O nó é destravar a economia

Peemedebista precisa superar o impasse político para dar condição ao País de começar a voltar a crescer em 2017

Economista Pérsio Arida: “País precisa ter crescimento de pelo menos 1,5% para gerar e recuperar empregos” | Foto: Divulgação

Economista Pérsio Arida: “País precisa ter crescimento de pelo menos 1,5% para gerar e recuperar empregos” | Foto: Divulgação

Cezar Santos

São vários os indicadores da crise econômica pela qual passa o Brasil, mas ela pode ser expressa de forma mais evidente no desemprego. Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 12 milhões de desocupados no país. Há poucos dias, o governador Marconi Perillo (PSDB) relatou uma conversa que teve com o economista paulistano Pérsio Arida. Segundo o tucano, Arida — estudioso da inflação brasileira, um dos idealizadores do Plano Real e presidente do Banco Central do Brasil em 1995, no governo FHC — disse que o Brasil, para gerar novos empregos, precisa crescer, no mínimo, 1,5% ao ano.

É um índice apertado, mas o pa­tamar para que o País comece a gerar novos postos de trabalho e recuperar os que foram destruídos nos últimos anos sob a inépcia da política econômica de Dilma Rousseff, Guido Mantega e Arno Agustin.

A equipe econômica de Michel Temer, sob comando do ministro Henrique Meirelles (Fazenda), já percebeu que há um paredão na retomada do crescimento. Sob forte pressão política e empresarial, Meirelles e companhia saíram da atitude passiva, de apenas ajuste fiscal, e buscam saídas. Há poucos dias, lançou um pa­co­te de reformas microeconômicas, que embora necessárias e úteis, não é su­ficiente para retomar o crescimento.

O Brasil já passou por crises antes e procurou sair delas. Mas, diferentemente de outras retomadas do crescimento — em 1983-¬84, 1994-¬95 e 2003-¬04 — hoje faltam as condições externas e internas capazes de quebrar o círculo vicioso da recessão. Os “motores” do crescimento estão engripados, quando não patinando em marcha à ré.

O consumo das famílias, por exemplo, principal componente do PIB (60%), caiu drasticamente em 2015 (-4%) e continuou caindo em 2016 (¬-5%), sem expectativa de reversão já que o desemprego continua subindo (1,5 milhão de vagas fechadas em 12 meses até outubro passado). Mais endividadas as famílias consomem menos.

Instalado o círculo vicioso da recessão, as estimativas para o desempenho da economia brasileira no ano que vem continuam em queda, reflexo da avaliação dominante de que a recuperação da atividade será lenta. Na semana passada, o “Valor” reportou que analistas ouvidos pelo Banco Central (BC) reduziram a projeção para a expansão de 2017 de 0,7% para 0,58% (em setembro, a projeção era de um avanço de 1,38%). Trata-se do nono recuo consecutivo, a despeito de o presidente do BC, Ilan Goldfajn, ter indicado que vai acelerar o ritmo de corte da taxa Selic a partir de janeiro.

O pessimismo em relação à retomada se deve especialmente à percepção de que o nível de endividamento das empresas e das famílias afeta as perspectivas para o consumo e o investimento. Muitos operadores do mercado acreditam em variação zero e outros ainda preveem nova contração do Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem, ainda que pequena, de -0,2%. Para este ano, os economistas ouvidos pelo BC esperam uma retração da economia de 3,48%.

A retração da economia no terceiro trimestre e os indicadores ruins referentes a outubro e novembro dão razão a quem projete um 2017 ruim. Os números do ano que está findando indicam que a dificuldade para a recuperação é maior do que se pensava. Há quem projete uma expansão do PIB de apenas 0,2% no ano que vem. Longe, muito longe, dos 1,5% de crescimento que Pérsio Arida disse ao Marconi ser o ideal para começar a recuperação dos empregos.

O problema maior, segundo analistas, é que o alto endividamento de consumidores e empresas tem pesado sobre a atividade, assim como a forte deterioração do mercado de trabalho. O desemprego, por exemplo, tem subido com força. Atingiu 11,8% nos três meses encerrados em outubro.

Nesse cenário, nem mesmo a indicação do comandante do BC, Ilan Goldfajn, de que o ritmo de corte da Selic deverá ser intensificado a partir de 2017, não dá muito alento para reverter a tendência de redução das projeções para o crescimento no ano que vem. A análise é de que o BC fez o que restava fazer, não tinha alternativa.

“Do ponto de vista de gestão, governo Temer está primoroso”

Mas, afinal, o governo Temer não está fazendo o dever de casa para a recuperação da economia? Henrique Meirelles e seus comandados estão conseguindo abrir perspectivas para que a economia comece a recuperar força?

O que o governo federal deve fa­zer para que 2017 seja melhor que 2016, ou, pelo menos, não seja tão ruim?

Ana Carla Abrão: “É grande o nível de competência gerencial neste governo” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Ana Carla Abrão: “É grande o nível de competência gerencial neste governo” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

A economista Ana Carla Abrão Costa, que reúne a experiência no se­tor privado e na gestão pública como atual secretária da Fazenda de Goiás, prefere não entrar na seara política para analisar a gestão de Michel Temer, mas afirma que, no campo técnico, o peemedebista está fazendo uma agenda “fantástica”, tanto na área econômica quanto em áreas do Ministério de Minas e Energia. “Veja o que está acontecendo com a Eletrobrás, com a Petro­brás, o nível de competência gerencial neste governo nós não víamos há muitos e muitos anos (com ênfase), desde o governo Fernando Henrique.”

Segundo Ana Carla, do ponto de vista de gestão, o governo Temer está primoroso, mesmo porque montou uma equipe de alto nível para comandar a política econômica. O problema, diz ela, é que as outras incertezas — políticas, principalmente — estão contribuindo para que essa capacidade gerencial e de trazer soluções não se traduzam em resultados, ou se traduzam em resultados menores do que o que haveria num ambiente de estabilidade econômica e política.

“Precisa tirar a incerteza do cenário, tanto na economia quanto na política. A crise é grave, claro, e não se pode esperar que numa crise dessa magnitude as coisas vão se resolver do dia para a noite”, diz a secretária. Lembra ela que, efetivamente, a recuperação é mais lenta na medida em que a incerteza permeia o cenário.

Ana Carla enfatiza que a questão fiscal é a agenda mais relevante. “Tem de tirar de frente a questão fiscal. A PEC dos gastos, a reforma da Previdência e a solução para os Estados fazem parte de uma agenda imprescindível para tirar essa enorme incerteza que paira hoje sobre a capacidade da economia não colapsar.”

Ela lembra que, no campo político, a variável é muito mais complicada, porque não depende de gestão e sim de outros fatores, que vão desde a capacidade de articulação do governo até aos efeitos da Lava Jato. “Mas se focarmos em reduzir as incertezas no campo econômico, e a agenda dos Estados é parte importante desse processo, conseguiremos resultados mais rápidos e concretos do que até agora.”

Infraestrutura
O ponto principal, segundo Ana Carla, é que a capacidade do Estado —União, Estados e municípios — está completamente comprometida. Então, afirma, é preciso atrair investimentos privados.” E aí, mais uma vez, só se atrai investimentos privados reduzindo o grau de incerteza. Empresas não investem numa situação em que elas não sabem se amanhã o colapso chega. Veja se alguma empresa vai investir no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, no Rio Grande do Sul?”

A secretária pontua que qualquer decisão de investir passa pela situação local, porque o investimento é feito fisicamente em algum Estado. “Então a crise dos Estados mina a capacidade de atrair investimentos privados. Veja o caso de Goiás, que conseguiu atrair investimento na Celg, de R$ 8 bilhões, graças ao fato de estar arrumado, ter feito seu ajuste, estar com as contas em dia. Se a Celg estivesse baseada no Rio de Janeiro, alguém iria comprá-la?”

