Olavo de Carvalho manipula o jogo para manter o controle sobre o tabuleiro

Como um filósofo autoexilado nos Estados Unidos conturbou o país e como dialogar com seguidores cegos

Discurso de Olavo de Carvalho  é incendiário
Olavo de Carvalho | Foto: reprodução

Na última semana, a guerra entre militares e olavistas parecia ter chegado a um fim. No dia 15, o presidente da República deu ao general Santos Cruz o poder de avalizar indicações e nomeações no Executivo por meio de decreto. No dia 16, o ideólogo Olavo de Carvalho afirmou em vídeo entrevista para o site Crítica Nacional: “Eles querem me tirar da parada? Tiraram. Vou ficar quietinho agora, não me meto mais na política brasileira”. Apesar da aparente vitória dos militares no primeiro racha governista, o filósofo está longe de ser uma peça descartada.

Com grande infiltração na base de Bolsonaro, tendo indicado três ministros, e sendo um escritor cada vez mais difundido, Olavo de Carvalho volta a jogar em casa. Beneficiando-se de narrativas de perseguição, o filósofo firmou-se como um profeta proibido que espalha por meios alternativos a palavra contra o esquerdismo hegemônico. Ele se coloca novamente como o azarão e dá seu adeus à situação ao mesmo tempo em que sinaliza um novo inimigo: os militares que, segundo ele, armam um golpe.

O fim da guerra civil de Twitter provavelmente será positivo para o Brasil, que terá um presidente com menos razões para se comportar como deputado de oposição e mais como presidente de fato. Ainda é cedo para dizer se o escritor está fugindo do poder por desconforto da exposição, ou se este é um movimento planejado, mas o fato é que o guru não abandonará seu discurso e não deixará de ser ouvido. Portanto, é importante entender como um autoexilado sem cargo oficial deu uma dor de cabeça tão grande a uma instituição como o exército, por que seus entusiastas não mudam de ideia, e por que em seu discurso ressoou tão bem com os novos meios de comunicação.

Forma sobre conteúdo

Professora Tânia Rezende  afirma que o centro do discurso de Olavo é seu estilo | Foto: Reprodução / Jornal UFG

Uma das teses para justificar o sucesso de Olavo de Carvalho é a diferença entre seu discurso incendiário e o discurso político tradicional – formal e distante da fala corrente. Segundo o raciocínio, a diferença chocante na forma, a distância entre palavrões e “vossa excelência”, subjuga o significado. Tânia Ferreira Rezende, doutora em Estudos Linguísticos e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), afirmou que a intenção de Olavo em seus vídeos não é convencer ninguém, mas persuadir o público pela forma.

“Olavo quer causar uma reação”, afirma Tânia Rezende, “e qualquer retorno é positivo. De todo modo, ele nunca terá o público intelectual. Logo, os ofende e a resposta dos opositores é o que seduz seus simpatizantes. Ele soube identificar muito bem quem tem temperamento, personalidade e ideias favoráveis a ele – são pessoas que detestam determinados grupos –, e Olavo sinaliza para essas pessoas através das respostas dos adversários atacados. O conteúdo do discurso pouco importa”.

A teoria parece explicar bem pensadores pop stars, mas não funciona para políticos. Joice Hasselmann (PSL), Kim Kataguiri (DEM), Alexandre Frota (PSL), Arthur do Val (DEM) e outros aproveitam o novo verniz que Olavo de Carvalho deu à pauta conservadora, mas se comunicam diferentemente do guru. Arthur do Val e Kim Kataguiri são desbocados nos canais Mamãe Falei e MBL, mas mantêm o decoro nas casas parlamentares. Aqueles que tentaram trazer o modo de comunicação olavista para a política – Carlos e Eduardo Bolsonaro (ambos PSL) – têm sido duramente criticados por isso.

Ademir Luiz, doutor em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG), explicou o que pensa da questão: “Faça um contraponto com o Ciro Gomes (PDT), que tem linguagem pesada e foi penalizado por isso nas eleições. Falar palavrões não é bem visto, essa não foi a razão do sucesso de Olavo de Carvalho, mas ele pode dizer o que quer pois não está concorrendo. Pode ser que seja um alter ego da direita, que fala sem consequências”.

Sinal dos tempos
Discurso de Olavo de Carvalho é o mesmo há anos

Olavo de Carvalho em entrevista a Pedro Bial (1996) | Foto: reprodução / YouTube

Segundo Tânia Rezende, as novas tecnologias não modificaram apenas a forma como as pessoas se comunicam, mas também como pensam. “Ter espaço limitado para se expressar muda a cognição: a competição acirrada pela atenção das pessoas criou novos gêneros de comunicação”. Portanto, o apelo à atenção dos expectadores e a capacidade de sinalizar rapidamente um alinhamento ideológico seriam os grandes trunfos de Olavo nos tempos das redes sociais. “Neuro e psicolinguistas falam em mudança na estrutura cognitiva. Agora tudo tem de ser muito curto”.

