H1N1 e a gestão vacilante

Após Iris Rezende dizer que a saúde municipal está regular, Goiânia vive pânico frente a casos suspeitos e confirmados do vírus, sobretudo com morte de médico da rede da capital. Prefeitura refuta denúncias de descaso

Pacientes aguardam atendimento no Cais Campinas, um dos locais em que o pediatra Luiz Sérgio de Aquino cumpria plantões | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Dois dias antes de o pe­dia­tra da rede municipal de saúde Luiz Sér­gio de Aquino Mou­ra, de 57 anos, ser internado às pressas com H1N1, o prefeito Iris Rezende (MDB) declarou, cer­cado de repórteres, na retomada da obra do BRT, em 27 de março, que a saúde em Goiânia “es­tá absolutamente regular”. A frase do emedebista indignou ve­readores e endossou as críticas nas redes sociais.

Com o comentário, Iris parece não saber dimensionar o termo “re­gular”, tendo em vista as consequências da forma vacilante com que tem gerido a saúde mu­ni­cipal. O prefeito, por exemplo, de­sativou laboratórios nas unidades de saúde e entregou à iniciativa privada, mas parece ter esquecido que tem de pagar os prestadores de serviço. Com isso, alguns poucos ain­da fazem a coleta e obrigam pa­ci­en­tes a esperar até 12 horas, piorando o clima catastrófico.

Mesmo a morte do médico no Hos­pital de Urgências da Região No­roeste de Goiânia Governador Otá­vio Lage de Siqueira (Hugol) em 1° de abril, acendendo um aler­ta nas 13 unidades da capital, o prefeito, que desconhece a realidade da cidade sob sua gestão, amenizou como pôde o alarde que provocou denúncias de servidores acerca da falta de insumos, inclusive de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

A falta desses equipamentos se­ria a provável causa de o médico ter sido contaminado com o ví­rus. Ele atendia no Hospital Ma­terno Infantil e no Cais Cam­pi­nas. Familiares e colegas de trabalho do pediatra contaram que no último plantão dele no Cais Cam­pinas — a unidade com mai­or número de casos suspeitos na capital — faltavam luvas e máscaras.

“O prefeito dizer que está tu­do bem é a maior falta de respeito com o servidor da saúde”, sus­surrou uma técnica de enfermagem enquanto o corpo de mé­dico Luiz Sérgio era velado no Cemitério Jardim das Pal­mei­ras, na segunda-feira, 2.

Durante toda a semana passada, repórteres do Jornal Op­ção visitaram as unidades, conversaram com servidores e en­con­traram pessoas assustadas, in­clusive no Cais Campinas, on­de atendia Luiz Sérgio. Pacien­tes não aceitavam percorrer os cor­redores sem máscaras. “Mo­ço, não posso te dar uma máscara. O senhor não está doente”, tentava explicar a recepcionista ao pai de uma criança e que havia pelo menos duas ho­ras aguardava um pediatra do la­do de fora do local.

Médico Luiz Sérgio, morto em 1° de abril, foi a 4° vítima confirmada com o vírus H1N1 | Foto: Divulgação

“Tá vendo, olha, o médico que mo­rreu já faz falta?”, ele disse, de­pois de, finalmente, conseguir uma máscara. Enquanto o ho­mem contava os pormenores da alergia da filha, um pediatra, que havia ido ao enterro do co­le­ga Luiz Sérgio — sepultado no ce­mitério Jardim das Palmeiras sob forte comoção —, entrou ra­pi­damente pelos fundos da unidade, olhou as crianças em fren­te aos consultórios: a mai­o­ria delas tossia.

O médico percorreu algumas salas atrás de uma máscara N95, conhecida como bi­co de pato, mas não encontrou. Um pouco desnorteado, sem responder às perguntas da re­portagem, deixou as crianças es­perando e foi comprar uma unidade do material com o próprio dinheiro.
O caso do pediatra assustado, sem saber o que dizer, ou se ne­gan­do a fazê-lo por medo de ad­ver­tências, é um exemplo evidenciado do pânico que pairou na se­ma­na passada não apenas no Cais Cam­pinas, mas em todas as unidades que receberam um fluxo maior de goianienses apavorados, não convencidos pelo desatino de Iris de que a saúde está normal.

Além das visitas, o Jornal Opção recebeu diversas mensagens via WhatsApp e checou ca­da uma delas. Foi assim, por exem­plo, que o jornal soube que o médico Luiz Sérgio havia sido in­ternado e, três dias depois, morrido.

Outras informações enviadas pelos servidores e goianienses en­fu­recidos foram apuradas sistematicamente, como a morte do técnico de informática Jo­sé Nilton Pereira, de 40 anos, tam­bém sob suspeita de H1N1, na quarta-feira, 4. Assim que o repórter tomou conhecimento, foi ao local e flagrou a transferência do corpo do técnico de informática pelo Serviço de Verificação de Óbito (SVO).