Ela resume o postulado de que, para alavancar o investimento, tem de atrair investidores privados e haver estabilidade econômica em relação à sustentabilidade fiscal de todos os entes federados.

Razão para otimismo

Deputado federal Giuseppe Vecci: “O governo vem fazendo as reformas que precisa” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Deputado federal Giuseppe Vecci: “O governo vem fazendo as reformas que precisa” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

O economista e deputado federal Giuseppe Vecci (PSDB) diz que há razão para otimismo em 2017. Ele lembra que o País enfrenta não só uma crise política, mas também econômica. Mas, afirma, o governo Temer já tem coisas positivas para apresentar, como a queda da inflação, o começo de uma queda dos juros, o que é importante para a economia em geral. A tendência para alguns setores é de crescimento para daqui a um ano.

Outro motivo para otimismo, segundo Vecci, é que o governo vem fazendo reformas, dentro do possível, e tem aprovado medidas importantes. “Houve uma descrença no País, mas o governo Temer, apesar dos pesares, está fazendo seu dever, a PEC do Teto, a reforma da Previ­dência. A reforma tributária deve ser apresentada logo, eu faço parte da comissão e pela primeira vez, acredito que vamos ter condição de aprovar isso.”

Vecci diz que na questão de flexibilização é preciso abrir mais o país, para melhorar a inovação, a competitividade. É preciso, defende, repactuar o estoque de dívida do País, não no sentido de fazer auditoria, mas repactuar mesmo o porcentual do orçamento que é destinado ao pagamento de juros, que é muito grande, aí nos 42%.

Do ponto de vista político, Giu­sep­pe Vecci diz que a Lava Jato e o Ju­diciário tensionado podem ser complicadores e atrapalharem a economia. “Mas, se conseguirmos passar por isso, a economia deslancha. Toda essa raiva, esse inconformismo dos brasileiros, tem a ver com a economia, entre outros fatores, é claro. Vejo para 2017 uma sinalização melhor do que foi neste ano. Há uma perspectiva melhor para avançarmos.”

O deputado lembra, porém, que as pessoas protestam contra a reforma da Previdência, contra a PEC do Teto. “Isso é doído mesmo, porque todo o conjunto de reforma a serem feitas, acaba recaindo sobre o servidor público, que de forma mais ampla, comparativamente com a inciativa privada, teve mais ganhos ao longo de décadas. Também na questão da Previdência há perdas. Mas não tem jeito, como vai fazer? Sem essas reformas não vamos sair de um impasse que vem há muitos anos. Essas reformas têm de ser feitas para melhorar o ambiente como um todo, destravar a economia, dar ganho de produtividade ao país.”

Sobre investimento em infraestrutura, Vecci afirma que é fundamental a lei das concessões, que está atrasada, mas está caminhando para ser apresentada. É fundamental chamar a iniciativa privada no interesse público para fazer os grandes investimentos em infraestrutura.
Segundo ele, é preciso agora criar condições de atração do capital privado, não só o nacional, mas também o internacional, para fazer as grandes obras que o País precisa, como rodovias, portos, ferrovias e outras. Lembra que há anos não há investimentos nessa área. “A verdade é que o governo não tem poupança para fazer aportes financeiros em infraestrutura. Os governos de forma geral estão todos com déficit. Para retomar o nível de investimento, vai ter de chamar mesmo o capital privado, em concessões, parcerias, alianças, abertura de mercados, para sairmos da estagnação em que estamos.”

Vecci diz que não adianta a grita ideológica contra o capital internacional. “A China faz isso, os países do Oriente estão fazendo, nossos vizinhos da América do Sul fazem tratados comerciais com outros países. Tudo isso forma um somatório para, do ponto de vista macroeconômico, avançarmos.”

O deputado lembra que o governo Temer viu agora que não dá para ficar só com ajuste fiscal. “Essas medidas de microeconomia que foram tomadas agora, espero que sejam o início para a saída do marasmo. Mas precisava avançar mais nessas medidas, muito mais, para darmos suporte às pessoas de baixa renda que querem empreender.”

