Falta coordenação à oposição a Bolsonaro, afirmam lideranças políticas

Embora possuam nomes fortes como Ciro Gomes e Flávio Dino, o cenário em 2022 deverá ser de forte anti esquerdismo e, portanto, é necessário sinalizar amistosidade ao mercado, afirma consultor político

Ciro Gomes e Flávio Dino participam do lançamento da pré-candidatura de Weverton Rocha ao Senado | Foto: Reprodução / YouTube

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) acumula 29 pedidos de impeachment. Os requerimentos já foram feitos por ex-aliados, como o deputado Alexandre Frota (PSDB-SP); lideranças da direita, como do Movimento Brasil Livre (MBL); e da esquerda, como a líder do PSOL na câmara, Fernanda Melchionna (RS). O presidente ganha opositores à medida que sua popularidade despenca, mas isso não significa que a contestação esteja coordenada sob a chefia de um adversário à altura. 

Segundo a pesquisa Ideia Big Data, publicada pela Revista Piauí, a avaliação positiva do governo caiu oito pontos em uma semana e presidente bateu seu recorde de desaprovação. Aqueles que avaliaram seu governo como “ruim” e “péssimo” ultrapassaram pela primeira vez o patamar dos 40, de forma que a avaliação negativa do governo superou a positiva por 13 pontos. O governo ainda mantém a linha de resistência de 28% dos que o apoiam, mas ganhou uma oposição maior e mais intensa. A margem de erro da pesquisa é de 4 pontos percentuais. 

PT se viu impedido de atacar um oponente para não beneficiar outro | Foto: Marcelo Camargo/Agência Senado

Outra pesquisa, Atlas Política, também detectou queda no apoio popular e rastreou que a razão para a má avaliação tem a ver com a pandemia do novo coronavírus, as crises envolvendo o ex-ministro Sérgio Moro, desgaste de imagem e mau desempenho da economia. Esta pesquisa revelou ainda que também há crescente rejeição a governadores que antagonizaram Bolsonaro em defesa de medidas de isolamento social para combate ao coronavírus.

Chama a atenção, entretanto, que um líder com tantos adversários esteja sendo relativamente poupado por seu principal rival. O Partido dos Trabalhadores afirmou apenas nesta sexta-feira, 15, que apresentaria seu próprio pedido de afastamento por meio de sua Comitiva Nacional. O partido, até então, evitava reforçar pedidos de impeachment por razões que deputados federais ouvidos pelo Jornal Opção especularam ter a ver com o histórico oponente de Lula (PT) e novo oponente de Bolsonaro: Sergio Moro.

Um dos deputados federais goianos alegoricamente afirmou: “[o PT] não quer colocar essa azeitona na empada do Sergio Moro.” A leitura é que, caso o ex-juiz seja candidato em 2022, poderia representar um competidor ainda mais acirrado do que o próprio presidente, já que carrega a aura de anticorrupção da operação Lava Jato e já foi responsável pela condenação de Lula.

Elias Vaz | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Esta visão, entretanto, não é hegemônica. O deputado federal Elias Vaz (PSB) afirmou que Lula não conseguiu coagular a oposição em liberdade, como se esperava que o fizesse, por outra razão. “Apoiar a liderança de Lula não é nossa posição. Temos procurado um caminho próprio. Acredito que o PT ficou devendo um mea culpa, ainda precisa reconhecer os erros cometidos. Temos afinidade com concepção política, mas questionamos a visão exclusivista e hegemônica do PT, que acha que a oposição tem de circular em torno dele. Eles não conseguem se enxergar como algo que não seja o protagonista dessa história.”

Elias Vaz conta que seu partido, juntamente com PV, PSD, PDT e Rede, têm trabalhado para formar um bloco opositor coordenado; uma nova via de centro-esquerda livre do desgaste e que não sofra o estigma do antipetismo.“Não queremos ser identificados como petistas, ou desclassificados como esquerdistas simplesmente”, diz Elias Vaz. “Achamos que o país tem mais importância que qualquer sigla. A estratégia tem que estar a serviço do brasil e não do projeto de poder de um partido”.

