“O Brasil não se preparou como deveria para a Olimpíada em casa”

Em Goiânia para fazer palestra, o maior ídolo do basquete do País criticou políticos e dirigentes esportivos, falou de corrupção e superação de dramas e disse que sem esforço não teria conseguido nada

Oscar Schmidt, o “Mão Santa”, diz que seu segredo era o treinamento incessante | Renan Accioly/ Jornal Opção

Oscar Schmidt, o “Mão Santa”, diz que seu segredo era o treinamento incessante | Foto: Renan Accioly/ Jornal Opção

Embora a maior parte dos seres se contente em ter a mesma rotina e passar uma vida sem grandes sacrifícios – embora isso também signifique poucas conquistas –, um homem pode se aventurar a viver uma vida “um pouco mais” extraordinária. A trajetória de Oscar Schmidt é prova disso. O maior jogador da história do basquete no Brasil é, também, um dos maiores nomes do esporte em todos os tempos.

Pela infeliz tradição nacional de não se recordar de seus maiores valores, Oscar talvez tenha menos ressonância do que mereceria. O brasileiro que tirou do pescoço dos norte-americanos uma medalha de ouro em casa – a comparação com o uruguaio Ghiggia no “Maracanazo” só é falha porque aquele Pan de Indianápolis de 1987 não pode ter a dimensão de uma Copa do Mundo – é também o maior pontuador do basquete em todos os tempos com exatos 49.737 pontos anotados. “Mão Santa”? Não, mão que trabalhou, e muito, para chegar onde chegou.

Também na vida de Oscar se passaram duas experiências menos afortunadas: uma campanha ao Senado por São Paulo, que o desiludiu da política apesar de uma derrota honrosa, em 1998; e um câncer no cérebro diagnosticado em 2013, contra o qual ainda luta. Tudo isso se condensa em histórias que conta em palestras Brasil adentro, como a que realizou na Convenção Olímpica Tropical Urbanismo e Incorporação, em Goiânia. Pouco antes dela, o cestinha concedeu alguns minutos para o Jornal Opção sobre temas diversos, que nesta página viraram tópicos.

Vida de palestrante
Talvez seja esse o motivo de o basquete não me fazer tanta falta, o que seria gravíssimo para mim. Dizem que, quando um atleta para com seu esporte, para também de viver. E isso é verdade. Vi que isso quando sentia falta da minha rotina de treinos. Eu acordava de manhã e pensava: “E agora? Não tenho nada para fazer!”. Então, arrisquei a entrar nesse segmento de palestras e tudo está, felizmente, dando certo.
Para esses momentos, trago minha experiência de vida, de maneira organizada. Antes eu fazia tudo de minha cabeça, mas chega então a hora em que não conseguimos melhorar nada sozinho. Eu pedi ajuda para um sujeito sensacional, chamado João Cordei­ro [gestor de pessoas]. Ele presenciou mais de dez palestras que eu fiz. Depois delas, nos sentávamos para conversar sobre como tinha sido. A partir daí, criamos três palestras diferentes, que são feitas de modo a que cada um que as assista possa tomar algo para si e para suas atividades, na prática, do que ouviu.

Drama público
As pessoas não podem ficar escondendo a verdade. Se a verdade está ali e se você é uma pessoa pública, você pode compartilhá-la e servir de exemplo. As pessoas que lhe admiram vão perceber como você está lidando com aquilo e, quem sabe, fazer a mesma coisa que você está fazendo e até se curar. Então, não há por que se esconder. É preciso abrir o coração e falar como é sua vida em todos os sentidos, não só na doença, mas na vida normal, comum. Não tenho problema em dizer tudo o que eu faço, porque não faço nada errado. Procuro fazer as coisas sempre de maneira correta.

Política
A única coisa que não vou voltar a fazer na vida é ser candidato, porque é um mundo muito feio e prefiro não entrar mais nele. Prefiro fazer minhas palestras, que é mais a minha “cara”, andando de calção e de chinelos. É praticamente o jeito de viver que eu tinha como jogador. Só não mexeria mais com política. O resto faria tudo de novo.

