No meio da metrópole tinha uma onça

Proprietário de chácara na zona urbana de Goiânia relata perda de novilha por ataque de predador e técnicos do Ibama confirmam: animal foi vítima de uma onça-pintada

Onça-pintada, o maior carnívoro terrestre do Brasil: animal de hábitos noturnos e raro no Cerrado | Foto: Divulgação

Elder Dias

Até pouco tempo atrás, uma maneira de alguns marotos caçoarem os goianos que viajavam para fora do Estado era perguntar se havia onças nas ruas das cidades. Era um modo irônico – e de gosto duvidoso, diga-se – de insinuar que Goiás era um lugar subdesenvolvido, ou mesmo selvagem, onde a civilização ainda não tinha realmente se concretizado.

Existe um mito duplo por trás da piadinha sem graça. Primeiramente, porque onças tendem a fugir de qualquer contato com o ambiente urbano – o Brasil já foi um país muito mais selvagem e não há registros de animais desse porte transitando por São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro ou São João del Rey (MG) nos tempos coloniais ou do Império; em segundo lugar, porque não se tem – ou não se tinha, como veremos abaixo – sinal de onças em zona urbana de municípios de médio ou grande porte do Estado. Em janeiro de 2013, em uma residência de Jesúpolis – um município com pouco mais de 2 mil habitantes (um terço na zona rural) e a 103 quilômetros ao norte de Goiânia – foi capturada uma suçuarana, também chamada de onça-parda (Puma concolor). Era, até agora, o registro mais próximo de um felino de grande porte em uma área habitada.

Por isso, o relato recebido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no dia 1º de fevereiro soou como uma “história de caçador”: a presença de uma onça em chácara na área urbana do município de Goiânia, que teria atacado uma novilha de sete arrobas (aproximadamente 100 quilos) na propriedade de Hélio Antonio da Silva. Em seu terreno, que possui 15 alqueires (70 hectares ou cerca de 0,7 quilômetro quadrado), ele cria cerca de 130 cabeças de gado de forma extensiva, com pastagem em campo aberto. Aos técnicos do órgão, ele relatou a perda também de dois cachorros e o ataque a outra bezerra, que escapou.

Com a apresentação de fotos da carcaça e de pegadas do predador, Hélio registrou, no Núcleo de Fauna e Recursos Pesqueiros do Ibama, a perda da novilha. Fez o procedimento correto: em vez de tentar caçar o animal, correndo o risco de se ferir ou de matá-lo desnecessariamente – encaminhou o caso para o órgão competente. Os técnicos foram conferir in loco as informações repassadas pelo produtor e se surpreenderam: as pegadas e as marcas do ataque à carcaça confirmavam a passagem por ali de uma Panthera onca, nome científico dado à onça-pintada.

Marcador ao centro aponta local onde foi encontrada a carcaça da novilha atacada pela onça-pintada | Foto: Reprodução

Renato de Paiva e Wanderley é o superintendente do Ibama em Goiás. Em entrevista ao Jornal Opção, contou que o órgão têm vários exemplares de onça-parda para realocar para zoológicos. Nenhum de onça-pintada. É que o bicho é raro no Cerrado e cada vez mais difícil de ser encontrado, por causa da destruição do bioma.

Isso é mais um dado espantoso: não era “apenas” uma onça, mas uma onça-pintada, que percorreu centenas de quilômetros e adentrou em um corredor estreito para se instalar, ainda que por alguns dias, em um quadrilátero relativamente preservado, mas cercado por gente de todos os lados.

A chácara de Hélio Antonio está na região oeste da capital, às margens do Ribeirão Anicuns – que nasce nas proximidades e corta, a partir daquele ponto, metade da zona urbana da capital, até desaguar no Rio Meia Ponte, na Vila Roriz. O ponto exato onde foi encontrada a carcaça da novilha está a 450 metros do Residencial Portinari, a 700 metros do Condomínio do Lago (condomínio fechado) e a 1,2 quilômetro do Setor Parque das Nações e do Conjunto Vera Cruz.

