Instituições goianas de ensino superior combatem o coronavírus com ciência

Para enfrentar a pandemia, universidades e institutos federais se afastam do cotidiano de pesquisa e aplicam o conhecimento na prática

Voluntárias produzem equipamentos de proteção individual | Foto: Reprodução / Secom / UFG

Todos os setores da sociedade se mobilizaram para combater a pandemia do novo coronavírus. Entretanto, um se destaca pela capacidade de resolver problemas que nenhum outro pode. As instituições de ensino superior (IES) são detentoras do conhecimento científico e podem dar respostas a questões urgentes, como a falta de testes para diagnosticar a Covid-19 conforme mostrado em reportagem do Jornal Opção; a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs); a saída programada e segura da quarentena; e tantos outros.

Como afirmou o cientista Gustavo Pedrino, diretor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Goiás (UFG), o conhecimento científico brasileiro, que está concentrado nas universidades, foi de lenta construção. Ele é um bem imaterial adquirido com o esforço de toda a sociedade que mostra seu valor em momentos como este, em que nos deparamos com o desconhecido. Apenas o sequenciamento genético do Sars-CoV-2 pode revelar suas mutações e nos fazer compreender o inimigo, por exemplo.

Apesar de ser a única saída possível, o conhecimento vem sofrendo com sucessivos cortes, que colocam tudo a perder: a mão de obra extremamente especializada de PhD’s; os equipamentos caríssimos adquiridos com dinheiro público; o conhecimento em si, que é público e universal. Os cientistas entrevistados compartilham o sentimento de “querer mostrar trabalho” e justificar o investimento da sociedade em suas carreiras, que parecem arcanas aos olhos leigos, mas que têm uma aplicação muito real.

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG)

Um grupo de pesquisadores do Câmpus Senador Canedo do Instituto Federal de Goiás (IFG) está utilizando impressoras 3D para imprimir utensílios médicos que podem faltar no combate à Covid-19. Existem protótipos dos protetores plásticos faciais, da máscara N95 e de válvulas para respiradores mecânicos. Os cientistas querem produzir 1,5 mil face shields em quatro meses e doá-las a profissionais da saúde de Senador Canedo e estão em busca de parceiros para custear insumos e distribuição da produção.

Válvulas produzidas pela impressora 3D | Foto: Reprodução / Comunicação / IFG

Dez servidores do IFG utilizam os laboratórios da área de Química do câmpus Goiânia produzem álcool etílico em gel 70% INPM, com objetivo de doar a produção para profissionais da rede pública municipal de saúde de Goiânia. O grupo começou a produção de álcool em gel 70% no dia 23 de março e, até o dia 14 de abril, havia fabricado 230 litros – 1.150 frascos – doados para profissionais da rede pública de saúde. A proposta do grupo é desenvolver semanalmente cerca de 100 frascos até o final do mês de junho.

Em outros campi do IFG, como Câmpus Luziânia e Anápolis, grupos têm iniciativa semelhante. Seis mil frascos de 500 ml com borrifador foram doados pela Câmara de Dirigentes Lojistas de Anápolis (CDL) para envase da produção de álcool em gel e álcool 70%, fabricadas por que equipes dos laboratórios de Química do IFG Anápolis. Em Luziânia, semanalmente, 200 frascos de 500 ml são distribuídos a bairros com alta vulnerabilidade do município.

Alguns dos servidores que integram o projeto Ghesley Xavier, Joema Santos, Marcus Vinicius Ramos, Regina Célia Marinho e Martha Prado | Foto: Reprodução / Coordenação de Comunicação Social do Câmpus Goiânia do IFG

No Câmpus Uruaçu, o grupo Meninas Cientistas e Grupo de Robótica Educacional do IFG desenvolveu canal do aplicativo WhatsApp, “Em casa sem Fake”. Trata-se de um chatbot – sistema que responde automaticamente às perguntas do usuário – com que se pode interagir por meio do aplicativo de mensagens para obter informações oficiais sobre o novo coronavírus.  Os dados são coletados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde (MS).

Aplicativo “Em Casa Sem Fake”

Para acessar as informações, que são atualizadas diariamente e submetidas à avaliação do Setor de Saúde do Câmpus Uruaçu, é só enviar um “Oi” para o número 62 33578150, no Whatsapp. O usuário poderá consultar os últimos números, dicas de proteção, tirar dúvidas, analisar as principais notícias falsas, obter orientações para viagens, conhecer a equipe proponente e podem ainda deixar suas sugestões para melhoria do serviço.

 

 

Universidade Federal de Goiás (UFG)

A Universidade Federal de Goiás (UFG) montou uma estrutura junto a parceiros para a produção de milhares de Equipamentos de Proteção de Individual (EPI), que serão doados às unidades de saúde de Goiás durante a pandemia da Covid-19. Usando o trabalho de professores, estudantes e voluntários, o projeto prevê a entrega de mais de 200 mil máscaras cirúrgicas e 6 mil aventais para que os profissionais de saúde possam trabalhar com segurança.

