Estudos conectam agrotóxicos a casos de câncer

O Instituto Nacional do Câncer diz que uso de agrotóxicos pode causar câncer e médico denuncia que Brasil se tornou uma lixeira química mundial

 Foto: Reprodução

O uso intenso de agrotóxicos nas plantações brasileiras ainda não tem relação direta com o desenvolvimento de câncer na população. Os estudos realizados com os pesticidas disponíveis no mercado e a sua influência nos casos de doenças cancerígenas levantaram suspeitos, mas não há nada conclusivo até o momento. Entretanto, o Relatório Nacional de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, publicado pelo Ministério da Saúde em setembro deste ano, sugere que a exposição de produtores agrícolas aos pesticidas utilizados aumenta o desenvolvimento de diversos tipos de câncer e outras doenças relacionadas a malformações gestacionais e distúrbios hormonais. O relatório revela uma média de 25 trabalhadores rurais intoxicados por agrotóxicos todos os dias — média de 84,2 mil pessoas entre 2007 e 2015.

O engenheiro agrônomo Paulo Marçal, professor-doutor da Universidade Federal de Goiás, afirma que a maioria dos casos de intoxicações por agrotóxicos não é notificada. “Em média, a cada notificação oficial de intoxicação, cinquenta deixam de ser notificadas.”

O engenheiro agrônomo Nilson Jaime, doutor em agronomia pela Universidade Federal de Goiás, explica que os pesticidas mais prejudiciais à saúde humana surgiram após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Até então, os defensivos agrícolas eram naturais. O problema está nos inseticidas à base de cloro que matam indiscriminadamente as pestes das plantações, ou seja, a peste e o seu predador natural, explica Nilson Jaime.

Mais tarde surgiram os pesticidas sintetizados da planta crisântemo e os piretroides. Nos últimos 10 anos, o debate se acirrou entre ambientalistas contrários e grandes produtores favoráveis aos pesticidas mais fortes. “Esses inseticidas matam qualquer organismo. É mais prático para o produtor usar tal tipo de produto, mas ele gera um efeito cascata explosivo que desequilibra toda a microfauna em torno da plantação”, postula Nilson Jaime.

Autor de uma tese de doutorado sobre formigas, Nilson Jaime conta que uma corrente da Agronomia prefere usar agrotóxicos que matam a praga, mas preserva o ofensivo natural, como o inseto conhecido como joaninha que come o pulgão. Para o especialista, esses inseticidas são menos prejudiciais aos humanos. “Os pesticidas mercuriais causam problemas neurológicos comprovados por pesquisas. Os produtos à base de cloro são cumulativos na cadeia de forma geral, ou seja, contaminam a microfauna, que depois intoxica o peixe em um rio e posteriormente o homem que come o peixe.”

O cirurgião-pediatra Zacarias Calil explica que o princípio ativo dos agrotóxicos atua na célula do organismo humano alterando os hormônios naturais e o corpo começa a repeli-lo, o que acaba no desenvolvimento de cânceres e má formações genéticas. Zacarias Calil operou dezenas de gêmeos siameses em Goiânia e em outros países. O especialista frisa que, apesar de não conseguir comprovar cientificamente, o médico sublinha que existem indícios da influência dos pesticidas nas diversas más formações neurológicas, de membros superiores e inferiores, genitais de gêmeos siameses. O médico aponta a origem dos siameses operados por ele como um indício. “Os gêmeos siameses que operei vieram de zonas rurais onde os pais mantinham contato com agrotóxicos sem nenhuma proteção. A maneira como é utilizado indiscriminadamente tem relação direta com o câncer de mama.”

Recém-eleito deputado federal pelo DEM em Goiás, Zacarias Calil quer atuar na alteração da Lei dos Agrotóxicos que teve o parecer do relator Luis Nishimori (PR-PR) aprovado em junho deste ano na Comissão dos Agrotóxicos. A mudança pretende flexibilizar o uso dos pesticidas no Brasil alterando regras do Ministério do Meio Ambiente e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O cirurgião pediatra e deputado federal Zacarias Calil diz que atuará como médico nos debates sobre agrotóxicos no Congresso Nacional, sem tomar partido de ambientalistas, ativistas ou produtores | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

“Os produtos banidos em outros países estão sendo utilizados no Brasil em larga escala, fora os produtos contrabandeados sem embalagens que ninguém sabe onde são descartadas. Eu defendo a legalidade dos produtos no país, desde que devidamente regulamentados”, frisa Zacarias Calil. O cirurgião pediatra informa que atuará como médico sem tomar partido de ambientalistas, ativistas ou produtores. “Como médico e cientista, o assunto me interessa e eu não poderia deixar de participar do debate.”

