Em todo o mundo, cerca de 10% das pessoas com mais de 65 anos de idade desenvolvem demência. Em geral, os números da demência estão aumentando, e isso pode ser em parte explicado pelo fato de que a população está vivendo mais, ganhando mais tempo para desenvolver condições que afetam idosos. Entretanto, cientistas buscam explicações para fatos como o de que as mulheres são mais afetadas pelo Alzheimer (o tipo mais comum de demência) em comparação com os homens.

Grandes estudos feitos com bases de dados da saúde pública de países inteiros permitem que as estatísticas entre hábitos e tratamentos sejam cruzadas com a população que sofre de demência. Foi o que fizeram os pesquisadores da Dinamarca, no maior estudo do gênero já publicado sobre a demência, divulgado no periódico BMJ. 

Cientistas selecionaram os dados de 5.589 mulheres que desenvolveram demência. Os pesquisadores compararam as informações dessas pessoas com as de 55 890 mulheres no grupo controle, selecionadas aleatoriamente e pareadas por idade, em uma população de todas as dinamarquesas com idades entre 50 e 60 anos. Sendo o grupo controle uma amostra representativa de toda a população, algumas desenvolveram demência.

A hipótese que os cientistas queriam testar era a de que existe uma correlação entre o desenvolvimento da demência e um histórico de reposição hormonal na menopausa. Pesquisadores sabiam que essa possibilidade existia, pois um dos hormônios utilizados na terapia de reposição tem propriedades neuroprotetoras e neurodanificantes – o estrogênio. Ainda não se sabe ao certo como o outro componente da terapia, a progesterona, atua no cérebro.

Comparado com o controle aleatório, o grupo selecionado no caso tinha escolaridade mais baixa, menor renda familiar e era mais propenso a morar sozinho e ter hipertensão, além de ter mais diabetes e doenças da tireoide no momento do índice. Para se certificar de que o estudo não seria contaminado por demência com origens genéticas, e de que o estrogênio estudado vinha da terapia hormonal e não de outras fontes, os pesquisadores não puderam estudar todas as dinamarquesas com demência. Eles selecionaram aquelas sem histórico de demência na família, com útero íntegro, sem diversos tipos de câncer ou doenças associadas a desequilíbrio hormonal. 

Desta forma, a análise da estatística forneceu taxas em intervalos de confiança de 95%. Em outras palavras, há bastante certeza que o estudo mediu o aumento do risco de desenvolver a doença em função do tratamento hormonal. Há várias causas possíveis para a demência, mas boa parte delas foi estatisticamente descartada para que se pudesse mensurar o impacto do tratamento hormonal. 

Os resultados são muito claros. 

Em comparação com quem nunca usou estrogênio-progestágeno na menopausa, as usuárias do tratamento tiveram 1,24 vezes maior probabilidade de desenvolver demência. A associação persistiu tanto na demência precoce quanto na demência de início tardio, bem como para a doença de Alzheimer (22% mais probabilidade entre as usuárias da terapia hormonal).  

Durações mais longas de terapia foram associadas a taxas de risco crescentes, que variaram de 1,21 maior risco para reposição hormonal com duração de um ano ou menos, e 1,74 vezes mais probabilidade de desenvolver a doença para quem repõe hormônios por mais de 12 anos. Não houve diferença significativa entre aquelas que fizeram a terapia em ciclos ou continuamente. 

Menopausa 

A terapia de reposição hormonal é usada para aliviar os sintomas vasomotores da menopausa. São as ondas de calor, conhecidas como popularmente como “fogacho”, que estão relacionadas com a desregulação no mecanismo de controle térmico corporal. As ondas de calor costumam começar intensa e subitamente na parte superior do tórax que sobe para a face, estendendo-se de forma generalizada para o restante do corpo. 

A mulher se sente muito quente, mas sua temperatura se mantém normal, na faixa de 36,5ºC. Essa sensação de calor pode durar entre dois e quatro minutos, sendo frequentemente associada à transpiração intensa e vermelhidão da pele, decorrentes da vasodilatação dos vasos da pele, que também causam sudorese e consequente perda de calor. Essa perda de calor causa uma queda abrupta na temperatura corporal, levando a um quadro de leve hipotermia. 

Quando o fogacho começa a se dissipar, o corpo responde com calafrios, um mecanismo que tem o objetivo de gerar calor em uma tentativa de recuperar a temperatura ideal. As ondas de calor podem ocorrer em diversos momentos do dia, inclusive durante o período noturno, um agravante que pode prejudicar bastante a qualidade de vida da mulher devido à privação de sono que pode, inclusive, originar a insônia. O fogacho é um sintoma que acomete até três quartos das mulheres na menopausa. Cerca de 80% das mulheres que sofrem com as ondas de calor apresentarão o sintoma por mais de um ano, normalmente por volta de dois ou três.

Por que estrogênio e progesterona

A progesterona é o principal hormônio de uma classe de hormônios chamados progestágenos (ou progestinas). Os progestágenos são hormônios sexuais que afetam o desenvolvimento sexual durante a puberdade e estão envolvidos no processo de reprodução. Na menopausa, a produção desses hormônios cai acentuadamente.

O efeito do progestágeno na terapia hormonal da menopausa sobre o risco de demência também permanece incerto. A progestina é usada para proteger o endométrio das propriedades cancerígenas do estrogênio durante a terapia para sintomas vasomotores da menopausa.Apesar de estar relacionado com maior risco de desenvolver demência, o estrogênio também significa menor risco de isquemia cerebral, segundo estudo de 2006. O estrogênio previne danos aos vasos sanguíneos e mulheres pós-menopáusicas recebendo terapia de reposição hormonal tiveram menos e menores áreas do cérebro danificadas após um evento isquêmico em comparação com grupos controles.