Gesto de Marconi fortalece os tucanos para 2018

Governador de Goiás já tinha construído a vitória sobre o cearense Tasso Jereissati, mas abriu mão em favor de Geraldo Alckmin e, assim, dá força ao partido na disputa pela Presidência da República, além de se colocar também como alternativa da sigla

Governador de Goiás, Marconi Perillo

Desistir de uma disputa quando se tem a vitória praticamente assegurada pode soar co­mo uma derrota — ou, no caso, uma autoderrota. Na maioria das circunstâncias sim, mas no caso da disputa pelo comando do PSDB, em que o governador de Goiás, Marconi Perillo, fez isso, as coisas mudam de figura, porque a desistência teve um significado bem maior.

Relembrando: Marconi e o se­na­dor cearense Tasso Jereissati dis­putavam o importante cargo de pre­sidente nacional do PSDB. Nas últimas semanas, o goiano vinha articulando com as bases par­tidárias e lideranças de bancadas tucanas pelo Brasil a fora, en­quanto o concorrente foi passear.

O senador viajou depois de participar da convenção estadual do partido, no Ceará, no dia 10 de novembro, para ficar dez dias fora. Marconi, por sua vez, intensificou suas articulações, participando de convenções tucanas em outros Estados, como Piauí, Sergipe, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, além do Distrito Federal, onde tem ido em média duas vezes por semana.

O resultado do “passeio” de Tasso Jereissati e das peregrinações nas internas do PSDB por par­te de Marconi Perillo não po­deria ser outro: o goiano praticamente selou a vitória para a eleição que estava (na verdade, ainda es­tá) marcada para o próximo sábado, dia 9 de de­zembro, quando será realizada a convenção nacional do PSDB, em Brasília.

Mas no início da semana passada, Tasso Jereissati e Marconi desistiram de disputar a presidência do PSDB, em favor do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Para Tasso, foi uma saída honrosa, já que ele inevitavelmente seria derrotado na disputa. Para Marconi, foi um gesto de altruísmo político, pois ele abriu mão da vitória em nome da união partidária.

Divisão
A verdade é que a disputa en­tre os dois contendores era um fator a mais no acirramento das divisões no PSDB, que vive o dilema de quando sair do governo Michel Temer. Além disso, há correntes internas que têm visões diferentes sobre o apoio à reforma da Previdência.
Marconi Perillo fez sua parte para a pacificação da sigla, mostrando visão partidária acima de tudo.

A decisão de sair da corrida pe­lo comando tucano, mesmo com a real perspectiva de vitória sobre Tasso Jereissati, foi uma demonstração de coerência do governador de Goiás. Desde o início, quando começou ser citado para a presidência do ninho tucano, Marconi vinha pregando a unidade em torno da construção do programa de governo e do candidato para o Palácio do Planalto em 2018.

Em entrevistas, o governador tem levantado a bandeira do PSDB como um partido reformista, comprometido com a permanente mudança capaz de melhorar a vida dos brasileiros. “Fomos os fiadores do impeachment, mas não precisamos estar em ministérios para a­provarmos as reformas. Estando ou não no governo do pre­sidente Temer, no Con­gresso o nosso compromisso é com a governabilidade e com as reformas.”

Marconi é visto no PSDB como um dos fiadores do projeto eleitoral do partido para 2018. Ao apoiar Alckmin, o goiano não só abre caminho para pacificação interna como libera o governador de São Paulo para se dedicar à negociação com outros partidos.

Como é natural, até em reconhecimento ao seu gesto de desprendimento em nome da união partidária, Marconi Perillo vai cobrar espaço na Executiva nacional que o governador paulista haverá de compor a partir da convenção do próximo dia 9. O goiano quer e pode ficar com a vice-presidência tucana, o que se se confirmar dará a ele o comando nacional do partido quando Alckmin se desincompatibilizar para disputar o Palácio do Planalto, em meados de 2018, após a convenção para formação de alianças e chapa.

Articulador nacional

Tasso Jereissati, Geraldo Alckmin e Marconi Perillo | Foto: Reprodução | Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Com Marconi Perillo assumindo o comando nacional, ele terá a missão de articular as costuras de palanques estaduais para a campanha nacional de Geraldo Alckmin. E aí vale lembrar que o goiano estaria simplesmente dando continuidade ao trabalho que fez para cimentar sua candidatura na disputa contra Tasso Jereissati, quando entabulou contatos importantes entre os tucanos nos Estados.

