A cada dez brasileiros aptos a votar nas eleições gerais de 2026, aproximadamente dois não compareceram às urnas no primeiro turno, realizado em 4 de outubro. No país, 33,4 milhões de eleitores deixaram de votar, o equivalente a 21,08% do eleitorado, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em Goiás, a situação também chama a atenção: 1.108.382 pessoas não compareceram à votação, fazendo com que o índice de abstenção chegasse a 21,84%, acima da média nacional. Os números revelam um desafio para a participação democrática e levantam questionamentos sobre os fatores que levam os cidadãos a se afastarem do processo eleitoral.

O cenário goiano foi confirmado pelo Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO), que contabilizou a participação de 3.966.488 eleitores no primeiro turno. Em Goiânia, a abstenção foi de 19,93%, correspondente a 202.378 pessoas que não foram aos locais de votação. Embora o pleito tenha transcorrido com normalidade em todo o Estado, a quantidade de ausentes representa uma parcela expressiva da população apta a participar da escolha dos representantes políticos.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Anhanguera liderou o percentual de abstenção entre os municípios goianos no primeiro turno das eleições de 2026, realizado em 4 de outubro. Dos 1.738 eleitores aptos a votar, 645 não compareceram às urnas, enquanto 1.093 participaram da votação. O índice de ausência foi de 37,11%.

Na sequência aparecem Sítio d’Abadia, com 32,25% de abstenção, e Guarinos, com 29,92%. O levantamento considera a proporção de eleitores que deixaram de votar em relação ao total de pessoas aptas em cada município. A tabela abaixo reúne os dez municípios com os maiores percentuais, incluindo o número de eleitores aptos, os que compareceram e os que faltaram.

PosiçãoMunicípioEleitores aptosCompareceramNão compareceramAbstenção
1ºAnhanguera1.7381.09364537,11%
2ºSítio d’Abadia3.4982.3701.12832,25%
3ºGuarinos3.0622.14691629,92%
4ºPilar de Goiás3.9382.7611.17729,89%
5ºAruanã7.3915.2042.18729,59%
6ºTeresina de Goiás3.2522.30295029,21%
7ºDavinópolis4.1452.9491.19628,85%
8ºCampos Verdes4.4983.2031.29528,79%
9ºCavalcante7.9535.6722.28128,68%
10ºBuriti Alegre8.6906.2082.48228,56%

Veja aqui a lista completa de abstenção em todo o país.

A ausência nas urnas não tem uma única explicação. Para alguns eleitores ouvidos pelo Jornal Opção, a distância entre o município onde votam e a cidade em que moram atualmente tornou inviável o deslocamento. Outros afirmam que não estavam suficientemente informados sobre os candidatos ou que perderam a confiança na política. Há ainda quem tenha deixado de votar por estar viajando e quem, apesar de não ter comparecido no primeiro turno, pretenda participar da segunda etapa da eleição presidencial, marcada para 25 de outubro, quando Flávio Bolsonaro (PL) e Lula da Silva (PT) disputarão a Presidência da República.

Os relatos mostram que a abstenção reúne situações distintas. A falta de condições financeiras para viajar, compromissos acadêmicos, problemas com o título eleitoral, desinteresse pelas candidaturas e desconfiança em relação aos políticos aparecem como fatores capazes de afastar o eleitor. Também há entrevistados que consideram o voto importante, mas não conseguiram comparecer por razões práticas. Outros demonstram descrença na capacidade de a política produzir mudanças e questionam a utilidade de participar das eleições.

A pesquisa Datafolha divulgada em outubro ajuda a dimensionar esses motivos. Entre os eleitores que disseram não ter comparecido no primeiro turno, 19% apontaram viagem ou ausência da cidade como razão para a falta, enquanto 18% mencionaram problemas de saúde. O desinteresse pelas eleições, pelos candidatos ou a falta de uma opção considerada adequada foi citado por 13% dos entrevistados. Outros 9% disseram que estavam trabalhando, 7% alegaram não ter os documentos necessários e 6% mencionaram a distância do local de votação. Compromissos pessoais, filas, locais cheios e idade também apareceram entre as respostas. Como a pergunta admitia respostas espontâneas e múltiplas, os percentuais não devem ser interpretados como categorias necessariamente excludentes.