A aliança autodenominada “frente antipolarização” foi fechada em março deste ano, com a definição de alguns nomes para as eleições municipais de 2020, como o ex-governador de São Paulo Márcio França (PSB). Elias Vaz afirma que Ciro Gomes (PDT) tem surgido como um das principais figuras para a nova via de centro ou centro-esquerda e que este deverá disputar espaço com nomes emergentes, como Flávio Dino (PCdoB).

Flávia Moraes | Foto: Ana Paula Abrão

Flávia Moraes (PDT) corrobora a ideia de construir uma alternativa possível e prevê que o antipetismo ainda será uma tônica nos debates de 2022. “Com certeza estamos assistindo a formação de uma nova oposição, além da oposição histórica, que é formada por antigos aliados de Bolsonaro, como o DEM, atacado e insatisfeito”, diz a deputada federal. Ela afirma que nomes para 2022 ainda não estão sendo discutidos, pois o cenário deve mudar após as eleições municipais.

O deputado federal Rubens Otoni (PT), por outro lado, negou a noção de que o PT se enxergaria apenas como protagonista hegemônico da oposição e afirmou: “Nosso objetivo maior é garantir uma coordenação colegiada onde todos os partidos de esquerda com suas lideranças possam expressar seu pensamento. Estamos dialogando e tirando uma pauta comum com PCdoB, PDT, PSB, PSol, Rede. Temos trabalhado de maneira unificada na Câmara e no Senado.”

Rubens Otoni | Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

O professor e consultor político Marcos Marinho analisa o cenário atual da oposição. Em sua opinião, Lula não consegue liderar a oposição pois está desmoralizado, já que é inelegível, responde processos, e não conseguiu formar um sucessor natural dentro do PT. O analista político diz: “O próprio Lula me parece ter dificuldade de sair de seu processo de catarse pessoal. Está acompanhando à distância, mas não aceita ser coadjuvante e fortalecer alguma linha ideológica que não seja sua própria”.

Sobre quem tem um bom desempenho na esquerda, Marcos Marinho responde: “PDT e PSB tentam costurar alguma coisa nova. O PSOL permanece na militância e ativismo, que tem seu importante valor – são eles que atuam no cotidiano prático da Câmara, muito mais do que o PT, para barrar e desidratar projetos com que discordam, ou para coordenar suas propostas efetivamente. Entretanto, é muito difícil que consigam consolidar um nome em nível presidencial”.

Professor e analista político Marcos Marinho | Foto: Jornal Opção

A viabilidade de Ciro Gomes também é vista de forma cética pelo consultor político. Segundo ele, o ex governador do Ceará perde muita energia atacando o PT em uma tentativa de disputar apoiadores órfãos do centro. “Ciro tem capacidade de reflexão, é preparado e faz questionamentos importantes, mas tem dificuldade de flexibilizar sua posição, atenuar críticas, abrir mão”. Para entender a importância de se fazer concessões, segundo Marcos Marinho, basta lembrar que Lula só conseguiu emplacar sua figura no centro em 2002, quando se associou a José de Alencar, que desfrutava de boa imagem no mercado. 

Por esta razão, Marcos Marinho afirma considerar Flávio Dino um player importante: “Ele tem perspectivas bastante sensatas e ponderadas. Ele não é um populista, não joga para a plateia o tempo todo e tem trabalhado muito na chave da articulação. Todas as falas no contexto federal vêm no intuito de composição. Ele não teria problema em compor com outros grupos para frear o avanço da extrema direita.”

Isoladamente, um representante do  do Partido Comunista do Brasil terá muitas dificuldades de se consagrar em 2022, quando ainda veremos forte a pauta antiesquerda, diz Marcos Marinho. “Mas caso ele consiga compor com muitos líderes diferentes, aí o cenário muda de figura”, conclui.

Flávio Dino (PC do B) | Foto: Reprodução / Gov. do Maranhão

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