João, o homem que usou o nome de Deus
Por Lívia Barbosa

O escândalo sexual envolvendo o médium espiritualista João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, nos traz importantes reflexões, entre elas o respeito à vítima e à religiosidade. A conduta de João, o homem que usou o nome de Deus, não deve ser usada para diminuir a doutrina espiritualista, assim como os escândalos sexuais envolvendo padres e pastores não devem ser usados para questionar a validade da religiosidade de seus fiéis, e sim a atuação ou omissão por parte de suas respectivas instituições.

Nos últimos dias, a prática espiritualista tem sido atacada e questionada, principalmente nas redes sociais. Isso é uma segunda agressão às vítimas e a milhões de pessoas que seguem a doutrina espirita e espiritualista no Brasil e em outros países. Somam-se a isso vários julgamentos de toda sorte às centenas de mulheres que relataram abusos cometidos pelo médium. Buscam-se defeitos, zombam de suas crenças e questionam até mesmo seu silêncio.

No entanto, o caso de Abadiânia deve servir de alerta para que paremos, de uma vez por todas, de procurar deuses na terra. Independente da crença, é preciso entender que as religiões são conduzidas por seres humanos imperfeitos. A partir dessa máxima, o endeusamento aos médiuns e líderes não deve ser prática incentivada nos centros espíritas e espiritualistas.

De acordo com a doutrina espírita, o médium é apenas um instrumento para a atuação do espírito, sendo esse, sim, curador e acima das imperfeições humanas. Logo, nada explica por que João de Deus, acusado de incontáveis crimes, tem contado com a proteção e defesa cega por parte de um grande número de seguidores.

Também é preciso pontuar que João criou uma prática espiritualista particular, sendo muitas de suas condutas desaprovadas pela doutrina tradicional, como o atendimento particular e cobrança pela obtenção de produtos “espirituais”, após os tratamentos realizados na Casa de Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia.

Por fim, proponho que a conduta do médium que abusou da fé de milhares de pessoas que se deslocaram de todas as partes do mundo em busca de cura possa ser vista como ela é: um homem que é acusado de cometer crimes, que precisa ser investigado e, acima de tudo, punido.

Silêncio não é mea culpa
Por Elisama Ximenes

O silêncio acompanha a mulher desde os primórdios. A mordaça era punição da mulher escravizada no Brasil. A esposa, branca, embora em posição mais privilegiada, só podia falar com a permissão do marido. No Oriente, países ainda cobrem as mulheres por inteiras, deixando, inclusive, as bocas tapadas, apenas os olhos abertos.

Ficar calada é a arma de defesa da mulher e o medo da represália, agressiva ou não, lhe dá munição. Há de se questionar, no entanto, como tanta gente ainda não sabe por que as vítimas do médium goiano João Teixeira, o João de Deus, guardaram apenas para si os relatos de abusos durante tanto tempo.

Há uma série de questões a serem colocadas, entre elas as ameaças espirituais e morais específicas feitas pelo médium. Mas, aqui, pontuo que esse silêncio é histórico. Também por isso, em outros casos, a vítima pode permanecer calada até sua morte, mesmo que o agressor não tenha feito a chamada violência sexual mediante fraude, pela qual o médium é acusado.

A pensadora pós-colonial Gayatri Spivak escreveu e refletiu “Pode subalterno falar?”. Há de se convir que as mulheres estão em posição de subalternidade em relação aos homens. Dificilmente, mesmo em uma sociedade mais liberal, elas terão espaço de fala. Mas quando conseguem falar, e esse é um questionamento também feito por Spivak, será que são ouvidas?

No caso das já mais de 500 denúncias de abuso sexual contra o médium de Abadiânia, as mulheres decidiram e foram encorajadas a falar. Ainda assim, questiona-se se estão sendo ouvidas. Enquanto a justiça apura os relatos, com uma lei que pode simplesmente anular crimes pelo tempo de prescrição, nas redes sociais, a ágora dos tempos modernos, pessoas duvidam delas.

É possível ler todos os tipos de absurdos. Desde a teoria de um suposto ensaio na fala das centenas de vítimas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo até alegações de que todas estariam querendo extorquir o médium ou manchar sua imagem a troco de algo ainda não revelado pelos especuladores.

O promotor do Ministério Público Luciano Miranda ainda disse em sua primeira entrevista coletiva sobre o caso que não se podia duvidar de um relato desses, já que a vítima tomou coragem de dizê-lo mesmo correndo o risco de ter a própria imagem manchada. Mas, não, acham que correriam esse risco para prejudicar a imaculada identidade do considerado santo.

É um clichê feminista que se repete há anos, mas que há de ser dito e redito até que não se julgue mais uma mulher violentada: a culpa não é da vítima. Não há mais argumentos que eu coloque aqui que sejam novos e vá convencer alguém de tal, mas, não, a culpa não é da mulher agredida, violada. Julgamentos sociais são o que alimentam o silêncio, a vergonha e é por isso que se demorou tanto tempo para tudo vir à tona.

Neste momento, tudo o que menos se precisa é de mais constrangimento do que essas pessoas já tiveram que passar. A sensibilidade, empatia e a força são o que deve sustentar esse período de auge do debate e depois dele. Chega de mulheres ceifando a própria vida por medo e vergonha do que tiveram que passar em nome da crueldade e opressão de um homem inescrupuloso. Não aperte a mordaça de quem já foi historicamente silenciada.

Pior do que o silêncio só João
Por Marília Noleto

Evidentemente não é isso que Caetano Veloso canta nos versos de “Pra Ninguém”. Mas quando fui solicitada para escrever minhas considerações sobre o caso João Teixeira de Faria (chega de “João de Deus”! Quebremos de uma vez esse vínculo, que a esta altura seria um verdadeiro sacrilégio), imediatamente lembrei-me deste verso da canção e a subversão da letra foi automática em minha mente, pois acho que ela bem traduz, de forma sucinta, os dois aspectos trágicos desta história escabrosa.

Primeiro, a questão do silêncio. Quando o caso veio a público no programa do jornalista Pedro Bial, rompeu-se uma mordaça coletiva que por décadas calou não só centenas vítimas, mas todos aqueles que compartilhavam de seus dramas. Infelizmente, o caso de João Teixeira de Faria não foi o primeiro e não será o último, porque a imposição do medo pela ameaça é um estratagema comum entre abusadores. E esse ainda será, por muito tempo, o maior desafio no combate à violência contra mulheres, especificamente as de natureza sexual. Mas o que mais impressiona nem é o silêncio, mas a cegueira, e da pior espécie: a daqueles que se negam a ver, mesmo com tantas evidências. Se negam ou por interesses financeiros ou porque recusam-se a conformar que o ídolo tinha os pés afundados em uma lama nojenta. É muito irônico também que tudo tenha ocorrido em um munícipio cujas raízes históricas tenha em sua fundação uma mulher, Dona Emerenciana, e grandes romarias e festividades religiosas.

Segundo, o próprio João. Como encontrar, a esta altura, palavras que possam expressar a dimensão adequada da atrocidade cometida por este senhor que, até então, era considerado por uma legião de devotos, paladino da sabedoria, luz, benevolência e amor ao próximo? É difícil fazer uma análise racional e não se deixar por sentimentos irascíveis, pois a história ganha contornos cada vez mais sórdidos à medida que os detalhes vão vindo a público  para deleite do insaciável apetite sensacionalista. Os atos cometidos por João são de um genuíno psicopata ou qualquer outra patologia equivalente. Total ausência de empatia por um séquito que o procurava justamente no auge da fragilidade em suas vidas: pessoas doentes, desenganadas, desesperadas. Brincou com a fé e os princípios de toda uma doutrina que sempre procurou pregar o amor e semear o bem: o espiritismo kardecista, pela qual pessoalmente nutro profundo respeito. Isso tornou tudo ainda mais cruel.

Depois de tanto escrever, confesso que continuo na mesma: sem palavras para este caso mórbido. Penso que o que nos resta é torcer para que haja, de fato, justiça. Dos homens.

Conheço a fama de João de Deus
Por Ludmilla Morais

Ao assistir o programa “Conversa com Bial”, não me surpreendi com os relatos de mulheres que afirmaram ter sido abusadas sexualmente pelo médium João de Deus. A minha ausência de surpresa se deve ao fato de que vivi até os 16 anos em Abadiânia, cidade onde ele atende há 40 anos.

A cidade é dividida pela BR-060. De um lado, a pacata cidade goiana de Abadiânia e, do outro “lado da pista”, como os conterrâneos o chamam, é do João de Deus. Sempre foi. Desse lado, tudo é diferente. Repleto de pousadas, placas em diferentes línguas, principalmente inglês, e gringos vestidos de branco.

Cresci ouvindo relatos absurdos do João de Deus. Quando pequena eu sequer falava o nome dele, porque me diziam que ele tinha o poder de saber de tudo e poderia me retaliar. Depois de grande, vi que isso não fazia sentido.

Nunca fui frequentadora assídua da Casa de Dom Inácio, mas já fui algumas vezes. Como sou de família católica, aquele local sempre foi meio “proibido” para mim. Mas a curiosidade e algumas amizades que trabalhavam lá me fizeram ir de vez em quando.

O local traz paz, devo confessar. Mas o primeiro e único contato que tive com o “seu João”, como o chamamos lá, foi no mínimo esquisito. Fui fazer um trabalho de faculdade e pedi autorização para fazer imagens da Casa de Dom Inácio. Ele deixou e, ao fim do trabalho, eu e minha colega de faculdade fomos recebidas por ele. Isso em meados de 2010.

Apresentei-me como filha da cidade e disse que fazia jornalismo. Não lembro exatamente da conversa, mas em certo momento, ele olhou pra minha amiga, ao descobrir que ela era acreana, e disse: “Conheço a fama das mulheres do Acre. Elas são quentes”. Minha amiga ficou sem graça, desconversou e me chamou para ir embora. Antes de irmos, ele apontou para lanchonete e disse: “Podem comer o que vocês quiserem”. Agradecemos, mas recusamos.

Durante muitos anos, sempre ouvia as mesmas histórias de que ele assediava as mulheres que trabalhavam na Casa, que ele era muito mulherengo e muito, mas muito rico.

Confesso que as denúncias de pacientes foram novidades pra mim. Nunca pensei que ele seria tão ousado. Desejo que a Justiça seja feita. Que se ele for culpado, que pague por isso e que as vítimas consigam seguir em frente.

Pela minha cidade, eu lamento. Muito. Com certeza, as coisas ficarão difícil por lá. Porque a economia de Abadiânia girava entorno do turismo religioso. Mas espero que tudo isso seja esclarecido e superado.