Mulheres criticam conservadorismo político e comportamental do senador Ronaldo Caiado

Representantes de classes ligadas ao ativismo feminista se negam a votar no parlamentar para governador de Goiás; líder do DEM estaria distante das lutas das mulheres

Pesquisa do Instituto Real Big Time Data sobre o perfil dos postulantes ao governo mostra baixo índice de eleitores do gênero feminino para o democrata Ronaldo Caiado| Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Rafael Oliveira

O pré-candidato ao governo de Goiás pelo DEM, senador Ronaldo Caiado, enfrenta resistência para conquistar votos das eleitoras goianas. Uma pesquisa do Instituto Real Big Time Data sobre o perfil dos postulantes ao governo do Estado mostra baixo índice de eleitores do gênero feminino para o democrata. Dos 100% entrevistados, 30% das intenções de voto para o presidente do partido Democratas são mulheres.

Ativistas dos movimentos de luta por mais direitos das mulheres atribuem a rejeição ao suposto “modo arrogante” do senador. Mas os argumentos vão além dos “trejeitos” costumeiros de Caiado. A ativista Sara Macedo é integrante do movimento RUA Juventude Anticapitalista, uma organização nacional ligada à campanha presidencial do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Sara Macedo destaca o posicionamento econômico do pré-candidato — seria neoliberal — como o fator mais preocupante na sua avaliação.

Sara Macedo lembra a participação de Caiado na votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do congelamento de gastos da União. O senador votou a favor da matéria. “A PEC do congelamento de gastos afeta áreas importantes para o Brasil. Um dos problemas é que o senador aprova o pagamento da crise econômica pela classe trabalhadora. Basta ver o referencial de dois integrantes de sua família, que têm escândalo de trabalho escravo em suas propriedades rurais em Goiás”, postula a ativista. Um dos parentes nega que tenha escravizado carvoeiros. Ele assegura que a área havia sido repassada para um terceiro, no sistema de comodato, e que não frequentava o local onde se dava a produção de carvão.

A ativista Nádia Garcia, diretora-executiva da juventude nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), indica a “ideologia retrógrada” do senador como fator decisivo para as mulheres se afastarem da candidatura democrata. “Ele não representa as lutas das mulheres. Goiás foi o Estado que teve maior crescimento de morte de mulheres e negras no Brasil e ele não compreende esses dados por não ser ligado à luta dos direitos das mulheres.” Nádia Garcia sustenta que existem indícios de índios maltratados em propriedades rurais da família Caiado, na região Centro-Oeste. “Ele é da bancada ruralista. Por isso não consegue fazer vínculos com os direitos dos trabalhadores e não consegue pensar políticas públicas para as classes minoritárias que englobam os negros, mulheres, jovens e índios.” Teme-se que, se eleito governador, o líder do DEM governe só para as elites.

Outra característica apontada pela historiadora e integrante do Centro de Pesquisas em Ciências Sociais e Antropologia da Universidade Federal de Goiás (UFG) Yordanna Lara é o suposto “desequilíbrio emocional” do senador. Para a pesquisadora, esse sintoma denuncia o velho comportamento conservador, autoritário e machista de Caiado. “Como confiar em alguém que, ao ser contestado, não consegue dialogar e automaticamente hierarquiza a situação? Uma expressão que está circulando com muita força a respeito disso diz: ‘Goiás não é mais sua fazenda e os goianos não são mais seu gado’. Com ela em si já se compreende o tom com que sua candidatura está sendo vista entre nós mulheres.”

A professora também participa dos grupos de estudos em Gênero, Sexo e Sexualidades no Sertão-UFG e Transexualidade, Travestilidades e Transgeneridades no Trans-UFG. Como historiadora, observa a evolução histórica de politização das mulheres com acesso a espaços de informação e debates sociopolíticos. “Além de estarmos nos envolvendo muito mais direta e ativamente com movimentos sociais. O resultado não seria outro com o senso crítico sendo estabelecido e uma emancipação coletiva. A educação é a força motriz da revolução feminina e feminista que estamos vivendo. A família Caiado tem uma história, em Goiás e no Brasil, violenta e opressora. E isso não está passando despercebido ou sendo descolado de seu discurso e figura.”

