Talvez seja o momento de o prefeito, em um exercício de humildade próprio dos homens públicos, tentar uma reconciliação com a comunidade do Jardim Botânico

Iris Rezende durante prestação de contas do 2º quadrimestre | Foto: Divulgação / Prefeitura de Goiânia

Tadeu Alencar Arrais
Especial para o Jornal Opção

Não tenho apego pelo relato pessoal. Que­brarei, a partir de agora, esse protocolo que guia, com frequência, os textos que escrevo. Ouvi atentamente o emocionante relato de Osias Vieira, líder comunitário, sobre o Decreto nº 2.618, de 6 de setembro de 2017, que declara de utilidade pública para fins de desapropriação uma extensa área que abrange a margem direita e a margem esquerda do Córrego Botafogo, na altura do Setor Pedro Ludovico e da Vila Redenção. Vila São João, Vila Maria José e Vila Isabel, bairros invisíveis, poderão deixar de existir nos mapas e, junto com eles, a vida e a memória de seus habitantes. Osias Vieira relatou, na ocasião, um encontro com o hoje prefeito Iris Rezende (PMDB), então candidato, e os compromissos firmados no clima da campanha para a Prefeitura de Goiânia que, sob o risco da síntese, podem assim ser resumidos: “Daqui ninguém tira vocês!”. Pude imaginar a alegria da comunidade, reunida na casa de um vizinho, espalhando a notícia pelos becos que, entre outras funções, espalham notícias como o vento. Minha sensação de “déjà vu” foi instantânea. A memória não foi traída pela audição.

Essa história começa em algum momento do início da década de 80, quando Iris Rezende era governador do Estado. Residiam, naquele barracão de três cômodos, protegido por telhas de amianto, uma família de sete pessoas. Três adultos e quatro crianças. O local, demasiadamente apertado, era preenchido por beliches de madeira. A centralidade, no entanto, compensava o desconforto, afinal, estar perto das universidades, lembrava a mãe, era melhor que o destino anterior, em Aparecida de Goiânia. A área situava-se entre a 6ª Avenida e a 7ª Avenida, no fundo da Igreja São Francisco de Assis. Havia algo de comum em todas as casas e que só recentemente, na vida adulta, pude compreender em sua plenitude. Um nome econômico, abreviado, grifado em letras disformes dava simetria aquele espaço, por natureza, assimétrico: CPU (Campanha do Posseiro Urbano).

Aquela sigla, por muito tempo, povoou meu imaginário. No início parecia algo aleatório, de difícil compreensão para uma criança mais preocupada em jogar bete ou subir no muro da igreja para catar frutas. A sigla CPU, no entanto, não só qualificava o espaço, mas também as pessoas que ali viviam. Tratava-se de uma invasão. Lugar de pessoas que, por motivos que as demais pessoas não queriam saber, tentavam sobreviver aos estigmas classificatórios. Onde você mora? A simples pergunta de um colega na escola era suficiente para impor um absurdo silencio na alma – dizer onde morava, imaginava, era revelar o que era, ou melhor, o que as pessoas pensavam que eu era.

Lembro-me de que foi em uma noite de dezembro. O pequeno evento, no entanto, está grifado em nossas memórias como o piche nos muros de cada unidade habitacional daquela quadra que, tempos depois, descobri ser, originalmente, uma praça. Ereto, sobre uma cadeira, com um discurso forte sobre democratização e direito à moradia, falava Iris Rezende Machado. Sim. A regularização fundiária, mesmo sendo um direito, necessitava de um rito de passagem. De uma espécie de atestado, como um doente que precisa da chancela do médico para deixar a enfermaria. Comovidos, confundiam populismo conjuntural com direito social. A criançada, como sempre, não sabia que aquele ato ordinário poderia, mesmo, mudar os destinos da comunidade. Muito rápido o tempo apagou o CPU dos muros. Mas esse não foi o último encontro com Iris Rezende. No mesmo período, com o perdão da traição da memória, uma vez por semana, na tarefa de vender jornais quando a profissão de jornaleiro estava em alta, nos encontrávamos para um nutritivo café da manhã nas dependências do Palácio das Esmeraldas, acompanhados pela primeira-dama Iris Araújo. Não recordo, francamente, se comiam o mesmo pão e tomavam o mesmo leite daquele pequeno batalhão de “Oliver Twist”. O que hoje compreendo como populismo na época era um bom momento para garantir nutrição matinal – afinal, leite quente e pão amarelo na madrugada fria ninguém nega.

Não recordo as datas. A memória trai. Certamente, mais de 30 anos se­param os relatos pessoais descritos da audiência pública realizada no dia 5 de outubro. Mudei de lugar. De­dico significativa fração do meu tempo, por prazer, ao estudo das cidades. Minha mãe, com frequência, diz que vencemos na vida. Engano das mães. Não se vence uma batalha sozinho. Não há vencedores nas cidades de hoje. Os relatos de Osias Vieira provam isso. Não pude deixar de pensar, ao ouvi-lo, que as marcas no muro ainda estão grifadas em meu peito. Ainda determinam minha identidade. Determinam o que fui e, sobretudo, o que serei. Não é nostalgia. É lembrança. Nem lembrança ruim. Nem lembrança boa. O Setor Universitário mudou, sou quase incapaz de perceber, na paisagem atual, as marcas do passado. A paisagem é memória que precisa dos olhos para lembrar. O Jardim Botânico mudará. E Iris Rezende? Por que – na opinião da comunidade presente na audiência – mudou tanto?

A resposta, é claro, nunca será única. No plano pessoal, não creio que Iris Rezende tenha a mesma energia para subir em uma cadeira e discursar, sem pestanejar, sobre a necessidade da habitação popular ou mesmo sobre a regularização fundiária. No entanto, imaginava que a energia que cessa ao longo do tempo poderia ser compensada com a maior capacidade para o diálogo. Imaginava que a finitude que nos persegue poderia fazê-lo entender que a grande obra de um homem público é a memória. Não a memória individual, por vezes mesquinha, egoísta, manipulada. Não a memória dos monumentos ou a memória de uma legião de bajuladores ou mesmo especialistas protegidos pelo manto quase sagrado dos relatórios técnicos. Refiro-me à memória daqueles que, algum dia, depositaram nesses homens públicos a esperança de que pudessem fazer algo de bom para a legião de despossuídos que habitam nossas cidades.

Gabriel García Márquez, em “Memórias de Minhas Putas Tristes”, revela, sem nenhum pudor, o seu baú particular de desejos. Desejos abandonados ao longo de nossa jornada e reativados, na pausa da velhice, pelo amor, pela paixão e pela solidariedade. Reconheço esses desejos nos depoimentos dos moradores do Jardim Botânico. Não são desejos tão complicados. Uma idosa, apenas, quer continuar conversando com seus vizinhos em sua velha cadeira de macarrão. Outra deseja continuar criando galinhas. Outros desejam morrer sabendo que os filhos estarão seguros e, quem sabe, celebrando suas memórias. Todos, no entanto, esperam sua sagrada escritura. Diferente da década de 1980, estão cientes de seus direitos. Talvez seja o momento de Iris Rezende Machado, em um exercício de humildade próprio dos homens públicos, tentar uma reconciliação com a comunidade do Jardim Botânico. Com a criança que assistiu, esperando algum doce, aquele discurso no Setor Universitário, já não há reconciliação possível. Ela cresceu e perdeu a ingenuidade.

Tadeu Alencar Arrais é professor associado do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG.