A Nova Era das ideias antigas

Valorização de conceitos como índole e berço está na base de discursos fundamentalistas 

É doente uma sociedade que reduz a maioridade penal e cria depósitos de delinquentes juvenis | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

É doente uma sociedade que reduz a maioridade penal e cria depósitos de delinquentes juvenis | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Henrique Morgantini
Especial para o Jornal Opção

Eu pouco conheço Magda Mofatto.

Ela nem sequer sabe quem sou.

Até aí tudo bem, meio que empatamos. Exceto pelo fato de ela ser deputada federal por Goiás e eu, em tese, sobreviver com certa alegria como jornalista que se imiscui pela política goiana. Erro meu, não dela. E o pior: eu só descobri um pouco mais da atuação de Magda Mofatto como deputada federal porque foi ela quem me chamou enquanto eu me atualizava dos noticiários cotidianos da política. Em reportagem da versão online do Jornal Opção, a parlamentar do PR – que integra a comissão que promove o debate acerca da tão propalada redução da maioridade penal – atesta que crimes cometidos por adolescentes chegaram a “patamares inimagináveis”.

Diz, assim, entre aspas, a deputada: “A criminalidade juvenil chegou a patamares jamais imagináveis, aceitáveis. Não é questão de sociedade; não é questão de procedência de berço. É questão de índole”.

Índole. Vejam que palavra interessante.

Como disse, eu, por defeito, não sei muito da deputada federal Magda Mofatto, do PR. Portanto, fui onde todos vamos quando precisamos saber algo. Assim como a vida, o Google não necessariamente traduz-se em uma versão perene da verdade, mas mesmo assim, por lá, me prendo a dois assuntos em especial. Um deles diz que, de acordo com o Ministério Público de Goiás, a deputada em 2010 fez uso indevido do poder econômico em sua campanha, fato pelo qual o MP pediu sua condenação e impugnação. Afirma o MP que “a candidata ofereceu e doou vantagens e bens gratuitamente a cerca de 300 eleitores, com o objetivo de obter-lhes os votos”.

Mais à frente, uma reportagem datada de 2013 revela que o marido da deputada federal, o dirigente partidário (então presidente goiano do PR) Flávio Canedo e outros dois citados foram condenados pelos crimes de tortura e ameaça contra um rapaz, fato ocorrido em 2002 na cidade de Caldas Novas.

A parlamentar defende, além da re­dução da maioridade penal, também o direito ao cidadão de se armar.

Tortura é outra palavra curiosa inserida neste contexto.

Outra característica do Google é que, além de não necessariamente mostrar a verdade, também tem o poder de revelar traços abjetos de nossas trajetórias. É uma lástima. Se digitarmos o meu nome, o seu, vamos encontrar constrangimentos para todo o lado.
Após esta pesquisa, o questionamento que eu me fiz foi acerca de qual posicionamento é adotado pela deputada sobre estes dois temas, a denúncia de compra de votos e uma condenação sobre seu marido, envolvido com ameaça e tortura. De qual ponto cego do prisma da índole podem ter saído tais comportamentos suspeitos a ponto de gerarem um processo e uma condenação? A corrupção é uma questão de mera oportunidade ou índole também?
Uma atestação é possível fazer: a criminalidade na política brasileira está atingindo patamares inimagináveis.

Mas este artigo não é sobre Magda Mofatto, nem sobre seu marido condenado por torturar pessoas nas Caldas Novas. Tampouco é acerca de seu pensamento vitoriano de sociedade regido por conceitos ultrapassados e preconceituosos – que quase sempre voltam contra nós mesmos – como “berço” e “índole”.

Na fala da parlamentar sobre seu posicionamento pela redução da maioridade penal, ela se justifica de forma curiosa: “se fosse questão de sociedade, de berço, não teríamos garis que vêm de situações muito humildes e são pessoas sérias, íntegras e trabalhadoras”. Ao que parece por esta declaração, garis teriam um salvo-conduto para se bandearem para a criminalidade, tendo em vista que fazem o que há de pior. A deputada pontuou um lado da régua: aguentar ser gari e não cometer um crimezinho é para poucos.

Houve um tempo, aliás, em que conceitos como “índole” ou até mesmo o berço, aquele que a parlamentar goiana dispensa como preponderante, eram quesitos levados em conta para deixar ou não as pessoas votarem ou serem livres. Houve um tempo em que mulheres como Magda eram tratadas como a Magda mais famosa, aquela do “cala a boca, Magda!”, do seriado Sai de Baixo, e sequer podiam votar, comer à mesa com os homens, ter os mesmos direitos como cidadãs e até mesmo como seres humanos. E adivinha que tipo de análise era levado em conta para avaliá-las?

