Goiânia e sua (falta de) memória: a saga para reconstruir o Monumento ao Trabalhador

Na data consagrada à classe operária, a história de uma obra que foi destruída pela intolerância e que não foi reerguida por omissão e desinteresse de governantes pela memória da cidade

Fotos: Divulgação

Fotos: Divulgação


Elder Dias

Já faz quase meio século e alguns veriam na ação, ainda hoje, apenas um sintoma típico de rebeldia juvenil. “São só garotos”, “isso é da idade”. Mas, naquela noite, o piche fervido que carregavam faria um estrago físico de prejuízo inestimável e consequências irreversíveis – pelo menos até o momento – ao patrimônio de uma cidade. Ninguém confirma ao certo se foram realmente “só garotos”. O que se sabe é que foi dessa maneira que um dos mais significativos monumentos de Goiânia teve apenas dez anos de existência plena.

Inaugurado em 1959 na então chamada Praça Americano do Brasil, no fim da Avenida Goiás, o Monumento ao Trabalhador começou a ser apagado da história da capital já naquele ano de 1969. E, como a história costuma andar em círculos, ou movimentos pendulares, o ato de vandalismo tem muito a ver com a história de ódio e divisão ideológica dos tempos atuais: ele foi creditado a integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) que atuavam na capital e julgaram a obra “subversiva”.

O painel foi um trabalho executado em três frentes: o traçado urbanístico do local, a obra arquitetônica e a confecção do mural. Da primeira parte se encarregou Farid Helou, um engenheiro reconhecido e cedido pelo Estado; o arquiteto Elder Rocha Lima projetou o monumento em si, com uma estrutura central, com cavaletes de concreto, cujas linhas lembravam a Catedral de Brasília; já Clóvis Graciano deu vida a dois mosaicos, inseridos nos cavaletes: o do lado esquerdo chamou-se “A Luta dos Trabalhadores” e o da direita, “O Mundo do Trabalho”. Feitos com pastilha italiana, que ficava apoiada na base de concreto, eles tinham quase 15 metros de extensão e 1,5 metro de tamanho. Bem à altura dos olhos, eram como uma exposição permanente, uma galeria a céu aberto em um importante ponto de passagem da capital — a obra se situava no encontro das avenidas Goiás e In­dependência, em frente à antiga Estação Ferroviária.

No alto, a Praça do Trabalhador em dia de manifestação; acima reconstituição digital do que seria hoje o local

No alto, a Praça do Trabalhador em dia de manifestação; acima reconstituição digital do que seria hoje o local

Nos anos seguintes, o local foi ganhando notoriedade. Passou a ser conhecido pela população como Praça do Trabalhador. Lá se organizavam atos de mobilização, assembleias e manifestações. Um ponto de encontro que, exatamente por isso, começou a ser considerado “incômodo”, no processo de radicalização por que passou o Brasil na década de 60. Isso decretaria a destruição do painel de Clóvis Graciano. Um ato tão bruto quanto burro: o trabalho do artista é reverenciado em museus do Brasil e do exterior. Em São Paulo, há várias obras espalhadas pela cidade: na Avenida Paulista, no Centro, na Rua João Lourenço (esta restaurada), em Moema. Infelizmente, algumas também foram destruídas.

Em 1969, o prefeito era o então jovem Iris Rezende, em sua primeira passagem à frente da administração da capital. Não houve investigação nem qualquer ação pela recuperação dos painéis, que foram se deteriorando. Tempos depois, em 1973, já na gestão de Manoel dos Reis, as pastilhas foram raspadas. Nunca seriam reconstituídas. Em 1987, com a iniciativa de prolongar a Avenida Goiás, toda a estrutura restante foi demolida por tratores a mando do interventor Joaquim Roriz.

