O crime do shopping: unindo o pior do homem primitivo e da era tecnológica

Dominado por um sistema em que a velocidade dos fatos o torna pouco mais do que um robô, o espectador de tragédias não tem por que sentir compaixão — a prima-irmã da empatia — pelas vítimas que transforma em notícia

A hiperexposição de tragédias na rede, como a que vitimou Juliana Paiva, é um sintoma de doença em uma sociedade que perdeu os filtros necessários para ter manter o básico de humanidade nas relações

A hiperexposição de tragédias na rede, como a que vitimou Juliana Paiva, é um sintoma de doença em
uma sociedade que perdeu os filtros necessários para ter manter o básico de humanidade nas relações

Elder Dias

A espécie humana sempre foi curiosa por natureza. E esta é uma de suas grandes virtudes: da curiosidade vem a inquietação; da inquietação, a busca; da busca, o alcance do conhecimento. Não fossem os curiosos, haveria apenas a perenidade da idade da pedra. O terceiro milênio ainda nascente não seria nada além de mais um milhar de anos em meio a um mundo em constante estado paleolítico. Mas isso é somente um vértice dessa característica – e não será exatamente deste ângulo promissor da curiosidade que tratarão os parágrafos seguintes.

Um homem mata uma mulher no shopping em uma noite de sexta-feira. Segundos depois, atira também na própria cabeça. A cena é aterrorizante. Ou seria. Não funciona exatamente dessa forma. É que, passado um curto espaço de tempo desde os estampidos fatais e exaurido o princípio de pânico, as pessoas cercam os dois corpos – o homem ainda agoniza e morrerá horas depois, no hospital – e não parecem assim tão chocadas. Nem se comportam como se assim estivessem.

“É sangue mesmo, não é mertiolate”, admira uma plateia em que “todos querem ver e comentar a novidade”. As aspas que serviriam ao quadro são de “Metrópole”, uma letra de Renato Russo, musicada pela Legião Urbana há 30 anos, quando não existiam nem celular nem internet, muito menos WhatsApp. Apesar do lapso de três décadas, poderia ser dito que a ironia latente na canção é ainda atual, mas ela parece mais do que isso: é atemporal.

Diante da tragédia ali exposta, na praça de alimentação de um movimentado centro de compras, consumidores e seus atendentes se misturam. Acotovelam-se em busca do ângulo mais favorável para registrar uma foto ou fazer um vídeo. Querem repassar a novidade sinistra a seus amigos, anseiam ser os primeiros a informar o mundo lá fora de que presenciaram, ao vivo e in loco, um fato que vai ser a notícia do dia no dia seguinte. “Vai passar na televisão”, dizem um a outro, citando sem saber outro trecho da mesma música.

Vai sim, senhor. Uma previsão que é funesta, mas certeira. O fato e as fotos correm as redes sociais e os grupos de conversação por telefone a uma impressionante velocidade de compartilhamentos. Não é sábado ainda e um amigo já conta ter recebido as imagens do crime em quatro grupos diferentes “do zap”, além de ter visto diversas vezes a mesma notícia em sua timeline do Facebook. Mais do que isso, centenas de pessoas deixam seus contatos em tópicos a respeito, para que os “donos” das imagens as reenviem por celular.

No dia seguinte, as principais emissoras goianas de TV exibiam, no horário de almoço, uma coletânea das cenas mais impactantes, cujas origens se tornavam praticamente anônimas depois de espalhadas na virtualidade. Para uma ligeira assepsia ao sangue à mostra durante a refeição vespertina, algumas adotaram filtros nas imagens. Mas nada que causasse perda de audiência – as pessoas estavam à espera de ver na tela uma das imagens que tivessem recebido. Na era multimídia, construiu-se uma espécie de amostra de espetacularização com participação coletiva. Agora sim, “estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre”. E, depois destas, guardamos as derradeiras aspas de “Metrópole” para um pretensioso gran finale.

Ironia à parte, e ela tem sua parte nesse texto, é inconteste que toda a atmosfera de reação a um fato trágico como o citado (apenas um entre inúmeros que poderiam tomar seu lugar) favorece um quadro de desumanização. E – já voltando a uma conclusão irônica – a tecnologia, materialização-ápice de todo o conhecimento conquistado pelo Homo sapiens desde que ousou sair das cavernas, está a serviço desse retrocesso absurdo. A verdade é que, à medida que a civilização avança sua aproximação de um mundo menos real do que virtual, surgem outras facetas do comportamento humano. Não: “emergem”, em vez de “surgem”, é um termo mais adequado.