Mas, enfim, como a onça-pintada teria chegado até ali? De onde teria vindo? Por conta do período chuvoso, a investigação fica dificultada, já que a maioria das pegadas se apaga. Pela análise feita pelos peritos observando as imagens de satélite, há duas hipóteses de rota. Uma, extremamente improvável, é que o animal tenha vindo da região norte do município, adentrando pelas margens do Ribeirão João Leite, passando pelo Meia Ponte e subindo todo o agonizante Anicuns. Teria, para isso, de cortar uma extensa área urbana por um corredor de fundo de vale totalmente urbanizado em muitos trechos.

O caminho menos inviável para o animal tem origem a partir do sudoeste, chegando a Goiânia por áreas abertas e de matas pelos municípios de Campestre, Abadia de Goiás e Trindade. No trecho final, a onça passou pelo “funil” entre os setores Jardins do Cerrado e Parque Eldorado Oeste e chegou à região em que abateu a presa. Para tanto, teve de passar por avenidas – provavelmente se deslocando por baixo de pontes, em bueiros e passagens de concreto.

Até agora, o caso tem sido encaminhado com a máxima discrição por parte dos órgãos ambientais. Além do Ibama, lidam com a situação o Instituto Chico Mendes de Con­servação da Biodiversidade (ICMBio) e a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma). Várias reuniões foram realizadas na semana passada, na sede do Ibama.

A cautela é necessária. “É preciso encontrar a melhor estratégia para chegar a esse animal. Essa onça, especificamente, precisa ser capturada. Mas tem de ser da melhor forma, para evitar a morte dela. Uma captura ativa (perseguição) poderia levar a onça a fugir para um setor próximo, o que, aí sim, seria problema muito sério”, explica o superintendente do Ibama em Goiás.

Sob orientação do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), órgão do ICMBio, agentes ambientais estão fazendo o monitoramento do local. Instalaram armadilhas de captura e fotográficas. Uma câmera com infravermelho chegou a fotografar o dorso do animal, no dia 4 de fevereiro. Renato de Paiva nos apresenta a foto, onde se observa com nitidez as manchas características. Foi o último registro da onça, até o momento.

O trabalho dos agentes também consiste em visitar os proprietários de imóveis vizinhos à área. Em um primeiro momento, instruíram medidas emergenciais, tais como recolher animais durante a noite em local seguro e bem iluminado; instalar luzes com sensores de movimentação; soltar foguetes se algum movimento de predador for detectado; alimentar bem os animais domésticos e deixar cães de caça no pasto, para proteger o rebanho. Em um segundo momento, que se iniciou no fim da semana, os agentes foram orientados para começar um trabalho mais aprofundado, de educação ambiental com a vizinhança.

Carcaça da novilha: sinais mostram padrão usado pela onça pintada em ataques | Foto:: Léo Caetano

Uma onça em um cubículo

Uma onça-pintada precisa de pelo menos 25 quilômetros quadrados de território. É a área necessária para ela caçar e sobreviver. O quadrante verde em que se inclui a propriedade onde o registro do animal foi encontrado é de cerca de 3 quilômetros quadrados. Para os padrões do felino, portanto, é como se ele estivesse dentro de um cubículo.

O flagrante de uma onça em área urbana, mais do que inusitado, é uma constatação dramática da destruição do bioma e do despreparo e do fracasso na elaboração, no manejo e na fiscalização dos chamados corredores ecológicos. Com o avanço da fronteira agrícola, uma das consequências foi a perda de espaço territorial necessário para os animais maiores. Não à toa aumentou em muito o numero de atropelamentos de bichos como tamanduás-bandeiras, lobos-guarás, raposas e onças, inclusive. “À medida que se reduz o habitat, o animal busca suas alternativas”, diz Renato de Paiva.

Outra observação importante sobre a onça-pintada: ela pode percorrer 50 quilômetros por dia – e nada muito bem. Isso significa que, se pegou um rumo inverso em linha reta desde que foi avistada, pode estar bem longe da cidade (até o fechamento desta edição, na noite da sexta-feira, 10, não tinha sido noticiado novo avistamento do espécime).

Foto da perícia do Ibama realizada no local confirma suspeita, pelo tamanho e formato da pegada | Foto: Léo Caetano

O superintendente do Ibama reitera: o pior a se fazer é tomar a iniciativa de caçar o animal. “Se alguém resolver fazer isso, o bicho pode empreender fuga rumo a algum local de residências e, aí sim, gerar pânico e até um sinistro. Não é o comportamento que uma onça faria, a não ser provocada”. Também a Guarda Metropolitana e o Batalhão Florestal estão de prontidão para alguma ação.