A pesquisa ouviu 2.520 eleitores em 153 municípios brasileiros, por meio de abordagens pessoais em pontos de fluxo populacional. A margem de erro geral foi de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, mas, especificamente na pergunta sobre os motivos da abstenção, chegou a dez pontos. Como as respostas eram espontâneas e múltiplas, os participantes podiam mencionar mais de uma razão para a ausência. O resultado, portanto, deve ser interpretado como um retrato dos motivos declarados pelos entrevistados, e não como uma divisão exata e exclusiva de todos os eleitores ausentes no país.

Os dados revelam que a ausência não pode ser atribuída exclusivamente à falta de interesse político. Em muitos casos, existem obstáculos concretos que dificultam o exercício do voto, como a necessidade de viajar para outro município, as despesas com transporte, as condições de saúde e as jornadas de trabalho. Ao mesmo tempo, o percentual de eleitores que declarou desinteresse indica que uma parcela do eleitorado também se afasta por não enxergar identificação com os candidatos ou relevância suficiente na disputa. A combinação de dificuldades materiais e desconfiança política torna o fenômeno mais complexo do que uma simples decisão de não participar.

O cientista político e professor Pedro Célio avalia que o índice registrado em Goiás acompanha uma tendência observada em eleições anteriores, mas considera preocupante o crescimento gradual da ausência. Para ele, a repetição desse movimento pode ampliar a distância entre os cidadãos e as instituições políticas, afetando a representatividade dos eleitos e a legitimidade do sistema. Já o sociólogo e cientista político Khelson Cruz, CEO do Instituto Podium de Pesquisa Social, relaciona o fenômeno a fatores estruturais, como a descrença nas instituições, a percepção de ineficácia da política, as desigualdades sociais e a polarização do debate público.

Os relatos dos eleitores ouvidos pela reportagem ajudam a aproximar essas análises da realidade cotidiana. Há quem declare preferência por um candidato, mas não consiga chegar ao município onde está registrado. Há quem admita que não acompanhou as candidaturas do primeiro turno e há também quem considere que os políticos prometem mudanças durante as campanhas, mas não correspondem às expectativas depois de eleitos. As experiências individuais não representam, isoladamente, todo o eleitorado ausente, mas mostram como motivos logísticos, escolhas pessoais e percepções políticas podem se combinar.

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A ausência nas urnas não tem uma única explicação | Foto: Reprodução

Viagem, distância e custos impedem eleitores de comparecer

O professor universitário indígena Jurandir Souza Xerente, de 41 anos, pertence ao povo Akwē-Xerente, do Tocantins, tem título eleitoral registrado em Tocantínia, município localizado a mais de mil quilômetros de Goiânia, onde trabalha na Universidade Federal de Goiás (UFG) e cursa uma disciplina de doutorado. Ele afirma que gostaria de ter votado no primeiro turno, mas não conseguiu realizar o deslocamento nem utilizar a modalidade de voto em trânsito. Jurandir se declara petista e lulista e afirma que, se tivesse comparecido, teria votado em Lula. Para o segundo turno, porém, ainda não sabe se conseguirá viajar, principalmente por causa do custo e dos compromissos acadêmicos.

“Eu acho super importante votar, porque nós vamos estar assumindo o papel de cidadão brasileiro”, lembra. Ele reforça que a participação eleitoral é uma forma de exercer a cidadania, embora as dificuldades de deslocamento impeçam seu comparecimento às urnas.

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Professor universitário indígena Jurandir Souza Xerente: “voto no Lula” | Foto: Acervo pessoal

A distância também é apontada por Alinny Abreu da Silva, de 32 anos, comerciante, autônoma e fabricante de roupas. Com título eleitoral registrado em Aragarças, no oeste goiano, ela conta que não teve condições de se deslocar até o município no primeiro turno, embora desejasse participar da votação.