Quando perguntada se o discurso olavista se espalhou pelas redes sociais por um projeto linguístico bem arquitetado, Tânia afirmou que não dá tanto crédito ao pensador: “Ninguém consegue planejar isso se não for da sua natureza. É o estilo dele. Olavo teve projeção porque seu discurso encontrou o espaço adequado, foi naturalmente selecionado”. Com um histórico de exposição midiática pelo exótico, percebe-se em entrevistas como a de 1996 a Pedro Bial, que Olavo parecia esperar o surgimento de um meio mais direto para despontar.

Em seu Twitter e canal no YouTube, onde pode ser mais contundente e mudar de assunto quando quer, Olavo já refutou Nicolau Copérnico, Isaac Newton e Albert Einstein; já afirmou que a vacinação é um projeto para esterilizar a população, que há fetos abortados em refrigerantes e que fumar não faz mal à saúde. Na internet, os temas agem como chamarizes.

Imune a fatos
Discurso de Olavo de Carvalho analisado

Neurocientista descobre porque pessoas são impermeáveis a argumentos | Foto: Reprodução / Youtube

Quais são, afinal, as características das mídias sociais que beneficiam discursos como estes, contra quaisquer fatos científicos, pouco importando por quanta experimentação tenham passado? Segundo a neurocientista Tali Sharot, da University College London, em seu livro “O Viés Otimista”, as pessoas decidem quais fatos procuram. Por conta do fenômeno do Viés de Confirmação, privilegiamos informações com que já concordamos em uma intenção de validar nossos pontos de vista. Se, por acaso, tropeçamos com dados que contrariam nossas opiniões, temos uma grande capacidade de ignorar essas informações ou distorcê-las para que se conformem com nossas crenças.

Em um dos experimentos conduzidos por Tali Sharot, foi apresentado a dois grupos (um que acreditava no aquecimento global e outro que desprezava sua existência) duas afirmações (uma alegava que cientistas descobriram que a Terra estava esquentando ainda mais do que se pensava e outro alegava que não fora registrado aumento algum na temperatura). O resultado: as informações polarizaram ainda mais as pessoas. Quem desacreditava no aquecimento global racionalizou o aumento térmico como pesquisa fraudada ou erro na coleta de dados, e disse “eu sabia” para as afirmações que confirmavam seus pontos de vista. O mesmo se provou verdade para o outro grupo.

Tali Sharot ainda descobriu que pessoas com QI mais elevado eram capazes de melhor distorcer a informação para confirmar suas opiniões. Logo, dados científicos não falam por si só; o que significa que seria ineficiente tentar desmentir com números as ideias políticas de Olavo de Carvalho. A internet ofereceu a possibilidade de encontrar todos os tipos de teoria acerca de tudo, e Olavo congregou ao redor de si pessoas com opiniões extremas, que buscam ativamente o extremo, e dados nesse contexto são ineficientes.

Como lidar

No livro “O Viés Otimista”, Tali Sharot oferece uma alternativa que pode ser aplicada à política para gerar discussões mais produtivas do que as que tivemos e evitar confrontos com membros do outro lado do espectro político. Em outro experimento, pesquisadores da UCLA descobriram que mostrar fotos e dados das doenças prevenidas por imunização é mais eficiente em convencer pais a vacinarem seus filhos do que negar os prejuízos da vacina. Isso significa que a melhor forma de mudar uma opinião é encontrar primeiro um ponto comum – no caso, o bem estar das crianças – ao invés do enfrentamento.

Retornando ao Brasil, o ponto comum para todos os envolvidos no racha na esfera pública e em discussões pela internet é o desejo de ver o retorno do crescimento nacional. Tânia Rezende reconheceu a necessidade de falar uma linguagem comum e afirmou que a Universidade começou a adaptar seu discurso. “A forma de pensamento já mudou, o que estamos tentando agora é contemplar isso mudando a forma de comunicação”.

Por mais que o discurso de um agente político pareça ofensivo, entender as razões de seu sucesso é mais importante do que o simples confrontamento. Segundo Tânia Rezende, essa revolução na comunicação já começou a atingir a esfera universitária e não deve cessar tão cedo: “Um grupo de professores da Faculdade de Letras tem oferecido oficina de memes na universidade. Isso não é ceder, é entender o gênero textual como instrumento de comunicação. Não posso dar a mesma aula de cinco anos atrás, não funciona. Travamos uma luta linguística, discursiva e midiática. Para entrar nessa luta, temos de usar, além do conteúdo correto, forma rápida, sintetizada e compreensível”.

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Rafael Caruccio

A propósito, vocês foram derrotados pelo relativismo que vocês mesmos pregam. Se não há verdade objetiva, por que o povo deveria dar mais atenção a professores universitários despojados de cultura clássica (mas cheios de Bourdieu e Foucault) ao invés do Olavo, que fala 6 idiomas, já leu todo o panteão greco-latino e vários autores clássicos desprezados pelos bacanas do “é proibido proibir”?