Embaixador de Israel garante que vai resolver o problema da água no Brasil

Em entrevista ao Jornal Opção, Yossi Shelley diz inaugurar uma nova era na relação diplomática entre os dois países

Empresário com 25 anos de carreira, embaixador Yossi Shelley diz que “sabe como fazer negócio”

Em 29 de novembro de 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou o Plano de Partilha da Palestina em sessão presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha. Apesar do papel decisivo do Brasil na criação do Estado de Israel, a relação entre os dois países vinha sendo abalada durante os governos Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Além do reconhecimento da Palestina em 2010, Israel chamou o Brasil de “anão diplomático” em 2014 e, mais recentemente, um impasse envolvendo a nomeação de Dani Dayan para exercer o cargo de embaixador em Brasília deixou a cadeira vaga por 14 meses. Já sob a presidência de Michel Temer, Israel pôde, finalmente, ter seu representante diplomático de mais alto nível em terras brasileiras. O empresário Yossi Shelley, de 59 anos, chegou ao Brasil em abril com a vontade de estreitar laços econômicos.

Em Goiás para uma série de compromissos, dentre os quais viabilizar a cooperação entre Aparecida de Goiânia e Berseba para que se tornem cidades-irmãs, o embaixador concedeu uma palestra na aula magna da Escola de Direito e Relações Internacio­nais da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), abordando os aspectos históricos, econômicos e religiosos de Israel e chamando a atenção para o protagonismo do país na agricultura e em inovações tecnológicas.

Com exclusividade, ele conta ao Jornal Opção que pretende deixar para trás imbróglios do passado. “A vida segue como um trem que vai passando pelas estações. Agora, é uma nova era com um novo embaixador e uma nova agenda”, enfatiza. É dessa maneira que Shelley visa importar a tecnologia israelense de dessalinização da água. Segundo ele, a sua missão é clara: resolver o problema da água no Brasil – já esteve no Ceará, no início de agosto, com o objetivo de estabelecer parcerias na área de recursos hídricos. “Vou limpar os sapatos do governador que implementar o primeiro centro de dessalinização”, brinca.

Uma pergunta que não calar: o conflito entre Israel e Palestina tem solução?
A solução é única: os palestinos têm de sentar conosco para dialogar. Venham, sentem e falem, da mesma maneira que ocorreu com o Egito e a Jordânia. No caso do Egito, fizemos concessões, como a Península do Sinai. Nós queremos dialogar.

A solução de dois Estados é possível?
Acho que tudo é possível. Nunca dizemos que não queremos os palestinos. Precisamos de um parceiro para termos a paz e é dialogando que iremos atingi-la. O problema é que as lideranças palestinas brigam entre si e não conseguem decidir quem irá dialogar conosco.

O Brasil teve um papel fundamental na criação do Estado de Israel com o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha presidindo a sessão da Assembleia Geral da ONU em 1947. O Brasil pode ser decisivo também na solução do conflito?
O Brasil desempenha seu papel nas votações, mas não sei se pode ir além. Brasil e Israel estão muito distantes e há poucos brasileiros vivendo lá. Ninguém deve interferir e tomar decisões. Os únicos que podem ajudar são os próprios israelenses e palestinos. Pode até demorar, mas se sentarmos para dialogar, encontraremos uma alternativa.

Nos governos Lula e Dilma, o Brasil votou pró-Palestina na ONU. O atual ministro de relações exteriores do Brasil, Aloysio Nunes, disse ao correspondente do Jornal Opção em Israel, Herbert Moraes, que, com Temer, o Brasil vai voltar a ter uma posição pró-Israel. Entretanto, essa mudança ainda não se concretizou. Qual é a sua expectativa em relação a isso?
O que aconteceu no passado não me importa. A vida segue como um trem que vai passando pelas estações. Se o governo fala em mudar o voto, para nós já é suficiente porque não é algo que acontece de maneira rápida. Não é como abrir uma empresa em Israel, que leva 24 horas.

Como o sr. analisa o impasse envolvendo a nomeação de Dani Dayan para embaixador de Israel no Brasil?
Está no passado. Agora é um novo jogo e eu tenho boas relações com o governo brasileiro. Minha missão é a de resolver o problema da água no Brasil. Vou limpar os sapatos do governador que implementar o primeiro centro de dessalinização e vou chamar toda a imprensa para ver.

A nomeação de Dani Dayan foi recusada por ele ter sido líder dos colonos em Israel. O sr. é a favor ou contra os assentamentos?
Essa é uma questão política que considero irrelevante neste momento. Por isso, não tenho comentários a fazer. Depois que os palestinos se sentarem para dialogar conosco você pode me fazer quantas perguntas quiser sobre esse assunto. Agora, vamos falar de economia.

Marcelo Gomes, Diretor Administrativo do Instituto Americano de Desenvolvimento e Relações Internacionais (Iaderi) — O sr. acredita que o mal-estar diplomático entre Brasil e Israel passou?
Sem dúvidas. É uma nova era com um novo embaixador e uma nova agenda. Não vou interferir em como o governo vota ou deixa de votar. O Brasil tem soberania e vota como quiser, mas isso não muda nada na vida dos brasileiros. Para mim, o mais importante é a economia. Se ela vai bem, as pessoas ficam felizes.

O sr. é um empresário e esse é o seu primeiro cargo diplomático. Como a sua visão empreendedora pode contribuir para as relações Brasil-Israel?
Ser empresário é uma grande vantagem porque o cargo não diz respeito somente a relações diplomáticas. É também uma questão comercial. Na verdade, a vida é um negócio e a minha vantagem é que eu sei como fazer. Afinal, já são 25 anos como empresário. Sem querer desmerecer, mas diplomáticos geralmente não têm experiência com isso. Se você falar comigo sobre uma startup, por exemplo, eu consigo te dizer imediatamente se ela tem potencial ou não.

Enquanto Israel vende tecnologia de ponta, o Brasil exporta carne e demais produtos primários. O que fazer para equilibrar a balança comercial entre os dois países?
Priorizamos a exportação de tecnologia e fertilização e compramos carne, soja, café e açúcar, mas estamos trabalhando para equilibrar. Existem mais de 100 empresas no Brasil e em Israel, como o café 3 corações, que trabalham juntas. Essas trocas têm aumentado cada vez mais.

Aparecida de Goiânia irá se tornar cidade-irmã de Berseba. Quais são os benefícios que essa parceria pode trazer?
Os benefícios serão, principalmente, nas áreas de cultura, esporte, tecnologia e educação por meio de trocas entre as duas cidades. A cooperação entre cidades-irmãs facilita esse tipo de troca. Contudo, o processo não é tão rápido assim. Os prefeitos ainda vão se encontrar. Estamos no início, mas já demos o primeiro passo.

Por fim, uma pergunta acerca da geopolítica do Oriente Médio: o Irã está disposto a ajudar na reconstrução da Síria após o término da guerra. Há alguma preocupação por parte do governo de Israel em ter os iranianos mais próximos de suas fronteiras?
Todo mundo sabe que o Irã quer destruir Israel. Mas eu vou te dizer uma coisa: nada vai ser do jeito que eles querem.

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