Futebol: uma Copa do Mundo para quem pode pagar; a de 2026 será a mais cara da história
30 maio 2026 às 21h00

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Donni Araújo
Especial para o Jornal Opção
Assistir a uma Copa do Mundo de Futebol nunca foi barato. Nem simples. Nas primeiras edições, em 1930, no Uruguai, e em 1934, na Itália, até mesmo seleções participantes enfrentaram enormes obstáculos logísticos para comparecer e algumas desistiram da viagem. O problema persistiu por décadas e ainda era perceptível em 1950, no Brasil, em um planeta que tentava se reorganizar após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Contudo, a escalada de preços e as dificuldades para comparecer ao evento atingiram níveis absurdos para a Copa do Mundo de 2026, a ser realizada conjuntamente nos Estados Unidos, Canadá e México. O que antes era difícil e caro se tornou praticamente impossível para grande parte da população. A incômoda constatação é que assistir ao torneio deixou de ser uma aventura cara e passou a ser, para a maioria dos torcedores, uma experiência financeiramente proibitiva.
A 23ª edição do evento terá a participação de 48 seleções, totalizando 104 jogos, distribuídos em 16 cidades-sede espalhadas pelos três países da América do Norte. À primeira vista, parece a celebração máxima da expansão global do futebol, processo iniciado na década de 1970 pelo brasileiro-suíço João Havelange, então presidente da Fifa. Na prática, porém, começa a se desenhar como a Copa mais cara da história.
Embora o preço dos ingressos tenha aumentado entre três e seis vezes em relação a edições anteriores, o problema não está apenas no valor das entradas. Está no custo global. Ingresso, passagem, hotel, alimentação, deslocamentos internos e câmbio formam uma barreira que transforma o torcedor comum em espectador remoto. A Copa segue mundial na televisão, mas se torna cada vez menos mundial nas arquibancadas.
Popular?
Mesmo para o espectador local, os preços estão salgados.

Verdade que a Fifa chegou a criar um tipo de “ingresso popular” no valor de US$ 60. Contudo, essa cota de entradas baratas é extremamente limitada e passa a nítida impressão de que só foi criada para conter as críticas, que não são poucas e chegam dos quatro cantos do mundo.
Até o presidente norte-americano, Donald Trump, reclamou publicamente dos valores.
Questionado sobre ingressos acima de US$ 1.000 para a estreia da seleção dos Estados Unidos contra o Paraguai, ele respondeu que “também não pagaria isso”. A fala chama atenção não por revelar sensibilidade social inesperada, mas por expor o constrangimento político de uma Copa vendida como festa popular em um país onde o modelo de entretenimento esportivo já é, por natureza, excludente.
Trump demonstrou surpresa com os valores e disse, basicamente, que esse fator poderá afastar o torcedor comum norte-americano. Ele mencionou, ainda, preocupação com o fato de trabalhadores e famílias não conseguirem frequentar os jogos.
Trump está longe de ser voz isolada.
Parlamentares democratas estadunidenses pressionaram a Fifa.
O prefeito de Nova York tentou criar lotes populares de US$ 50.
Até jogadores da seleção dos EUA reclamaram do preço das entradas.

Para completar, torcedores americanos fizeram críticas pesadas ao “dynamic pricing” adotado pela Fifa.
Mercado norte-americano
A exemplo do modelo de jogo dominante nos times contemporâneos, a Fifa se recompôs e aplicou rápida transição ao ataque, respondendo que os preços refletem “o mercado norte-americano”.
Gianni Infantino, presidente da entidade, afirmou, em claro inglês: “we have to apply market rates”, ou seja, “temos que aplicar preços de mercado”.
Do ponto de vista estritamente comercial, o argumento faz sentido.
O governo dos Estados Unidos apoia fortemente a Copa.
Além disso, a Fifa está usando justamente o modelo típico do entretenimento premium dos EUA, mesmo que parte da própria classe política norte-americana tenha passado a criticar a elitização do evento.
A lógica da Fifa é simples, assumindo que se houver demanda gigantesca e se o mercado de revenda nos Estados Unidos, Canadá e México permitir preços absurdos, então a própria entidade prefere capturar esse dinheiro diretamente.
Na prática, isso aproxima a Copa do Super Bowl, das finais da NBA, de grandes shows e de megaeventos corporativos nos EUA.
Mas afasta a ideia histórica de Copa popular.

