História mostra que nem sempre um crime confessado foi, de fato, cometido

Livro de jornalista investigativo relata como um homem quis se tornar um assassino em série e, com a ajuda da Justiça, mesmo sem matar ninguém, foi considerado o criminoso mais brutal do país

Até o momento, foi comprovado que Tiago Henrique da Rocha, realmente, teve envolvimento com algumas mortes. Porém, é preciso ter cautela | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Até o momento, foi comprovado que Tiago Henrique da Rocha, realmente, teve envolvimento com algumas mortes. Porém, é preciso ter cautela | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Marcos Nunes Carreiro

“Os maiores es­cân­dalos jurídicos do nosso tempo tiveram como origem confissões falsas”. A frase é do jornalista sueco Hannes Råstam, responsável pela virada de vários casos em que criminosos confessos e condenados se provaram inocentes diante de uma investigação mais apurada. E casos de pessoas que confessam crimes não são nada raros.

Em Goiânia, Tiago Henrique Go­mes da Rocha, por exemplo, con­fessou ter matado 39 pessoas, a­pós ser preso em outubro de 2014. As confissões ainda estão sendo apuradas pela polícia, mas não são poucos os que duvidam que o vigilante tenha cometido, de fato, os 39 assassinatos confessados.

Segundo o Instituto de Crimi­na­lística de Goiânia, a responsabilidade de Tiago foi comprovada em ao menos 16 dos assassinatos — 14 mulheres e dois homens — por meio de exames de balística na arma encontrada com ele. Se confirmadas as 39 mortes, Tiago será colocado no hall dos maiores assassinos do Brasil.

Porém, e se for provado que, na verdade, Tiago não cometeu todos os assassinados que confessou? Ele já chegou a voltar atrás, desmentindo o que havia dito primeiro. Ele ainda será julgado pelos crimes dos quais é suspeito e pode ou não ser condenado; dependerá das provas apresentadas contra ele.

A grande questão é: por que confessar crimes que não cometeu, sobretudo algo tão brutal como assassinatos? Voltemos a Hannes Råstam. Ele estudou um caso semelhante na Suécia, trabalho que resultou em três documentários e um livro, “O caso Tho­mas Quick”, publicado no Bra­sil em 2014 pela Editora Re­cord, com tradução de Jaime Bernardes.

Thomas Quick é o nome pelo qual ficou conhecido Sture Berg­wall, considerado por muitos anos o maior assassino em série da Suécia e um dos mais brutais do mundo. Nas histórias que permearam sua vida constam mais de trinta assassinatos confessados, entre mulheres, homens, adolescentes e crianças; crimes sexuais e brutais, em que estuprava, torturava, matava e esquartejava suas vítimas para depois guardar partes consigo, até mesmo comendo algumas delas.

Por essa rápida apresentação, é possível perceber porque, por mais de dez anos, o nome Thomas Quick abalou a Suécia e países vizinhos, como a Noruega. Entre 1993 e 2001, era mais que comum ver seu rosto estampado nas capas dos principais jornais suecos, pois foi nesse período que as confissões passaram a ser veiculadas pela imprensa e que ocorreram as investigações e os julgamentos do “monstro da Suécia”.

Quick foi condenado por oito dos mais de trinta assassinatos confessados: 16 de novembro de 1994 — Charles Zelma­no­vits, 15 anos; 25 de janeiro de 1996 — Marinus e Janny Ste­gehuis, 34 e 39 anos; 28 de maio de 1997, Yenon Levi, 24 anos; 13 de março de 1998 — Therese Johannesen, 9 anos; 22 de junho de 2000 — Trine Jensen, 17 anos; 22 de junho de 2000 — Gry Storvik, 23 anos; 21 de junho de 2001 — Johan Asplund, 11 anos.

A questão: se foi julgado e condenado pelos crimes possíveis de comprovar, por que a história rendeu um trabalho jornalístico digno de ser repercutido no Brasil? É simples: Quick não cometeu nenhum dos assassinatos; nem os oito pelos quais foi condenado.

