Em desespero, Lula pede socorro a FHC

Ex-presidente sente que a possibilidade de impeachment de sua pupila é cada vez mais real e busca conversar com o adversário tucano

Lula da Silva e Fernando Henrique: o petista quer ajuda  do tucano para diminuir a pressão contra Dilma

Lula da Silva e Fernando Henrique: o petista quer ajuda do tucano para diminuir a pressão contra Dilma

Cezar Santos

Em meio a condenação de empreiteiros, delações premiadas, aumento de desemprego, alta de inflação e mais coisas ruins na economia, uma reportagem da “Folha de S.Paulo” surpreendeu a política brasileira na semana passada: Lula quer se encontrar com Fernando Henrique Cardoso.

A aproximação com o adversário tantas vezes anatematizado, classificado pelos petistas em geral e por Lula em especial como “entreguista”, “elitista” e coisas piores, é uma tentativa de conter a pressão da oposição por um impeachment da presidente Dilma Rousseff. Lula quer conversar com FHC para tratar do assunto e tentar uma trégua, pelo menos com o PSDB. A “Folha de S.Paulo” publicou a reportagem na quinta-feira, 23, informando que Lula procurou interlocutores comuns a ele e ao tucano para tentar marcar um encontro.

Segundo o jornal, há cerca de duas semanas, amigos de Lula discutiram separadamente com ele e Fernando Henrique a possibilidade de um encontro dos dois. Os contatos ocorreram às vésperas de o tucano viajar de férias para a Europa. Lula teria dito a aliados que a conversa poderia ser por telefone e antes de FHC viajar. O tucano preferiu deixar a definição de um eventual encontro para ser discutida depois que ele voltar ao Brasil.

Lula discutiu o assunto com aliados e disse preferir uma conversa discreta com o adversário. O petista tem procurado evitar que seus movimentos ampliem a radicalização do ambiente político. Não é de hoje que o ex-metalúrgico vem ensaiando uma aproximação com os adversários. Em maio, ele encontrou o senador José Serra (PSDB-SP) numa e disse que gostaria de marcar uma conversa reservada.

O petista se sente constrangido em fazer o movimento de aproximação com FHC, mas sabe que na crise moral que o governo de sua pupila Dilma atravessa, só a interlocução com políticos que têm reconhecimento ético comprovado pode aliviar a situação. Lula manteve somente os aliados mais próximos informados sobre sua intenção, e só avisou que procuraria Fernando Henrique na véspera de autorizar os contatos com o antecessor.

Resposta de Fernando Henrique à “Folha”, por e-mail: “O presidente Lula tem meus telefones e não precisa de intermediários. Se desejar discutir objetivamente temas como a reforma política, sabe que estou disposto a contribuir democraticamente. Basta haver uma agenda clara e de conhecimento público”.

O objetivo de Lula é buscar um conciliador na oposição para tentar amenizar, pelo menos dentro do PSDB, forças que atuam pelo impeachment de Dilma. A crise do governo da petista aprofundou-se nas últimas semanas, com novas revelações de escândalos de corrupção na Petrobras, a crise econômica e a rebeldia dos aliados do PT no Congresso, onde o governo está refém dos peemedebistas Renan Calheiros e Eduardo Cunha, respectivamente presidentes do Senador e da Câmara dos Deputados.

O mais interessante é que a assessoria de imprensa do Instituto Lula afirmou que o petista não tem interesse em conversar com FHC. O que é desmentido na sequência, quando o próprio Palácio do Planalto, na pessoa do ministro Edinho Silva, chefe da secretaria de Comunicação Social, diz que vê com bons olhos a possibilidade de diálogo entre Fernando Henrique e Lula. E mais, Edinho Silva quer que até mesmo Dilma converse com FHC.

Também o ministro da Defesa, Jacques Wagner, considerou que uma aproximação entre Lula e Fernando Henrique será positiva: “O encontro entre os dois presidentes teria uma agenda muito superiores a essa (impeachment), que é conjuntural, sobre a briga da oposição com o governo”.