Copa do “preço dinâmico”
O primeiro choque está justamente no item mais simbólico da Copa do Mundo: o ingresso.
Em 2026, a Fifa resolveu importar de vez para o futebol um modelo tradicional do entretenimento norte-americano chamado “dynamic pricing”, isto é, “preço dinâmico”.
Por esse modelo, quanto maior a procura, maior o valor do item buscado. O custo do ingresso deixa de ser relativamente estável e passa a oscilar conforme demanda, interesse do mercado, momento da venda e movimentação da própria plataforma oficial.
O resultado é explosivo.
Em muitos casos, o comprador entra no sistema acreditando que pagará um preço e descobre, minutos depois, que o valor já mudou.
Foi justamente esse mecanismo que gerou forte reação entre torcedores norte-americanos, políticos e até jogadores da seleção dos Estados Unidos.
Com efeito, o modelo transforma a Copa em um produto premium de mercado aberto.
E os números ajudam a explicar a revolta.
Quanto custa um jogo?

Para se ter uma ideia, embora os valores ainda oscilem conforme fase de venda, procura e mercado secundário, as estimativas atuais apontam para a realidade de que as entradas para os jogos da fase de grupos estão hoje entre US$ 60 e US$ 400.
Nas partidas da primeira fase eliminatória e oitavas de final, o preço das entradas está entre US$ 100 e US$ 700. Nas quartas de final, os valores ficam entre US$ 300 e US$ 1.200. Nas semifinais, entre US$ 500 e US$ 3.000. Já para a final, os ingressos saem por preços entre US$ 800 até mais de US$ 13 mil.
Na teoria, a Fifa mantém uma categoria popular de US$ 60 para os 104 jogos do torneio. Contudo, trata-se de uma cota extremamente limitada, quase simbólica diante do volume total de entradas.
Além disso, determinados jogos simplesmente escapam de qualquer noção tradicional de preço “popular”. Partidas de abertura e confrontos da seleção dos Estados Unidos já aparecem em plataformas oficiais com faixas entre US$ 990 e US$ 2.700, dependendo do setor e da demanda.
O cenário se torna ainda mais agressivo nas fases decisivas, quando ingressos premium de quartas e semifinais ultrapassam facilmente os US$ 4 mil. Na final, marcada para o MetLife Stadium, na região de Nova York, o ingresso oficial mais barato de categoria padrão gira em torno de US$ 1 mil a US$ 1,5 mil.
Um carro pelo ingresso
Contudo, o número que realmente escancarou o novo perfil comercial da Copa veio da própria FIFA. A entidade colocou à venda entradas “Front Category 1” por impressionantes US$ 32.970, algo próximo de R$ 170 mil na conversão atual.
O mercado secundário segue a mesma linha.
Há relatos de ingressos para a final ultrapassando US$ 30 mil em plataformas oficiais de revenda autorizada.
Em outras palavras, ver presencialmente a decisão da Copa do Mundo passou a custar mais do que muitos carros.
Entretanto, o preço das entradas está distante de ser o único obstáculo para quem quer assistir à Copa do Mundo de 2026. Principalmente para o espectador que não reside na América do Norte.
Três países, distâncias continentais
Existe um aspecto particularmente sui generis a respeito da 23ª Copa do Mundo.
Ao contrário das edições anteriores, à exceção de Coreia e Japão, o torcedor não terá que ir apenas a um determinado país para presenciar o evento. Precisará circular por três nações diferentes, em distâncias continentais, enfrentando uma logística muito mais próxima de uma operação internacional de turismo de luxo do que de uma viagem esportiva tradicional.
E é justamente aí que os custos começam a fugir completamente da realidade da maior parte da população mundial.
Para o torcedor brasileiro, por exemplo, projeções atuais indicam que apenas a passagem aérea internacional poderá variar entre US$ 700 e US$ 1.500 para os Estados Unidos; entre US$ 600 e US$ 1.200 para o México; e entre US$ 900 e US$ 1.700 para o Canadá.
