Goiás corre contra o tempo para recuperar florestas plantadas e evitar escassez de madeira
10 outubro 2026 às 21h00

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A construção de uma política florestal para Goiás, com participação do governo estadual, do Sebrae e de representantes do setor produtivo, é uma das principais apostas para ampliar a produção de madeira, atrair indústrias e evitar que a demanda crescente por biomassa comprometa o abastecimento das agroindústrias. A estratégia parte do Plano Diretor Florestal de Goiás, elaborado com apoio do Sebrae e entregue ao governo estadual. A expectativa dos representantes do setor é que as medidas de incentivo e os projetos estruturados a partir desse planejamento avancem em 2027.
O desafio é ampliar uma atividade que perdeu espaço nos últimos anos justamente quando o Estado passou a demandar mais madeira para geração de energia industrial. Segundo a Pesquisa da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Goiás tinha 106,4 mil hectares de florestas plantadas em 2025, ante 123,2 mil hectares em 2024. A redução de 13,6% foi a maior registrada entre as unidades da Federação. Na direção oposta, a área nacional cresceu 4,8%, chegando a 10,4 milhões de hectares.
O contraste entre a redução da área plantada e o aumento da demanda é apontado por produtores, representantes de associações e especialistas como um dos principais problemas da silvicultura goiana. O setor precisa recuperar a confiança dos produtores, ampliar o acesso ao crédito e aproximar os plantios dos consumidores industriais. Também enfrenta desafios relacionados ao custo de implantação, à logística, à segurança jurídica e às mudanças climáticas.
A expansão das usinas de etanol de milho, a necessidade de biomassa para secagem de grãos e o consumo de madeira por frigoríficos, laticínios e outras agroindústrias ampliam a pressão sobre a oferta. Ao mesmo tempo, o ciclo longo das florestas exige que os investimentos sejam feitos anos antes de a madeira estar disponível para comercialização.
Para Cristiano Fernandes Franco, engenheiro agrônomo e presidente da Associação Goiana de Produtores e Consumidores de Florestas Plantadas (Goflor) e proprietário da Vale Vivo Florestal, Goiás precisa agir para evitar um desequilíbrio ainda maior entre oferta e demanda.
“Hoje é um desafio muito grande para nós atender as indústrias. Goiás é um estado agroindustrial, e a agroindústria precisa de madeira”, afirma.

Plano florestal tenta organizar expansão do setor
O Plano Diretor Florestal foi desenvolvido para identificar as condições necessárias à expansão da silvicultura, mapear áreas com potencial para plantio, orientar investimentos e aproximar produtores rurais, indústrias e poder público. O trabalho contou com apoio do Sebrae Goiás e envolveu articulação entre instituições ligadas à agricultura, à indústria e ao desenvolvimento econômico.
Segundo Douglas Paranahyba, economista, doutor em Agronegócio e coordenador do Polo de Referência Nacional em Agronegócio do Sebrae, o planejamento surgiu da percepção de que Goiás estava ficando de fora de um movimento de expansão do setor florestal observado em outras regiões brasileiras.
“Os atores do Estado de Goiás, vendo o crescimento do setor de florestas e madeira e o movimento global de atração de investimentos para outras regiões do País, perceberam que Goiás ficou de fora desse processo”, explica.
O economista cita como exemplos Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, que desenvolveram cadeias produtivas associadas à celulose, à siderurgia e ao carvão vegetal. A proximidade desses mercados com Goiás também representa uma oportunidade para o Estado atrair empreendimentos e ampliar sua participação no setor.
A partir dessa constatação, instituições estaduais e representantes dos produtores e da indústria começaram a reunir informações, visitar unidades industriais e estudar as condições necessárias para desenvolver a atividade em Goiás. O Sebrae contratou uma consultoria para diagnosticar o setor e identificar como os pequenos negócios poderiam participar da cadeia de fornecimento.
“Esse trabalho fez um diagnóstico do setor florestal do próprio Estado de Goiás e nos ajudou a entender como nos prepararmos para potencializar ganhos ainda maiores para os pequenos negócios”, afirma Douglas Paranahyba.
