MBL: mito da caverna nunca fez tanto sentido quanto no Brasil em 2017

Movimento Brasil Livre precisou se reinventar nas pautas que defende publicamente para justificar a manutenção do poder de mobilização que tão bem o grupo sabe fazer, pautado desta vez no preconceito contra o diferente

Em nome do apoio à pré-candidatura de João Doria (PSDB) em 2018, MBL se cala sobre corrupção no governo Temer

Um dia seria possível imaginar que parte do livro escrito em um tem­po que gira em torno de 380 e 370 an­tes de Cristo (a.C.) explicaria tão bem a nossa realidade en­quanto sociedade? Pois “A Re­pú­blica”, do filósofo grego Platão, tal­vez consiga explicar o caminho a passos largos que temos da­do rumo à intolerância pautada pela ignorância, não no sentido de burrice, mas na falta de conhecimento sobre determinado assunto.

De repente, uma população que não frequenta museus começou a discutir o que é arte. E ainda pior: se há crimes cometidos no trabalho de pintores, escultores ou atores em suas obras e performances. Isso vindo de uma sociedade na qual 90% não foi a um museu em 2016, segundo os dados da Federação do Comércio do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ). Mesmo que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não dê em qualquer parte do seu texto a margem para a interpretação de que os quadros ou exposições atacados, e não só criticados, por supostos crimes de apologia à pedofilia e zoofilia, muita gente insiste em dizer que fere a moral judaico-cristã e por isso deveriam ser proibidos.

Então precisa ficar bem claro que é por motivação única e ex­clusiva de crença pessoal do funcionamento do mundo e nada tem a ver com crimes ou incentivo para que eles aconteçam o fator que motivou todo esse alvoroço em torno de uma coisa preciosa para o liberalismo que se chama liberdade de expressão. Se a gritaria parte do entendimento pessoal sobre a vida e a formatação privada dessa construção de desenvolvimento do ser humano, parem de hipocrisia.

Mas onde entra o Movimento Brasil Livre, mais conhecido pela sigla MBL, nessa história? Em seu poder de mobilização de uma parcela considerável da população brasileira para lutar por temas, muitas vezes recheados de ódio e intolerância, contra aquilo que eles publicamente apontam como comportamentos criminosos ou demonstrações de destruição da sociedade na qual está inserido o cidadão de bem. Aliás, uma quantidade considerável de cidadãos de bem também matam – não esqueçamos de Las Vegas –, agridem mulheres – crimes ditos passionais de feminicídio –, violentam o direito do outro de ter sua privacidade resguardada – os policiais do comportamento –, filmam crianças em museus sem a autorização dos responsáveis legais que as acompanham – isso sim fere o ECA – e compartilham as imagens na internet de forma abusiva.

O MBL não era um dos grandes mobilizadores liberais contra o crime de corrupção na política brasileira, defensor das manifestações favoráveis ao impeachment da ex-presidente da República Dilma Rousseff (PT)? Por que o mesmo movimento, que sempre se definiu como apartidário, não combate a corrupção do governo de Michel Temer (PMDB), que assumiu o cargo com a destituição de Dilma pelo Congresso Nacional? E mais. Quando o MBL passou a atacar, com discursos de ódio e memes recheados de informações muitas vezes questionáveis e inverídicas, pautas comportamentais ultraconservadoras como o direito privado de uma pessoa a frequentar um museu com determinado tipo de manifestação artística ou se é certo ou errado uma mãe levar seu filho a uma performance com um ator nu mesmo com todos os avisos no local sobre o conteúdo da manifestação cultural em exibição?

