As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros colocaram duas cidades goianas em uma posição de destaque pouco desejada. Goiatuba e Goianésia aparecem entre os 100 municípios brasileiros mais afetados pelo chamado “tarifaço”, segundo levantamento do Estadão elaborado com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), por meio da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), e da Amcham Brasil.

As duas cidades figuram na lista devido à forte dependência das exportações de açúcar orgânico para o mercado norte-americano. O novo pacote tarifário, que entrou em vigor no último dia 22 de julho, aplica uma sobretaxa de 25% sobre diversos produtos brasileiros e prevê tarifas adicionais que podem chegar a 12,5% para produtos enquadrados sob alegações relacionadas a trabalho forçado.

Embora os valores das exportações atingidas por Goiatuba e Goianésia não tenham sido divulgados individualmente, ambas foram incluídas entre os municípios brasileiros com maior exposição às novas barreiras comerciais. Enquanto grandes centros industriais como Piracicaba (SP), São Paulo (SP), Joinville (SC) e Serra (ES) lideram o ranking nacional em valores absolutos, as duas cidades goianas chamam atenção pela elevada dependência de um único segmento produtivo.

Em Goiatuba, município de aproximadamente 37 mil habitantes, a cadeia sucroenergética é o principal motor da economia. O PIB municipal gira em torno de R$ 2,7 bilhões, sendo que cerca de um terço do valor adicionado provém da agropecuária, impulsionada, principalmente, pela produção de cana.

A Usina Goiasa é considerada o maior empregador da região, com cerca de 3 mil trabalhadores diretos. Além da produção de etanol e bioenergia, a empresa consolidou-se como uma das principais exportadoras brasileiras de açúcar orgânico, abastecendo mercados da Europa, Ásia e Estados Unidos. Outra importante empresa instalada no município é a Bom Sucesso Agroindústria (BSA Bioenergia), também voltada à produção de açúcar e etanol.

Já Goianésia, com aproximadamente 74 mil habitantes, possui uma estrutura produtiva ainda mais diversificada dentro do setor sucroenergético. O município abriga três grandes unidades industriais: a matriz da Jalles Machado, a Unidade Otávio Lage (Codora) e a Usina Goianésia S.A.

Além do açúcar e do etanol, essas empresas produzem bioeletricidade e sustentam parte significativa da economia local, que também conta com o Distrito Agroindustrial de Goianésia (Daigo). Embora outros segmentos industriais estejam presentes, especialistas apontam que o complexo sucroenergético continua sendo o principal responsável pela geração de emprego, renda e arrecadação municipal.

No mesmo dia em que as novas tarifas passaram a valer, o Governo Federal anunciou o programa Brasil Soberano 3, voltado às empresas exportadoras afetadas. O pacote soma R$ 18,5 bilhões, sendo R$ 13,5 bilhões provenientes do Tesouro Nacional, e R$ 5 bilhões disponibilizados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

As linhas de crédito deverão financiar capital de giro, ampliação da produção, inovação tecnológica, adaptação de produtos e abertura de novos mercados internacionais. As taxas de juros variam conforme o setor e o porte da empresa, ficando entre aproximadamente 3% e 9,8% ao ano, abaixo das condições normalmente praticadas pelo mercado.

O programa não é exclusivo para o setor sucroenergético e contempla também empresas dos segmentos automotivo, farmacêutico, eletroeletrônico, fertilizantes, máquinas e têxtil. As usinas poderão optar por redirecionar parte da produção para outros mercados ou converter parte do açúcar orgânico em açúcar convencional ou etanol, dependendo das condições comerciais.

Caso isso não seja suficiente, existe possibilidade de redução temporária da produção, adiamento de investimentos e diminuição da contratação de trabalhadores sazonais. Além dos empregos diretos, toda a cadeia econômica poderá ser afetada, incluindo fornecedores de fertilizantes, transporte, manutenção industrial, prestadores de serviço e comércio local.

Também existe preocupação com reflexos sobre a arrecadação dos municípios, uma vez que a atividade industrial representa parcela importante da geração de tributos. Ainda não há estimativas oficiais sobre eventuais perdas fiscais.