A história 

Hannes Råstam fez um trabalho de apuração digno de Tru­man Capote, embora em um tempo bem menor. Durante sete meses, trabalhando “mais do que em tempo integral”, ele leu, viu e ouviu todo o material proveniente dos mais de dez anos de investigação dos assassinatos atribuídos ao serial killer. Fez dezenas de entrevistas e viagens, inclusive centenas de horas de conversa com o próprio Thomas Quick/Sture Bergwall.

Devido à grande quantidade de informações, o livro de 459 páginas parece ser muito maior, dada sua densidade de conteúdo. Divido em apenas três capítulos, “O caso Thomas Quick” chega a confundir o leitor em determinados trechos. Em parte, isso pode ser atribuído ao grande volume de informações. Porém, se o sueco Råstam fez uma apuração digna de Capote, ele jamais poderá ser comparado ao estadunidense quando o assunto é escrita. Råstam era um jornalista brilhante, mas um escritor razoável.

Assim, se traçada uma linha do tempo, é possível introduzir melhor a história: nascido em 26 de abril de 1950, Sture Bergwall teria cometido seu primeiro assassinato em 1964, aos 14 anos. A vítima: Thomas Blom­gren, um rapaz de 15 anos. De­pois disso, em 1969, ele molestou quatro rapazes, o que resultou em sua reclusão ao Hospital Psiquiátrico de Sidsjön, sendo posteriormente transferido para o Hospital de Säter, em 1973.

Em 1976, Charles Zelma­novits desapareceu na cidade de Piteå — crime pelo qual Quick foi condenado primeiro, em 1994, entretanto, só recebeu alta de Säter em 1977. Entre este ano e 1991, ano em que voltou a ser internado em Säter, sete dos oito crimes pelos quais acabou condenado foram cometidos na Suécia e na Norue­ga: Johan Asplund (1980), Trine Jensen (1981), Marinus e Janny Stegehuis (1984), Gry Storvik (1985) e Yenon Levi (1988).

Em 1990, mudou-se para a cidade de Falun, onde foi preso por uma tentativa de assalto a banco. Condenado, voltou para Säter no ano seguinte e passou a ser submetido a tratamento e à terapia. Em 1992, Sture Bergwall mudou seu nome para Thomas Quick e começou a confessar os assassinatos. As confissões ocorreram entre 1992 e 2001, ano em que foi condenado por seu último crime.

Em 2002, Quick reassumiu o nome Sture Bergwall, parando de falar com a imprensa e com a polícia. Esse silêncio só foi quebrado em 2008, ano em que se encontrou com Råstam pela primeira vez.

Como as condenações foram revertidas 

Thomas Quick: o homem doente que conseguiu enganar todo o sistema jurídico da Suécia

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Para mostrar como Hannes Råstam apontou as enormes falhas de cada caso — desconsideradas tanto nas investigações policiais quanto nos julgamentos —, é necessário descrever crime por crime. Por ordem de condenação:

Charles Zelmanovits

Sexta-feira, 12 de novembro de 1976. O jovem Charles Zelmano­vits foi a uma festa na casa de uma colega. Às 20h30, todos já estavam bêbados e não demorou para a festa acabar, mandando todos em direção à escola onde estudavam. Charles viu Maria, a menina mais bonita da escola, assim que entrou no refeitório. “E ela olhou para ele. Dançaram e se beijaram antes de ela sair do local com ele. Levaram o rum e foram para um lugar escondido. Fazia apenas 6 graus do lado de fora e o sexo foi rápido, mal começou já tinha terminado. Maria estava obviamente zangada quando eles retornaram à escola”, narra Hannes Råstam.

O garoto não demorou a voltar ao ar livre, juntando-se aos rapazes de 17 e 18 anos que não entraram na escola. O rum já estava no fim e Charles não fazia ideia de onde Maria estava. Ela ficou chateada com ele e havia saído de carro com um amigo. Assim, quando voltou ao refeitório não a encontrou. Esperou até que ficasse só e depois resolveu ir embora. Andou apressado uns dois quilômetros até encontrar uns amigos que estavam na festa. Trocou apenas algumas palavras e seguiu caminho. “Nin­guém se lembra se Charles virou para a direita ou para a esquerda. Mas ele jamais chegou em casa”.