Faz só um século e meio, mesmo com todas as conquistas marítimas, continentais e industriais, havia pouco mais do que uma carta para alguém se comunicar à distância com outrem. Hoje, todos têm contato instantâneo ao alcance da mão com qualquer parte do mundo, ou até com uma estação espacial. Bastam um celular e um aplicativo (“app”), nele instalado em menos de minuto.

Do linchamento moral ao massacre de carne e osso

John Coffey, o inocente condenado de “À Espera de um Milagre” que sentia todas as dores  do mundo: metáfora do cúmulo da empatia

John Coffey, o inocente condenado de “À Espera de um Milagre” que sentia todas as dores
do mundo: metáfora do cúmulo da empatia

A tecnologia que facilitou a interação é a mesma que tornou dispensável o contato pessoal com que ela se dava. Isso tem seu lado positivo, traz agilidade a vários aspectos do cotidiano, mas também contém efeitos colaterais perversos: basta entender que, se qualquer um pode fazer e receber elogios e ser alvo ou emissor de outras atitudes benignas –, também, da mesma forma, torna-se potencial vítima de bullying, ameaças e execrações. Lin­chamentos morais na rede que, por vezes, desembocam em massacres de carne e osso: foi o que ocorreu à dona de casa Fabiane Maria de Jesus, do Guarujá (SP), morta aos 33 anos por espancamento coletivo depois de ser confundida, após exposição de foto em um blog, com uma acusada de sequestrar crianças para rituais de magia negra, em 2014.

Por trás de tudo isso há uma palavra chave e esquecida: empatia, o que geralmente se traduz de forma rápida e popularmente como “colocar-se no lugar do outro”. Em um conceito mais amplo da psicologia e das ciências que estudam o cérebro, empatia é algo que, de fato, só pode ser aplicado se se fizer uma observação do ambiente indo para além do que diz respeito a si mesmo.

Essa parece que tem sido a dificuldade atual: lidar com o mundo real “do outro” enquanto todas as necessidades parecem ser satisfeitas tão facilmente de forma virtual. Com a velocidade da internet – tudo ao alcance da mão a um toque, praticamente em um segundo –, a velocidade da vida também tem ganhado tom imperativo. Se não existe mais o tempo da espera, como exigir que alguém pare para reconhecer um lado que não seja o próprio?

“Parar” é a questão. A vida anda veloz demais para poder parar. Para processar uma informação nova – seja ela um enunciado de prova de concurso, uma promoção de eletrodomésticos no rádio do carro ou o conteúdo de um vídeo –, o cérebro precisa de um tempo para fazer a filtragem. No célebre “À Espera de um Milagre” (“The Green Mile”, de 1999, dirigido por Frank Darabont) – que teve quatro indicações ao Oscar, inclusive a de Melhor Filme –, Michael Clarke Duncan, morto em 2012, faz o papel surreal do gigante John Coffey, condenado que está no corredor da morte, mas é inocente. A “parada” forçada pela reclusão é um tormento para o negro Coffey, não pela reclusão em si, mas porque ele sofre fisicamente, como agulhadas na pele, com todas as maldades do mundo. Preso, ele tem tempo de sobra para se debruçar sobre cada drama, como o próprio: ele vai ser executado por ter sido condenado injustamente pelo assassinato brutal de duas meninas brancas. É a empatia extrema levada ao cúmulo.

Marcelo Rezende e José Datena, líderes de audiência com programas sanguinários: mais consequência do que causa

Marcelo Rezende e José Datena, líderes de audiência com programas sanguinários: mais consequência do que causa

Assim operando seu próprio sistema, o homem espectador de tragédias não tem por que sentir compaixão – prima-irmã da empatia – de suas vítimas. Isso só vai ocorrer se elas lhe forem próximas, se pertencerem a seu universo particular. Ora, se não há compaixão, não há respeito. Se não há respeito, se pode tudo.

Mas é fato que o homem sempre se compadeceu, apenas e com alguma sinceridade, das infelicidades que o circundam. A distância é diretamente proporcional ao alheamento. Mas o que tornou a desumanização algo tão fácil e tão próximo, a ponto de se registrar friamente um acidente em vez de priorizar o atendimento às eventuais vítimas? É tudo culpa dos programas policiais? Mas estes são consequência e não causa: existem na esteira da morbidez nossa de cada dia. O certo é que, Datenas e Marcelos Rezendes à parte, as pessoas aprenderam a desenvolver esse sensacionalismo tecnológico.

O que vem a seguir é um tipo de banalização pornográfica da tragédia alheia. Se não há compromisso com um “outro” (ausência de empatia), o que sobra vira objeto. E aquilo que antes chocava passa a ser visto apenas como uma imagem a mais. A divulgação pela rede dos vídeos que retratam os horrores das execuções de prisioneiros do Estado Islâmico, em última instância, serve exatamente a isso: expandir os limites da aceitação de um voyeurismo tenebroso. Afinal, depois de ver uma pessoa decapitada ou queimada viva, que tipo de escândalo pode causar o corpo do bandido crivado de balas ou a fratura exposta do motorista gritando preso às ferragens do caminhão retorcido?