Imagem gerada por inteligência artificial
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Açúcar orgânico explica inclusão das cidades

O principal fator que levou Goiatuba e Goianésia ao ranking é o peso do açúcar orgânico destinado aos Estados Unidos. Segundo o levantamento, os EUA figuram entre os principais destinos do açúcar orgânico produzido nas duas cidades. Diferentemente de outros municípios goianos com forte produção agrícola – como Rio Verde, Itumbiara e Quirinópolis – Goiatuba e Goianésia possuem maior concentração de exportações justamente no segmento agora atingido pelas tarifas.

Essa dependência faz com que o impacto relativo seja mais elevado, ainda que outros municípios tenham economias maiores. Uma nota técnica divulgada pela Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) reforça que, apesar do novo pacote tarifário dos Estados Unidos, o impacto agregado sobre a economia goiana tende a ser menor que o observado em outros estados.

Segundo a entidade, isso ocorre porque diversos produtos relevantes da pauta exportadora de Goiás, como carnes, soja, café, minérios e medicamentos, ficaram fora da lista de sobretaxas anunciada por Washington. Ainda de acordo com a Fieg, a principal consequência para Goiás deverá ser uma desaceleração do crescimento das exportações para os Estados Unidos, e não uma queda abrupta das vendas externas.

A entidade estima que o Estado continue exportando aproximadamente US$ 80 milhões por mês ao mercado norte-americano. No cenário nacional, a federação projeta redução entre 10% e 15% das exportações brasileiras atingidas pelas novas barreiras, o equivalente a cerca de US$ 360 milhões mensais ou US$ 4,3 bilhões ao ano, caso as tarifas permaneçam em vigor.

Se o impacto geral em Goiás tende a ser moderado, Goiatuba e Goianésia aparecem entre as cidades mais afetadas pela elevada concentração das exportações de açúcar orgânico para os EUA nessas duas economias locais, enquanto a pauta exportadora do restante do Estado é mais diversificada e, em grande parte, foi contemplada pelas exceções previstas nas tarifas.

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De acordo com André Rocha, presidente do Sindicato da Indústria de Fabricação de Etanol do Estado de Goiás (Sifaeg), Goiatuba e Goianésia concentram três das quatro usinas produtoras de açúcar orgânico do Brasil. Ele alerta para perda de competitividade, risco de redução das exportações e possíveis impactos sobre emprego e renda nas cidades.

Em entrevista ao Jornal Opção, Rocha explicou que as duas cidades aparecem entre as 100 mais afetadas pela nova política tarifária norte-americana porque abrigam as principais produtoras nacionais de açúcar orgânico, duas pertencentes ao Grupo Jalles, em Goianésia, e uma em Goiatuba.

Goiás é o maior produtor mundial de açúcar orgânico. Das cerca de 370 usinas existentes no Brasil, apenas quatro produzem açúcar orgânico, e três delas estão em nosso Estado. Por isso esses municípios são tão impactados, afirmou.

Segundo ele, além do açúcar orgânico, também são afetados produtos como vermiculita e parte do setor de máquinas e equipamentos, caso da unidade da John Deere em Catalão.

Para esses segmentos, entidades empresariais e o governo brasileiro tentam ampliar a lista de produtos isentos das novas tarifas por meio de negociações diplomáticas. Rocha destacou que o açúcar orgânico representa um mercado altamente especializado. Mais de 90% da produção brasileira é destinada ao exterior, sendo os Estados Unidos o principal comprador.

“O açúcar orgânico é um produto de nicho, de alto valor agregado. O maior mercado é o americano e não é simples conquistar novos compradores. Você não muda de mercado da noite para o dia.” O dirigente explicou que a alternativa europeia também apresenta obstáculos.

Segundo ele, a União Europeia cobra tarifa de 419 euros por tonelada do açúcar brasileiro, enquanto a Colômbia exporta para o bloco sem pagar esse imposto em razão de um acordo comercial. “Na prática, a Colômbia domina esse mercado. O Brasil só consegue vender aquilo que eles não conseguem fornecer.”

De acordo com o presidente do Sifaeg, os problemas começaram antes mesmo da nova sobretaxa anunciada pelos Estados Unidos. Até o início de 2025, o açúcar orgânico brasileiro entrava no mercado americano sem tributação. Depois, passou a pagar tarifa de 38%, posteriormente elevada para 48% e, em seguida, acrescida de novas sobretaxas.

