não supera a casa dos 25%, o que até poderia colocá-lo no segundo turno, mas sem chance de ser eleito. “Ele perdeu a credibilidade em um Brasil enraivecido com a crise econômica e o desemprego que são frutos de 13 anos de barbárie do PT no poder.” Na visão do historiador, o petista deixou o cargo de presidente em 2011 para Dilma sem condições de governar. “Lula é uma liderança de um momento específico que passou”, considera.

Nova realidade

Os tempos teriam mudado, para Mir, com uma juventude mais conectada à internet e menos presa no sistema de representação político-partidário de forma tão ortodoxa. “E nesse sentido o método de pesquisas tradicional faliu. É temerário pensar em Lula candidato.” Um país quebrado, com a dívida pública que beira condições impagáveis. Essa é situação vista pelo historiador ao vislumbrar a recuperação da economia brasileira, se ela acontecer, daqui no mínimo 20 anos. “Temos R$ 354 bilhões de renúncia fiscal e mais ou menos 14 milhões de desempregados. Como falar em aumento do poder de compra nessas condições?”, questiona Mir.

Historiador Luís Mir diz que Brasil precisa superar situação político-policial antes de discutir eleição | Foto: Reprodução/YouTube

O legado petista, na análise do historiador e crítico do PT, força a economia a tentar reagir para recuperar o que se perdeu, não mais avançar. “Nós temos duas realidades hoje: a real e a oficial. A real é enfrentada diariamente pela população. E a oficial é onde se encontram Lula, (Michel) Temer e os outros políticos.” Mir vê o governo Temer como acabado em um país à deriva, no qual o presidente acredita que ainda manda em alguma coisa. “É justamente nesse cenário que surgem esses 25% do Lula nas pesquisas, dos que estão irritados com os governos Dilma e Temer.”

Enquanto o governo federal corta R$ 147 bilhões de seu orçamento, a taxa de investimento beira a taxa zero. “Mesmo com essas condições, Lula não representa mais uma liderança nacional. Ele ainda é o líder de determinadas classes sociais e profissionais.” Mir completa sua análise ao dizer acreditar que a pena que será dada a Lula em uma possível condenação passará de 20 anos de prisão.

Com ou se a condenação de Lula, o historiador se mostra pessimista ao observar o momento político nacional. “Depois de 30 anos de democracia, o sistema de representação política por meio de partidos faliu.” Mir afirma que a solução poderia vir de duas formas. Uma delas seria a convocação de uma nova assembleia constituinte para a elaboração de uma Constituição Federal que fosse levada a sério. “Ou nós passamos a levar a que nós temos a sério, o que eu acredito ser o ideal. Colocar a Constituição Federal em vigor é confirmar que não se inventa mais a roda e o fogo. É preciso regulamentar essa Constituição.”

Para Mir, é inaceitável conviver com uma Constituição que recebeu mais de 140 emendas desde sua promulgação em 1988. “Sempre que há alguma perda de privilégios se emenda a Constituição com um monte de PECs (Propostas de Emenda à Constituição).” Com ou sem tentativa de manutenção de privilégio ou busca de um projeto de poder, o historiador diz que “qualquer candidatura a presidente ou prognóstico que se tente fazer agora sem levar em consideração o término da Lava Jato é mero chute”.

“Lula encerrou seu governo como o mais bem sucedido presidente da história”

Enquanto parte da população transformou Lula em uma caricatura personalizada em um boneco vestido de presidiário chamado Pixuleco, vendido a R$ 20 pela internet, outro grupo de pessoas passou a deixar mais do que pública sua simpatia ao nome do ex-presidente petista. Se de um lado ele é tratado como bandido, do outro a referência se torna grito com “Lula ladrão/Roubou meu coração” e “Lula guerreiro/Do povo brasileiro”.

De acordo com o cientista político Bruno Wanderley, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é preciso lembrar que há sete anos Lula foi capaz de eleger Dilma sua sucessora, uma política que nunca havia ocupado qualquer cargo eletivo antes na carreira. “Lula encerrou oito anos de governo como o mais bem sucedido da história”, destaca.

Desde que saiu do cargo, o ex-presidente tem sofrido com o que Bruno chama de um bombardeio que causou uma baixa em sua boa imagem. “Esse bombardeio se dissipou a partir do momento que outros partidos e personalidades políticas começaram a ter seus nomes envolvidos com escândalos de corrupção. A própria velha guarda do PMDB aparece mais evolvida do que outros partidos nos esquemas noticiados.”