“Medidas econômicas sustentáveis darão legitimidade ao governo”

Fernando Navarrete: “Escândalo de corrupção tem enfraquecido o atual governo” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Fernando Navarrete: “Escândalo de corrupção tem enfraquecido o atual governo” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Legitimidade é a palavra-chave para um 2017 melhor que 2016, segundo o presidente da Celg D, o advogado Fernando Navarrete — que daqui a alguns dias substituirá Ana Carla Abrão na Secretaria da Fazenda. Segundo ele, é imprescindível que o governo federal consiga agregar à sua atuação um grau bem maior de legitimidade, quer pela implementação, na prática, de medidas econômicas sustentáveis e socialmente comprometidas, quer pelo resgate de um diálogo institucional verdadeiramente republicano, pautado no interesse público.

Navarrete faz uma inflexão no passado recente para justificar sua tese, ao lembrar que, em circunstâncias normais a consideração sobre um ano-novo melhor deveria prescindir da análise, conjunta, do “o que fazer” com o “quem fará”. Não é o caso brasileiro, diz.

Segundo ele, o ano de 2016, especialmente difícil no viés econômico-financeiro, foi particularmente dramático no contexto político-institucional. A conclusão do processo de impeachment da presidente Dilma, onde o pragmático e o constitucional se confundiram para além do razoável, acabou por provocar conflitos sérios, entre os poderes constituídos, desestabilizando ainda mais a economia e agravando as tensões sociais.

“Para piorar a situação, todas essas circunstâncias caminharam paralelamente à operação Lava Jato que, pelas revelações sobremaneira abrangentes de um escândalo de corrupção que parece não ter limites, tem enfraquecido o atual governo, cada vez mais impopular”, afirma.
Sobre a perspectiva de melhoras na economia, Fernando Navarrete vê dificuldades na atual política de juros que o governo vem praticando. “A crise atual é gravíssima, e é improvável falar em perspectiva de crescimento econômico com as taxas de juros atualmente praticadas no país.”

Ele defende investimentos em infraestrutura que podem ser decisivos para a retomada do crescimento. Em geral, aqueles que priorizem setores como transporte, saneamento, água, eletricidade e telecomunicações. Navarrete aplaude o ajuste fiscal e a reforma da Previdência, lembrando que são prioridades que devem ser enfrentadas. “Nisso, na escolha, o governo federal acertou.”

No aspecto regional, Fernando Navarrete afirma que Goiás está, certamente, em situação econômica melhor que a maioria dos demais Estados. Ele destaca as decisões tomadas pelo governo estadual ao final do ano de 2014, no viés de garantir um equilíbrio sustentável das contas públicas, apesar do limitado “arsenal” de que dispõem os Estados, diante do enorme poder hoje concentrado na União, fruto de um precário e mal construído “pacto federativo”.
Segundo ele, tão importante quanto reconhecer o ajuste iniciado há mais de dois anos é destacar que se hoje podemos enfrentar a crise em melhores condições é porque a economia goiana passou por um processo de modernização iniciado ao final dos anos 90. “Mas a crise chegou para nós também. E, uma vez mais, o governador se antecipa, propondo uma série de medidas estruturantes, que buscam soluções duradouras. A partir dessas medidas, o Estado pode viabilizar mais recursos e planejar melhor seus investimentos, na direção do crescimento econômico e do bem-estar social, além de propiciar aos demais poderes e às Instituições estabilidade para o desenvolvimento de suas ações.”

Empresários sofrem

Empresário Katsume Fujioka: “Agora o nosso desafio é para salvar a empresa” | Foto: Fernando Leite Jornal Opção

Empresário Katsume Fujioka: “Agora o nosso desafio é para salvar a empresa” | Foto: Fernando Leite Jornal Opção

O empresário Katsume Fujioka, diretor e um dos fundadores do Fujioka, uma gigante do ramo varejista goiano, não vê muitas razão para otimismo em 2017. Segundo ele, a briga política na qual o governo está enredado desvia o foco do que é realmente importante: a melhoria do emprego. Para isso, diz, é necessário condicionar a perspectiva de mais investimentos.
“Para nós empresários, estamos já há três anos em que a esperança de melhora acabou, e vivemos agora um momento em que os esforços são para salvar a empresa. Para nós goianos, não percebemos que em 2017 a situação vá melhorar, isso porque perdemos incentivos federal, estadual e municipal, e só aumentaram os custos, como energia. Fomos penalizados em todos os sentidos”, reclama.

Segundo Katsume, com o desemprego alto, não há perspectiva para o comércio. “Nós vendemos para o povo. Dou um exemplo claro: o Fujioka perdeu 30% de receitas em relação a dois anos atrás. Outro exemplo, agora nas promoções do Black Friday, perdemos 20% das vendas, porque o cliente tentou comprar, mas não tinha crédito. Chega a dar dó da pessoa que quer comprar, mas, na hora de pagar, o crédito não é aprovado.”

O empresário lembra que recente pesquisa mostra que 54% dos cartões de crédito no Brasil estão comprometidos com as dívidas. Isso significa que mais da metade dos brasileiros quer comprar e não pode por não ter crédito. “Vamos vender para quem? Não vejo perspectiva de melhora nesse quadro enquanto não melhorar a economia, não dá para fazer previsão nesse sentido. Estamos obrigados a baixar custo para sobreviver e tentar passar essa crise, esse é o nosso desafio hoje. Agora não se fala em crescer e melhorar a atividade, fala-se em salvar a empresa.”

Sobre o governo Temer, Katsume Fujioka acha que as medidas que ele está tomando só vão produzir efeitos em 2018. “Vamos enfrentar muitas dificuldades ainda em 2017, não há nenhuma expectativa de melhora. Em 2017 muita coisa ainda vai acontecer no mercado, muitas empresas já não têm recursos. Para nós empresários, o cenário no curto prazo é pessimista, infelizmente.”

Economista Jeferson de Castro Vieira: “Temos de estimular as privatizações” | Foto: Fernando Leite /Jornal Opção

Economista Jeferson de Castro Vieira: “Temos de estimular as privatizações” | Foto: Fernando Leite /Jornal Opção

O economista e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Jeferson de Castro Vieira, afirma que um ponto fundamental para dinamizar a economia brasileira seria estimular as privatizações, mas neste ano não foi feito nada nessa área, a não ser a Celg, em Goiás. Ele reclama que esquema de PPP (Parceria Público-Privada), agora PPI (Programa de Parcerias de Investimentos, lançado pelo governo Temer em setembro), os marcos regulatórios, até agora não andaram, porque o governo tem de deixar as regras bem claras. “Com isso, não termina a Ferrovia Norte-Sul, não terminam as duplicações de rodovias e outras obras. Isso continua travado.”

E na parte política estrita, diz, a insegurança jurídica que permeia o PPI é preocupante. Segundo Jeferson, o programa é interessante, ousado, mas colocado por ministro “contaminado”. A dúvida: qual a confiança que o mercado vai ter, que o investidor vai ter em fazer parceria com Moreira Franco (ministro citado na operação Lava Jato)? “A insegurança jurídica para o investidor já começa aí. Temer deveria tirar todos os ministros contaminados.”
Segundo o economista, um dos nós para destravar a economia é o político. “Em economia se trabalha com convicção, com segurança e com convencimento. Se o ministro que mexe com o principal programa de parcerias está contaminado, ele tem de ser tirado.”

Na questão de infraestrutura, para o imediato é necessário justamente que obras já começadas sejam concluídas. “Tem de colocar a Norte-Sul para funcionar e terminar as obras rodoviárias. Há que se rever todo o programa de concessões de aeroportos.”

Mesmo quando vê acertos nas medidas do governo Temer, Jeferson põe reparos. Ele diz, por exemplo, que a PEC do Teto é problemática por que só segura os gastos, não dá nenhuma perspectiva de crescimento. “Essa PEC não teve planejamento. Mexer só no orçamento é bobagem. Teria de definir os grandes investimentos a serem realizados e de onde seriam alocados os recursos.”