Alinny considera o voto uma forma de contribuição para o resultado eleitoral e acredita que a ausência de parte do eleitorado pode comprometer a representação das escolhas da população. Para o segundo turno, afirma que continua sem condições de viajar e que, se pudesse votar, escolheria Flávio Bolsonaro. Segundo ela, a decisão está relacionada à vontade de dar oportunidade a uma alternativa política após um longo período de governo do PT. “Eu acho importante votar porque é uma forma de a gente participar das decisões do país e contribuir para escolher quem vai governar. Penso que está na hora de mudança”, avalia.

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Alinny Abreu da Silva: “penso que está na hora de mudança” | Foto: Cilas Gontijo/Jornal Opção

Falta de informação e escolha política também pesam

O corretor de imóveis Isaac Winícius, de 32 anos, eleitor de Senador Canedo, na Região Metropolitana de Goiânia, afirma que optou por não comparecer no primeiro turno porque não acompanhou suficientemente os candidatos aos cargos de governador e senador. Ele diz considerar importante a participação eleitoral, mas entende que o eleitor também precisa conhecer as propostas antes de fazer suas escolhas. Isaac afirma que estava mais informado sobre a disputa presidencial e que pretende votar no segundo turno. Caso tivesse participado da primeira etapa, teria escolhido Flávio Bolsonaro, candidato que diz representar melhor seus princípios ideológicos e sua identificação com a direita.

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Isaac Winícius: “Acho importante votar” Foto: Acervo pessoal

“Eu não acompanhei o suficiente os candidatos a governador e senador para fazer uma escolha consciente. Acho importante votar, mas também acredito que a gente precisa conhecer as propostas antes de decidir. Para presidente, eu estava mais informado e, se tivesse votado no primeiro turno, teria escolhido o Flávio Bolsonaro, porque me identifico mais com as ideias da direita”, afirma Isaac.

A vendedora Luana Alves, de 27 anos, eleitora de Goiânia, conta que estava viajando no dia da votação e não se atentou à data das eleições. Ela garante que pretende comparecer no segundo turno, por considerar que a disputa presidencial exige um posicionamento mais claro do eleitor. Para Luana, a escolha entre dois candidatos torna a decisão mais direta e está ligada à expectativa de futuro para os filhos. Ela declara que votará em Flávio Bolsonaro e observa que, entre as pessoas com quem conversa na região comercial da Rua 44, há apoiadores de ambos os candidatos.

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Luana Alves: “No segundo turno, pretendo votar porque é uma decisão importante” | Foto: Cilas Gontijo/Jornal Opção

“Eu estava viajando no dia da eleição e acabei não me atentando à data. No segundo turno, pretendo votar porque é uma decisão importante para o futuro do país e dos meus filhos. Como agora são apenas dois candidatos, fica mais fácil definir o posicionamento. Na Rua 44, encontro pessoas que apoiam tanto o Lula quanto o Flávio Bolsonaro, mas percebo que muita gente já decidiu em quem vai votar”, relata Luana.

Descrença na política afasta eleitor das urnas

Antenor Cardoso Santos Junior, de 38 anos, assessor de vendas e eleitor de Goiânia, afirma que deixou de votar por desânimo e por não acreditar que sua participação tenha efeito real sobre os resultados políticos. Ele associa essa percepção à desconfiança em relação aos políticos e à crença de que as promessas feitas durante as campanhas não são cumpridas depois das eleições.

“A gente perde a confiança porque muitos políticos prometem uma coisa durante a campanha e, depois que são eleitos, não cumprem o que falaram”, afirma Antenor. Ele também menciona a corrupção como um dos fatores que contribuem para seu afastamento da política institucional. “Chega um momento em que a gente fica desanimado e começa a pensar se o voto realmente faz alguma diferença”, acrescenta.

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Antenor cardoso afirma que deixou de votar por desânimo | Foto: Cilas Gontijo/Jornal Opção

Para o segundo turno, Antenor afirma que não poderá votar porque seu título eleitoral apresenta pendências e que pretende apenas justificar a ausência. Caso pudesse participar da votação presidencial, escolheria Flávio Bolsonaro. “Hoje, não me sinto motivado a participar como antes, principalmente porque não vejo mudanças que correspondam às expectativas da população”, diz.

A percepção de Antenor é diferente da apresentada pelo comerciante Paulo Josué dos Santos, de 72 anos, que não votou no primeiro turno por já ter ultrapassado a idade em que o voto é obrigatório. Ele afirma que, durante a maior parte da vida, compareceu às urnas e que pretende votar no segundo turno porque deseja contribuir para a vitória de seu candidato.