Em geral, não há comprovação científica de que os produtos liberados no Brasil causam algum tipo de câncer ou outras doenças.  “Todo produto tem uma meia vida e acaba em certos dias e a dosagem reduz pela metade. Eles têm um período de carência que vai de 1 a 120 dias. Os produtos de menor carência — de 1 a 14 dias — não prejudicam a saúde”, destaca o agrônomo Nilson Jaime. “O consumidor pode comprar um tomate mais verde e deixar amadurecer entre quatro e cinco dias. Nesse prazo ele vai cumprir o período de carência e o agrotóxico deixa de ser nocivo a saúde”, orienta o especialista.

Anvisa e contaminação

Um estudo da Anvisa de 2016 revela que um terço dos alimentos que vão para a mesa dos brasileiros está contaminado por agrotóxicos. De acordo com a agência, o setor cresceu 190% entre 1996 e 2016. Em 2015, o Instituto Nacional do Câncer divulgou um documento “contra as atuais práticas de uso de agrotóxicos no Brasil e ressalta seus riscos à saúde, em especial nas causas do câncer”. O Inca defendeu “iniciativas de regulação e controle destas substâncias, além de incentivos a alternativas agroecológicas”. Na avaliação do instituto, “o modelo de cultivo com o intensivo uso de agrotóxicos gera grandes malefícios, como poluição ambiental e intoxicação de trabalhadores e da população em geral”. O médico Zacarias Calil cita o estudo do Inca ao afirmar que o país se tornou o lixo mundial de agrotóxicos. “Somos hoje uma grande lixeira química, para onde são direcionados produtos perigosos que outros países conseguiram banir.”

Os agrotóxicos possuem quatro classes: vermelho, amarelo, azul e verde. A tarja vermelha significa que o produto é o mais tóxico possível e a verde que ele é praticamente orgânico e de curta vida no meio ambiente. “Todos os produtos em geral são venenos, embora existam os produtos biológicos que matam o inseto e não agridem o ser humano. Grande parte dos produtores já percebeu que usar agrotóxicos que matam tudo é prejuízo. É preciso manter o equilibro biológico”, expõe Nilson Jaime.

“No caso do glifosato, a legislação permite resíduo 5 mil vez maior do que o tolerado na Europa”

Um estudo da Anvisa de 2012 colocou o Brasil no posto de maior consumidor de agrotóxicos em todo mundo, em 2008. O mercado mundial de agrotóxicos movimentou cerca de US$ 52 bilhões em 2010 e no Brasil movimentou US$ 7,3 bilhões.

Os herbicidas têm sido os mais comercializados (45% do total, sendo 29% representado por um único produto, o glifosato) e os que tiveram maior aumento percentual de importações. “No caso do glifosato, o agrotóxico mais vendido no Brasil, a legislação nacional permite um resíduo cinco mil vezes maior do que o tolerado no bloco europeu”, denuncia o médico Zacarias Calil.

O estudo da agência informa que a população trabalhadora representa 18% das pessoas ocupadas com agricultura em 2008 e 77% das pessoas ocupadas estão na agricultura familiar. Na agricultura familiar da Serra Gaúcha, por exemplo, 95% das propriedades usam agrotóxicos e 75% dos trabalhadores rurais costumam trabalhar com agrotóxicos.

Dos 1.479 agricultores entrevistados pela agência em 2012 e que foram expostos aos agrotóxicos 2% relataram intoxicação em um ano e 12% alguma vez na vida. Os pesquisadores separaram 290 agricultores expostos constantemente aos pesticidas e 3,8% relataram casos de intoxicações em um ano e 19% em algum momento da vida. Os efeitos crônicos relatados foram neurotoxicidade, desequilíbrio endócrino, hepatoxidade, problemas respiratórios, saúde mental, sistema reprodutivo, dermatoses, câncer, imunotoxicidade e danos genéticos.

A empresa suíça produtora de agrotóxicos Syngenta ocupa o primeiro lugar de vendas no Brasil ao faturar 1,5 bilhão de dólares em 2010. A Bayer e a Basf, ambas alemãs, ocupam respectivamente o segundo e terceiro lugar com vendas em 1,1 bilhão de dólares 916 milhões de dólares, também respectivamente.