Ele também diz que não houve, até agora, nenhuma menção sobre a eficiência da máquina. No primeiro momento, afirma, a PEC vai piorar a situação do País. “O governo tem uma participação de 20% nos gastos, se der uma paulada como se está prevendo, sem definir os investimentos e prioridades, vai ser muito complicado. Está faltando sobretudo planejamento, essa é a dificuldade.”

Quanto a reforma da Previ­dência, é necessária, afirma, mas distorções graves. “Como o trabalhador vai começar a contribuir com 16 anos e ficar contribuindo por 49 anos? Isso vai piorar a desigualdade no Brasil, porque um trabalhador do Nordeste não é igual um trabalhador do Sul, do Sudoeste, as expectativas de vida são diferentes. Acho que aposentar com 65 anos é excessivo, tem de diminuir isso, não pode ser a ferro e fogo. A reforma é importante, mas não da forma que está proposta. Espero que isso seja mexido no Congresso.”
Jeferson lembra que o governo agora colocou uma série de medidas de microeconomia, mas ele entende que são muito tímidas para estimular a economia. “Mexe em alguma coisinha ali no comércio, outra aqui. Achei um pacote fraco, é preciso uma proposta mais robusta neste momento.”

Desburocratizar

Roberto Fernandes, do Sinduscon: “Presidente Temer tem de mandar as reformas logo” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Roberto Fernandes, do Sinduscon: “Presidente Temer tem de mandar as reformas logo” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Para Roberto Elias Fernandes, diretor do Sindicato da Indústria da Construção no Estado de Goiás (Sinduscon-GO), o governo Temer tem de aproveitar a “moral” que ele tem no Congresso e mandar as reformas. Segundo ele, por que toda reforma demanda um tempo. Então, ficar esperando aprovar a PEC do Teto pra entrar com a reforma da Previdência, espera aprovar a Previdência pra entrar com a trabalhista, a tributária, a fiscal vai demorar muito. “Periga acabar o governo de Michel Temer e ele não terá feito nada.”

Fernandes também defende a realização de microrreformas. “Num país como Brasil, de mais de 200 milhões de habitantes, ficar reconhecendo firma em cartórios, autenticando documentos, pagar para alguém dizer que aquele documento confere, é um atraso. O poder público é que tem de fazer isso, prefeituras, Estados. Gastamos muito dinheiro, perdemos tempo com burocracia que nada contribui com o setor produtivo.”

A validade de diminuir a burocracia, acabar com autenticação em documentos seria um novo começo para o Brasil, afirma Fernandes. “O empreendedor sofre muito com isso e o governo é uma grande trava para o empresariado. Cabe à Presidência da República simplificar a vida da população. Temer pode passar para a história se fizer isso. Simplificar a abertura e fechamento de empresas, o pagamento de tributos e concentrar esses tributos, é tanta coisa, INSS, PIS, Cofins, contribuição social… Nos Estados Unidos vem o valor do imposto, o governo arrecada aquilo e distribui, de forma simples. Nós precisamos de simplificação em todas as áreas, principalmente na tributária.”

Agro quer melhores rodovias

Setor que tem “segurado as pontas” da economia brasileira, o agronegócio também tem seus pleitos, queixas e perspectivas para 2017. Tasso José Jayme, presidente da Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA), faz questão de reforçar essa realidade. Ele diz que se não fossem as exportações do agro, a balança comercial brasileira teria sido uma catástrofe. Também na geração de empregos, o agro talvez seja o único setor que continua empregando, mesmo nessa crise dos últimos dois anos. “O registro de carteira assinada no setor agroindustrial vem se mantendo no País.”

Segundo Tasso Jayme, o que o governo precisa fazer urgentemente é baixar a alta taxa de juro, que vem inibindo a economia. Segundo ele, as operações de crédito ficaram praticamente inviáveis, o crédito está muito escasso, o que derruba o consumo. O governo precisa abrir um pouquinho a torneira do crédito, afirma.