Paulo Josué declara apoio a Flávio Bolsonaro e defende que os eleitores participem da votação para que possam avaliar as propostas e o desempenho dos representantes. “O candidato inteligente faz mudança”, diz. Para ele, a participação política continua sendo importante, mesmo quando o eleitor já não está sujeito à obrigatoriedade do voto.

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Paulo Josué: “Eu sempre procurei participar das eleições” | Foto: Cilas Gontijo/Jornal Opção

“Eu sempre procurei participar das eleições, porque acredito que votar é uma maneira de contribuir para o futuro do país”, diz Paulo. Ele também destaca a importância de analisar as propostas dos candidatos antes de decidir o voto. “O eleitor precisa acompanhar o que os candidatos apresentam e observar o que eles fazem, porque é assim que a gente pode avaliar se estão trabalhando para melhorar o Brasil”, acrescenta.

Pedro Célio: “O eleitorado vai se distanciando passo a passo da política institucional”

O professor e cientista político Pedro Célio avalia que o índice de abstenção registrado em Goiás no primeiro turno das eleições de 2026, de 21,84%, acompanha uma tendência observada em pleitos anteriores. Apesar de considerar que a variação em relação aos anos anteriores não é expressiva, ele alerta que o crescimento gradual do número de eleitores ausentes pode comprometer a representatividade dos eleitos e a legitimidade do sistema político. Para o especialista, o problema está relacionado à atuação dos representantes e à necessidade de repensar a estrutura política brasileira.

Pedro Célio explica que a abstenção acima de 21% segue um patamar semelhante ao registrado nas duas últimas eleições, quando os índices ficaram em 20% e 19%. Apesar da pequena variação, o cientista político avalia que o aumento sinaliza um distanciamento gradual da população em relação à política institucional. “Significa para mim que a população, o eleitorado, vai se distanciando passo a passo da política institucional”, afirma.

Segundo ele, esse cenário gera preocupação quanto à representatividade dos eleitos e pode comprometer a legitimidade do sistema político como um todo. Para Pedro Célio, é necessário que as elites políticas, os dirigentes partidários e as lideranças da sociedade discutam medidas para enfrentar o problema. “Nesse contexto, a reforma política é um caminho para aproximar os cidadãos das instituições democráticas e fortalecer a representatividade eleitoral”, aponta.

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Para Pedro Célio, é necessário que as elites políticas, os dirigentes partidários e as lideranças da sociedade discutam medidas para enfrentar o problema | Foto: Acervo pessoal

Atuação dos políticos e desconfiança da população

Ao analisar os motivos que podem levar os eleitores a se afastarem das urnas, Pedro Célio aponta a conduta dos representantes políticos como um dos fatores centrais. Na avaliação dele, denúncias de corrupção, escândalos e negociações consideradas incompatíveis com a ética pública contribuem para ampliar a insatisfação da população.

Tenho a impressão de que são justamente os representantes partidários, os parlamentares e os governantes detentores de mandatos que não estão agradando à população. A forma como atuam tem sido frequentemente questionada, como demonstram as notícias sobre denúncias de corrupção, escândalos e negociatas indecorosas. Essas práticas são vistas pela população como incompatíveis com a ética e não contribuem para enfrentar os problemas que o país precisa resolver. Portanto, acredito que a origem do problema está na forma de atuação dos políticos. Não tenho dúvida disso.

Reforma política e mudanças no sistema representativo

Para o cientista político, a insatisfação dos eleitores não deve ser atribuída apenas às campanhas eleitorais. Ele considera que o distanciamento se constrói ao longo dos mandatos, quando a população não se sente representada pelos políticos eleitos. Nesse contexto, defende que uma eventual reforma política examine os mecanismos que estruturam a representação parlamentar.

“Eu tenho impressão de que não é exatamente nas campanhas eleitorais em que está a falha. A falha está ao longo de todo o mandato, e isso vai aumentando e consolidando o fosso entre o povo e seus representantes. O distanciamento político afeta o sistema representativo”, observa.

