Mas o tiro pode sair pela culatra, pois o carisma bonachão de Lula vale muito mais do que o terrorismo eleitoral de Dilma e se Aécio souber vencer em simpatia, não há bolsa-família capaz de impedir sua vitória

Lula é o avalista de Dilma, cujo governo já tem 56 milhões de mendigos estatais, o que depõe contra seu governo / Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula
Lula é o avalista de Dilma, cujo governo já tem 56 milhões de mendigos estatais, o que depõe contra seu governo / Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

José Maria e Silva

“Mas seu dotô, uma esmola / a um homem que é são / ou lhe mata de vergonha / ou vicia o cidadão.” Luiz Gonzaga e Zé Dantas, “Vozes da Seca” (1953)

Desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Sil­va foi reeleito em 2006, o PSDB tem sido vítima do terrorismo eleitoral praticado pelo PT. Partido socialdemocrata, que acredita mais no Estado do que no mercado, o PSDB é apontado pelos petistas como um maníaco das privatizações, que quer acabar com o Bolsa-Família, a menina dos olhos da Era Lula. Essa fórmula deu certo para o PT em duas disputas presidenciais: em 2006, quando Lu­la foi reeleito à revelia do escândalo do mensalão, e em 2010, quando o ex-presidente conseguiu eleger u­ma candidata sem carisma e sem ex­­periência eleitoral. Tanto Geraldo Al­ckmin quanto José Serra, os candidatos tucanos de então, ficaram na defensiva, deixando que a pecha de privatistas e desalmados, governando para as elites, se tornasse uma es­pécie de segunda pele dos tucanos.

No primeiro turno das eleições deste ano, o PT repetiu a fórmula: seus adversários vão privatizar a Petrobrás, entregar o Brasil aos bancos e acabar com o Bolsa-Família. A estratégia deu certo, ao menos no caso de Marina Silva (PSB), a candidata da clandestina Rede que herdou a efêmera popularidade de Eduardo Campos, conquistada post-mortem num trágico acidente aéreo. Após ser triturada pela campanha petista, Marina chegou a prometer 13º salário para os beneficiários do Bolsa-Família, na vã esperança de neutralizar os ataques. Já o candidato tucano Aécio Neves, antecipando-se ao terrorismo eleitoral do PT, apresentou um projeto de lei no Senado que inclui o Bolsa-Família na Lei Orgânica da Assistência Social (Loas), tornando-o um programa de Estado e não mais de governo. Outro projeto de Aécio concede ao beneficiário do Bolsa-Família seis meses de carência antes de ser desligado do programa caso arranje emprego, para que tenha tempo de se estabilizar no trabalho.

A preocupação dos oposicionistas se justifica – o Bolsa-Fa­mí­lia tornou-se uma bolsa-voto. De acordo com os dados do Minis­té­rio do Desenvolvimento Social, no mês de setembro de 2014 o Pro­grama Bolsa-Família beneficiou 13.983.099 famílias, que receberam benefícios com valor mé­dio de R$ 170,10. O valor total trans­ferido pelo governo federal em benefícios para as famílias a­tendidas alcançou R$ 2.378.560.947 no mês. Conside­ran­­­do-se que cada família deve ter, em média, quatro pessoas, o número de beneficiários chega a 55.932.396, ou seja, quase 56 mi­lhões de pessoas. Mas as famílias po­bres tendem a ter mais filhos e, às vezes, outros parentes, como a­vós, também compõem o núcleo fa­miliar. Não é de todo improvável, portanto, que a média seja de cinco pessoas por família, elevando para 69.915.495 o total de be­neficiados, ou seja, quase 70 mi­lhões de dependentes do programa.

Instrumentos do terrorismo eleitoral

O Bolsa-Família não é o único programa social da União. O Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (que engloba Bolsa-Família, Tarifa Social de Energia, Carteira do Idoso, Minha Casa Minha Vida etc.) contabilizou em junho de 2014 um total de 28.227.088 famílias inscritas, o que, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social corresponde a 86.781.675 pessoas. Neste caso, o governo está considerando apenas três pessoas por família. Se consideramos quatro, o que é mais provável, o número de beneficiários salta para 112.908.352 pessoas, ou seja, mais da metade da população brasileira, estimada em 202,7 milhões de habitantes. Eis a razão porque a oposição se assusta quando é acusada de querer acabar com os programas de transferência de renda. A impressão que se tem é que não existe mais Brasil para a oposição – o País, e não só o Estado, foi completamente aparelhado pelo PT a partir dos extremos, com a Bolsa-Família na base e a Bolsa-Empresário no topo.

