Doutora pela USP diz que filme sobre Plano Real é uma “fraude histórica”

Ex-secretária da Fazenda de Goiás afirma que obra é mentirosa e indigna do mais importante plano econômico da história brasileira

Cezar Santos

O cartaz do filme “Real, o Pla­no por trás da História” já dá uma pinta do que vai se ver: um duplo pastiche, cinematográfico e histórico. O cartaz mostra homens de cara fechada, semblante tenso, mas destemidos, quais guerreiros marchando para a luta épica que terão de travar contra inimigos poderosos.

A obra do diretor Rodrigo Bittencourt se propõe a recriar, ficcionalmente, os bastidores da criação do Plano Real, que debelou a hiperinflação no Brasil ao ser lançado em 1994. O êxito da empreitada deu, naquele ano, a primeira das duas eleições de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para a Presidência da República – meses antes, Lula da Silva (PT) liderava as pesquisas com larga vantagem.

Não há dúvida de que o tema é palpitante. Mas há quem diga que o tratamento cinematográfico, no entanto, prejudicou a resultado. Para dar dramaticidade ao enredo, um tanto quanto árido, reconheça-se, o roteiro cria um herói no grupo, o economista Gustavo Franco, contra os “vilões”, praticamente todos os outros integrantes da equipe que pensou, desenhou e executou o plano. Há uma exagerada caricaturização dos personagens.

Com a queda de Fernando Collor, Itamar Franco, o vice, assume a Presidência e precisa de um projeto urgente para debelar a inflação. Sob comando do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, um grupo de cabeças brilhantes da Economia — Pedro Malan, Pérsio Arida, Edmar Bacha, André Lara Rezende, Gustavo Franco, Winston Fritsch, entre outros — é reunido para bolar o tal plano. Com a saída de FHC para se candidatar, Rubens Ricupero assume a Fazenda e o comando da equipe.

O filme exagera o papel de alguns e minimiza o de outros. E talvez esteja aí o maior problema.

A economista Ana Carla Abrão, com mestrado pela Fundação Getúlio Vargas e doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), ex-secretária da Fazenda de Goiás, faz duras críticas à obra. “É uma fraude histórica”, crava ela, que é mulher de um dos formuladores do Plano Real, o economista Pérsio Arida, que foi presidente do Banco Central do Brasil.

Segundo Ana Carla, no plano histórico da economia brasileira, o Real é da maior relevância. “Imagina o que passamos até chegar ali, quantos planos foram traçados, o quanto o País sofreu, o impacto que a inflação causava na vida das pessoas, a piora na desigualdade de renda, pois a inflação penalizava muito mais aqueles que não conseguiam se proteger dela. Então, daí a importância histórica que o Plano Real teve e tem. E vem um filme em torno de uma personalidade e não de um evento histórico.”

A economista considera que se perdeu uma oportunidade de registrar o que foi o Plano Real do ponto de vista de pacto social que se formou. Na época, diz, bem mais de 120 milhões de pessoas acreditaram que aquela moeda fazia sentido, e foram aos bancos e trocaram seus cruzeiros divididos por 2.250.

“Lembro-me que eu trabalhei de caixa no BBC [Banco Brasileiro Comercial, pertencente a sua família e que depois foi liquidado], fazendo troca de moeda. As pessoas chegavam com um monte de dinheiro e recebiam duas notinhas de real. Imagine o que foi aquilo do ponto de vista do pacto social que se estabeleceu em torno do combate à inflação, que havia muitos anos era o maior problema brasileiro”, afirma.

De fato, quem viveu naquela época se lembra da loucura nos supermercados, onde times de funcionários com maquininhas nas mãos remarcavam preços durante todo o dia, nem esperavam o estabelecimento baixar as portas. Muitas vezes os remarcadores de preços disputavam espaço com os compradores na frente das gôndolas.