A raridade do ataque de onças a seres humanos encontra respaldo nas estatísticas. O analista ambiental Léo Caetano, o perito do Ibama que constatou ser mesmo uma onça-pintada o animal que esteve na zona urbana de Goiânia, diz que o comportamento normal delas é evitar o ser humano. “A onça é muito arisca, não tem o hábito de predar pessoas. Na verdade, ela tem medo”, afirma. Tomando as devidas providências, garante, o perigo de um ataque é mínimo, mesmo no caso atual.

O biólogo relata o encontro pacífico que teve com um casal de onças, avistado no barranco do Rio Crixás-Açu, perto do distrito de Luís Alves, em São Miguel do Araguaia. “Eu e meu chefe, em um barco, ficamos a cerca de 15 a 20 metros de um casal. Estavam deitadas à sobra, uma onça preta fêmea e outra, pintada, macho, mais robusta. Nós as observamos por muito tempo sem que se mexessem”, relata.

Renato de Paiva, superintendente do Ibama: “Caso é extraordinário” | Foto: Divulgação

O caso de Goiânia pode já ter sido finalizado, com o espécime tendo buscado novos paradeiros depois de sua chegada imponderável a uma metrópole. Mesmo assim, durante as próximas semanas, as armadilhas estarão montadas na área de controle. Os métodos de captura acabam sendo restritos por conta de a ocorrência ser em área urbana. Em um cenário convencional, uma saída, por exemplo, seria colocar cachorros no encalço da onça para acuá-la e fazê-la subir em alguma árvore, momento em que poderia ser utilizado um tiro com tranquilizante. As armadilhas fixas do tipo guilhotina são uma alternativa e ficarão na região por tempo indeterminado, mas a chance de êxito com onças, animais muito inteligentes, acabam reduzidas. Por fim, o laço de captura é outra tentativa.

A probabilidade maior, segundo o Ibama, é de que a onça-pintada não esteja mais na região. “De qualquer forma, os técnicos estão autorizados a repassar os telefones das equipes para que, em caso de avistamento, haja contato em qualquer horário. Se alguém observar o animal de madrugada, por exemplo, pode ligar imediatamente e será atendido”, diz Renato.

Se houver a captura, a translocação do animal cabe ao Cenap, por ser um animal predador e de grande porte. O certo é que não será o caso de encaminhamento para um zoológico. “É um animal nitidamente selvagem e não terá dificuldade de adaptação em uma das áreas possíveis de ser realocado.” Por questão de segurança, tais áreas não são divulgadas.

O histórico diz que o pior a fazer, seja em zona urbana ou rural, é caçar onça. Antes de tudo, por ser um crime ambiental grave. Mas mesmo a defesa do próprio patrimônio, no caso de um rebanho, não se justifica: segundo uma cartilha do próprio Cenap, a chance de perder uma rês por ataque de onça é de 1,5% em relação ao total de perdas. Para ter ideia, para cada cabeça de gado morta por um predador, outras 20 morrem por ficarem atoladas na lama e 12 por desnutrição. “Infe­lizmente, há quem forje ataques para justificar a caça de uma onça”.

Se de um lado da cidade há (ou houve) uma onça à espreita, do outro há uma população crescente de presas em potencial: as capivaras, que se espalham pelas áreas verdes da região leste, de modo especial, por estarem protegidas, nas reservas dos condomínios. “Elas tendem a proliferar, justamente por não ter predador que controle o crescimento de seu número. Ainda não é um problema grave como o javali (animal onívoro, exótico no Brasil, que destrói a fauna e a flora, sem distinção), mas pode se tornar preocupante”, aponta Renato de Paiva.

Uma onça em Goiânia deixou de ser boato ou piada. Se, por um lado, há um quê de admiração na descoberta do fato, por outro é prova do distanciamento (e também do desconhecimento) do mundo urbano em relação ao passado rural do Estado. Se um dia o Cerrado foi apenas “mato”, hoje é uma riqueza que precisa ser preservada. A passagem de uma onça, animal topo da cadeia alimentar, deve servir como um sinal.

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