Pelo menos o ataque inicial se explica, embora não se justifique, pelo teor ideológico: foi um monumento desde o início identificado com a classe trabalhadora e, por conseguinte, com movimentos de esquerda – o que era explicitado nos desenhos dos mosaicos, o alvo primeiro. Um deles mostrava a forte imagem de homens sendo enforcados. Era a cena fatal do movimento que levaria ao feriado mundial de 1º de maio: a Revolta de Haymarket, ocorrida em Chicago, em 1886, quando, durante uma manifestação pacífica pelo regime de oito horas diárias de trabalho, uma bomba estourou no local em que policiais se postavam. Um morreu na hora, outros sete morreram mais tarde. O revide, porém, foi imediato: a polícia atirou a esmo e feriu dezenas de pessoas e matou 11. Os oito responsáveis pela manifestação foram presos e incriminados. Um se matou e quatro foram enforcados. Sete anos depois, o governo concluiu que todos eram inocentes.

Obra de Elder Rocha Lima ainda em sua fase de construção, em frente à Estação Ferroviária

Obra de Elder Rocha Lima ainda em sua fase de construção, em frente à Estação Ferroviária

Ação pela reconstrução

Na virada do século, foi tomando corpo uma mobilização para a restauração do monumento. Em 2003, durante a gestão do prefeito Pedro Wilson (PT), constituiu-se um grupo de trabalho para avaliar o resgate do Monumento do Trabalhador. Apesar do relatório bem elaborado e contendo até mesmo um orçamento para a realização da reconstrução – o que hoje, com valores atualizados, ficaria por volta de R$ 1 milhão –, veio nova eleição e o sucessor do petista foi exatamente Iris Rezende. Foi a oportunidade dada ao peemedebista para se redimir da omissão de 1969, o que não ocorreu. O projeto de reavivar a estrutura foi novamente esquecido.

Este ano, um fato novo pode ser auspicioso. Sob liderança do professor Pedro Célio Alves Borges, da Faculdade de Ciências Sociais da UFG e representante da instituição na Comissão Estadual da Memória Verdade e Justiça, foi apresentada uma moção no sentido de recomendar ao governador Marconi Perillo (PSDB) e ao prefeito Paulo Garcia (PT) a devolução do Monumento do Trabalhador à cidade. “Atualmente estamos à espera de resposta do governador para audiência, na qual entregaremos um documento assinado com a reivindicação da reconstrução”, relata o professor.

Na Rua João Lourenço, no bairro paulistano de Moema, painel restaurado de Clóvis Graciano

Na Rua João Lourenço, no bairro paulistano de Moema, painel restaurado de Clóvis Graciano

Para Pedro Célio, a destruição do monumento foi “o maior crime contra as artes e a cultura em Goiânia” em todos os tempos. A recuperação, porém, esbarra em barreiras burocráticas, além da própria vontade política. É que a área da Estação Ferroviária está tombada pelo patrimônio histórico e alega-se que haveria, caso reinstalada a obra, um conflito de estilos entre a arquitetura art déco da atual edificação e as linhas contemporâneas da obra de Elder Rocha Lima. Além disso, há um projeto de mudar toda a área em função do polo de comércio de roupas que se tornou a região – uma evolução do que um dia foi a Feira Hippie.

O arquiteto, que hoje mora em Brasília, já se dispôs a estar em Goiânia assim que a audiência for confirmada. Contemporâneo de Elder, o pintor Amaury Menezes também engrossa o coro dos que defendem a volta do monumento.

 

Os idealizadores do monumento ao trabalhador

Reprodução

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Quatro personagens, todos ligados ao mundo operário, foram fundamentais para o surgimento da obra, que se tornou, durante algum tempo, o ponto de concentração das massas na capital. Veja abaixo um pouco da história de cada um deles:

Clóvia Graciano
Nascido em Araras (SP) em 1907, Clóvis Graciano foi um importante pintor e desenhista de seu tempo. Na década de 30, teve contato com a arte de Alfredo Volpi — um dos mais importantes artistas da segunda fase do modernismo —, com quem mais montaria o lendário grupo Santa Helena, ao lado de artistas como Francisco Rebolo, Mario Zanini, Aldo Bonadei, Fulvio Pennacchi, Alfredo Rizzotti, Humberto Rosa e outros. Fez amizade também com o pintor Cândido Portinari e estudou em Paris, onde aprendeu técnicas de produção de murais, inclusive com mosaicos. Foi o que o destacou ao retornar ao país. Além do Monumento ao Trabalhador, em Goiânia, realizou painéis como o mural “Armistício de Iperoig”, na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap); o painel “Operário”, na Avenida Moreira Guimarães; murais na Avenida Paulista e no edifício do Diário Popular. Foi também diretor da Pinacoteca de São Paulo, em 1971. Suas obras estão expostas no Palácio dos Bandeirantes — sede do governo de São Paulo — e figuram também em museus e coleções particulares do Brasil e do exterior.