Tucanos, no entanto, desconfiam da súbita humildade de Lula. “Eles (Lula e FHC) não falam a mesma língua. Uma hora correm para o Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e outra para o factoide da agenda nacional”, disse o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP).

O professor FHC é referencial maior como político ético para o ex-metalúrgico

Mais que o fato puramente político nessa tentativa de Lula em se aproximar de Fernando Henrique Cardoso, há um fator psicológico a considerar. Lula tem uma inveja ciclópica de Fernando Henrique. É um complexo de inferioridade motivado pela diferença cultural entre eles. O ex-metalúrgico já demonstrou isso algumas vezes, por exemplo, quando recebia títulos honoríficos de universidades e fazia alguma referência torta a FHC, do tipo “não precisei estudar tanto para ser reconhecido no exterior”.

Ademais, quem tem conhecimento da história recente do Brasil, principalmente no que se refere à política, sabe que FHC foi um dos responsáveis pelo surgimento, ou, pelo menos, da afirmação de Lula como líder nacional. No seu íntimo, Lula sabe disso. E tem no tucano seu referencial maior como político ético. Ao olhar FHC, o ex-metalúrgico deve achar estranhíssimo o fato de o tucano ter sido presidente duas vezes e continuar com o mesmo patrimônio.

E não se está dizendo aqui que não houve corrupção nas gestões de FHC. Claro que houve, mas ele próprio não se beneficiou disso, nem seus familiares. Uma diferença imensa em relação a Lula da Silva.

Professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), o cientista político Wilson Ferreira da Cunha não tem dúvida de que Fernando Henrique Cardoso é um referencial para Luiz Inácio Lula da Silva. “Lula sabe que Fernando Henrique é estadista, o homem que iniciou o Brasil moderno com o Plano Real. FHC é uma referência para Lula, e mais, para a política moderna brasileira.”

O cientista político lembra que FHC tem uma vida acadêmica consistente, e, nesse meio, muito ajudou Lula a emergir. “Fernando Henrique, como professor universitário, apoiou a afirmação de Lula. Até nós, professores universitários goianos, ajudamos. Lembro que na Universidade Cató-lica de Goiás, em 1978, fizemos uma campanha e convidamos Lula, que veio a Goiânia.”

Credibilidade

Para Wilson da Cunha, esse pedido de socorro, portanto, dá mais credibilidade a Fernando Henrique e coloca Lula no seu devido lugar: “Um medíocre, oportunista que chegou ao governo por falhas da própria oposição”.

O professor da PUC diz que a tentativa de aproximação com a oposição mostra o desespero do governo federal e do próprio PT, que temem vir à tona agora a incompetência e corrupção, que foram a marca dos governos Lula e Dilma. “Isso está bem claro e vai ficar na história para ser analisado no futuro.”

Quem também fala no desespero dos petistas é o igualmente cientista político e professor universitário Itami Campos. “É desespero de Lula e dos petistas, que tentam buscar ajuda no PSDB, que sempre foi tido como inimigos. FHC tem sido ponderado e dado sinais de que não apoia radicalização no movimento que quer tirar Dilma Rousseff do Palácio do Planalto. Esse posicionamento de FHC animou Lula e o governo a buscar o apoio dele neste momento tão difícil para o governo.”

Itami lembra que foi aluno da Universidade de São Paulo (USP) na época que FHC foi candidato a suplente de senador [em 1978, Fernando Henrique iniciou sua carreira política, elegendo-se suplente de Franco Montoro no Senado; após a eleição de Montoro para o governo de São Paulo, FHC assumiu a titularidade no senado em março de 1983]. Ele conta que a universidade praticamente em peso se mobilizou para a eleição de Fernando Henrique, num momento em que a esquerda não tinha expressão política e eleitoral, e ele era o nome da esquerda.

“Fernando Henrique era a referência seja na área de sociologia, seja na área de ciências humanas. Certamente Lula o tinha como referência e no período eles tiveram certa aproximação. Lula era assessorado por professores da USP, que o ajudavam nas greves no ABC paulista, por exemplo”, conta Itami Campos.

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