Segundo Pedro Célio, o sistema representativo está com falhas e precisa ser repensado. “Numa eventual reforma política, que eu pessoalmente não acredito que ela virá tão cedo, todos os pilares do nosso sistema representativo têm que ser pensados. Dentro das eleições, por exemplo, cláusula de barreira é um tema”, reforça.

Em segundo lugar, analisa o cientista político, o modo de caracterizar o quociente eleitoral para a decretação de eleitos. “É o exemplo daqui de Goiás, esse ano, que foi com a Aava Santiago (PSB). Ela foi a sexta ou sétima mais votada para a Câmara dos Deputados e não consegue mandato”.

Tendência de crescimento e debate sobre o voto obrigatório

Questionado sobre a possibilidade de a abstenção continuar aumentando, Pedro Célio afirma que o fenômeno não se restringe às eleições de 2026. Para ele, a sequência de resultados demonstra um problema estrutural do sistema representativo, que deverá ser considerado em futuras discussões sobre a legislação eleitoral e o funcionamento da política brasileira.

Para Pedro Célio, não é um fenômeno típico de 2026, não. Ele não é meramente conjuntural. “Isso está na estrutura do nosso sistema representativo, no modo como ele está sendo implementado. Tanto é que se você pegar as duas últimas, mas podemos voltar às três últimas ou às quatro últimas, nós vamos ver um aumento gradativo dessa abstenção a cada eleição”.

Ainda que seja pequeno, mas agora chegou a 21%. Em termos de Brasil, são 31, 33 milhões de brasileiros que, por algum motivo, não vão às urnas. Isso é muito. Eu, pessoalmente, acho muito. Até o tema do voto obrigatório vai entrar na discussão de uma eventual reforma política, avalia o especialista.

Khelson Cruz: “O esvaziamento das urnas sinaliza o cansaço institucional”

O sociólogo e cientista político Khelson Cruz, CEO do Instituto Podium de Pesquisa Social, analisa a abstenção eleitoral em Goiás sob a perspectiva sociológica. Para ele, o crescimento contínuo do número de eleitores ausentes revela um distanciamento que não pode ser explicado apenas pelo desinteresse individual. A descrença nas instituições, a percepção de que o voto não produz mudanças concretas, as desigualdades sociais e as dificuldades materiais estão entre os fatores que ajudam a compreender o fenômeno.

Na avaliação do sociólogo, o recorde de abstenção no primeiro turno das eleições de 2026 em Goiás consolida um trajeto de constante crescimento de eleitores ausentes desde a votação de 2010, quando 17,97% do eleitorado de Goiás não compareceu às urnas na etapa inicial. Quatro anos depois, essa porcentagem aumentou para 18,83%. Em 2018, o índice subiu para 20,19%. Já em 2022 esse percentual aumentou para 21,72%. Agora chegou a 21,84%. A taxa registra um acréscimo acumulado de 3,87 pontos percentuais ao longo de 16 anos, sem nenhuma diminuição entre as eleições.

Em regra, as pessoas não se abstêm de votar apenas por uma questão de “preguiça”, mas devido a diversos fatores, como apontou uma pesquisa do Datafolha, divulgada agora em outubro, relatando os motivos declarados por eleitores para o não comparecimento no primeiro turno dessas eleições: viagem ou ausência da cidade (19%), problemas de saúde (18%) e desinteresse pelas eleições ou candidatos (13%).

Descrença nas instituições e perda de confiança na política

Na avaliação de Khelson Cruz, a abstenção também pode estar relacionada à sensação de impotência diante das instituições políticas. Quando o cidadão considera que sua participação não tem capacidade de influenciar a realidade ou percebe que as regras não são aplicadas de maneira justa, a confiança nos partidos, nos representantes e nas instituições tende a diminuir.

Entretanto, pondera o sociólogo, este crescimento contínuo da abstenção nas eleições pode se caracterizar por múltiplos fatores, como a sensação de impotência, indiferença ou descrença do cidadão em relação ao sistema político, às leis e às instituições governamentais. Em contrapartida, o cidadão percebe que as normas que regem o cenário político não se aplicam de maneira justa ou que sua intervenção (como o ato de votar) não tem poder real de influenciar significativamente na transformação da sociedade.