Muitas matérias, entrevistas e artigos já foram escritos descrevendo toda a estrutura do Movimento Brasil Livre – que de livre nada ou quase nada tem. Mas a mais certeira delas, que atingiu o embrião de vida do MBL, foi a matéria “O grupo da mão invisível”, da Revista Piauí, escrita por Bruno Abbud. Quando, ainda em 2015, alguns poucos alertavam para o fato de o nascimento de um grupo que se viabilizava pela luta contra a corrupção de parte do PT integrante do governo federal nas gestões Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma não passar de uma união do mercado financeiro, sindicatos patronais, confederações industriais e agropecuárias do País em torno da defesa de uma agenda de reformas que depois veio a ser assumida pelo governo Temer, parecia discurso chato de gente encrenqueira. E pouca gente deu a devida moral para aqueles críticos do MBL.

Reinvenção

E agora, em 2017, temos um movimento que se renova na pregação da intolerância ao diferente e contra as minorias para conquistar um eleitorado desavisado ao seu projeto político eleitoral que tem como base a defesa do nome, até então, do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). Como isso se daria? Pela construção, com ajuda do MBL, da união de forças do DEM e do PMDB em torno dessa possível pré-candidatura a presidente da República em 2018. Só que quem é o grande financiador de toda a movimentação desse grupo liberal, mas que se revelou liberal apenas na economia, com a defesa da agenda de reformas do governo Temer? Com o aporte do mercado financeiro e das grandes lideranças empresariais e do agronegócio. Quem ganha com isso? O MBL.

Integrantes do MBL, na formação de alianças pelo impeachment de 2016, se aliaram a Eduardo Cunha (PMDB) no dito combate à corrupção do PT

A falta de honestidade dessa manobra de articulação política, que é justa, está na falta de clareza com quem acredita no MBL como um movimento isento. O jornalista e sociólogo Demétrio Magnoli, em uma entrevista concedida ao programa Roda Viva (TV Cultura) há mais de dois anos, defendeu que o Movimento Brasil Livre tem como obrigação se tornar um partido político. O primeiro ponto seria a defesa de um cidadão de centro direita que não se identifica com o formato ide­ológico das legendas existentes que se posicionam à direita do espectro político brasileiro. A segunda justificativa seria a de que o MBL nunca foi, nem em 2015, um grupo apolítico. E a comprovação disso veio em 2016, quando muitos de seus integrantes se filiou a partidos como DEM, PP e PSDB para se candidatar a cargos eletivos municipais.

Os escritos de Platão, como parte do livro “A República”, so­bre o mito ou alegoria da caverna nunca foram tão certeiros sobre a realidade sócio-política como no Brasil da simplificação binária de uma polarização que não compreende, ou tenta não enxergar, que existem diferenciadas esquerdas e as mais diversificadas frentes do pensamento entre a direita. A realidade brasileira que vivemos é bem definida se pensarmos o MBL como a caverna. As pessoas acorrentadas à caverna seriam uma parcela considerável da população. E o mundo estaria representado nas sombras formadas pelas frestas de luz que entram pelo buraco da caverna.

O MBL sabe o poder de mobilização que continua a ter diante de grande parte da sociedade. E abusa disso para o sucesso de seu projeto político ao entrar em discussões que interessam apenas à particularidade da vida de cada um ao transformar visões diferentes de mundo em problemas sociais graves como se eles fossem desvios de conduta. Parte dos 63% da população brasileira que não leu um livro no ano passado (Fecomércio-RJ) quer obrigar todas pessoas a viverem sobre uma realidade construída através do que se vê pela pouca luz que atinge o interior da caverna. Não ouse discutir em um debate já dado como vencido, no qual quem discorda é pedófilo, zoófilo, vilipendia a religião alheia, já que sair da caverna e ver o que há na luz é como matar a vida aprisionada na qual muita gente teima em prender-se com saudosismo.

E o Movimento Brasil Livre sabe muito bem disso, que manter as pessoas na caverna reproduzindo preconceitos embasados na ignorância é o melhor para o futuro. Não o futuro que vis­lumbra a esperança e a me­lhora da sociedade, mas sim um amanhã eleitoral de sucesso.

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Alice Vasconcelos

MBL ?????? Foi comprado para promover o impeachment de Dilma????? Que vergonha. Vocês fazem parte da vergonha nacional, quadrilha burra.