Tasso lembra que o governo já conseguiu reduzir a inflação, trazendo o índice para o teto da meta, o que é muito positivo. “O ministro Henrique Meirelles tem acertado, mas acho que a dose de remédio (contra a inflação) está muito forte, e agora já pode botar um pouquinho de sobremesa na mesa dos brasileiros. Uma taxa de juros menor é importantíssimo para melhorar a velocidade de recuperação da economia.”

Infraestrutura
O presidente da SGPA diz que é preciso que o governo dedique mais atenção às estradas do País. “Goiás vive uma situação atípica nessa área, uma vez que o governo estadual olhou com muito carinho essa questão. Estrada boa é fundamental principalmente para escoarmos nossa produção agropecuária. No Brasil, isso tem nos penalizado muito, porque encarece o custo da nossa atividade, que tem de ser repassado para a população”, reclama.
Segundo Tasso Jayme, outro investimento que precisa ser priorizado pelo governo Temer é na educação. “País nenhum cresce sem investimento maciço na educação. Países de Primeiro Mundo tiveram como receita investir na qualificação dos professores, na construção de boas escolas e universidades.”

Também líder classista do agro, José Mário Schreiner, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) e vice-presidente da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), diz que a indefinição no quadro político e a corrupção desmedida precisam ser resolvidos urgentemente, para dar estabilidade na alavancagem da economia.
Ele cobra do governo a continuação do diálogo com o Congresso Nacional, as reformas tributária e previdenciária, as medidas de austeridade para que o Brasil consiga reverter o processo de estagnação em que se encontra.

Nesse contexto, diz Schreiner, é imperioso que o governo federal melhore a infraestrutura. Ele cita de pronto as ferrovias, que devem sair logo em forma de concessões, portos, rodovias, e de armazenagem e energia elétrica. O líder classista aplaude a recente privatização da Celg.
Ao fazer, no início da semana passada, um balanço da atividade agropecuária goiana em 2016, José Mário Schreiner falou das perspectivas do ano que se aproxima. Em meio a uma avalanche de números negativos, de um ciclo vicioso preocupante, amarrado no engate de uma crise política, ele afirmou que a agropecuária conseguiu superar suas dificuldades e se destacar como protagonista isolado.

Prova disso, é que o setor gerou mais de 6.797 empregos em Goiás. Schreiner levantou mais números positivos para mostrar que o Estado teve um bom desempenho, como exemplo, ele citou que a expectativa para o próximo ano é que haja um aumento de 25% na produção de grãos em Goiás, ultrapassando os 22 milhões de toneladas comparado a safra 2015/2016. Em destaque, ele ressaltou que é necessário que o produtor tenha mais austeridade, equilíbrio e atenção em 2017.

Segundo José Mário, o setor foi o único com saldo positivo de crescimento, muito beneficiado pela geração de empregos e pelo bom desempenho na balança comercial. Apesar disso, ele salientou que as razões para os números desfavoráveis do País são internas e múltiplas, entre elas estão queda de confiança, esgotamento de crescimento de consumo, incertezas da economia americana, quebra da safra, alta dívida pública, oscilações do governo e efeitos da Operação Lava Jato. José Mário falou também sobre a atual turbulência política e econômica do País, com endividamento do governo, das famílias e a quebra de safra em Goiás, considerada por ele a pior série da história.

Perspectivas
Quando se trata de riqueza de mercado goiano, o Ranking de Competitividade dos Estados de 2016 aponta Goiás em 12° lugar na competitividade entre as 27 unidades da Federação e a nona economia do País. A estimativa é que o PIB estadual feche em R$ 166 bilhões em 2016. Porém em um cenário tão preocupante, o setor da agropecuária também enfrentou dificuldades. Segundo ele, o crescimento esperado do PIB gira em torno de 2%, em 2017, o que reflete o baixo desempenho esperado pela agroindústria no próximo ano, a alta de jutos e o aumento do custo de produção e dos impostos dos governos federal e estadual foram apontados como principais gargalos de 2016. l

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