Convertendo para a moeda brasileira, dependendo do câmbio, isso representa algo entre R$ 4 mil e R$ 10 mil somente em passagens internacionais. E especialistas alertam que os preços tendem a aumentar com a proximidade da realização do evento.
O peso econômico da viagem é muito menor para europeus do que para sul-americanos, sobretudo por causa da diferença cambial e da renda média mais elevada em euro e libra. Existe alguma vantagem logística. Há maior oferta de voos, mais concorrência entre companhias aéreas e, principalmente, moedas mais fortes. Mas ainda assim os valores são salgados.
Hoje, as estimativas apontam passagens entre US$ 500 e US$ 1.200 saindo de Londres para os Estados Unidos; entre US$ 450 e US$ 1.000 de Madri; e entre US$ 500 e US$ 1.100 saindo de Paris para o Canadá.
Hotel ou artigo de luxo?
A partir desse ponto, a Copa de 2026 começa a revelar uma questão social delicada. Para muitos torcedores africanos e latino-americanos, apenas um ingresso de semifinal já pode equivaler a vários meses de salário.
Em alguns casos, a hospedagem em cidades norte-americanas ultrapassa facilmente a renda mensal média de trabalhadores de diversos países. O problema se agrava porque a inflação hoteleira nas cidades-sede já atingiu níveis impressionantes.
Projeções de mercado apontam diárias entre US$ 500 e US$ 900 na região de Nova York e Nova Jersey. Em Vancouver, hotéis já aparecem acima de US$ 800 por noite. Boston trabalha em faixas entre US$ 450 e US$ 700. Miami oscila entre US$ 400 e US$ 700.
Mesmo cidades consideradas “mais acessíveis”, como Dallas e Houston, já projetam hotéis entre US$ 150 e US$ 350 por diária durante o torneio. Filadélfia surge em torno de US$ 350 por noite.
Os aumentos chegam a ser absurdos.
Guadalajara apresenta inflação hoteleira próxima de 385%.
Vancouver se aproxima de 300%.
No Airbnb, há anúncios cobrando entre US$ 13 mil e US$ 17 mil por um fim de semana durante a final da Copa.
E isso tudo sem contar com alimentação, deslocamentos urbanos e voos internos.
Porque existe outro detalhe importante nesta Copa: a distância entre as sedes.
Um jogo poderá acontecer em Dallas. O seguinte em Nova York. O próximo em Vancouver ou Cidade do México.
Cada trecho aéreo interno poderá variar entre US$ 150 e US$ 400.
E os Estados Unidos não possuem uma malha ferroviária comparável à europeia para grandes deslocamentos entre sedes.
Na prática, o avião se torna quase obrigatório.
Para quem pode pagar
Quando todos esses fatores entram na conta, o choque financeiro se torna evidente.
Uma viagem econômica, de sete a dez dias, para assistir a dois ou três jogos da fase de grupos, poderá custar entre R$ 16 mil e R$ 35 mil para um brasileiro. E estamos falando de uma experiência considerada básica, com hotel econômico, poucos jogos e sem luxo.
Caso o torcedor decida acompanhar a seleção brasileira nas fases seguintes, com mudanças de cidade, mais deslocamentos, hotéis melhores e ingressos de mata-mata, o custo estimado sobe para algo entre R$ 40 mil e R$ 80 mil.
Em experiências premium, incluindo setores VIP, hospitality, hotéis centrais e final da Copa, os gastos ultrapassam facilmente R$ 120 mil.
A essa altura, o futebol praticamente deixa de ser o centro da discussão.
O que se consolida é outra coisa.
É o futebol como produto global premium.
É o torcedor tradicional substituído pelo consumidor de eventos.
É a transformação da Copa do Mundo em uma experiência voltada, cada vez mais, à classe média alta internacional.
A própria estrutura da competição ajuda a empurrar o torneio nessa direção.
São 48 seleções, 104 jogos, sedes espalhadas por três países e uma logística gigantesca.
Tudo isso favorece corporações, patrocinadores, turismo premium e hospitalidade VIP.
E dificulta justamente aquilo que durante décadas ajudou a construir a alma das Copas. Isto é, a ideia de festa popular, com a presença massiva de torcedores internacionais, caravanas multicoloridas e grandes contingentes multiétnicos nas arquibancadas.
Donni Araújo, compositor e jornalista, é colaborador do Jornal Opção.