Khelson Cruz frisa que, consequentemente existe uma desconfiança acentuada em relação aos partidos, líderes e instituições, que passam a ser considerados distantes, corruptos ou ineficazes. “Uma das consequências práticas mais frequentes da passividade política é a desconexão em relação à vida pública. Isso se manifesta no aumento de votos em branco, nulos e nas taxas de abstenção, uma vez que o indivíduo desiste de se envolver por não enxergar sentido ou valor nas alternativas disponíveis”, diz.

Em suma, para o sociólogo, isso não se resume apenas a um desinteresse esporádico, mas representa um afastamento tanto estrutural quanto psicológico, resultante da crença de que a política institucional perdeu sua legitimidade e relevância para o cidadão comum. “Quando os cidadãos percebem que a mudança de governo não altera suas realidades cotidianas, o ato de votar perde o seu valor, sentido e eficácia”, afirma.

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Khelson Cruz destaca que condições econômicas e sociais podem dificultar a participação eleitoral | Foto: Acervo pessoal

Abstenção pode representar protesto político

O sociólogo considera que, em determinadas circunstâncias, deixar de votar pode representar uma forma de rejeição ao sistema político. Segundo ele, essa decisão pode expressar a insatisfação de eleitores que não se identificam com as alternativas disponíveis. O especialista pondera, porém, que nem toda ausência decorre de uma escolha deliberada de protesto.

É totalmente viável considerar algumas formas de abstenção como um ato de protesto político. Em lugar de se envolver propondo ou fazendo escolhas, o indivíduo expressa sua autonomia ao rejeitar o sistema, fazendo um boicote às eleições ou optando por votos em branco ou nulo, o que caracteriza como uma negação ao sistema, recusando tudo o que se remete a ele. Pessoas que se afastam dos temas sociais costumam atribuir menor importância à democracia, percebendo a esfera pública como algo estranho ou até oposto à sua vivência.

Desigualdade social e dificuldades materiais para votar

Além dos fatores políticos, Khelson Cruz destaca que condições econômicas e sociais podem dificultar a participação eleitoral. Trabalhadores informais, pessoas de baixa renda e profissionais submetidos a jornadas extensas podem enfrentar obstáculos para chegar aos locais de votação. Viagens, problemas de saúde e limitações de transporte também podem interferir no comparecimento às urnas.

Khelson Cruz ressalta que, com frequência, a falta de participação não resulta de uma decisão deliberada de boicote ou protesto, mas sim de limitações estruturais e circunstâncias materiais. “Dados apontados pela pesquisa do Datafolha demonstram que as barreiras físicas podem exercer um papel determinante: As classes de menor renda, trabalhadores informais e profissionais com jornadas exaustivas enfrentam barreiras físicas, econômicas e espaciais para votar”, observa.

Segundo o sociólogo, esses obstáculos incluem problemas de saúde, ausência de transporte gratuito no dia da eleição, escalas de trabalho rígidas (como a escala 6×1) e a necessidade de viagens forçadas. E ainda o deslocamento intraurbano e a necessidade de exercer jornadas de trabalho informais no domingo são variáveis cruciais na periferia de grandes centros urbanos goianos.

Juventude, redes sociais e novas formas de participação

Na análise do especialista, as transformações nos meios de comunicação também influenciam a formação política dos cidadãos. Com a fragmentação das informações e o avanço das redes sociais, os mecanismos tradicionais de educação cívica perderam parte de sua centralidade. Para aproximar a população da política, Khelson Cruz defende a ampliação de espaços de participação e de iniciativas de conscientização.

A escola, a família e a mídia tradicional já não centralizam mais a formação de opinião e a educação cívica. Com o avanço das redes sociais e a dependência tecnológica, a informação ficou fragmentada e polarizada. Segundo estudos recentes, a população de 18 a 34 anos é a que mais demonstra desinteresse pelos partidos tradicionais, pois enxerga a política institucional como burocrática e engessada, aponta o sociólogo.

Ele explica que, para reconectar as pessoas a esse universo, poderíamos substituir o foco na “obrigação legal” por mecanismos de democracia participativa e deliberativa, como: consultas públicas digitais, fóruns comunitários, palestras de conscientização política nas escolas e faculdades em meio a outras ações que possam despertar o senso crítico na juventude e, contudo, nas outras faixas etárias.