Por isso Lula e Dilma nunca tiveram escrúpulos em transformar os programas sociais em instrumentos do terrorismo eleitoral. Confiam que o contingente de pessoas dependentes do Estado é tão grande que o terrorismo há de surtir efeito. Irônico é que o PSDB nunca demonizou seu adversário da mesma forma; muito pelo contrário: os tucanos se comportam como tios dos petistas, sempre dispostos a perdoar as travessuras dos sobrinhos, mesmo quando elas são um tanto grosseiras. Em 2002, por exemplo, o então presidente Fer­nan­do Henrique Cardoso conduziu-se de forma absolutamente republicana na disputa eleitoral, não permitindo que a máquina pública fosse usada contra Lula. Chegou a facilitar as relações de Lula com os Estados Unidos, segundo o livro “18 Dias” (Editora Objetiva, 2014), do cientista político Matias Spektor, que mostra como “Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush”.

Spektor conta que “Fernando Henrique buscara aproximar-se de lula a partir do início de 2002 quando as pesquisas começaram a apontar sua provável vitória”. E detalha como ocorriam esses encontros: “O presidente mandara seus ministros da área econômica conversarem com a equipe do PT e convidara José Dirceu para uma bateria de encontros privados. Dirceu entrava nos palácios presidenciais pelas portas dos fundos ou no meio da noite para não ser visto pela imprensa”. Spektor diz que “as conversas entre Dirceu e FHC também serviram para acalmar o grupo de Lula” e que, “ainda em junho, faltando quatro meses para as eleições, o presidente deu sua palavra ao grupo opositor: se o PSDB perdesse as eleições, ele não criaria dificuldade para um futuro governo do PT”. Para desgosto de José Serra, o candidato tucano em 2002, Fernando Hen­rique conduziu uma transição política nos moldes do primeiro mun­do. É provável que, além de agir como estadista para garantir a es­tabilidade da moeda, FHC também agiu como o intelectual consciente que queria entrar para a história entregando o poder a um operário.

FHC agiu como estadista diante de Lula

Há algum tempo, tive a curiosidade de ler todos os pronunciamentos de FHC em cadeia de rádio e televisão disponíveis no portal da Presidência da República e pude constatar o quanto ele se comportava como estadista nessas falas à nação. Ao contrário de Lula e Dilma, que transformaram esse momento num palanque eletrônico – não só para alardear os feitos do governo, mas até para atacar adversários –, Fernando Henrique sempre mantinha uma fala sóbria, muitas vezes dividindo os feitos de seu governo com o Congresso Nacional, com a clara intenção de valorizar as instituições republicanas. Nesse afã de evitar qualquer forma de personalismo político, seja para santificar a si mesmo, seja para demonizar o adversário, FHC chegava a ser politicamente ingênuo, perdendo uma chance de enaltecer seu governo e abrindo o flanco para que o PT o atacasse.

A rigor, a prática do terrorismo político não é exclusividade do PT. O próprio partido já foi vítima dessa forma de terror. O tipo de ataque que Marina Silva (PSB) sofreu na disputa do primeiro turno – desfechado sem piedade pelos marqueteiros de Dilma e até por Lula – os petistas também sofreram em outros tempos. Sempre que um candidato do PT aparecia com chance de vitória nas urnas, desfraldava-se contra ele a bandeira do caos: empresários deixariam o País, propriedades seriam invadidas, o descontrole montaria banca no governo. Mesmo quando os ataques ao PT não eram explícitos, buscava-se reforçar no imaginário da nação a ideia de que o petismo era sinônimo de baderna – acusação que se tornava crível com as recorrentes greves insufladas pelos petistas.

Mas não eram tucanos os que levantavam esse tipo de acusação contra os petistas. Os algozes do PT no passado foram justamente seus aliados de hoje. O peemedebista Iris Rezende era um deles. Nas eleições municipais de 1985, quando era o todo-poderoso go­ver­nador de Goiás, Iris Rezende che­gou a ser acusado pelo PT de fraudar as urnas para impedir a vi­tória do professor Darci Accorsi, o petista bonachão que conquistou Goiânia no horário eleitoral, em conversas descontraídas na “cadeira de barbeiro” do ator Magalhães Al­meida, o Juquinha. Por pouco Accorsi não conseguiu se transformar no primeiro prefeito petista de uma capital, ao lado da cearense Maria Luiza Fonte­ne­le, que, naquele mesmo ano, se elegeu prefeita de Fortaleza pe­lo PT, três anos antes de Lui­za Erundina se eleger prefeita em São Paulo. Além de pioneira como petista, Fontenele também foi a primeira mulher eleita para uma prefeitura de capital.