A diretora do Centro de Valorização da Mulher em Goiás (Cevam), Maria das Dores Dolly Soares, não conhece pessoalmente Caiado e não prioriza o contato. “As notícias que chegam ao meu conhecimento são de que é machista, truculento e tem ideias ultrapassadas nas questões relativas às mulheres. Ele, como político e senador, nunca fez contato com a gente para oferecer ajuda ou perguntar se precisamos de algo. Nesse sentido, fico até com medo de uma pessoa como ele assumir o Poder Executivo estadual”, pontua a diretora. Maria das Dores menciona um ditado popular — “Não há nada ruim que não possa piorar” — para classificar a possível eleição de Caiado ao Palácio das Esmeraldas.

Gestão temerária

Nádia Garcia, Maria das Dores, Sara Macedo e Yordanna Lara: eleitoras enxergam Caiado como um político distante das pautas que discutem da emancipação da mulher | Fotos: Arquivos pessoais

Sara Macedo acredita no crescimento de mulheres que não votarão em Caiado. “O Brasil é um dos piores países do mundo em representatividade feminina nos espaços legislativos, perdemos até para a Arábia Saudita. Em um momento que se discute a maior presença de mulheres na política e no processo eleitoral, o senador compõe uma chapa majoritária só com homens. Mais um indício do que será o possível governo dele para as mulheres.”

A diretora do Cevam se preocupa com as candidaturas “machistas” colocadas nos cenários nacional e local. “Uma das lutas das causas feministas, como a violência doméstica, não tem sido discutida por nenhum candidato e isso é muito preocupante. Goiás é o terceiro Estado brasileiro que mais mata mulheres no Brasil”, enfatiza Maria das Dores.

Sara Macedo usa dados da situação brasileira após a aprovação da PEC das Empregadas Domésticas para exemplificar algumas bandeiras da luta das mulheres. Em Goiás, 14% das empregadas do lar conseguiram assinatura dos patrões na carteira de trabalho. “As políticas públicas para as mulheres do nosso Estado deverão passar por Caiado caso seja eleito. A nossa perspectiva é trabalhar para que as mulheres encontrem trabalho digno de qualidade, saúde de qualidade para a população e melhor educação para as crianças. E o que esperar de um político que tem um histórico parlamentar terrível?”, questiona.

Cevam estuda propostas

O Cevam elabora um documento com propostas de combate à violência doméstica e outros temas pertinentes às lutas feministas para os pré-candidatos ao governo goiano. Com dificuldade financeira para manter as portas abertas — o centro possui dívida de R$ 800 mil —, o instituto vai pedir votos a quem se colocar como “padrinho” do órgão.

Maria das Dores sugere o desmembramento da Secretaria da Mulher da Secretaria Cidadã. “Entendemos que a Secretaria da Mulher deve ter uma estrutura de Estado exclusivo para direcionar as lutas e fortalecimento das mulheres. Desta forma, a gente vai buscar uma ação positiva para acelerar essa mudança de desigualdade que existe hoje em Goiás.”

Alvo de protestos

O senador Ronaldo Caiado (DEM) foi um dos alvos do protesto no Dia Internacional da Mulher, em março deste ano, na sede da Assembleia Legislativa de Goiás. Contra o democrata, uma das faixas dizia: “O senador dos grileiros, representante do conservadorismo e do atraso”. Na outra estava escrito: “Caiado: coronel, machista, homofóbico, truculento e atrasado”.

Participaram do ato movimentos rurais e trabalhistas, como a Central Única dos Trabalhadores de Goiás (CUT-Goiás), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e Movimento Camponês Popular (MCP).

Cientista político diz que representatividade feminina deve cair no Congresso

David Fleischer: mulheres, ao se afastarem do discurso político, forçaram os partidos a buscá-las para as chapas majoritárias | Foto: Reprodução/Facebook

Professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer observa mudança no cenário eleitoral após as mulheres se afastarem do discurso político. Ele diz que os partidos se sensibilizaram com a ausência feminina nas pesquisas e buscam mulheres para compor as chapas majoritárias.