“Campanhas de conscientização voltadas à identidade e às demandas de cada região, fortalecimento de políticas públicas focadas na qualidade de vida e no bem-estar coletivo, devolvendo ao cidadão o sentimento de pertencimento à sua comunidade”, destaca Khelson Cruz.

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Para Khelson Cruz, o aumento da abstenção deve ser entendido como um sinal de distanciamento entre as instituições políticas e as necessidades cotidianas da população | Foto: Reprodução

Para ele, o aumento da abstenção deve ser entendido como um sinal de distanciamento entre as instituições políticas e as necessidades cotidianas da população. Sob essa perspectiva, o fenômeno envolve não apenas o funcionamento do processo eleitoral, mas também as condições sociais e a confiança que sustenta a participação democrática.

As questões levantadas vão além do aspecto técnico: elas expõem a ferida de uma democracia que se distanciou da realidade e das necessidades básicas da população. Sob a ótica sociológica, o esvaziamento das urnas sinaliza como o cansaço institucional e as desigualdades sociais corroem o pacto democrático e os laços de solidariedade civil.

Polarização e ausência de propostas ampliam o distanciamento

Ao concluir sua análise, o sociólogo relaciona a abstenção também à polarização política e à forma como o debate público é conduzido. Para ele, a disputa centrada na rejeição a um candidato, em vez da apresentação de propostas e projetos de governo, pode reduzir a identificação do eleitor com o processo eleitoral e enfraquecer a expectativa de mudança.

“Para acentuar esse cenário, a acirrada polarização política, o extremismo ideológico e a guerra de narrativas que dominaram as últimas eleições presidenciais inviabilizaram a apresentação de uma pluralidade real de propostas de governo. O debate público, assim, acabou reduzido a uma batalha dicotômica e superficial, na qual a escolha do eleitorado tendeu a priorizar a lógica do candidato ‘menos pior’”, destaca.

Essa saturação do debate público funciona como um motor para o distanciamento do eleitorado das urnas. Diante de uma escolha baseada na rejeição e na ausência de projetos de futuro, o voto perde seu caráter de esperança e assume um tom de mera obrigação ou desalento. Como consequência direta, testemunha-se o crescimento histórico da abstenção eleitoral, um reflexo nítido de uma sociedade que, cansada da superficialidade das narrativas, opta pelo silêncio e pela desconexão do processo democrático, conclui Khelson Cruz.

Prefeitos explicam alta abstenção eleitoral em cidades goianas

Em Sítio d’Abadia, no Nordeste Goiano, e em Anhanguera, no Sudeste do Estado, os índices de abstenção superaram 30%. Os prefeitos das duas cidades apontam fatores como a saída de moradores em busca de emprego, a mobilização eleitoral e a manutenção de títulos eleitorais em municípios onde parte dos eleitores já não reside.

Sítio d’Abadia: distância e falta de oportunidades

Abstenção: 32,25% | Eleitores aptos: 3.498 | Ausentes: 1.128

O prefeito Orlando José da Silva Neto (UB) atribui a abstenção, principalmente, à migração de moradores em busca de melhores oportunidades de trabalho. Segundo ele, muitos deixam o município para viver em cidades maiores, como Goiânia e Brasília, mas mantêm o título eleitoral em Sítio d’Abadia, onde permanecem familiares.

“Acredito que a distância dos grandes centros e a falta de oportunidades de emprego influenciam. Muita gente precisa sair para conseguir trabalho e melhorar de vida. Na hora de votar, às vezes, não consegue voltar por causa das despesas. A família permanece na cidade, mas os mais jovens vão procurar oportunidades em outros lugares.”

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O prefeito Orlando José da Silva Neto (UB) atribui a abstenção, principalmente, à migração de moradores | Foto: Acwrvo pessoal

O prefeito também observa que a participação costuma ser maior nas eleições municipais, quando candidatos a prefeito e vereador mobilizam parentes e conhecidos. Para o segundo turno de 2026, ele acredita que a abstenção poderá aumentar. Apesar de declarar preferência política por Flávio Bolsonaro, Orlando afirmou que pretende manter a neutralidade pública para evitar conflitos entre moradores com posições diferentes.