Sem ainda ter como “desver” coisas

Tommy Lee Jones e Will Smith como os agentes de “MIB - Homens de Preto”: “desver” o indesejável só na ficção

Tommy Lee Jones e Will Smith como os agentes de “MIB – Homens de Preto”: “desver” o indesejável só na ficção

Massificar imagens chocantes, portanto, é uma forma de torná-las toleráveis. O que as fará, em breve, não tão chocantes assim. É assim que funciona o processo – ao contrário do prestativo aparelho dos agentes em “MIB – Homens de Preto” (“Men in Black”, de 1997, dirigido por Barry Sonnenfeld) ainda não existe um mecanismo tecnológico para “desver” coisas.

Assim, enfim, as pessoas passam a encarar o horror alheio com uma assustadora naturalidade. Se antes esse roteiro ocorria em relação às vítimas de um longínquo terremoto, hoje pode se dar com a chacina da esquina, “desde que não tenha nada a ver comigo”. Uma hiperexposição que reduz a pó a sensibilidade e que faz as pessoas processarem informações sem qualquer tipo de filtro, agindo como robôs de uma linha de montagem.

Já no término desse texto, muitos, depois de lidas todas essas palavras, vão dizem que isso é do ser humano. Algo próprio. Que sempre foi assim e sempre será. Que, se houvesse smartphones na Idade Média, haveria vídeos dos corpos de cristãos e mouros mortos nas batalhas, ou das bruxas queimadas na fogueira. Pode ser, e realmente seria. Mas a pergunta que fica, e que incomoda, é então: com o alcance de tão alta evolução tecnológica, os instintos básicos vão continuar a se impor, como se vencessem a disputa de um cabo de guerra entre as forças de dois polos opostos da existência humana?

O que resta a fazer? Por enquanto, refletir, filtrar, recondicionar os sentimentos. É o que em geral fazem os delegados e policiais que querem manter uma conduta humanista diante da rotina de crimes que presenciam, e da qual se objetivam; é no que perseveram os médicos e profissionais da saúde que continuam a atender com presteza e atenção cada um dos pacientes que recebem em seus longos plantões, segundo o juramento de Hipócrates que aceitaram um dia; e o que buscam conseguir jornalistas e comunicadores que ainda insistem em colocar a ética antes da audiência e do “furo” de reportagem.

As desgraças humanas precisam ser respeitadas como tal. Perder a reverência pela dor do outro, ainda que distante, é voltar à barbárie, é ser um sádico espectador do fim de todas as esperanças. Um “kkkkkkkk, se ferrou” como comentário abaixo do vídeo de uma colisão fatal precisa ser tratado com um olhar mais atento e preocupado, inclusive do ponto de vista acadêmico: estamos pesquisando a sério esse tipo de comportamento à prova de qualquer sensibilidade e cada vez mais recorrente? Temos ideia de para onde isso vai levar a civilização?

No fim, todas as tecnologias devem servir para encurtar tempo e distância. Mas desde que todos os processos passem pelo filtro da empatia. O contrário disso é ver triunfar a coisificação, a transformação de um semelhante e de sua história em um monstrinho personagem de videogame, cuja morte na tela só serve para render pontos no jogo. Viver a vida real como quem está na sala 3D do cinema, enxergar os fatos como um filme e depois, sem saber, citar de novo os garotos da Legião: “Pra limpar todo esse sangue chamei a faxineira/ agora já vou indo, senão perco a novela.” Esta seria a maior de todas as tragédias.

5 respostas para “O crime do shopping: unindo o pior do homem primitivo e da era tecnológica”

  1. Avatar Nara Rúbia Ribeiro disse:

    Excelente matéria. Parabéns!

  2. Avatar Fabiano Sousa disse:

    Parabéns!!!

  3. Avatar Clécia Leal disse:

    Muito acertiva a matéria Elder, parabéns, infelizmente a valorização da vida e o amor ao próximo estão se perdendo cada dia mais, as pessoas estão mais preocupadas em se promoverem.

  4. Avatar Bruno Xavier disse:

    Excelente matéria caro Élder Dias! Compartilho desse sentimento desde que vi a exposição exagerada de fotos trágicas dos saudosos Mamonas Assassinas, em revista impressa de circulação nacional.

  5. Avatar Silvio Henrique Ribeiro Queiro disse:

    …é a falta de respeito, educação e, principalmente, de Deus e berço que o próprio cidadão e a sociedade, chaconteiam…mas, ainda temos esperanças !!!…sylvinhoqueiroz…

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