Quando o senador Aécio Neves (PSDB), que foi liberado pelo ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), a reassumir seu cargo após afastamento pelo também ministro Edson Fachin, além da divulgação e pedido de abertura de inquérito contra o presidente Michel Temer (PMDB) por corrupção, Lula passa a não ser o único exposto a críticas. “As pessoas começam a comentar ‘no tempo dele a situação estava melhor’”, relata o cientista político.

Com isso, Bruno diz que aquele pico de rejeição que Lula começou a enfrentar, principalmente durante o processo de impeachment de Dilma, passa a diminuir em um cenário de partidos e políticos desgastados junto à opinião pública. “A economia e a política vão mal no cenário pós-impedimento. E isso afeta a imagem do PSDB também, que dá sustentação ao governo Temer.” Mesmo com a imagem arranhada, Lula consegue manter parte do legado simbólico construído em oito anos de mandato como presidente.

“O custo político das denúncias e protestos contra Lula foi alto para a sua imagem política. Mais isso começa a ser socializado.” Ao colocar Lula e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) como os dois melhores presidentes que o Brasil já teve, o professor da UFMG lembra que o petista deixou o poder como um nome “inconteste da política nacional”. “O PT agora está em baixa, mas ainda tem muita lenha para queimar. E se soma a isso o fato de a maior parte do mundo sindical e das associações civis terem ligação com o partido.”

De acordo com Bruno, a liderança de Lula nas pesquisas eleitorais que analisam o cenário dos pré-candidatos em 2018 mostra não um fenômeno isolado, mas uma volta à normalidade no alinhamento da opinião pública. “Isso acontece também porque os adversários do PT chegam ao poder e não consegue inaugurar uma nova Era de Aquarius no governo.” Aliado a isso, o cientista político aponta que as provas apresentadas contra Lula nos processos judiciais que enfrenta parecem muito mais indiretas e subjetivas do que cabais como em outros casos, como nas gravações de Temer e Aécio.

Cientista político Bruno Wanderley: “Lula é uma grande liderança nacional” | Foto; Reprodução/Facebook

O professor da UFMG avalia que o cenário pode mudar a qualquer momento e que a prisão de Lula não pode ser descartada, apesar de acreditar mais em uma condenação que impeça o petista de disputar a eleição de 2018 do que em uma detenção. “Nós temos um fato positivo que é uma investigação sendo levada a sério pelo Judiciário. O único problema até o momento está na fragilidade das provas utilizadas para condenação em alguns casos, como na revisão do julgamento de Vaccari Neto (ex-tesoureiro do PT).”

Há uma preocupação de que as doações legais, dentro do caixa um, passem a ser usadas como prova na condenação de políticos, alerta Bruno. “O que não pode acontecer é que candidatos comecem a ser impugnados do nada, sem qualquer comprovação material de crimes cometidos. O Ministério Público não pode se tornar um órgão que trabalha para tentar achar provas contra os figurões da política.” Por se tratar de políticos, o cientista político diz que o Judiciário precisa ser técnico em suas decisões. “Não podemos correr o risco de ter um sistema político desestruturado. O reflexo disso seria a violência nas ruas. E nós já estamos caminhando para isso acontecer”, declara.

Na visão do professor da UFMG, cabe ao Ministério Público denunciar crimes, não fazer diagnóstico, o que configuraria a instrumentalização dos casos investigados. “O perigo é a população começar a achar que há influência política nas condenações. Isso gera um sintoma de irritação, causado pela polarização.” Bruno diz que é preciso que as pessoas parem de criar heróis e bandidos para explicar a corrupção no Brasil. “A sociedade não sofre nas mãos de uma categoria política difusa do resto e corrupta em sua formação, os políticos são formados por essa sociedade. Se o sistema político vai mal, isso é um reflexo de nós enquanto sociedade.”

O cientista político critica as regras de financiamento de campanha, que, por serem ruins, abrem a possibilidade de os políticos eleitos representarem seus financiadores e não a população que os elegeu.

Identificação

Quando há uma tentativa de identificar de onde vem o maior apoio de Lula nas pesquisas, Bruno afirma que a simpatia ao nome do ex-presidente vem mais da região Nordeste do que do Sul do País e daqueles mais pobres do que a classe B. “A classe B paga o pedágio da distribuição de renda e da redução das desigualdades”. Apesar de não figurar entre a elite, a classe B, ou classe média, tem seu padrão de consumo e poder aquisitivo afetado com a melhora de vida das camadas mais pobres da sociedade, explica o cientista político.