“Hoje nós estamos falando de uma carga tributária de aproximadamente 75,5% sobre o produto. Isso encarece o açúcar para o consumidor americano, reduz o consumo e diminui a competitividade do produto brasileiro.” Rocha afirma que o setor já perdeu contratos importantes.

“As empresas brasileiras já perderam contratos relevantes. Muitos compradores buscaram alternativas em outros países, mesmo sabendo que Argentina, Paraguai e Colômbia também têm limitações para aumentar rapidamente a produção.” Segundo ele, ampliar a oferta de açúcar orgânico exige longo prazo, pois a conversão da lavoura convencional para o sistema orgânico demanda cerca de dois anos apenas para preparação da área.

Para André Rocha, os efeitos extrapolam o comércio exterior e atingem diretamente a economia dos municípios.

As usinas são os maiores empregadores de Goiatuba e Goianésia. Quando falamos do setor de bioenergia, estamos falando da interiorização do desenvolvimento e da geração de empregos no interior do país.

Embora as unidades também produzam etanol e açúcar convencional, ele afirma que redirecionar a produção do açúcar orgânico não é economicamente viável. “O custo de produção do açúcar orgânico é muito maior. Transformar isso em etanol ou vender como açúcar convencional significa assumir um prejuízo enorme. Não existe mercado disposto a pagar esse diferencial.”

O dirigente afirma que o setor sucroenergético já enfrenta um cenário desfavorável, marcado por preços baixos tanto para o açúcar quanto para o etanol. “Hoje o setor está vivendo um momento muito difícil. Preço baixo já é ruim. Preço baixo e sem conseguir vender é muito pior. Isso coloca as empresas em dificuldade.”

Embora evite prever demissões imediatas, Rocha admite preocupação com os reflexos sobre a economia regional caso a situação persista. Diante do cenário, o Sifaeg pretende buscar apoio dos governos estadual e federal para reduzir os impactos econômicos enquanto seguem as negociações diplomáticas com os Estados Unidos.

“O que esperamos são políticas públicas para amenizar esse momento e que a diplomacia brasileira consiga ampliar a lista de exceções ou reduzir parte dessas tarifas.” Segundo ele, a entidade também pretende atuar em conjunto com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) em missões junto a representantes americanos.

“Vamos trabalhar ao lado da CNI e das contrapartes americanas para tentar ampliar as exceções ou reduzir esse impacto. É um processo difícil, principalmente em um momento que antecede eleições tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, mas precisamos buscar alternativas para preservar a competitividade do setor.”

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André Rocha: “O açúcar orgânico é um produto de nicho, de alto valor agregado. O maior mercado é o americano e não é simples conquistar novos compradores. Você não muda de mercado da noite para o dia.” | Foto: Divulgação
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Procurada pelo Jornal Opção, a usina Goiasa informou que o posicionamento sobre os impactos do tarifaço norte-americano será feito pelo Sifaeg, entidade que representa o setor nas discussões institucionais, que representa as usinas de bioenergia do Estado e atua como interlocutor do setor junto aos governos e demais instituições.

Já a Jalles informou que, por enquanto, não fará comentários sobre os impactos do novo tarifaço dos Estados Unidos. Segundo a empresa, ainda é cedo para mensurar os efeitos das medidas sobre seus negócios, especialmente porque o período coincide com o fechamento de contratos de açúcar orgânico.

A companhia afirmou que acompanha a evolução do cenário e deverá ter uma avaliação mais precisa nas próximas semanas. Além disso, informou que entrou em período de silêncio em razão da divulgação dos resultados financeiros, prevista para o dia 14, e, por isso, não concederá entrevistas ou manifestações públicas sobre o tema neste momento. A empresa acrescentou que o assunto poderá ser abordado pelos diretores durante a apresentação dos resultados aos investidores.

Já a usina BSA Bio Energia, de Goiatuba, não respondeu os questionamentos até a publicação da reportagem. O Jornal Opção também não conseguiu contato com a empresa Goianésia S.A., mas o espaço segue aberto para ambas companhias se posicionarem.