O mistério do desaparecimento marcou a cidade de Piteå, na Suécia, até o dia 19 de setembro de 1993, data em que um caçador achou os restos mortais do jovem em uma floresta a muitos quilômetros de distância da cidade. Cha­mou a polícia e a “patrulha policial constatou que havia vários outros ossos e pedaços apodrecidos de roupa”. Charles foi identificado pela arcada dentária. Como morreu e foi parar na floresta ninguém conseguiu saber, mas os técnicos não encontraram nada que indicasse ter sido ele vítima de crime.

A imprensa só deu a informação do achado três meses mais tarde. Depois disso, não demorou muito até que Thomas Quick, durante sessão de terapia, dissesse que acabara de “entrar em contato com material novo”, conseguindo recordar imagens da maneira como ele matara um rapaz moreno em Piteå, na década de 1970. Quick disse ter esquartejado o corpo de Charles e, por isso, foram achados pedaços de ossos em vários locais. Porém, os técnicos constataram que os ossos do corpo foram retirados das roupas por animais selvagens. Alguns dos ossos maiores nunca foram encontrados.

Quick foi condenado em novembro de 1994, mas o júri nunca soube que ele não conseguiu encontrar o local onde os restos mortais do jovem foram achados, nem que ele havia tido acesso ao relatório das investigações preliminares. Ou seja, o júri não sabia que, quando o réu chegou ao tribunal de Piteå, ele já tinha lido todo o protocolo das investigações, com relato de pesquisas técnicas e uma enorme quantidade de inquéritos. “Por isso, não admira que Quick, atrás das portas fechadas do tribunal, tenha feito com que muitos detalhes condissessem com a realidade”, descreve Råstam.

Sentença: “Quick confessou o crime e sua confissão está apoiada nas informações fornecidas por ele próprio. Não existe, porém, nenhuma prova técnica da ligação entre Quick e esse mesmo crime”.

Marinus e Janny Stegehuis

Sexta-feira, 13 de julho de 1984. O casal holandês Marinus e Janny Stegehuis foram encontrados mortos dentro de sua barraca de camping em uma área para descanso, à beira do lago Appojaure, no norte da Suécia. Os dois haviam economizado durante três anos para passar as “férias dos sonhos” nas montanhas nórdicas. Saíram de casa no dia 28 de junho em direção à Suécia, onde Marinus tinha parentes. Depois disso, partiram rumo à Finlândia.

Voltaram à Suécia e tiveram muitos problemas com o carro. Acabaram gastando muito do dinheiro que já era pouco e, por isso, no dia 12 de julho, montaram acampamento próximo ao lago. Janny fez uma anotação no seu diário: “Montamos a barraca às 16h30, numa pequena clareira na floresta. Os mosquitos continuam nos fazendo sofrer. Desde Kiruna [cidade ao norte da Suécia], foram 150 km de chuva. Depois, clareou um pouco. Agora, voltou a chover”.

Foram mortos a facadas. Han­nes Råstam escreve: “A brutalidade do crime cometido nas florestas qua­se desabitadas da Suécia recebeu muita atenção, mesmo fora das fronteiras do país. Durante a in­vestigação policial que se seguiu, foram ouvidas cerca de mil pessoas, sem qualquer resultado”. Contudo, quem confessou a ação não estava entre as mil interrogadas; sequer era imaginado pela polícia.

A história contada por Tho­mas Quick divergiu em muito com a apurada pela extensa in­ves­tigação policial. O tipo da ar­ma, o local, o modo do assassinato. Nesse caso, ele indicou também a presença de um cúmplice, que negou presença no local naquele dia. O promotor res­ponsável pela apuração de todos os crimes envolvendo Quick, Christer van der Kwast, e seu grupo de investigação acabou descobrindo que o alegado cúmplice não apenas não conhecia o suposto serial killer como tinha um álibi para o dia do cri­me. A informação também não chegou ao tribunal que condenou o réu no dia 25 de janeiro de 1995.

