O que esperar da Copa da Rússia?

Já estão conhecidos os 32 classificados para este mundial que promete muito mais do que só futebol

A Copa do Mundo em 2018 tende a ser utilizada como propaganda por Vladimir Putin para promover a Rússia

A vitória do Peru por 2 a 0 contra a Nova Zelândia na noite da quarta-feira, 15, selou a última vaga em disputa para a Copa do Mundo da Rússia em 2018. Com os 32 classificados conhecidos, o mundial se torna cada vez mais próximo e, assim, os debates acerca dos favoritos a conquistá-lo ganham espaço na mídia esportiva.

Da América do Sul, o Brasil, o primeiro país a se classificar, e a Argentina, do craque Lionel Messi, estão entre os mais cotados. Da Europa, a última campeã Alemanha, a atual campeã europeia Portugal, a consistente Espanha, a eterna promessa Bélgica e as jovens gerações da França e da Inglaterra são as principais apostas.

Nenhuma seleção fora do eixo América do Sul-Europa venceu uma Copa do Mundo. Em 2018, a história não deve ser alterada. Porém, como este mundial promete muito mais do que só futebol, é preciso voltar os olhos para os países de centros não tão reconhecidos futebolisticamente que estarão presentes na Rússia.

Primeiro, a própria Rússia de Vladimir Putin, que sediou as Olimpíadas de Inverno de 2014 em Sóchi em meio à crise na Ucrânia, fazendo com que a chanceler alemã, Angela Merkel, o ex-presidente francês François Hollande e a ex-vice-presidente da Comissão Europeia Viviane Reding boicotassem a competição devido à situação na Crimeia.

Eventos esportivos costumam ser utilizados como uma espécie de propaganda dos países que os sediam. Mais do que isso, de seus governos. Foi assim, por exemplo, nas Olimpíadas de 1936 em Berlim durante o período da Alemanha nazista e na Copa do Mundo de 1978 na Argentina do ditador Jorge Rafael Videla.

Longe de querer comparar o governo de Putin com o nazismo na Alemanha e a ditadura na Argentina, mas, em 2018, a Copa do Mundo também servirá para promover a Rússia. Sem chances de sair vitorioso dentro de campo, o país já venceu somente por sediá-la.

Com exceção de Ecaterimburgo, as outras 10 cidades-sedes do mundial estão localizadas na parte europeia da Rússia, sendo uma delas Kaliningrado, situada no exclave russo entre Polônia e Lituânia. Talvez só no Brasil seja feita uma Copa do Mundo com sedes tão distantes quanto Porto Alegre e Manaus – ou nos Estados Unidos, como foi em 1994 com Boston e São Francisco. De dimensões continentais, é compreensível que Vladivostok, quase na fronteira da Rússia com a Coreia do Norte, não receba partidas. Por outro lado, o fato de somente cidades ocidentais participarem da festa pode, eventualmente, demonstrar um ensaio de aproximação entre o governo russo e governos europeus, como o alemão, que expressa insatisfação com Donald Trump do outro lado do Atlântico e ainda depende muito do gás de Putin.

Geopolítica

De todos os classificados, certos países já travaram conflitos históricos, como Alemanha e França, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e Sérvia e Croácia, na guerra de independência croata (1991-1995). Contudo, levando-se em consideração as questões geopolíticas da atualidade, Arábia Saudita e Irã se tornam protagonistas na Copa da Rússia.

Os sauditas, representantes dos sunitas, e os iranianos, que, por sua vez, representam os xiitas, travam o que pode ser chamado de Guerra Fria do Oriente Médio. Ambos países buscam se consolidar como principal potência regional e financiam grupos opositores em conflitos locais, como na Síria e no Iêmen. Se uma partida entre eles vier a acontecer, o futebol jogado tende a ser deixado de lado, enquanto as análises no tocante aos aspectos geopolíticos devem se sobressair.

Copa islâmica

Além de Arábia Saudita e Irã, Nigéria, Senegal, Marrocos, Tunísia e Egito são outros classificados que possuem uma expressiva parcela de praticantes da religião islâmica. Na Arábia Saudita, 100% da população é muçulmana (excluindo os imigrantes). No Irã, 99,4%. Na Tunísia, 99,1%. No Marrocos, 99%. No Senegal, 95%. No Egito, 90%. Por fim, na Nigéria, 50%. Isso sem contar muçulmanos que integram elencos de outras seleções, como os alemães Mesut Özil e Sami Khedira.

Na Copa do Mundo do Brasil em 2014, essa quantidade era bem menor. À época, chamou a atenção a questão do Ramadã, o mês sagrado em que os muçulmanos jejuam do nascer ao pôr do sol, ter caído justamente durante a realização do torneio. Em 2018, os muçulmanos não terão com o que se preocupar, uma vez que o Ramadã termina em 14 de junho, exatamente no dia da abertura da Copa – há esta variação de data porque o islamismo segue o calendário lunar e, portanto, os meses de um ano não são os mesmos do próximo.

Terrorismo

Um evento global como uma Copa do Mundo, reunindo delegações e turistas de inúmeros países, causa preocupação nas autoridades em razão de ameaças terroristas, assim como ocorreu na Copa do Brasil em 2014 e nas Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016.

Na Síria, existem duas grandes coalizões que lutam contra o autoproclamado Estado Islâmico (EI). Uma delas é liderada pela Rússia, em apoio ao governo sírio, juntamente com o Irã e o Hezbollah (milícia xiita do Líbano). A fim de retaliar os bombardeios sofridos, o EI já prometeu, na internet, atacar o mundial, ameaçando, inclusive, Messi e Neymar.

Vale ressaltar que, em março deste ano, São Petersburgo foi vítima de um ataque terrorista no metrô que matou 11 pessoas e feriu dezenas. Um imigrante do Quirguistão, uma ex-república soviética, foi o autor do atentado. Além disso, a Rússia sofre diversas ameaças terroristas oriundas de separatistas da Chechênia, no sul do país.

Ausências

Os Estados Unidos boicotaram as Olimpíadas de 1980, cuja sede foi a extinta União Soviética. Desta vez, os estadunidenses fracassaram em se classificar no hexagonal final das eliminatórias da América do Norte e Central, dando espaço para times inexpressivos, como o estreante Panamá. Do ponto de vista político, a Copa da Rússia perde com a ausência dos EUA. Do futebolístico, nem tanto.

Outra ausência sentida será a da Síria, que protagonizou uma campanha surpreendente nas eliminatórias classificando-se para a repescagem asiática. O país que é assolado pela guerra desde 2011 acabou perdendo para a Austrália – que disputa competições da Fifa pela Ásia, apesar de estar geograficamente localizada na Oceania –, e desperdiçou a chance de debutar em Copas do Mundo justamente na Rússia, sua grande aliada geopolítica.

Em relação ao futebol, os maiores desfalques ficam por conta da Holanda, que foi eliminada na fase de grupos, e da Itália, que foi derrotada pela Suécia na repescagem europeia.

Os 32 classificados

ÁFRICA
Egito
Marrocos
Nigéria
Senegal
Tunísia

AMÉRICA DO NORTE E CENTRAL
Costa Rica
México
Panamá

AMÉRICA DO SUL
Argentina
Brasil
Colômbia
Peru
Uruguai

ÁSIA
Arábia Saudita
Austrália
Coreia do Sul
Irã
Japão

EUROPA
Alemanha
Bélgica
Croácia
Dinamarca
Espanha
França
Inglaterra
Islândia
Polônia
Portugal
Rússia
Sérvia
Suécia
Suíça

 

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