A vice-diretora da Faculdade de Enfermagem e coordenadora do projeto, Luana Ribeiro, afirmou em entrevista ao Jornal Opção: “Fizemos o projeto piloto na Faculdade de Artes Visuais. Profissionais de diversas áreas se organizaram para elaborar um plano de produção de EPIs que possa ser replicado. O protocolo, o controle de produção para defender a saúde, tudo isso pode ser ampliado e reproduzido conforme conseguimos mais apoiadores e voluntários em outros locais. Começamos agora produzir aventais com colaboração do complexo prisional, por exemplo.”

A Organização dos Voluntários de Goiás (OVG) contribuiu com a doação de 17,3 mil metros de tecidos, além de aviamentos para viabilizar a produção. Estão envolvidos no projeto a Faculdade de Enfermagem, a Faculdade de Artes Visuais, Escola de Veterinária e Zootecnia, com apoio do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Ciências Tecnológicas, do Centro Regional para o Desenvolvimento e Inovação e do Centro Integrado de Aprendizagem em Rede da UFG.

Equipe multidisciplinar produz EPIs para a saúde pública | Foto: Reprodução / Secretaria de Comunicação / UFG

O Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig) desenvolveu uma plataforma web que permite o monitoramento da pandemia de covid-19 no Estado de Goiás, em nível municipal. Manuel Eduardo Ferreira, coordenador do projeto e professor do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa/UFG), afirmou: “A plataforma foi idealizada para ser de acesso público e irrestrito, usando dados censitários divulgados por fontes públicas e atualizados constantemente.”

No site, é possível acompanhar o número de casos de Covid-19 em municípios do Estado e nos bairros de Goiânia, a mediana do número de internações causadas por doenças respiratórias, a localização de hospitais, farmácias, pontos de vacinação e supermercados da região, além de saber a quantidade de leitos de UTI e cruzar estas informações com dados censitários de órgãos como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desta forma, é possível descobrir grupos socioeconômicos mais vulneráveis à Covid-19, por exemplo. 

Manuel Eduardo Ferreira disse que a plataforma tem sido muito utilizada por pesquisadores de diversas áreas, que estão interessados em fazer interpretações de diversas camadas de dados estatísticos. “Pode-se descobrir em quais municípios ocorrem mais problemas respiratórios ao longo do ano. Dados da poluição atmosférica estão correlacionados com queimadas sazonais e causam problemas respiratórios – esta não é causa direta da comorbidade, mas é um gatilho. A pessoa não é diagnosticada pela poluição, mas acaba indo ao hospital quando a poluição é mais alta. Como ficará a estrutura destas cidades quando chegar o coronavírus? Esse é um dado inferido pela plataforma.”

Manuel Eduardo Ferreira destacou a utilidade que a plataforma tem para gestores públicos, como prefeitos, secretários, tomadores de decisão: “Tudo para facilitar a interpretação, antever o impacto e propor ação está correlacionado na plataforma. Por exemplo, sabemos a distribuição de leitos de UTI. Como vai ser uma ação quando precisar? Vamos equipar a região ou trazer o paciente para cá? O sistema pode  avisar antes de haver sobrecarga da saúde caso entrem mais casos de Covid-19 do que os hospitais suportam. Aí o gestor pode olhar o município ao lado. Assim, um gestor público pode se guiar através da curva de contágio e saber quando reforçar ou relaxar medidas de isolamento.”

O coordenador do projeto ainda destacou que estão abertos à colaboração com todas as prefeituras de Goiás. “Temos uma área de acesso restrito para gestores, caso se interessem em compartilhar informações que não são convenientes para a sociedade, áreas perigosas. Esses dados cadastrais e de registro da Covid-19 nos interessam para fazermos análises e são úteis para se criar estratégias epidemiológicas.” 

Plataforma permite monitorar avanços de casos sobre o mapa goiano

Iniciativa da Faculdade de Medicina da UFG oferece apoio a profissionais por meio da telemedicina com o projeto “Segunda Opinião Médica”. O serviço de telemedicina da UFG já tem mais de dez anos de atividade, e foi ampliado com apoio da Sociedade Goiana de Pneumologia para montar um painel de especialistas. O grupo se reúne em vídeo conferências em tempo real para discutir o diagnóstico de doenças respiratórias em conjunto com os profissionais atuantes nas unidades de saúde.

Dessa forma, os médicos especialistas podem discutir diagnósticos e casos ainda sem solução com os médicos atendentes, de forma que possam resolver a situação em sua própria unidade, para assim evitar o deslocamento de pacientes em casos de menor necessidade. Médicos de toda a rede pública de saúde do Estado de Goiás já estão integrados no sistema de telecomunicação.

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