E o filme não reflete nada disso, lamenta Ana Carla. “Fica centrado numa pessoa, como se o plano fosse criação dela. Primeiro, isso é injusto com o momento histórico que vivemos ali. Segundo, é uma fraude histórica. Gustavo Franco não foi o protagonista do Plano Real. Gustavo foi coadjuvante num plano desenhado por Pérsio e André. O Real não era de Gustavo Franco, como é tratado e até falado no filme. Isso é uma fraude histórica.”

“Mais importante foi o grande pacto social”

Ana Carla Abrão: “Desrespeitou um momento histórico” | Nathan Blanche: “Não foi o Gustavo Franco sozinho”

Segundo a economista Ana Carla Abrão, o roteirista de “Real – o Plano Por Trás da História” retratou uma visão pessoal de um trabalho teórico de André Lara Rezende e Pérsio Arida — que até ganhou o apelido de Larida —, cuja implementação foi por um conjunto de pessoas. “Não teve uma pessoa responsável pelo Plano Real, não há ‘um’ herói. Na verdade, em primeiro lugar, o herói foi o povo brasileiro, a sociedade, que se uniu e acreditou nesse processo. E, segundo, se tivesse que eleger alguém ali, houve um grupo de pessoas liderado por Fernando Henrique Cardoso, mas até ele ficou coadjuvante. Aliás, no filme, Gustavo é o único que defendia o Real (risos), um absurdo!”

Ana Carla não titubeia em acusar a obra de mentirosa, de inventar coisas que não ocorreram, como uma contraposição entre Gustavo Franco e Pérsio Arida, que existia sim no campo teórico, mas não no plano pessoal. “Pérsio achava realmente que tinha de mudar o câmbio, mas não havia oposição do ponto de vista pessoal. E aquilo nunca foi importante no processo todo, era pequeno perto da grandeza do que estava sendo feito.”

A economista afirma que o filme peca duas vezes: primeiro, por perder a chance de fazer um registro histórico daquele momento, que do ponto de vista econômico é o mais importante que o País viveu; e, segundo, por não ser fiel à realidade. “Repito, o filme comete uma fraude histórica.”

“Real – o Plano Por Trás da História” foi livremente baseado no livro “3.000 Dias no Bunker – Um Plano na Cabeça e Um País na Mão”, do jornalista Guilherme Fiuza, publicado em 2006. No livro, o tom “heroico” já está colocado. Ana Carla não leu a obra. “Nem me dei ao trabalho, porque sabia que é muito focado no personagem.”

Assistir ao filme foi quase uma obrigação profissional, diz Ana Carla. “Afinal, sou casada com Pérsio, e as pessoas iriam me perguntar. Eu tinha de ver para ter opinião. Infelizmente, é pior do que eu imaginava. Pelo trailer eu já percebi que era um absurdo, e quando vi o filme, superou no mau sentido as minhas piores expectativas. Saí do cinema muito triste por ter visto que a obra desrespeitou um momento histórico tão importante.”

“Roliudiaram” o plano

Até o momento em que conversou com o editor, o economista Na­than Blanche, um dos maiores estudiosos de câmbio no Brasil, não tinha visto o filme. Mas ouviu co­mentários de amigos economistas do Rio e de São Paulo que não gostaram da obra. Esses amigos disseram que o filme não retrata a realidade e que ro­teirista e diretor “roliudiaram” o plano econômico. Ou seja, tomou-se excessiva liberdade histórica e dramática.

Blanche acompanhou a implementação do Plano Real de perto, por dever do ofício e por ser muito próximo da maioria dos integrantes do grupo. Sobre a “glorificação” de Gustavo Franco no filme, Blanche diz que pelo que ouviu, há um excesso. Mas ele reconhece que Gustavo Franco é um economista brilhante, e realmente apareceu mais, porque “tocou” o plano.

“Gustavinho é prático, é objetivo. Ele sabe e faz. Ele tomava decisões, aparecia mais, e certamente por isso o filme o destaca. Mas a política econômica que possibilitou o Plano Real não foi só ele. Se ele aparece como herói, não é assim que ele é de fato. A equipe tinha gente de primeiríssima qualidade, economistas brilhantes, dezenas de pessoas. Não foi o Gus­tavo sozinho”, diz Nathan Blanche.

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