Mas não apenas. Råstam aponta em seu livro 22 fatos divergentes entre a versão confessada por Quick e a correta, que estava nos relatórios da investigação. Ou seja, segundo o jornalista, “o julgamento foi propositalmente malconduzido, uma vez que muitas circunstâncias que contrariavam a versão de Quick não foram mostradas em tribunal”. Dessa forma, houve condenação.

Sentença: “Thomas Quick foi condenado pelo seu segundo e terceiro crimes de assassinato. A punição foi pronunciada como continuação do tratamento psiquiátrico”.

Yenon Levi

Sábado, 11 de junho de 1988. O jovem israelita Yenon Levi é encontrado morto na cidade sueca de Rörshyttan, perto de uma estrada que cortava as florestas da Dalicárdia. Como nos outros casos, houve uma extensa investigação policial e um suspeito foi levantado, porém, sem provas consideradas suficientes para abrir um processo. Thomas Quick confessou ter matado Levi em agosto de 1995. Mas apenas um ano e meio depois, após dezenas de interrogatórios e sessões de terapia, foi que ele conseguiu estruturar seu pensamento em algo semelhante ao que, de fato, havia ocorrido. Até então, tudo o que o suposto serial killer tinha dito estava errado.

Além disso, o achado mais im­portante que a polícia fez no local do crime em 1988 foi um par de ó­cu­los que o assassino, provavelmente, deixou cair. Quick não mencionou nada a respeito disso e a análise das lentes provou que elas não poderiam ter pertencido a ele. Mas a história dos óculos fica interessante ao passo em que Hannes Råstam descreve aquilo que foi constatado pela polícia à época do crime:

Em 1991, um membro da polícia de estrangeiros na Suécia achou que os óculos vistos na fotografia de um passaporte eram, suspeitamente, iguais aos encontrados pela polícia. O passaporte e os óculos foram enviados para o departamento técnico, que descobriu serem os mesmos. A empresa fabricante das lentes também analisou o material e constatou a compatibilidade. O passaporte pertencia a um homem chamado Ben Ali, que tinha 50 anos quando o crime aconteceu. Em 1991, ele estava preso condenado por violência, maus-tratos e roubos.

Aliado a isso, ficou constatado que na Estação Central da cidade existia um grupo de jovens árabes que odiavam judeus. Ben Ali era ligado a esse grupo, pois vários daqueles rapazes trabalharam para ele. Testemunhas disseram também que Yenon Levi, que era judeu, foi visto no dia do crime no salão de espera da Estação na companhia dos árabes, pois ele mesmo se parecia com um, visto que, embora israelita, tinha parentes vindo do Iêmen.

Neste caso, Quick também apontou ter contado com a ajuda de um cúmplice, que também não teve sua presença comprovada e, portanto, não foi levado a julgamento. Assim, mesmo tendo sido constatado que “não foi apresentada qualquer prova que, diretamente, ligasse Thomas Quick ao ato criminoso”, e mesmo tendo outro suspeito com fortes indícios de ter cometido o crime, ele foi condenado.

Sentença: “No conjunto, para os juízes, a história contada por Tho­mas Quick é uma prova de alto valor. Através da confissão e das outras investigações feitas, está estabelecido, acima de qualquer suspeita, que Thomas Quick praticou o ato criminoso que lhe é apontado. Tho­mas Quick será considerado, portanto, responsável por ter tirado, deliberadamente, a vida de Yenon Levi”.

Therese Johannesen

Domingo, 3 de julho de 1988. Therese Johannesen, de 9 anos, desapareceu da casa onde morava, perto de Drammen, na Noruega, sem deixar pistas. Este foi o caso criminal mais falado na Noruega e deu origem à maior investigação policial de todos os tempos no país, até então. Mais de 100 policiais trabalharam na apuração do crime, interrogando 1.721 pessoas com 4.645 denúncias e registrando quase 14 mil observações, mas sem resultados. O caso foi dado como inconcluso até que Thomas Quick o confessasse, em 1996.