“Na eleição municipal, a abstenção costuma ser menor porque existe uma mobilização maior, principalmente por causa dos candidatos a vereador e dos vínculos familiares. Já na eleição nacional, esse envolvimento diminui. Acredito que, no segundo turno, a abstenção aqui pode aumentar. Prefiro não fazer campanha na cidade para evitar conflitos entre quem apoia candidatos diferentes.”

Anhanguera: mais eleitores do que habitantes

Abstenção: 37,11% | Eleitores aptos: 1.738 | Ausentes: 645 | População citada pelo prefeito: 904 habitantes

Em Anhanguera, o prefeito Marcelo Paiva (MDB) aponta três fatores para explicar o alto índice de abstenção: a participação historicamente menor nas eleições nacionais, a saída de moradores para outras cidades e a existência de eleitores que, segundo ele, mantêm o título eleitoral no município mesmo residindo em outros lugares. O gestor também questiona os critérios para transferência do domicílio eleitoral.

Segundo Marcelo Paiva, a diferença entre a população e o eleitorado estaria relacionada, em parte, a pessoas que não moram efetivamente na cidade, mas continuam aptas a votar ali. Ele afirma que há imóveis sem moradores fixos associados a dezenas de eleitores e relata que alguns deles seriam levados ao município durante as eleições municipais.

“Aqui, a abstenção nas eleições para presidente e governador é historicamente maior. Quando a disputa é para prefeito e vereador, ela costuma ser menor. Também temos pessoas que saíram da cidade e não voltam para votar. Mas existe outro fator que considero grave: pessoas que moram em outros municípios e mantêm o título em Anhanguera.”

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O prefeito Marcelo Paiva (MDB) aponta três fatores para explicar o alto índice de abstenção | Foto: Acervo pessoal

Por que Anhanguera tem mais eleitores do que moradores?

De acordo com o prefeito, a diferença não se explicaria por um único motivo. Além dos moradores que se mudaram e mantiveram o domicílio eleitoral, ele menciona pessoas que possuem casas no município, mas não residem ali permanentemente. Marcelo Paiva também alega que eleitores de outras cidades transferem seus títulos para Anhanguera e que alguns seriam mobilizados por políticos, especialmente em eleições para prefeito e vereador. Essas afirmações refletem o relato do gestor e não foram verificadas de forma independente.

“Tem casa aqui em que não mora ninguém, mas há mais de 20, 30 ou até 50 eleitores vinculados a esses endereços. Acredito que os critérios para transferir o título precisam ser revistos. Há pessoas que moram em outros municípios e vêm votar aqui, principalmente nas eleições municipais. Isso contribui para a diferença entre o número de habitantes e o de eleitores.”

O prefeito defende que os órgãos responsáveis avaliem os procedimentos de transferência do domicílio eleitoral. Para ele, a abstenção no segundo turno poderá permanecer elevada, já que a disputa presidencial tende a mobilizar menos eleitores do que as eleições municipais. Paiva afirmou ainda que apoiou Ronaldo Caiado (PSD) no primeiro turno e que acompanhará o posicionamento político do grupo governista no segundo.

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Paiva também alega que eleitores de outras cidades transferem seus títulos para Anhanguera | Foto: Divulgação/Prefeitura

TSE promete ações para reduzir abstenção no 2º turno

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que a Justiça Eleitoral pretende intensificar as medidas para reduzir a abstenção no segundo turno das eleições de 2026. A declaração foi feita após o primeiro turno registrar a ausência de 21,08% do eleitorado. Segundo o ministro, o tribunal pretende aperfeiçoar as estratégias disponíveis para estimular a participação dos eleitores na próxima etapa da votação.

O índice de abstenção registrado no primeiro turno foi o mais elevado desde 1998, quando chegou a 21,5%. Dos 158,7 milhões de eleitores aptos a votar neste ano, aproximadamente 125 milhões compareceram às urnas. O pleito também contabilizou 2,2 milhões de votos em branco e 3,6 milhões de votos nulos, conforme os dados da totalização do TSE.

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