De algoz, Collor se tornou aliado de Lula
Fernando Henrique Cardoso teve fala distorcida por jornalista da “Folha” e pelo PT; Aécio Neves, o candidato tucano à Presidência, encarrna a oposição que deixou que o Programa Bolsa-Família inchasse / Foto: Orlando Brito
Fernando Henrique Cardoso teve fala distorcida por jornalista da “Folha” e pelo PT; Aécio Neves, o candidato tucano à Presidência, encarrna a oposição que deixou que o Programa Bolsa-Família inchasse / Foto: Orlando Brito

O senador reeleito Fernando Collor (PTB) foi outro algoz do PT. Na eleição presidencial de 1989, além de atacar, ironizar e ridicularizar Lula nos debates, Collor não hesitou nem mesmo em expor no horário eleitoral o caso de Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula e mãe de sua filha Lurian, que acusou o então candidato petista de ter-lhe oferecido dinheiro para abortar. Quando a menina nasceu e Lula foi visitá-la na maternidade com um amigo, Miriam contou ter pedido para ficar sozinha com ele e, entregando-lhe a filha no colo, disse: “Agora você mata, porque quando estava na minha barriga eu não permiti”. Mirian Cordeiro também acusou Lula de ser racista e detestar negro, chegando a ficar nervoso quando via artista negro na televisão. Hoje, repetindo o comunista Luiz Carlos Prestes, que se tornou aliado de Vargas, algoz de sua mulher, Olga Benário, entregue à Alemanha nazista, Lula também se tornou aliado de Fernando Collor, esquecendo o vilipêndio a que Collor submeteu a sua própria filha.

Já com Fernando Henrique, que nunca lhe fez mal, Lula é pura ingratidão. Prova disso, é a distorção que os petistas estão fazendo com a entrevista de FHC ao jornalista Josias de Souza, da “Folha de São Paulo”, concedida por telefone na manhã de segunda-feira, 6. FHC está sendo acusado de chamar os nordestinos de “desinformados” apenas porque o PT ganhou no Nordeste. Ora, Fernando Henrique quis dizer justamente o contrário – que todo partido, inclusive o PSDB, só vence eleição com o apoio dos pobres. O que é óbvio: por acaso o Brasil tem uma maioria de ricos suficiente para eleger alguém que não seja síndico de prédio? O próprio Josias de Souza parece não ter compreendido a fala de FHC (que, de fato, se expressou de modo truncado) e tascou no título: “PT cresceu nos grotões porque tem voto dos menos informados, diz FHC”. O jornalista acrescentou no corpo da matéria, descontextualizando completamente as palavras do ex-presidente: “Para o tucano, o desempenho do PSDB é diferente, nesse aspecto, uma vez que em Estados como São Paulo seu partido tem maioria”.

Ouvindo o áudio da entrevista (disponível no blog de Josias de Souza), qualquer um pode constatar que FHC não quis discriminar pobre. Ele apenas respondeu uma pergunta do jornalista Mário Magalhães, que também participou da entrevista. O biógrafo de Marighela lembrou que o PT já foi um partido das classes médias e escolarizadas e que, hoje, migrou para os grotões e quis saber de Fernando Henrique, como cientista social e não como político, porque o PT, hoje, está fincado nos grotões. FHC, que nunca perdeu o viés acadêmico, es­queceu-se que é o principal avalista de Aécio Neves e danou a fa­lar como professor, sem compromisso com o contexto eleitoral: “Na verdade, está fincado nos me­nos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados. Co­mo era a Arena no tempo do re­gime militar: se apoiava nos grotões”.

FHC continuou: “Essa caminhada do PT dos centros urbanos industriais para os grotões é um sinal preocupante do ponto de vista do PT, me parece, porque é um sinal de perda de seiva ele estar apoiado em setores da sociedade que são, sobretudo, menos informados. Acho que aí há um problema. Mas isso tem que ser colocado um pouco na perspectiva: por exemplo, aqui em São Paulo, quando o PSDB ganha, ele ganha porque tem apoio de pobre, não é porque tem apoio de rico. Quando ganha na Paraíba também. O PT também. Agora, na propaganda, o PT costuma fazer uma separação entre elites e povo, ricos e pobres. Mas isso é mais um jogo de marketing. Nos resultados, o PT efetivamente tem crescido nos rincões. Mas ele tem também presença em algumas áreas urbanas industriais, não há dúvida”.