A confissão veio juntamente com a do assassinato de dois rapazes africanos desaparecidos na mesma época, também na No­ruega. Ele disse ter matado e esquartejado os três, entretanto, a nova investigação da polícia sueca acabou descobrindo que os dois rapazes estavam vivos: um vivia na Suécia e o outro no Canadá. Therese não foi encontrada.

A investigação em relação ao crime contra a garota norueguesa foi considerada a maior do caso Quick. Dezenas de milhares quilômetros foram vasculhados para encontrar os restos mortais da menina nos vários locais indicados pelo acusado. Chegaram a esvaziar uma lagoa durante meses, pelo custo de vários milhões de dólares, mas nada foi encontrado. A busca pelos lugares indicados era baseada também no resultado do trabalho de um cão farejador, que confirmou a presença de partes de um cadáver espalhado. Contudo, antes das escavações, este mesmo cão tinha sido dispensado devido à sua falta de confiabilidade.

A única “prova” do caso foi um minúsculo fragmento, indicado por especialistas como sendo um pedaço de osso de criança queimado. Com base apenas nisso, Quick foi levado a julgamento e condenado no dia 13 de março de 1998. Porém, em sua própria investigação, Hannes Råstam provou que o tal “pedaço de osso” era, na verdade, um pedaço de madeira, que não pesava mais que 0,36 grama.

Essa foi considerada a condenação mais forte do caso Quick e deu força para que o então serial killer sofresse ainda outras três.

Trine Jensen e Gry Storvik

Agosto de 1981: Trine Jensen é encontrada morta na Noruega, vítima de abuso sexual e asfixia. Junho de 1985: o corpo de Gry Storvik é achado próximo ao local da primeira e em condições muito semelhantes. Mas apenas em meados de 2000, quase 20 anos depois, foi que Thomas Quick confessou ter matado as duas.

Neste caso, ficou evidente, segundo Hannes Råstam, a influência dos interrogatórios nas confissões de Quick. Seppo Penttinen, responsável pelas diligências policiais, induziu o interrogado em várias questões. Por exemplo: “Em 28 de maio de 1999, seis dias antes do planejado interrogatório com Thomas Quick sobre o assassinato de Trine Jensen, Seppo Penttinen telefonou para Quick para que este se preparasse para ‘dar detalhes a respeito da roupa e de eventuais objetos que possam ter ligação com o crime’. O ‘objeto’ mais importante no caso era, evidentemente, a alça da bolsa de Trine, a provável arma do crime”, aponta o jornalista.

Nas gravações do interrogatório, foi possível perceber que Pentinnen fez perguntas, como: “Você tem alguma imagem ligada a essa alça? Eu vejo no seu rosto que existe alguma coisa da qual você tem dificuldade em falar”; ou afirmações do tipo “Você não amarra as pernas dela, antes usa alça para outra manobra”. Isso deixa claro que Quick, mesmo durante as investigações foi induzido a dar as informações corretas. Como nos outros casos, isso não chegou ao conhecimento do tribunal e ele foi con­denado pelos dois crimes [Trine e Gry] no dia 22 de junho de 2000, também sem provas técnicas, uma vez que nem o sêmen achado nas duas foi confirmado como sendo do acusado.

Sentença: “Na sequência da análise dos fatos relativos ao que aconteceu, o tribunal acha que a confissão de Thomas Quick tem apoio na investigação, de tal maneira que está fora de suspeita ter ele cometido os crimes que lhe são imputados pelo promotor [Christer van der Kwast]”. Ou seja, mais uma vez sem provas técnicas, Quick foi condenado pelas mortes. E ficou por isso mesmo.

Johan Asplund

Sexta-feira, 7 de novembro de 1980. Johan Asplund, 11 anos, desaparece no caminho para a escola na cidade sueca de Sundsvall. Como o de Therese Johannesen, na Noruega, o caso de Johan tornou-se uma das mais importantes investigações policiais sem solução na Suécia. Desde o primeiro dia, a polícia disponibilizou todos os recursos possíveis na procura da criança, desde helicópteros e termo câmeras até tropas avançando sobre os terrenos circundantes. Porém, nenhuma pista foi encontrada. Não até que Thomas Quick confessasse o crime em março de 1993. Foi sua primeira confissão e, ironicamente, sua última condenação.