Pereira não resistiu às cinco pa­radas cardiorrespiratórias, de acor­do com a equipe médica. O na­morado de Pereira, José Santos de Souza, de 28 anos, contou ao Jor­nal Opção que os dois procuraram o Cais Vila Nova na terça-fei­ra, 3, mas foram encaminhados ao Centro de Atendimento de Campinas. “Lá, um médico não quis atender. Disse que injetaria dipirona e pronto”, relata Sou­za. Depois de passar por um hos­pital particular, os dois conseguiram que um médico permitisse a volta para o Cais Vila Nova.

Na reanimação da unidade em que Pereira estava, o ar-condicionado está queimado e uma mancha de mofo deixa um chei­ro forte no lugar. “Estes lo­cais são inapropriados para os pacientes que deveriam estar isolados em UTIs”, alerta a enfermeira que partilhou com o repórter pre­o­cupações em relação à forma com que os doentes eram isolados. “A gente não sabe onde colocá-los. Uma das atendidas, inclusive, não entende a gravidade e fica saindo da sala”, alerta, em frente à sa­la de vacinas, onde estava na quarta-feira, 4.

Dias antes de Goiânia ficar sob alerta, prefeito Iris Rezende demostra desconhecer saúde municipal ao afirmar que está tudo “absolutamente regular” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Nas várias denúncias, servidores reclamavam de declarações do di­retor de Atenção à Saúde da Se­cre­taria Municipal de Saúde (SMS), Silvio José de Queiroz. “O Sil­vio está mentindo, estão faltando in­sumos”, afirmou uma enfermeira. Pa­ra o Jornal Opção, Queiroz disse que a Prefeitura não está es­condendo nada.

“As nossas unidades não são de internação. O paciente fica lá até conseguir uma vaga em hospitais estaduais ou particulares conveniados com o SUS. Enquanto es­te paciente com suspeita de H1N1 estiver em uma de nossas uni­dades, ele fica em consultório, em enfermaria ou em uma sala iso­lada, recebendo os cuidados”, ex­plica Queiroz.

Em relação à morte de Pe­rei­ra, Silvio ameniza o fato e diz que a sala de reanimação em que o paciente estava não contribuiu para o agra­vamento da dificuldade de res­piração. “Ele não faleceu por cau­sa do mofo ou do ar-condicionado estragado. Lá tinha equipe pa­ra atendê-lo. A vida dele não de­pen­dia do ar-condicionado, de­pen­dia do aparelho e do profissional”, diz.

No Cais Novo Horizonte, duas funcionárias enviaram áu­dios. Uma delas pedia ajuda para que um paciente fosse transferido. A outra, nervosa, não conseguia achar uma alternativa à falta de EPIs. “Eu não sei o que fazer. Os pa­ci­en­tes exigem máscaras. E a gente não tem suficiente”, reclama a servidora.

A respeito de como os pacientes suspeitos de H1N1 estão sen­do isolados nas 13 unidades de saú­de municipal, a superintendente de Vigilância em Saúde da Se­cre­taria Municipal de Saúde de Goi­ânia (SMS), Flúvia Amorim, ex­plicou que em situação de au­mento de casos as unidades têm di­ficuldade para atender a demanda. “Hospitais particulares ou pú­bli­cos não estão preparados para re­ceber uma alta demanda, mes­mo assim todas as unidades fazem isolamento, seja em lugares específicos ou em consultórios”, garante.

CEI investiga falta de insumos

Depois da morte do pediatra Lu­iz Sérgio, a Comissão Especial de Inquérito (CEI) que apura irregularidades nas unidades pública em Goi­ânia cobrou informações da Se­cretaria Municipal de Saúde (SMS) sobre a falta de in­su­mos básicos no Cais do Setor Cam­pinas.

Conforme o vereador Elias Vaz (PSB), relator da CEI, os ve­rea­dores receberam denúncias em que um médico afirma que a Pre­fei­tura disponibilizou materiais co­mo máscaras, luvas e álcool em gel apenas depois que o médico morreu sob sus­peita de contaminação de H1N1.

Sem procedimento
Nenhum procedimento, po­rém, foi instaurado pela SMS para in­vestigar a falta dos insumos por­que, segundo o di­retor de Atenção à Saúde da Se­cre­taria Municipal de Saúde (SMS), Silvio José Queiroz, o mé­dico trabalhava em outros hospitais, além do Cais Campinas. “On­de ele foi contaminado? A gen­te também está atrás disso. É feita uma investigação epidemiológica”, afirma.

A respeito das denúncias feitas por pacientes e servidores du­ran­te toda a semana, Queiroz con­testa e afirma que em todas as uni­dades há material. “Você po­deria pontuar em qual unidade fal­ta o insumo. Tem servidor que quer que o serviço funcione, ou que não quer que fun­cione, e tem jornal que quer fazer alarde. Tem que tomar cuidado com o que se fala para não pro­vocar desespero na população.”

De acordo com o diretor, pelo menos 1,5 mil máscaras simples são disponibilizadas diariamente. “Mas a más­cara não evita a contaminação. Tem que proteger a boca, o na­riz e, claro, lavar as mãos, usar o álcool em gel. E, o mais importante, evitar tossir ou espirrar pró­ximo aos outros. Isso evita a contaminação. Antes da vacina chegar, precisamos trabalhar a prevenção”, pontuou o diretor.

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