O estudo não se limita à expansão dos plantios. Ele contempla características do solo, escolha de materiais genéticos adaptados ao clima, técnicas de manejo, colheita, capacitação profissional, transporte e aproximação com o mercado consumidor.
A logística é uma das questões centrais. A madeira utilizada como biomassa precisa ser transportada a custos compatíveis com a atividade industrial. Por isso, o planejamento considera a localização das áreas de plantio em relação às agroindústrias e a necessidade de infraestrutura rodoviária adequada.
O Plano Diretor foi entregue ao governo estadual para orientar a formulação de medidas públicas. A partir dele, está em desenvolvimento uma política florestal que envolve diferentes órgãos estaduais e prevê ações para dinamizar o licenciamento, discutir regras tributárias e fiscais, mapear polos de produção e atrair investimentos de curto, médio e longo prazo.
De acordo com Pedro Vilela, engenheiro florestal e gerente de Desenvolvimento Regional e Inovação Agropecuária da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Goiás (Seapa-GO), a política tem três eixos principais: ampliar a área plantada, atrair empreendimentos industriais de médio porte e criar condições para investimentos de longo prazo, inclusive na instalação de uma indústria de celulose.
A expectativa dos representantes ouvidos é que as medidas avancem em 2027. Para o presidente da Goflor, o planejamento precisa sair do papel e oferecer condições concretas para que produtores e empresas assumam investimentos de longo prazo.
O que nós estamos trabalhando junto do governo e das indústrias é fazer esse incentivo, um fomento para o produtor do lado da indústria, diz Cristiano Fernandes Franco.
Produção cai, mas demanda por madeira aumenta
A redução da área plantada em Goiás não significa que todos os indicadores da silvicultura tenham recuado em 2025. O levantamento do IBGE mostra que a produção de lenha de eucalipto cresceu 20,2%, passando de aproximadamente 3,2 milhões para 3,9 milhões de metros cúbicos. O valor da produção avançou 55%, de R$ 387,3 milhões para R$ 600,5 milhões.
O movimento pode ser explicado, em parte, pelo momento das colheitas e pela valorização da madeira. A área total de florestas existentes no Estado e a quantidade colhida em determinado ano são indicadores diferentes: uma área pode ser cortada e gerar grande volume de madeira sem que novos plantios sejam realizados na mesma proporção.
Para Rodrigo Carlos Batista de Sousa, engenheiro florestal e doutorando em Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), o resultado não é contraditório.
A produção medida em um ano depende da área colhida naquele ano, e não da área total plantada. Se muitas áreas chegaram à idade de corte em 2025, a produção sobe, e a área existente cai logo depois da colheita, explica.

O especialista acrescenta que o crescimento do valor da produção, superior ao aumento do volume, sugere uma valorização do produto. “Em resumo, o Estado colheu bastante e repôs menos.”
A avaliação é semelhante à de Daniela Romão, presidente da Comissão de Silvicultura da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) e vice-presidente da Goflor. Bióloga de formação, ela também é produtora de madeira nobre, com plantios de mogno, e acompanha o setor desde 2009.
Segundo Daniela, muitos produtores que haviam investido em eucalipto enfrentaram preços abaixo das expectativas quando chegou o momento da colheita. Parte deles deixou de renovar as áreas, o que contribuiu para a redução dos plantios.
“Um pouquinho depois da pandemia, tivemos uma queda de preço na madeira muito grande. Muitos produtores foram incentivados a plantar, só que, na hora da colheita, não tiveram o preço que esperavam quando fizeram o plantio”, relata.
Agora, com a demanda aquecida e a valorização da madeira, alguns produtores voltaram a considerar a atividade. “Muita gente aguardou para vender. E quem está vendendo agora está replantando. Por quê? Porque hoje essa demanda é real”, afirma Daniela.
A produtora diz que já comercializa lenha por valores muito superiores aos que recebia no passado. Como exemplo, ela relata que chegou a vender o produto por R$ 45 em 2010 e que atualmente negocia a lenha em torno de R$ 210 a R$ 220, entregue no local de consumo. Os valores são da experiência comercial relatada pela entrevistada, não uma média oficial de mercado.