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Prefeituras de Goiatuba e Goianésia

Em nota enviada ao Jornal Opção, a Prefeitura de Goiatuba informou que acompanha os desdobramentos do novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos e avalia os possíveis impactos sobre a economia local. Segundo a administração municipal, o município foi incluído entre os 100 mais afetados pelas novas tarifas em razão da forte dependência da Usina Goiasa do mercado norte-americano, destino de aproximadamente 70% da produção de açúcar orgânico da empresa.

A Prefeitura afirma que a elevação da tarifa para 37,5% reduz a competitividade do produto brasileiro frente aos concorrentes internacionais. De acordo com a administração municipal, a principal preocupação é com a manutenção dos empregos e da renda.

A Goiasa emprega cerca de 3 mil trabalhadores, dos quais aproximadamente 60% são moradores de Goiatuba, e responde por cerca de 21,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do município, estimado em R$ 2,7 bilhões. Ainda segundo a Prefeitura, a cadeia do açúcar orgânico e do etanol movimenta aproximadamente R$ 586 milhões na economia local.

O secretário de Agricultura de Goiatuba, Santiago Catiaia, afirmou que o aumento das tarifas ocorreu em um momento delicado, durante o pico da safra, e alertou para a possibilidade de redução na contratação de trabalhadores rurais temporários.

O secretário de Indústria e Comércio, Hemerson Ferreira, informou que a expectativa é de queda no faturamento da Goiasa, de cerca de R$ 1 bilhão, registrado em 2025, para R$ 700 milhões em 2026, em razão da desvalorização das commodities e das novas tarifas sobre o açúcar orgânico.

A Prefeitura ressalta, entretanto, que ainda não é possível mensurar os impactos consolidados sobre a arrecadação municipal, embora exista preocupação de que parte da produção destinada aos Estados Unidos seja direcionada ao mercado interno, pressionando os preços.

A administração municipal informou ainda que iniciou diálogo com a Goiasa para acompanhar os efeitos das medidas e as estratégias adotadas pela empresa. Segundo a nota, representantes da usina estiveram nos Estados Unidos, na Embaixada do Brasil e em reuniões com clientes na tentativa de reduzir os impactos das tarifas.

A Prefeitura também informou que pretende levar a situação ao Governo de Goiás e acompanha o anúncio das linhas de crédito disponibilizadas pelo Governo Federal para empresas exportadoras afetadas.

Já a Prefeitura de Goianésia não respondeu aos questionamentos da reportagem. O Jornal Opção tentou contato com o prefeito Renato de Castro por ligações e mensagens durante a semana, mas não obteve retorno. O espaço permanece aberto para o posicionamento.

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AGM

Segundo o presidente da Associação Goiana de Municípios (AGM), Zé Délio, a entidade foi surpreendida pela decisão e já acompanha os possíveis reflexos para cidades como Goiatuba e Goianésia. Em entrevista ao Jornal Opção, ele afirmou que, embora os efeitos não sejam imediatos, existe preocupação com consequências de médio e longo prazo para a arrecadação municipal, o emprego e a atividade econômica.

“Nós ficamos surpresos também com essa situação e os municípios já estão preocupados. Outros, mesmo que não apareceram, mas também estão preocupados com a possibilidade de virem outras formas de represália”, afirmou. Segundo ele, a apreensão vai além das cidades diretamente afetadas pela produção de açúcar.

Para o presidente da AGM, há receio de que novos produtos sejam atingidos futuramente por medidas comerciais internacionais. “Todo mundo tem preocupação. Não é um município em específico. Pode faltar outra coisa, pode vir outra demanda e ficamos à mercê de uma decisão internacional. Estamos vigilantes, conversando e sempre trocando informações para que a população não seja penalizada.”

Zé Délio destacou que Goiatuba e Goianésia exercem papel importante na economia goiana e que eventuais prejuízos ao setor sucroenergético podem repercutir em diversos segmentos da economia local.

São cidades importantes no cenário goiano e isso nos preocupa. Nós já vivemos um momento difícil, de situação financeira apertada e saber que isso pode trazer um desfecho negativo para a economia local preocupa bastante.