Elder Rocha Lima 
É o único do quarteto que se encontra vivo. Idealizou e deu forma ao Monumento do Trabalhador. Nascido em 1928 na cidade de Goiás, foi um dos criadores do curso de Arquitetura e Urbanismo, ainda na década de 60, da então Universidade Católica de Goiás (UCG), hoje Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), ao lado de Frei Nazareno Confaloni e Amaury Menezes. Antes, havia sido professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) até 1964, quando foi demitido e teve seus direitos políticos cassados até a anistia, em 1979. Entre suas obras arquitetônicas em Goiânia, além do monumento estão a sede da Escola de Engenharia da UFG e o Cemitério Jardim das Palmeiras.

Farid Helou
Engenheiro da Secretaria Estadual de Viação e Obras Públicas, Farid Helou foi o responsável pela elaboração do traçado final que deu ao local a formatação que só seria rompida em meados da década de 80, para o prolongamento da Avenida Goiás, em seu trecho conhecido como Goiás Norte.

Pedro Ribeiro dos Santos
O líder sindical foi o primeiro presidente da Federação dos Trabalhadores na Indústria no Estado de Goiás (Ftieg). É considerado o responsável por liderar a reivindicação de construção do Monumento ao Trabalhador junto ao governador José Feliciano e ao prefeito Jaime Câmara, como um espaço de reconhecimento ao papel dos trabalhadores como motores do mundo moderno.

 

Em 1980, Jornal Opção debateu o caso e abriu polêmica

Arquivo

Arquivo

Um dos raros registros conhecidos e acessíveis na imprensa escrita a respeito do Monumento ao Trabalhador está na edição de 24 de outubro de 1980 do Jornal Opção. À época, a publicação era diária e a reportagem especial se encontrava no suplemento “Encarte”. Com o título “A praça é do povo e do trabalhador”, o então editor Anatole Ramos ligava o monumento à luta dos operários, questionando o verdadeiro significado do nome “Praça do Trabalhador”. “Por quê? Por causa daquele painel que lembrava o sacrifício idiota e desumano de Sacco e Vanzetti, que foi retirado para que ninguém mais pensasse nunca nisso?”, escreveu, recordando a condenação à morte, nos Estados Unidos, dos anarquistas italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, na década de 1920, acusados de dois homicídios dos quais foram absolvidos 50 anos depois de sua execução. Note-se que, ainda em período de ditadura, falava-se em “retirada” do painel, em vez de sua destruição.

A foto que estampa a matéria tem uma legenda curiosa: “Praça do Trabalhador, uma estranha homenagem aos verdadeiros construtores da cidade”. O autor provavelmente fazia um contraponto com a ideia de Pedro Ludovico Teixeira como construtor da capital, o que se consubstancia em vários pontos do texto. De modo inquietante, o redator pontua que “uma cidade construída adrede, toda ela feita por um exército de operários, não possui nada que lembre sequer um soldado desse exército, como todos os países do mundo possuem, por exemplo, o seu túmulo do soldado desconhecido”.

Por fim, Anatole faz uma sugestão incisiva – similar à que agora está sendo encampada pelo professor Pedro Célio e outras pessoas: “Era o caso de, daqui do alto destas pirâmides donde 47 anos [a idade de Goiânia em 1980] nos contemplam, lançarmos o grito: ‘Trabalhadores de toda a Goiânia, uni-vos!’ e imediatamente iniciarmos a campanha pela construção de um monumento ao trabalhador na ‘sua’ praça, antes que um aventureiro qualquer lance o seu monumento nela. E, depois, instituirmos uma guarda cívica para que ninguém carregue a estátua ou lá o que seja, como foi feito com o mural (mural mesmo?), uma obra de arte que desapareceu no tempo e no espaço”.

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