As páginas da história humana estão manchadas de sangue por conta de inúmeras guerras e conflitos armados que moldaram o destino das civilizações. Todos esses eventos caóticos deixaram cicatrizes e traumas na memória coletiva de diversos povos ao longo dos séculos. No entanto, apesar de tanta carnificina e tristeza ao longo dos séculos, o ser humano ainda não reconheceu o valor da paz e continua em eterno combate contra os próprios semelhantes.

Sejam motivadas por rivalidades territoriais, questões culturais e étnicas, ou até mesmo divergências ideológicas, as guerras sempre envolviam várias nações e grandes exércitos. Além uma considerável quantia de recursos, ao ponto de causar escassez e momentos de austeridade entre os envolvidos nos conflitos. Bom, assim foram travados os principais combates desde as Guerras Púnicas até as  Guerras Mundiais que marcaram o século XX.

Entre as ruínas causadas pela Segunda Guerra Mundial, o mundo renasceu em um palco geopolítico inédito, marcado pela dança sutil entre os vencedores, os Estados Unidos e a União Soviética. Esta foi a era da Guerra Fria, onde as tensões ideológicas e políticas influenciaram não apenas as nações diretamente envolvidas, mas também regiões distantes. Localidades onde os conflitos assumiram a forma das conhecidas guerras por procuração.

Apesar de ainda haver confrontos armados, esse formato de conflito entre nações poderosas, muitas vezes superpotências bélicas, ainda evita qualquer embate direto. A principal característica é a influência externa e manipulação indireta dos agentes, como se fossem peões em um tabuleiro de xadrez geopolítico. Dois exemplos notáveis foram a Guerra da Coreia e a Guerra do Vietnã, com participações dos EUA e URSS (junto com a China).

Para o professor Giovanni Hideki Chinaglia Okado, docente no curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), essa é a tendência que os conflitos armados devem seguir. Ao mesmo tempo, ele também rechaça a possibilidade das “Grandes Guerras”, que ocorreram no século XX e mobilizaram o globo. Óbvio que sem descartar completamente uma mobilização em nível para uma guerra.

“A chamada guerra por procuração é uma forma de que os aliados das grandes potências travem um confronto em nome dos interesses deles. Por exemplo, o caso de Israel que luta contra o Hamas, com apoio indireto dos Estados Unidos. Ou ainda o caso do Irã e também da Síria que são parceiros da Rússia no Oriente Médio”, explica o mestre em Relações Internacionais em Política Internacional e Comparada, pela Universidade de Brasília (UnB).

Helicópteros americanos durante a Guerra do Vietnã | Foto: Associated Press

O palco estratégico do Oriente Médio

Falando no Oriente Médio, talvez não exista uma região no planeta que passou por mais conflitos terceirizados entre as grandes potências. Por exemplo, o Irã e o Iraque travaram um confronto intrigante e complexo no final da Guerra Fria, entre 1980 e 1988. Inicialmente, a URSS financiou o ataque iraquiano, enquanto os EUA, com apoio de algumas nações árabes, como a Arábia Saudita, forneceram equipamento bélico e informações para os iranianos.

Algumas décadas depois, a situação do Irã mudou completamente com a ascensão do regime dos aiatolás após a Revolução Islâmica. Hoje o país é o principal inimigo dos Estados Unidos na região e se tornou um aliado da Rússia, com forte comércio de armas e drones. Ou seja, o país seria “peão” da Rússia no Médio Oriente, mas também estaria manipulando outros conflitos contra o seus inimigos, por meio do Hamas, Hezbollah e do Houthis, por exemplo.

Talvez não haja ninguém melhor para falar sobre o conflito do que Antonio Caiado, goiano que é primeiro-sargento do Exército dos EUA e realizou  excursões pelo Oriente Médio. Segundo o militar natural de Mossâmedes, município localizado na região central de Goiás, apesar das tentativas do Irã de desestabilizar a região, os americanos ainda seguem firmes na região. Principalmente em acordos militares e de proteção com outras nações árabes. 