A verdade é que o gesto de Marconi Perillo o alçou definitivamente como liderança nacional, o que o coloca como alternativa dos tucanos até para a disputa presidencial, como já afirmaram diversas lideranças do partido. Exemplo mais recente foi o governador do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja.

Na quarta-feira, 29, Azam­buja reafirmou que Alckmin é o “candidato de consenso da cúpula” — opinião coincidente à de Marconi —, mas observou que há outros nomes, citando o senador Tasso Jereissati, o governador Marconi Perillo, o prefeito de São Paulo, João Dória, e o prefeito de Manaus (AM), Arthur Virgílio, como tucanos que podem disputar a Presidência da República.

“Isso é uma decisão que caberá ao partido, através de previas ou consultas internas. Mas, o Geraldo, junto com o grupo do Marconi, tenho certeza que cria harmonia interna e volta o PSDB a suas origens, não de defender governos, mas defender bandeiras”, afirmou Reinaldo Azambuja.

Por sinal, o prefeito de Ma­naus, Arthur Vir­gílio, já tinha dito que pretende disputar prévias com Alck­min para ser o candidato do PSDB à Pre­sidência. Nos últimos dias, o prefeito tem reiterado sua posição de que não abrirá mão de concorrer na convenção do partido. Mas a cúpula tucana tem trabalhado para convencer Virgílio a desistir, como forma de fortalecer o projeto do PSDB com Alckmin.

Desembarque do governo será no dia 9

Os tucanos Antônio Imbassahy (ministro da Secretaria de Governo) e Luislinda Valois (Direitos Humanos) vão deixar seus cargos na equipe de Michel Temer, mas Aloysio Nunes Ferreira deve permanecer no Itamaraty | Fotos: Reprodução

Depois de muito diz-que-diz, finalmente o PSDB resolve marcar uma data para desembarcar do governo do peemedebista Michel Temer. O partido fez uma reunião na quinta-feira, 30, em Brasília, e definiu que a saída será no dia 9, quando se realiza a convenção tucana e será eleito o novo presidente da sigla, que deverá ser o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

A comissão executiva do PSDB discutiu a portas fechadas o novo estatuto do partido, que terá de ser aprovado na convenção. Foi marcada para esse sábado, dia 2, reunião entre Alckmin e o presidente Michel Temer, em Limeira (SP), e a expectativa era de que os dois acertassem os termos da saída do PSDB da base do governo.

Temer, que precisa dos votos dos tucanos para aprovar a reforma da Previdência e os projetos do ajuste fiscal, prefere saída menos traumática para não inviabilizar a agenda do Planalto no Congresso. A bancada tucana na Câmara tem 46 deputados, 15% dos votos necessários para aprovar a reforma previdenciária.

Mesmo com os tucanos ocupando ministérios, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, disse na quarta-feira, 29, que o partido já é considerado fora da base. Padilha afirmou que o desembarque dependia apenas de detalhes.
— É uma questão apenas de haver de parte do presidente Michel Temer e dos líderes, no caso do presidente Alckmin, a definição da forma com que vai ser feita essa transição.

No dia seguinte, o ministro tucano das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, disse, diferentemente de Padilha, que o PSDB “não rompeu com o governo” e que decisão final sobre participação do partido na Esplanada dos Ministérios caberia ao presidente Michel Temer.

“O PSDB não rompeu com o governo. O PSDB apoia o programa do governo. A participação ou do PSDB no governo cabe ao presidente [Michel Temer]”, reiterou o ministro.

A saída do partido na base vem sendo discutida no PSDB desde maio, quando a delação da JBS trouxe denúncias contra o presidente Michel Temer. Formaram-se duas alas entre os tucanos: a dos favoráveis a continuar na base do governo e aqueles que defendem a saída.

Geraldo Alckmin, por exemplo, sempre se bateu pela saída do governo Temer. E o tom das declarações do governador tem incomodado o Palácio do Planalto, o que levou o presidente do PMDB, senador Romero Jucá (RR), a cobrar respaldo na transição até 2018.