Embora descarte impactos imediatos, o presidente da AGM avalia que uma eventual redução das atividades das usinas pode afetar a geração de empregos, a arrecadação tributária e o consumo nas cidades. “Pode haver possibilidade de perda de empregos, diminuição de receitas e impactos no ICMS a médio e longo prazo. Também pode haver reflexos no ISS gerado pelas empresas. Se a população perde emprego, perde capacidade de consumo e isso afeta toda a economia local.”

Apesar da preocupação, ele acredita que o cenário possa ser revertido antes que os efeitos se consolidem. “Nós acreditamos que seja passageiro, que seja rápido e que a população não venha a sofrer tanto.” Questionado sobre o pacote anunciado pelo governo federal para compensar possíveis perdas provocadas pelas medidas comerciais, Zé Délio afirmou que qualquer auxílio é positivo, mas ponderou que a compensação dificilmente substitui a atividade econômica.

“Qualquer ajuda é bem-vinda, mas a gente acredita que é melhor não ter esses problemas para nem precisar ser compensado. A compensação sempre é bem-vinda, mas não é tão significativa quanto manter a situação anterior.” O presidente da AGM informou que, assim como o Sifaeg, a entidade também já iniciou conversas com os governos estadual e federal para acompanhar a situação e buscar formas de reduzir eventuais prejuízos aos municípios.

“Nós temos falado também com o governo. O Estado sempre é solícito e o governador Daniel Vilela já se colocou à disposição. Vão ter tratativas para que esse impacto seja o mínimo possível.” Enquanto o cenário permanece indefinido, Zé Délio recomenda cautela aos gestores municipais, especialmente no planejamento financeiro.

“Agora é cautela. Tentar gastar menos, pôr o pé no freio em algumas situações e analisar o contexto geral. Acreditamos que, passada essa fase, o problema possa ser resolvido.” Segundo ele, o principal papel da AGM neste momento é manter os municípios informados e preparados para uma eventual piora do cenário. “Os municípios não vão ter impactos imediatos do dia para a noite, mas já estamos trabalhando para que, se eles vierem, estejamos preparados e não deixemos a situação da população piorar.”

Prefeito de Hidrolândia, Zé Délio Jr: “Agora é cautela. Tentar gastar menos, pôr o pé no freio em algumas situações e analisar o contexto geral. A gente acredita que, passada essa fase, o problema possa ser resolvido” | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção
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Impactos econômicos

Ao Jornal Opção, a economista Adriana Pereira, presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO), aponta perda de competitividade, risco de redução de empregos e necessidade de buscar novos mercados para minimizar os impactos.

Segundo a especialista, as novas alíquotas, que podem variar entre 37,5% e 50%, tornam o açúcar brasileiro mais caro para os compradores norte-americanos, reduzindo sua competitividade em relação a produtores de outros países da América Latina.

“Vai afetar diretamente a economia tanto de Goiatuba quanto de Goianésia, principalmente porque elas são grandes produtoras e exportadoras de açúcar orgânico para os Estados Unidos, que é um dos nossos principais consumidores. Com essas novas tarifas, o açúcar brasileiro perde bastante competitividade de preço, principalmente diante de concorrentes como Colômbia, Argentina e Paraguai”, afirma.

Para a economista, a dependência econômica dessas cidades em relação ao setor sucroenergético amplia os efeitos das medidas. Caso as exportações diminuam, a atividade econômica local tende a desacelerar. Embora o açúcar esteja entre os segmentos mais atingidos, Adriana afirma que os reflexos do tarifaço podem alcançar outros setores da economia goiana.

Ela cita a agropecuária, fabricantes de máquinas e equipamentos, o polo farmacêutico e químico de Anápolis, além dos setores metalúrgico, siderúrgico, mineral e da indústria moveleira. “Nós já vínhamos sentindo esses impactos desde o início do ano, mas, agora, o governo americano ampliou essas tarifas. Isso reduz a competitividade de vários produtos brasileiros”, explica.

Por outro lado, Adriana observa que alguns produtos ficaram de fora das novas medidas ou não sofreram aumento adicional nas tarifas, entre eles carne bovina, café e petróleo. Na avaliação da economista, o principal risco para Goiatuba e Goianésia está no mercado de trabalho.