Antonio Caiado servindo no Afeganistão pelo Exército do EUA em 2010 | Foto: Arquivo Pessoal

“Temos o controle da região”, ressalta Caiado, que serviu em bases no Afeganistão, Kuwait e Jordânia. “Só para se ter uma ideia, todos os postos de exploração de petróleo, seja de empresas de lá ou ocidentais, possuem presença dos americanos, como parte do acordo com nações aliadas da região. Além da construção de bases militares dentro dos territórios das nações árabes para a proteção e manter uma ‘figura americana’”, acrescenta

Ao mesmo tempo, Caiado também considera que nenhum conflito na região, seja de Israel contra o Hamas e o Hezbollah, ou os ataques dos Houthis, do Iêmen, à embarcações mercantes, possam causar uma escalada nas tensões e colocar superpotências em choque direto. “O Irã tem muito dinheiro, mas eles estão praticamente sozinhos na região apoiando esses grupos terroristas. Eles possuem muito dinheiro, mas não há apoio próximo”, explica.

Lembrando que os Houthis são um grupo rebelde que luta contra o governo local e que estão atacando navios mercantes no Mar Vermelho. Eles afirmam que as tentativas de afundar sequestrar embarcações seriam uma retaliação contra Israel ocupar a Faixa de Gaza. A facção é considerada terrorista por diversos países e há anos uma coalizão de países árabes busca combater os insurgentes, principalmente a Arábia Saudita, que faz fronteira com o Iêmen.

Já a situação entre Hamas, grupo político e militar da Palestina, e o Hezbollah, uma organização político-militar xiita que surgiu no Líbano, se intensificou após os acontecimentos do dia 7 de outubro de 2023 em território israelense. Na ocasião, cerca de 1,2 mil pessoas foram mortas em um ataque terrorista. Em resposta, Israel ocupou a Faixa de Gaza e pode estar planejando uma guerra no Líbano para eliminar as duas facções.

Antônio Caiado no Kwait, em 2021 | Foto: Acervo Pessoal

Guerra na Ucrânia: conflito sutil entre EUA e Rússia

A dramática situação na Ucrânia ocorre desde 2014, com a aproximação do país ao Ocidente e a União Europeia (UE), algo que não deixou a Rússia satisfeita. Apoiando grupos separatistas na região de Donetsk e Luhansk, os russos incentivaram uma espécie de guerra civil de procuração. Posteriormente, a nação do autocrata Vladimir Putin anexou a Crimeia no mesmo ano e enfim realizou uma invasão em fevereiro de 2022.

Em resposta, os países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) iniciaram um apoio massivo para a Ucrânia. Além de pacotes financeiros diversos, os militares ucranianos estão recebendo informações cruciais do inimigo e bastante armamento. Não só material bélico dos tempos de URSS, mas também equipamentos ocidentais diversos, incluindo tanques e blindados, como Abrams, Challenger, Leopard e Leclerc.

Mulher anda com a bandeira da Ucrânia na frente de tropas russas em Kherson | Foto: Associated Press

Entretanto, Caiado alerta que o surgimento de outros conflitos pode acabar deixando a Ucrânia “jogada para escanteio” e o financiamento da Otan poderá ser reduzido drasticamente. “Quando surgiu o confronto em Israel contra o Hamas, isso dividiu o apoio recebido, ao ponto que os israelenses foram priorizados, principalmente pelos americanos. Isso pegou os ucranianos de surpresa porque eles tinham o apoio do mundo inteiro”, conta.

Por outro lado, o militar goiano também não vê a Rússia realizando grandes movimentos durante o ano eleitoral, mesmo que tudo esteja armado para a vitória de Putin. Ou seja, a situação durante o inverno deve se repetir igual à última, com poucos ganhos territoriais nos dois lados. “Acredito que os russos também não devem ganhar terreno na guerra por enquanto, além deles terem eleições neste ano, o dinheiro também acabou por lá”, explica.