Contra
O desconforto no Planalto foi provocado principalmente pelo fato de Alckmin dizer que, se dependesse dele, a sigla nem teria se aliado a Temer. “Eu sempre fui contra participar do governo. Acho que não tinha razão para o PSDB participar, indicar ministro”, afirmou o governador, numa entrevista à Rádio Bandeirantes.

Alckmin lembrou que o tucano Bruno Araújo já deixou o Ministério das Cidades, disse que “outros terão de sair pelo prazo de desincompatibilização” e pregou uma “política diferente” de agora em diante. “Mas votaremos medidas de interesse do País, independentemente de termos cargos, ministérios ou participar do governo”, insistiu.

Questionado se o PSDB abandonaria Temer, Alckmin foi evasivo: “Abandonar no sentido de não ter compromisso, não. Porque temos compromisso, responsabilidade e temos de dar sustentação na Câmara e votar projetos de interesse do País”, afirmou o paulista.

Reportagem do “Estadão” conta que auxiliares de Temer notaram “sinais dúbios” de Geraldo Alckmin em sua campanha. O Planalto e a cúpula do PMDB têm interesse em montar uma frente de centro-direita com partidos como PSDB, DEM, PP, PR, PSD e PRB para disputar a eleição presidencial de 2018, mas ainda há um clima de mágoa e desconfiança em relação aos tucanos.

Ao jornal, Jucá disse que prefere acreditar que o PSDB vai ter juízo e somar forças para ajudar a concluir essa transição. “Alckmin tem de conversar com os outros partidos e dizer a que veio. Existe chance para fazermos uma coligação com os tucanos, mas isso depende das ações. Queremos saber, por exemplo, como o PSDB vai votar na reforma da Previdência. Na política, os atos valem mais do que as palavras.”

Embora Alckmin tenha falado novamente em desembarque, na prática não se sabe como será essa saída. O ministro da Secretaria de Governo, Antônio Imbassahy, deve ser substituído pelo deputado Carlos Marun (PMDB), mas pode ser deslocado para outro posto na equipe. Luislinda Valois (Direitos Humanos) vai deixar o cargo em breve e Aloysio Nunes Ferreira permanecerá no Itamaraty.

“Essa questão do desembarque já está superada. É um falso dilema. Falta só marcar a data”, amenizou o senador Aécio Neves (PSDB-MG), principal fiador da participação dos tucanos na gestão Temer. “Levar esse tema à convenção é um desrespeito ao próprio PSDB. O que temos de discutir é o leque de alianças que o PSDB deve buscar.”

Pois a data do desembarque foi, finalmente, marcada.

Tesouraria é alvo de cobiça

O cargo de tesoureiro do PSDB é mais um fator de disputa entre os tucanos. Em seu blog, na quinta-feira, 30, a jornalista Andréia Sadi publicou texto relatando a situação. Segundo Sadi, o PSDB trava uma briga interna para decidir quem será o dono do cofre do partido em 2018 e os diferentes grupos da sigla disputam nos bastidores o posto de tesoureiro, que controlará os repasses dos fundos da sigla na primeira eleição geral sem doações empresariais, no ano que vem.

Registra a blogueira: O tesoureiro é responsável, entre outras funções, pela definição dos recursos que serão encaminhados para os Estados. O posto, que sempre foi cobiçado, ganhou mais relevância diante das dificuldades de financiamento de pré-campanha dos candidatos.
Os grupos dos principais caciques do partido – Geraldo Alckmin, Aécio Neves e José Serra – estão de olho na vaga. O governador de São Paulo, que vai assumir a presidência do partido, quer emplacar Silvio Torres. O nome, no entanto, enfrenta resistência dos senadores, que defendem um candidato “mais neutro”. Hoje, a tesouraria do partido é comandada por Rodrigo de Castro, aliado e indicado por Aécio Neves.

Outro posto cobiçado é o Instituto Teotônio Vilela, hoje ocupado pelo ex-deputado José Aníbal. O ITV tem recursos do fundo partidário e tem sido pleiteado pelas diferentes alas do partido.
A solução para os principais cargos da executiva só deve ser conhecida às vésperas do dia 9 de dezembro, quando o PSDB vai oficializar Alckmin no comando do partido. l

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