“Houve uma hostilidade profunda contra o Lula que vem do acúmulo da perda do rendimento das poupanças, que era alto, desde a introdução do Plano Real, no governo FHC, e com os governos do petista, que fizeram a classe B perder de novo seu poder econômico. Com 13 anos de PT à frente do governo, essa classe B, que sempre votou na oposição, fica ainda mais furiosa.” Por isso Bruno aponta que, caso haja a possibilidade de vitória de Lula nas eleições em 2018, o clima enfrentado pelo ex-presidente será de tensão.

Quando assumiu a presidência em 2003, a dúvida era se Lula daria conta de governar o País. “Ele precisava não ser um desastre, não ser pior do que os outros.” De acordo com o professor da UFMG, o perfil do petista tem uma identificação com o do brasileiro médio. Bruno cita o exemplo do motorista de ônibus que mora na periferia de São Paulo com baixa infraestrutura e oferta de serviços públicos. “Lula poderia ter sido um presidente desastroso. Ele enfrentou o desastre com a crise do Mensalão (2005) e poderia ter se perdido, mas se saiu muito bem.”

Outro exemplo citado pelo cientista político é o de quando Lula visitou as obras realizadas na UFMG durante o governo do petista, quando colocou o capacete de um dos operários e tirou fotos com os trabalhadores. “Se qualquer outro político tentar fazer o mesmo vai soar bastante ridículo. Pelo fato de o Lula ser um semi-analfabeto, metalúrgico, que veio do povo, a identificação é automática.” De acordo com Bruno, isso se torna um ativo importante que legitima o sistema político, já que antes parecia coisa de outro planeta ter alguém do povão ocupando um cargo público de relevância. “Mas é claro que isso se perdeu com as investigações, que atingiram fortemente a imagem de Lula”, observa.

Somado ao baque sofrido pelas denúncias contra Lula, veio o que Bruno define como o “desastrado governo Dilma”, que trouxe uma dívida eleitoral ruim para o ex-presidente. “Toda paisagem se deteriora na gestão Dilma, com sua equivocada política econômica.” O que existe hoje é tratado pelo cientista político como uma possível “saudade afetiva” dos dois mandatos de Lula, quando o governo “tinha horizonte e sabia o que fazer”. “Se a Dilma ainda fosse presidente, o noticiário continuaria a ter como foco o PT, o que tiraria qualquer chance de Lula voltar a ser eleito presidente.”

Há o legado simbólico, da empatia natural entre o brasileiro médio e Lula, além do que Bruno chama de legado material. “Nunca antes a população se sentiu tão identificada com um presidente. E o Lula soube canalizar renda para a base da pirâmide.” Ele afirma que nada impediria o governo FHC de criar um programa como o Bolsa Família, mas que foi Lula quem assumiu uma agenda de programas assistenciais necessários e que atendiam a agenda neoliberal do mercado.

“Quando Lula assumiu, grande parte dos programas nessa área foi interrompida. A distribuição de cestas básicas, como acontecia no início do Fome Zero, leva à falência as vendas locais, o comércio do bairro. Com o Bolsa Família, o dinheiro gera distribuição de renda e movimenta o mercado.” O cientista político lembra que, enquanto o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, na época presidente do Banco Central, mantinha os juros altos, os gastos eram mantidos no limite com situação fiscal controlada. “Houve valorização do salário mínimo, a criação de programas de incentivo e financiamento estudantil, como o Prouni, o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o Bolsa Família.”

Enquanto Lula era “cauteloso no atacado e agressivo no varejo”, segundo Bruno, Dilma adotou a política de fazer gastos sem a devida contenção fiscal, apesar de ter recebido diversos alertas de que isso não daria bom resultado. “Isso produziu uma conta muito alta para a população, que sofre os prejuízos disso hoje.” Esse saldo negativo precisará ser enfrentado pelo PT nas próximas eleições em um quadro político de “grandes incertezas”.

Ao final do governo Lula, a aprovação do petista chegou a 83% em outubro de 2010. “O pedágio por ser o fiador de Dilma em suas duas eleições será cobrado de Lula.” Bruno vê o PT mais subordinado a Lula do que devia. “Há certo descolamento da imagem de Lula do PT ao mesmo tempo em que há uma transferência da liderança do ex-presidente ao partido. E o PT vai reivindicar o legado de Lula por muito tempo.”

Sobre 2018, para Bruno o que não falta a Lula é experiência e energia. “É um político que disputou cinco campanhas para presidente, venceu duas e levou a Dilma nas costas outras duas vezes. Com tudo que aconteceu nos últimos anos, Lula deve estar com muita vontade de concorrer ao cargo novamente.” De acordo com o cientista político, mesmo o fato de o petista estar “no fim em certo sentido” não o tira da corrida eleitoral. “A exposição negativa certamente dói muito e deve provocá-lo bastante”, pontua.

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