Entretanto, o professor da PUC-GO ressalta que a redução de apoio ocidental pode favorecer uma vitória da Rússia na Ucrânia, mesmo com os impasses atuais do conflito armado. Além de ressaltar que o apoio dividido também poderá enfraquecer os americanos no Oriente Médio. Pontuando que o país já cometeu erros históricos na região desde a Guerra do Golfo durante a década de 1990.

A complexa relação entre China e Taiwan

A relação entre China e Taiwan é uma questão complexa e delicada, marcada por fatores históricos, políticos e culturais. Ambos consideram-se parte da China, mas as diferenças nas experiências históricas e na governança resultaram em duas entidades políticas distintas. Ao ponto dos taiwaneses deixarem de se identificar como chineses e começarem a defender movimentos separatistas para que a ilha seja um país independente.

De acordo com Okado, apesar do aumento de tensões nos últimos anos, a situação envolvendo China e Taiwan não deve evoluir para uma guerra. Mesmo com as ameaças de Pequim e a manutenção do apoio dos EUA à ilha. “As probabilidades de um conflito armado são baixas, já chegamos a ter três crises no passado a respeito, uma na década de 1950, outra 1970 e mais uma 1990, mas a situação se normalizou em seguida”, relata.

Assim como toda a situação em si, a posição dos americanos também é considerada questão complexa e delicada. A política oficial dos Estados Unidos é conhecida como a “Política de Uma China” e é baseada no Ato de Relações com Taiwan de 1979. No qual, eles reconhecem oficialmente o governo da República Popular da China (RPC) como o único governo legítimo da China, mas não especificam qual governo (Pequim ou Taipei) é o legítimo.

O novo presidente eleito de Taiwan, Lai Ching-te, conhecido como William Lai | Foto: Reuters/Ann Wang

Ao mesmo tempo, os EUA mantêm relações não oficiais com Taiwan, fornecendo assistência militar, apoiando a segurança e promovendo intercâmbios econômicos e culturais. Ao mesmo tempo, a China deseja a reunificação do território, mesmo que o território usufrua de um certo grau de autonomia. Algo que ele considera que pode causar polêmicas e alguns atritos ao longo do ano, principalmente após as últimas eleições.

Na ocasião, Lai Ching-te, ainda conhecido como William Lai, do Partido Democrático Progressista (PDP), venceu as eleições presidenciais. Segundo o jornal britânico The Guardian, o novo presidente prometeu manter relações equilibradas com a China. Entretanto, ele tem um posicionamento que é favorável à independência de Taiwan e contrário à reunificação da ilha com a China.

Brasil e os conflitos pelo mundo

Para o professor e o militar goiano, ambos concordam que o Brasil precisa manter uma posição neutra e diplomática em relação aos atuais conflitos e tensões pelo mundo. Ressaltando que o Brasil possui um grande histórico de diplomacia como mediador pela paz. Entretanto há discordâncias entre os dois entrevistados.

Para Caiado, o Brasil pode se manter neutro, mas precisa tomar cuidado com as sugestões que faz para buscar o fim do conflito. Muitas vezes ele considera que os apontamentos são falhos e que não trazem nenhuma solução para o conflito, mas que podem trazer problemas para o próprio país. “O Brasil não possui experiência em guerras, não pode ficar tentando buscar uma solução fácil para isso porque simplesmente não existe”, alerta.

Já o professor destaca que o Brasil precisa ter posicionamentos mais contundentes dentro da América do Sul, principalmente em tensões com países que fazem fronteira. Ele cita o caso de disputa entre Venezuela e Guiana pela região de Guiana Essequibo. Na ocasião, o ditador venezuelano Nicolás Maduro estava ameaçando iniciar uma guerra para anexar a localidade, mas o assunto esfriou após os guianenses realizarem exercícios militares com os americanos.

Palácio do Itamaraty na Esplanada dos Ministérios | Foto: Ana de Oliveira/AIG-MRE