Apesar da valorização recente, a retomada exige cautela. O investimento inicial é elevado, e o produtor precisa esperar vários anos para recuperar o capital aplicado. A expectativa de preços melhores, sozinha, não elimina o risco de uma nova queda no mercado quando as árvores estiverem prontas para o corte.
Etanol de milho amplia pressão sobre a oferta
A expansão das usinas de etanol de milho aparece como um dos principais fatores que podem aumentar a demanda por madeira nos próximos anos. A biomassa é utilizada para gerar energia térmica em caldeiras industriais e em processos de secagem e processamento de produtos agropecuários.
“Para secar a soja ou o milho, precisa de muita madeira”, afirma Cristiano Fernandes Franco. Ele estima que o Estado tenha um déficit de aproximadamente 70 mil hectares para atender à demanda atual e futura e diz que novas usinas poderão ampliar essa necessidade.
Segundo o presidente da Goflor, uma unidade de etanol de milho já instalada em Rio Verde acrescenta pressão sobre a oferta. Outros empreendimentos em implantação ou previstos também devem demandar biomassa.
Cristiano avalia que o desequilíbrio pode se estender por vários anos, pois o plantio realizado agora não atende imediatamente às necessidades das indústrias. O eucalipto, em condições comerciais comuns, precisa de aproximadamente cinco a sete anos para chegar ao primeiro corte, conforme a finalidade e o manejo.
“Depois que a gente planta o eucalipto até cortar, vai mais ou menos seis anos. Então demorou para ligar o botãozinho de alerta. Mas, agora, a gente está correndo atrás, tentando plantar para reforçar”, afirma.
A Seapa também identifica a localização dos plantios como um fator determinante para o abastecimento. Em resposta à reportagem, Pedro Vilela afirma que o impacto da redução da área florestal não depende apenas da quantidade total de madeira disponível, mas também da distância entre a produção e as indústrias consumidoras.
“Existe um raio ótimo de abastecimento, ligado ao tipo de atividade da indústria e, quando extrapolado, encarece o frete”, explica.
O governo estadual observa ainda que a demanda não vem apenas de empresas goianas. Grandes consumidores instalados em estados vizinhos, especialmente Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, também procuram madeira na região. Isso amplia a disputa pela matéria-prima.
De acordo com Cristiano, Goiás já compra madeira de outros estados, principalmente de Minas Gerais. Para ele, o transporte a longas distâncias reduz a viabilidade econômica da biomassa e reforça a necessidade de ampliar a produção nas proximidades dos centros consumidores.
Sebrae aponta déficit e potencial de expansão
O diagnóstico que embasa o Plano Diretor Florestal também identificou um descompasso entre a evolução da oferta e a do consumo. Segundo Douglas Paranahyba, os dados analisados na consultoria indicaram que, entre 2020 e 2024, a área plantada em Goiás recuou de cerca de 160 mil para 140 mil hectares, enquanto o consumo de madeira aumentou de aproximadamente 4 milhões para 4,8 milhões de metros cúbicos.
Os números fazem parte do diagnóstico apresentado pelo economista e abrangem um período anterior ao dado mais recente do IBGE. As diferenças de período e metodologia precisam ser consideradas na comparação.
“Portanto, o déficit de oferta de madeira em relação ao consumo em Goiás tem aumentado ao longo dos últimos anos”, afirma Paranahyba.
O levantamento também identificou áreas degradadas que poderiam receber plantios florestais. Segundo o economista, o estudo apontou um potencial de aproximadamente 8,8 milhões de hectares de pastagens degradadas no Estado para conversão, em tese, para a produção de eucalipto.
O número representa uma estimativa de potencial territorial, não uma área imediatamente disponível ou adequada para plantio em sua totalidade. A viabilidade depende de fatores como condições do solo, disponibilidade hídrica, situação ambiental, logística e proximidade dos consumidores.