Mário Magalhães insistiu: “Presidente, deixe-me fazer uma provocação ao senhor. Quando o senhor fala em voto dos menos informados não remete ao voto dos ‘marmiteiros’, uma declaração que nunca ocorreu, mas que foi usada pelo general Dutra contra o brigadeiro Eduardo Gomes em 1945? O senhor estaria dizendo que, hoje, os marmiteiros estão com o PT?” Fernando Henrique foi taxativo: “Marmitei­ro era uma coisa para denegrir. Falta de informação é responsabilidade do Estado, não da pessoa. Geralmente há uma coincidência entre os mais pobres e os menos informados. É uma constatação, não é uma qualificação, nem afastamento. Eu disse que o PSDB tem votação também entre os mais pobres, de modo que não tenho uma visão, digamos assim, elitista. Quando o Lula foi acusado de não poder governar porque não tinha curso superior, fui o primeiro a dizer que isso é bobagem. Governa quem tem liderança. Eles até puseram na campanha. É óbvio que se há uma falha no PSDB é não ser capaz de conversar mais diretamente com os menos informados. Porque eles fazem parte do País e votam”.

Nem todo pobre aprova o Bolsa-Família

FHC tem razão. Conversando com os menos informados, os tucanos vão compreender que nem todo pobre aprova o Bolsa-Família. Ou o PSDB não seria eleito nem em São Paulo. Até entre os beneficiários do programa há insatisfeitos, seja com o valor da esmola, seja com a falta de perspectiva. Além disso, o crescimento do programa é um atestado de falência do governo. Quando Dilma afirmou num dos debates que o Bolsa-Família já beneficia 56 milhões de pessoas, seus olhos brilharam, como se isso fosse vantagem. Ora, se mais de um quarto da população brasileira precisa de esmola estatal para sobreviver, em que consiste o suposto su­cesso econômico da Era Lula, que teria criado uma nova classe média? Nunca antes na história do País um governo se vangloriou de manter uma esmola estatal em caráter permanente. Até o peemedebista Ma­gui­to Vilela – pioneiro no País em tra­tar a fome como questão de Es­ta­do, quando governou Goiás de 1995 a 1998 – sempre enfatizava que a cesta básica era um adjutório temporário às famílias carentes somente até que conseguissem um emprego.

Só o governo do pernambucano Lula – do qual Dilma é mera extensão – se orgulha de ter criado uma esmola estatal permanente, que envergonharia outro pernambucano ilustre, o músico Luiz Gonzaga, autor de “Vozes da Seca”, feita em parceria com Zé Dantas e lançada em 1953, num compacto duplo, juntamente com “ABC do Sertão”. Em “Vozes da Seca”, o Rei do Baião entoa os conhecidos versos, sem dúvida, proféticos: “Seu dotô, uma esmola / a um homem que é são / ou lhe mata de vergonha / ou vicia o cidadão”. Um levantamento do jornalista Gustavo Patu, da “Folha de S. Paulo”, publicado em 1º de dezembro de 2013, mostrou que os principais programas oficiais de transferência de renda pagaram no ano passado cerca de 72 milhões de benefícios – um aumento de 180% em relação aos 25 milhões pagos em 1995 no primeiro ano do governo FHC, enquanto a população, no mesmo período, cresceu 26%, sete vezes menos.

A expansão desenfreada das esmolas estatais há muito viciou o cidadão. Até no primeiro mundo, esse tipo de programa cria famílias parasitárias, sem ânimo para procurar emprego. Até porque os empregos aos quais conseguem concorrer costumam ser árduos e mal pagos. Muitos acabam desistindo de procurar emprego fixo, preferindo conciliar a esmola do governo com bicos sazonais. Em maio deste ano, uma pesquisa do próprio IBGE mostrou que o desemprego no Brasil só está relativamente baixo (em torno de 6%) porque 39% das pessoas em idade de trabalhar – ou seja, assombrosos 62 milhões de brasileiros – nem procuram emprego. Como não há fome subsaariana visível, a maioria só pode estar dependurada em programas governamentais. E isso só foi possível porque a oposição consentiu, disputando o Bolsa-Família com o governo petista quando deveria ter criticado seu inchaço. A sorte da oposição é que, por uma questão de sobrevivência, o pobre pode ser desinformado, mas é astuto e já percebeu que governo nenhum terá coragem de acabar com as esmolas estatais. O carisma bonachão de Lula vale muito mais do que o terrorismo eleitoral de Dilma. Se Aécio souber vencer em simpatia, não há bolsa-família que segure sua vitória.