Outro relatório da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) em conjunto com o Ministério da Saúde aponta que o faturamento dos agrotóxicos no Brasil em 2014 foi de 12 bilhões de dólares.

A venda de herbicidas cresceu 33% entre 2000 e 2010, os inseticidas crescerem 32% e os fungicidas 29%, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Agrícola (Sindag).

O agrônomo Paulo Marçal diz que muitos produtores em Goiás são influenciados por representantes comerciais de industriais e usam os produtos sem orientação profissional. “Esses produtores usam pesticidas em quantidades desnecessárias, de forma errada e pelo tempo errado. Esse é o grande problema em todos os Estados.”

O professor de Agronomia da Universidade Federal de Goiás, Paulo Marçal, ressalta o uso excessivo de pesticidas prejudica a qualidade dos frutos | Foto: Reprodução

Paulo Marçal explica que a imposição comercial pode acabar prejudicando a qualidade dos frutos se o produto for usado incorretamente. “Já vi agricultores aplicarem inseticidas preventivamente para evitar insetos que nunca causaram prejuízo econômico àquele tipo de plantação. Os produtores têm a sensação de quanto mais agrotóxicos usarem, mais frutos eles vão colher. O produto por si só não é um problema.”

A participação da venda de agrotóxicos por Estado no Brasil traz o Mato Grosso como líder do ranking com 20%. Depois vem São Paulo (15%) e Paraná (12%). Goiás está em quinto lugar com 13,3% de participação nacional. O faturamento líquido do mercado de agrotóxicos em 2010 foi de 7 bilhões de dólares. O crescimento do número de aviões para uso agrícola cresceu mais de 100% entre 1999 e 2010 — 684 contra 1.350, respectivamente.

O professor-doutor Paulo Marçal trabalha com produtos orgânicos há 20 anos — no cultivo de cana de açúcar em várias cidades do interior de Goiás. “A gente consegue produzir tão bem quanto aos produtos cultivados com agrotóxico. Por isso entendemos que existe muito interesse econômico por trás do uso desenfreado.” O agrônomo diz que acompanha 30 mil hectares de cana de açúcar cultivados de forma orgânica em Goianésia e também produz tomate e morango orgânicos em Goiás.

Nilson Jaime afirma que a flexibilização na Lei dos Agrotóxicos pode ser benéfica ao consumidor. “Atualmente custa cerca de 10 milhões de dólares para registrar uma molécula que gera o agrotóxico. Pelo alto valor, apenas as grandes culturas de soja, café e cana acabam pagando os registros. Existem poucos defensivos agrícolas para pequenas culturas, como hortaliças em geral, e o pequeno produtor responde por 80% do consumo nacional. Os grandes produtores produzem commodities para exportação.”

O ex-professor da UFG Nilson Jaime explica que os engenheiros agrônomos não podem receitar um pesticida para a vagem, por exemplo, que é liberado para a soja, apesar de serem da mesma família. “A mudança na lei vai facilitar o registro dos produtos. Primeiro faz o teste inicial, consegue uma autorização provisória (1 a 2 anos) e depois a definitiva. Como o teste é muito caro, apenas os produtos de exportação têm condições de pagar. A flexibilização não vai inundar o mercado de agrotóxicos.”

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Nilson Jaime

Caro jornalista Rafael Oliveira: faltou dizer que os defensivos agrícolas mercuriais, clorados e arseniacais foram proibidos para uso agrícola, comprovada sua periculosidade à saúde humana e ao meio ambente. Nos dias de hoje sao utilizadas outras moleculas como defensivos agricolas, essas sim, algumas mais seletivas, outras pouco seletivas. Outra coisa: os inseticidas da classe verde não quer dizer que são orgânicos. Significa que são “praticamente atóxicos”, usando um termo da legislação brasileira. Orgânicos são os alimentos que não usam agrotóxicos e fertilizantes, ou qualquer insumo de origem química para sua produção.

Nilson Jaime

Mais uma ressalva, caro jornalista Rafael Oliveira. Se for obedecido o período de carência, o agrotóxico perderá a sua letalidade, ou sua capacidade de matar, pela degradação da molécula. Entretanto o produto, mesmo em doses menores, continuará a ter potencial de causar eventuais danos à saúde humana.