Caso as usinas não consigam redirecionar rapidamente as exportações para outros países, poderá haver redução da produção e, consequentemente, demissões. “Se não houver uma busca rápida de novos mercados para absorver essa produção que deixará de ser vendida aos Estados Unidos, essas empresas podem diminuir a produção, o que pode gerar desemprego”, afirma.

Ela pondera, porém, que os impactos sobre a arrecadação de impostos tendem a ser menores do que os efeitos sobre o emprego. “Os produtos exportados normalmente são isentos dos principais tributos. Então, em relação à arrecadação, talvez o impacto não seja tão significativo quanto no emprego.”

Ainda assim, Adriana acredita que uma eventual queda nos postos de trabalho pode ser temporária, desde que as empresas consigam diversificar seus compradores internacionais. “Pode ser um período sazonal de queda de emprego, mas, se esses produtos forem direcionados para outros mercados, a recuperação tende a acontecer. De qualquer forma, fica o alerta para que o Brasil não dependa tanto de um único mercado nem de um único produto.”

Segundo a economista, encontrar novos compradores no exterior depende das condições do mercado internacional e da demanda de outros países, o que torna o processo complexo.

“Não é uma coisa simples de fazer, mas também não é impossível. O problema é que as empresas já têm toda a estrutura comercial organizada, contratos firmados e compradores definidos nos Estados Unidos. Com a tarifa, provavelmente, esses clientes vão reduzir as compras e será necessário um período de transição para conquistar novos mercados.”

Adriana considera possível que parte das usinas altere o mix de produção, reduzindo a fabricação de açúcar e ampliando a produção de etanol, alternativa que exige poucas mudanças estruturais nas unidades industriais. “O etanol é uma opção muito viável porque você praticamente não muda a estrutura da usina. Apenas redireciona o processo produtivo.” Segundo ela, esse movimento pode aumentar a oferta de etanol no mercado brasileiro e pressionar os preços para baixo.

“O preço do açúcar provavelmente não cairia porque as empresas podem optar por estocar parte da produção enquanto reorganizam as vendas externas. Mas o aumento da produção de etanol pode reduzir o preço do combustível.” Para os consumidores brasileiros, uma maior oferta de produtos no mercado interno poderia representar preços menores. Em contrapartida, a redução das exportações afetaria a balança comercial brasileira.

“Para o consumidor brasileiro, isso pode ser positivo porque haveria maior oferta e possibilidade de redução de preços. Mas, do ponto de vista da economia, a balança comercial fica prejudicada, porque o país deixa de exportar parte da produção.”

Sobre o programa Brasil Soberano 3, lançado pelo Governo Federal com cerca de R$ 18 bilhões em medidas de apoio às empresas afetadas pelas tarifas, Adriana avalia que o pacote pode amenizar as dificuldades no curto prazo, mas está longe de solucionar os problemas causados pela perda de mercado externo.

“É uma medida emergencial para evitar prejuízos muito acentuados e impedir uma redução drástica do número de empregos. Ela traz algum alívio, mas não é uma solução definitiva.” A economista ressalta que o principal objetivo continua sendo manter as exportações e preservar a capacidade produtiva das empresas.

“O interesse é que essas empresas continuem vendendo tanto no mercado interno quanto no externo, garantindo faturamento, empregos e desenvolvimento das regiões onde estão instaladas.” Ela lembra ainda que os recursos oferecidos pelo governo representam financiamentos, e não repasses sem custo às empresas.

Ajuda, mas tem um custo. São financiamentos com juros menores e prazo maior para pagamento, mas continuam sendo uma despesa justamente em um momento em que a receita dessas empresas pode estar diminuindo.

A médio prazo, investimentos em bioenergia, novos derivados da cana e ampliação das vendas de etanol podem reduzir parcialmente a dependência do mercado norte-americano. No entanto, caso as tarifas sejam mantidas por período prolongado ou ampliadas para outros produtos brasileiros, o setor poderá enfrentar uma reestruturação mais profunda, com impactos sobre competitividade e geração de empregos.

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Adriana Pereira: “A gente já vinha sentindo esses impactos desde o início do ano, mas agora o governo americano ampliou essas tarifas. Isso reduz a competitividade de vários produtos brasileiros” | Foto: Arquivo pessoal
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