Iris Rezende e a desvalorização do professor da rede municipal

Presidente do Sintego relata que profissionais da educação goianiense tiveram que lutar para conseguir o piso nacional, algo só alcançado depois que o peemedebista deixou a Prefeitura

Iris Rezende, quando prefeito, não pagava o piso salarial. Bia de Lima: “Todo ano nós tínhamos que fazer greve” | Fotos: Renan Accioly e Fernando Leite / Jornal Opção

Iris Rezende, quando prefeito, não pagava o piso salarial. Bia de Lima: “Todo ano nós tínhamos que fazer greve” | Fotos: Renan Accioly e Fernando Leite / Jornal Opção

Marcos Nunes Carreiro

“Tivemos muita dificuldade para fazer o piso vi­rar realidade em Goiânia. Todo ano nós tínhamos que fazer luta e greve para ter o piso, que é uma pauta nacional e um ponto fundamental do ponto de vista da carreira e do profissional. Nós só conseguimos ganhar a luta a partir desta atual gestão”.

A fala é de Bia de Lima, presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Educação (Sintego), se referindo ao piso nacional dos professores, que foi instituído Lei n° 11.738, sancionada em 2008 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em Goiânia, a luta era contra a Prefeitura, que se recusava a atender à lei e pagar o piso salarial dos professores. O prefeito da época: Iris Rezende (PMDB).

A luta foi grande e muitas greves foram realizadas para que os professores conseguissem seus direitos, que só foram alcançados na gestão de Paulo Garcia (PT) — isso não significa, claro, que a atual administração seja um mar de rosas: Bia explica que o Sintego deve entrar na Justiça para que a Prefeitura pague a diferença de três meses do piso de 2014 e as progressões e titularidades que estão paradas. Vamos levar isso à Justiça para que a gente possa conseguir, porque já tentamos negociar e não deu certo. A Prefeitura não nega que deve, mas diz que não tem como pagar por falta de recursos”, relata.

A questão é por que a gestão de Iris não o fez? As prefeituras pelo Brasil passavam por momentos de menos penúria financeira que agora, pois, naquela época, o País vivia provavelmente seu melhor momento econômico em muitos anos e muitos municípios conseguiram avançar muito em muitas áreas, sobretudo na educação. A resposta: educação não foi foco das gestões do peemedebista.
Em suas duas gestões à frente da Prefeitura, entre 2004 e 2010, quando novamente deixou o Paço para ser candidato a governador, Iris fez pouco: ampliou o número de vagas, mas deixou a Prefeitura com uma demanda reprimida ainda grande; fez da construção de Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis) uma bandeira de campanha sua, mas esqueceu-se de informar à população que os centros passaram a ser uma obrigação dos municípios, que se tornaram responsáveis pela educação infantil, atendendo às crianças entre 0 e 6 anos.

Talvez o maior mérito das administrações de Iris tenha sido o avanço na educação integral, que chegou a ter mais de 3 mil alunos matriculados e desenvolvendo atividades no contraturno do ensino regular. Foi importante, mas o alcance das ações se reduz quando se pensa no tempo gasto para fazê-lo: seis anos de governo. Nesse tempo, muito mais poderia ter sido feito.
A fama do peemedebista em relação ao funcionalismo público o antecede. Os mais velhos hão de se lembrar de que, quando foi governador do Estado, um promotor de Justiça chegou a montar barraca em frente ao Fórum para vender pirulitos. Era 1991 e vários servidores públicos chegaram a ficar seis meses sem receber. Logo, quando assumiu a Pre­feitura, muitos já sabiam que não seria muito diferente. Atrasos nos salários até que não houve, mas não aumento, isso sim.

Cmeis
Iris Rezende deu início ao “boom” dos Cen­tros Municipais de Educação In­fantil (Cmeis) em Goiânia? Não é verdade. Entre 2000 e 2004, a Prefeitura recebeu 54 unidades do Estado, que foram as primeiras a serem assumidas pela gestão municipal. Ou seja, em 2005, quando assumiu a Prefeitura, Iris já tinha em mãos 54 unidades para desenvolver o trabalho na educação.

É verdade que o peemedebista construiu alguns Cmeis. Em três anos de governo, inaugurou pouco mais de 30 unidades. Fez disso bandeira de campanha, inclusive, em 2008 na sua reeleição. Porém, a ideia não partiu da Prefeitura da época. Bia de Lima explica que Iris fez Cmeis porque, nessa época, o governo federal começou a orientar os municípios a assumirem a educação infantil.
Ou seja, quando não era obrigado, a Prefeitura não agia nesse sentido. “Mas quando houve mudança na LDB [Lei de Diretrizes e Bases] e os municípios passaram a ter a responsabilidade com a educação infantil, foi preciso fazer”, explica a presidente do Sintego. Por isso, havia uma demanda reprimida muito grande.

Assim, conta Bia, os municípios, Goiânia especialmente, precisaram fazer muitos Cmeis. “Agora, a maioria dos prefeitos conseguiu fazer creches de excelente qualidade por causa do governo
federal. Foi bandeira de campanha da presidente Dilma Rousseff. Os municípios buscaram recursos e modelos de projetos para fazer essas obras”, revela.
Em outras palavras, apenas a partir de 2010 os Cmeis, tão populares nas cidades, começaram a tomar forma pelo Brasil. Nessa época, Iris já não era prefeito e, por isso, não pode levar o mérito pelas obras.

“Agora, algo que nos preocupa é o número de Cmeis que a Prefeitura anuncia. Defendemos os Cmeis e a educação infantil e fundamental. Porém, nos preocupamos com a questão orçamentária, porque não é só inaugurar Cmei; tem que ter recurso para fazer concurso público para que tenhamos profissionais atuando de forma correta. Somos contra contratos temporários”, argumenta ela. l

Uma resposta para “Iris Rezende e a desvalorização do professor da rede municipal”

  1. Avatar Antonio Alves disse:

    Concordo plenamente com o que está sendo mostrado pelo Marcos Nunes Carreiro. Quem dera ver esse jornal publicar, também, uma matéria com o título: Marconi Perillo e a desvalorização do professor da rede estadual. A desvalorização do profissional da Educação pelo governador tem sido constante, haja visto que, hoje mesmo, está sendo votada um PL que visa a exclusão de reajuste do piso dos professores PIII E PVI e o parcelamento do retroativo de 2016 para o professor PI.

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