O candidato do PSL a presidente da República, o deputado federal Jair Bolsonaro, tenta convencer a advogada e professora universitária paulista Janaína Paschoal a ser sua vice. O tucano Geraldo Alckmin cogita uma mulher no mesmo posto, sugerindo o nome da senadora Ana Amélia Lemos (PP), do Rio Grande do Sul. O Partido dos Trabalhadores trabalha com a possibilidade de ter a deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) como vice de algum candidato, que poderia ser o ex-governador baiano Jaques Wagner ou o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.

Na disputa pelo voto feminino, David Fleischer aponta um problema histórico no Brasil: mulher não vota em mulher. O cientista político sublinha que a representatividade feminina no Congresso Nacional pode diminuir nesta eleição. “Cinco senadoras vão disputar o cargo de deputada federal. Isso mostra que o Senado vai perder uma boa representatividade de mulheres em seu quadro. Teoricamente, era mais fácil ter mais mulheres na Câmara dos Deputados do que no Senado, mas acontece o inverso. A Câmara tem 9% de parlamentares mulheres e o Senado tem 15%. Como a eleição para a Câmara é proporcional, deveria ocorrer uma representatividade maior.”

Mulheres respondem pela maioria dos votos brancos e nulos

O eleitorado feminino responde pela maioria dos votos brancos e nulos declarados em pesquisas de intenção de voto para presidente da República. Segundo recorte feito em uma pesquisa do Instituto Ibope, seis em cada dez eleitores dispostos a não votar nos pré-candidatos apresentados são mulheres na faixa etária dos 35 aos 44 anos. No levantamento, elas alegaram desilusão com os recorrentes escândalos de corrupção na classe política e estão preocupadas com o rumo da economia.

A mesma preponderância feminina é observada no grupo dos eleitores indecisos. Em ambos os casos, a participação de mulheres é superior se comparada ao número de votos que detêm no País. O detalhamento da última pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) para presidente mostra que, enquanto elas representam 52% do eleitorado nacional, são 58% na fatia dos eleitores que vota branco ou nulo e 55% entre os que não se decidiram.

A indignação feminina diante da corrupção e as incertezas relacionadas à recuperação da economia brasileira, especialmente a retomada do emprego e o risco da inflação, explicam o fenômeno, segundo pesquisas qualitativas feitas pelo Ibope. Cientistas políticos apontam mais dois motivos: o sentimento de que os atuais políticos não representam as mulheres — em 2014, elas preencheram apenas 10% das vagas na Câmara dos Deputados — e a indefinição em torno de quem será ou não candidato em outubro.

O porcentual de eleitores dispostos a anular o voto é o que mais chama a atenção. No cenário sem a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso pela Operação Lava Jato, o índice de eleitores que declaram voto em branco ou nulo chega a 31%, contando mulheres e homens. Em 2014, de acordo com o Ibope, a taxa nessa mesma época do período eleitoral era de 16%.

Crise de identidade

O cientista político David Fleischer explica que as mulheres são mais sensíveis ao problema de alienação política. “Elas sentem mais a falta de representatividade do que os homens. O episódio do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff abalou esse ânimo porque as mulheres se viam representadas nela também.”

O resultado das pesquisas qualitativas do Ibope confirma essa percepção. Segundo o instituto, as mulheres deixam para decidir nos últimos dias da campanha, quase na véspera da eleição, justamente porque são mais críticas, explica David Fleischer.

Discurso na televisão

O cientista político considera que o início oficial da campanha, a partir de 16 de agosto, deve marcar uma inflexão no discurso dos pré-candidatos à Presidência — até agora sem preocupação específica de resgatar a confiança do eleitor que declara voto nulo ou em branco nestas eleições. “O eleitor está muito chateado com a classe política. Ele pensa que todo mundo é corrupto”, assinala.

Nas últimas semanas, no entanto, Geraldo Alckmin passou a aparecer mais ao lado da mulher, Lu Alckmin, em vídeos e fotos das redes sociais. Em um deles, lembra que são casados há 39 anos e em outro afirma que é apaixonado por ela. “Ele tem razão em colocar a mulher na sua campanha. Ela é muito articulada e pode conquistar algumas eleitoras”, analisa David Fleischer, norte-americano radicado no Brasil há vários anos.

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