Como em outros casos, a polícia tinha um suspeito chave, mas não havia conseguido ligá-lo ao crime. Neste caso, era o ex-namorado de Anna-Clara Asplund, mãe do garoto. Ele disse que dormira no dia do desaparecimento até às 9 horas, o que lhe daria um álibi. Porém, uma testemunha disse tê-lo visto sair de casa às 7h15 e outro confirmou sua presença às 8 horas nas proximidades da casa de Anna-Clara. Além disso, seus amigos afirmaram que ele adotara um comportamento estranho após o sumiço da criança. Ele chegou a ser processado, mas foi inocentado das acusações.

Segundo Hannes Råstam, o fato de Quick ter sido capaz de reproduzir os desenhos do pijama de Johan foi de grande importância para o tribunal. E, por isso, ele foi condenado por seu oitavo crime no dia 21 de junho de 2001. Contudo, os pais do garoto nunca acreditaram em sua culpa e chegaram a recorrer da sentença; em vão.

Eles estavam apoiados em alguns pontos: como nos outros casos, a grande parte do que ele havia dito sobre o crime se mostrou errado, com exceção dos detalhes do pijama — lidos nos jornais da época. Além disso, Råstam mostra que Quick não apenas leu os jornais antes do julgamento, como também teve acesso a livros sobre o caso e às investigações preliminares.
E o mais espantoso é que Quick tinha um álibi para o dia do desaparecimento. Sua mãe voltara para casa de uma internação, dia em que ele foi buscar uma receita de medicação para ela. Talvez, por isso, a sentença de condenação mais pareça que o estava libertando.

Sentença: “Quick confessou o crime em juízo. Para que uma confissão possa ser usada para condenação, é preciso, no entanto, que seja apoiada pelas devidas investigações. Inicialmente, os juízes constataram que não existe nenhuma prova técnica que ligue Quick a Sundsvall na época do crime e também não existe nenhuma investigação que determine o que aconteceu com Johan Asplund”. Aparentemente, a sentença determina a inocência de Quick, mas não, ela o condenou.

Hannes Råstam mostrou todas essas questões em dois documentários exibidos nos dias 14 e 21 de dezembro de 2008, acompanhados dos depoimentos de Thomas Quick de que nunca havia cometido nenhum assassinato na vida. Nas palavras do jornalista: “Qual foi a história que eu apresentei? Uma clínica psiquiátrica judicial drogou um paciente compulsório e o transformou em narcomaníaco. Depois, ele ficou exposto a um tratamento de psicoterapia intensiva que, através de todos os meios de persuasão e do livre acesso a narcóticos, o convenceu a confessar mais de trinta assassinatos.

“Apesar de o paciente, com grande frequência, ter sido apanhado dizendo inverdades, o promotor, o investigador policial, o médico, o terapeuta e toda a espécie de peritos conseguiram indiciá-lo por oito assassinatos confessados. Segundo seis sentenças aplicadas em outros tantos tribunais, o paciente foi julgado culpado em todos os casos. No meu documentário, o paciente se retratou de todas as confissões e afirmou que nunca assassinou ninguém.”

Após a divulgação dos documentários, as coisas mudaram: logo em janeiro de 2009, os casos foram reabertos e o primeiro recurso foi apresentado no Supremo Tribunal da Suécia. O primeiro objeto foi o caso Yenon Levi. A credibilidade de muitos ficou manchada, mas, como os casos eram antigos, ninguém foi processado pelos erros que levaram à condenação de um inocente. Em 30 de julho de 2013, Thomas Quick — que já havia voltado a se chamar Sture Bergwall — foi absolvido da última de suas acusações. Foi libertado do Hospital Psi­quiátrico de Säter, mas continua recebendo tratamento, embora mantido em segredo.

Infelizmente, Råstam não pôde vê-lo livre, pois faleceu em 2012.