Índole e outras alegorias.

Mas podemos a partir deste raciocínio de século 18 (no Brasil, foi pior: as mulheres não participaram da política até 1933) ir além e perceber como o cenário geral da sociedade brasileira atual converge para este tipo de pensamento que ora margeia, ora esbarra e quase sempre se esfrega em princípios fundamentalistas, pautados em rótulos e preconceitos.
Este comportamento ao mesmo tempo é causa e efeito do porquê de estarmos todos nós, enquanto sociedade, passando por esta crise de representação de partidos políticos, de respeito a movimentos sociais e até mesmo de questionamento de leis inexoráveis. Vemos por ocasião de uma crise de identidade política uma fuga do cidadão para conceitos, regras e pensamentos rudimentares.

O brasileiro está se furtando ao debate por pura desilusão e optando por rechaçar a Carta Magna brasileira, se abraçando a crenças sociais estapafúrdias e repletas de princípios religiosos. Não é raro políticos, que são representantes da sociedade, falarem que a violência é uma questão de “falta de Deus” na vida do cidadão.

Bem vindos à Idade Média.

Por falta de conexão com ideologias político-partidárias e até mesmo na absoluta descrença de personalidades políticas, estamos ensaiando a inauguração de uma era na qual nos agarramos a supostos conceitos universais imateriais que devem nos reger. A índole, ora, o que é a índole? De onde ela vem e como uns temos e outros não? – a índole agora é o que pode nos reger.

Por ocasião deste enfraquecimento da racionalidade e da descrença em processos políticos organizados, estamos rasgando silenciosamente a Constituição para colocar a Bíblia como item máter de fundação dos povos, sejam eles cristãos, ateus, panteístas, budistas, maometanos. Quere­mos, a partir da nossa desilusão, buscar valores ancestrais, como um órfão sente saudades do pai.

Neste anseio, voltamos muito, muito atrás como sociedade e resgatamos equívocos como sendo novas verdades içadas do limbo. A teoria do bom selvagem contra o mal da deputada Mofatto nada mais é que isso: o abraçamento desesperado do embate de Rousseau contra Hobbes definindo se berço e criação nos definem ou não. Criando conceitos imaginários de índole para explicar porque um adolescente deve ir para a cadeia.

Garis, independentemente do berço, seguem heroicamente sendo garis.

Ao projetar um debate baseado em teses de 300 anos de idade como sendo a fotografia polaroide da sociedade, defenestramos toda a evolução do pensamento social, dos impactos que existem na geração de oportunidades. Jogamos estudos sociológicos profundos no lixo. Simplesmente, definimos comportamentos como bons e maus vindos do imaginário, do subjetivo.

Quando falham os homens e os partidos políticos, o cidadão se dispersa do coletivo e deixa-se envolver com o sentimento mais primitivo e arcaico dentro dele, seja a religião, seja o preconceito. Estes dois conceitos colocados separados são uma mera questão de educação, tendo em vista que o princípio religioso cristão que nos rege como sociedade no Brasil tem seu discurso todo baseado em “escolhidos” e “não escolhidos”. É o arauto do preconceito: são uma coisa só.

Hoje, vivemos esta dispersão do coletivo e apostamos nas crenças de comportamentos individuais. E é neste momento que surgem discursos fundamentalistas que, para além de partidos e ideologias, unem as pessoas em torno destas crenças. É o princípio da “Família, Deus e Propriedade”. E os desdobramentos são propostas de leis rudimentares. Castração de direitos sociais, redução da maioridade penal e criação de depósitos de delinquentes, supressão da sociedade para a ascensão da teocracia disfarçada, debates sobre pena capital, armas para todos em nome da defesa da família, etc. É a volta da “moral e dos bons costumes”.

O “cidadão-de-bem” está super em alta.

Exemplos como este somente mostram o quanto estamos nos perdendo diariamente e sem nos dar conta de valores reais, de pensamentos modernos, atuais e complexos, para nos atermos a conceitos hoje fraudulentos, que nos criam abismos sociais de sociedade. As “magdas” estão por aí e atendem hoje por diversos nomes, estão na moda. Mas é a nossa negligência em pensar racionalmente – e nossa insistência em encontrar saídas mágicas e emergenciais feitas com uma canetada para a política e para a vida – que nos devolve à Idade da Pedra como sociedade. E é daí que todas as coisas convergem numa só e nos fazem coabitar com conceitos e palavras como “berço, índole”.

E “tortura”.

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