Seleção de basquete
Vivemos hoje um momento muito bom no basquete. Creio que vamos ganhar uma medalha nas Olimpíadas. Se não, vamos chegar perto disso. Temos um time muito bom, que joga de igual para igual contra qualquer equipe do planeta. Quando a NBA [liga profissional dos Estados Unidos] abriu as portas para o mundo, todas as seleções passaram a ter muitos jogadores lá. Esses jogadores, competindo forte todos os dias, acabam melhorando seu desempenho. Então, isso também aconteceu com nossos atletas. Há vários assim, alguns deles novos, e formam uma seleção muito competitiva.

Jogos Olímpicos no Brasil

O esporte deveria ser algo independente de tudo, inclusive de política. Meu sonho era jogar uma competição assim no Brasil, mas não consegui realizá-lo. Obviamente, vão ser construídas algumas obras colossais que não serão utilizadas depois, mas, ao mesmo tempo, o Rio de Janeiro será melhor depois da Olimpíada, tenho certeza – a mobilidade urbana, sobretudo.

Lembro-me de que, nos Jogos de Londres, em 2012, quando acabou a final do futebol, em Wembley, entrei no metrô e, em me­nos de meia hora, eu estava do outro lado da cidade. Na entrada estávamos todos meio apertados ali, em pé, mas em três estações já ficou todo mundo folgado e logo, todos sentados. Ou seja, os serviços funcionaram muito bem. Espero que assim também aconteça no Rio.

Obras malfeitas
Está na cara que essa obra da ciclovia que desabou no Rio foi malfeita, não dá para enganar ninguém dizendo que não foi isso. Se não previram ressacas e vento, fizeram errado. Parece-me que não fizeram a amarração correta. O mar jogou tudo para cima. Vão ter de refazer tudo. Sem dúvida isso está ligado à questão da corrupção.

Corrupção no esporte
A pior coisa no esporte é um dirigente entrar na administração de uma entidade e só sair morto de lá. Isso deveria mudar, não importa se é em uma entidade privada – aliás, qual é a empresa que tem um presidente durante a vida inteira dele?

Quadro de medalhas
Acredito que vamos fazer nossa melhor Olimpíada, por ser no Brasil e pelo fato de a torcida ajudar. Mas vai passar longe de fazer a Olimpíada que a China fez, em 2008 [Jogos de Pequim], ou a Grã-Bretanha, em 2012 [Jogos de Londres]. Isso porque o Brasil não se preparou para a competição, em termo de atletas. Quando ganhamos o direito de ser o país-sede, um garoto que tinha então 13 anos poderia estar agora concretizando uma trajetória de atleta olímpico. Não pensamos quase nada em formação de atletas. Portanto, apesar de nós devermos fazer nossa melhor Olimpíada, não será como desejaríamos.

Treinamento
Sempre treinei muito, durante toda minha carreira, todos os dias da minha vida. Considero isso algo extraordinário. Veja se você é capaz de encontrar muitos assim. Não é fácil. Então, se a pessoa gosta do que faz, se se dedica mesmo, nada é difícil. Mas é preciso de fato gostar do que faz. É preciso treinar para aproveitar as oportunidades que aparecem. Portanto, é necessário ter muita dedicação. Se não for assim, é melhor procurar outra coisa.

Ídolos
Tive dois grandes ídolos no basquete. Quando comecei a jogar, como pivô, era o Ubiratan [campeão mundial em 1963 e medalha de bronze nos Jogos de Tóquio, em 1964, pela seleção brasileira]. Depois que passei a priorizar o arremesso, minha referência passou a ser Larry Bird [ala do Boston Celtics, na NBA, entre 1979 e 1998]. Larry Bird não corria, não pulava, e mesmo assim jogava melhor do que todo mundo. E por isso era um fenômeno. l

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