Hannes Råstam é a prova de que fatos podem, sim, criar um mito e de que a mais crível das histórias pode ter falhas substanciais

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A (des)participação do advogado de defesa 

Uma das partes mais interessantes do livro de Hannes Råstam fica por conta das 50 últimas páginas. É onde estão os resultados do seu trabalho e o retrato das entrevistas com o promotor Christer van der Kwast e com o advogado de defesa de Thomas Quick na maioria dos julgamentos, Claes Borgström. Sob sua tutela, Quick foi condenado em seis dos oito processos.

A grande questão em torno da figura de Borgström é que ele nunca defendeu seu cliente e, para isso, ganhou vários milhões de dólares — mil horas de trabalho faturadas. Além disso, durante todo o processo, defendeu veementemente os juízes e o próprio Christer van der Kwast contra aqueles que duvidaram da culpabilidade de Quick nos crimes imputados a ele.
Råstam descreve:

“Durante vários meses, estudei como Claes Borgström participou de quase todos os interrogatórios e reconstituições nos locais dos crimes, nas investigações relativas ao caso Quick. Nas gravações em vídeo, vi Quick ser liderado pelas florestas, tão drogado que mal podia falar ou andar, sem ser amparado por um terapeuta e pelo seu líder de interrogatórios, Seppo Penttinen.

Claes Borgström: o advogado que ficou famoso por condenar seu cliente em 6 processos

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“Claes Borgström andava ao lado, mas jamais fez qualquer comentário em relação ao fato de o seu cliente estar mais aceso do que uma árvore de Natal. Além disso, por várias vezes, Borgström viu Quick confessar assassinatos que, comprovadamente, nunca tinham acontecido. O advogado ouviu falar de fatos sendo distorcidos e de outros, escamoteados nos julgamentos — sem nunca ter interferido. Por quê?”

A entrevista com Borgström aconteceu no dia 14 de novembro de 2008. Nela, Råstam demonstrou todas as incongruências do caso — as que o advogado deveria ter se atentado, mas deixou passar —, sendo sempre respondido com velhos argumentos, como a de que Quick sofria de doenças mentais, como: “Aqueles que acreditam que ele [Quick] é inocente estão descrevendo um ser humano que, de forma geral, está tão doente quanto aquele que tivesse cometido todos esses crimes”.

Mas também há trechos interessantes, como este diálogo:

“— Existem dezoito provas que, segundo os técnicos criminalistas, contradizem a história contada pelo seu cliente [no caso Yenon Levi] — afirmei para Borgström.

— É mesmo? Talvez existam ainda mais — respondeu.

— Alguma dessas dezoito conclusões foi utilizada por você?

— Como é que eu poderia utilizá-las?

— Posso imaginar várias maneiras, mas como advogado você deve saber melhor do que eu.

— Bem, como você mesmo não consegue indicar a forma como eu deveria usar essa lista, então eu não vou responder a essa pergunta”.

O resultado da entrevista foi: Borgström fugiu de todas as perguntas, mas não deixou claro se tinha conhecimento de todas as falhas nas condenações sofridas por seu cliente. Råstam resumiu a questão da seguinte maneira: “Claes Borgström continuou permanecendo como o grande enigma no caso Thomas Quick. Era por demais inteligente para deixar de ver as fraudes que ocorreram durante todos esses anos e, ao mesmo tempo, suficientemente honesto para, conscientemente, colaborar num escândalo judicial como esse. Quem era ele? E como funcionava, afinal, aquele cérebro por trás da sua franja infantil?”.

Quando a história da inocência de Quick foi publicada, Borgström se preparava para concorrer ao cargo de Ministro da Justiça. Não conseguiu.

Uma resposta para “História mostra que nem sempre um crime confessado foi, de fato, cometido”

  1. Avatar Adeneval Jose Francisco disse:

    A DIFERENÇA É QUE O SERIAL KILLER GOIANO FOI INVENTADO PARA GANHAR UMA ELEIÇÃO, E NÃO ADIANTA DIZEREM O CONTRÁRIO, SÓ QUERO VER COMO ISSO VAI ACABAR.

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