Daniela Romão cita um levantamento semelhante ao afirmar que Goiás tem milhões de hectares de áreas degradadas que podem ser avaliadas para a silvicultura. Para ela, o plantio pode representar uma alternativa econômica em terrenos que não apresentam a mesma aptidão para culturas agrícolas anuais.
Goiás tem um potencial enorme para a implantação de florestas plantadas. Nós temos hoje cerca de 8 milhões de hectares de áreas com esse potencial, que incluem pastagens degradadas e que podem receber a silvicultura, afirma.
A produtora destaca, porém, que nem toda área degradada deve ser ocupada por árvores destinadas à produção comercial. Terrenos com erosão, solos frágeis ou condições ambientais específicas podem demandar regeneração natural ou ações de recuperação.
Tem áreas degradadas que podem ser ocupadas por silvicultura e tem áreas degradadas que devem ter uma regeneração natural, com algum tipo de interferência, por conta da fragilidade do solo ou do excesso de erosão, explica.
Para o setor, a expansão precisa ser acompanhada de planejamento ambiental e de práticas que preservem a vegetação nativa. Daniela defende que a atividade seja apresentada aos produtores como uma alternativa de uso do solo, sem estimular novos desmatamentos.
Crédito e segurança jurídica são gargalos
Apesar da valorização da madeira, a silvicultura ainda enfrenta obstáculos para atrair novos investimentos. O principal deles, segundo Cristiano Fernandes Franco, é o acesso a crédito compatível com o tempo de retorno da atividade.
“Quando falamos em madeira, é um crédito que vai ser pago com a madeira. A floresta só vai se rentabilizar daqui a seis anos. Então, nós precisamos que seja um crédito de longo prazo”, afirma.
O presidente da Goflor avalia que o custo do dinheiro pesa ainda mais porque o produtor precisa arcar com implantação, manutenção, mão de obra e insumos durante anos antes de obter receita com a venda da madeira.
Felipe Comelli, profissional que atua há cerca de 20 anos no mercado de cavaco de madeira, também aponta o custo do financiamento como um dos principais entraves. Ele lembra que o setor passou por uma crise após a expansão de plantios entre 2008 e 2012, período em que produtores investiram sem que houvesse demanda suficiente para absorver a madeira na colheita.
Foi uma crise absurda no setor, porque não tinha novas plantas, não tinha consumidor. Então, sobrou floresta e isso desestimulou todo mundo a continuar na área, relata.

Na avaliação de Felipe Comelli, o aumento do consumo voltou a estimular o mercado, mas o custo de implantação e os juros elevados dificultam uma resposta rápida da produção.
“É uma cultura de longa duração. Você tem que colocar o dinheiro agora e esperar o retorno daqui a seis ou sete anos”, diz.
O empresário também chama atenção para a falta de garantia de preço. Como a comercialização ocorrerá apenas anos depois do plantio, o produtor fica exposto a mudanças na demanda, nos custos e na tributação. Para reduzir o risco, ele recomenda que produtores procurem negociar antecipadamente parte da produção com compradores.
A recomendação que faço aos produtores é tentar travar o preço com o comprador, pelo menos para ter um norte de faturamento, afirma.
Além do crédito, os entrevistados mencionam a segurança jurídica como condição para atrair investidores. Daniela Romão afirma que linhas de financiamento precisam vir acompanhadas de regras ambientais e tributárias claras, além de processos de licenciamento previsíveis.
Além das políticas públicas, precisamos de um ambiente jurídico seguro, em termos de tributação e legislação ambiental. Essa segurança jurídica é necessária, diz.
Para ela, o planejamento estadual pode ajudar a alinhar esses instrumentos e criar condições para que os produtores voltem a investir.
Silvicultura e agricultura podem ocupar áreas diferentes
A concorrência com culturas agrícolas é outro tema debatido pelos entrevistados. Goiás tem uma economia fortemente ligada à produção de grãos e à pecuária, atividades que podem oferecer retorno em prazos menores do que o cultivo de florestas.
Para Cristiano Fernandes Franco, a diferença entre os ciclos ajuda a explicar por que produtores optaram por outras atividades após as dificuldades de comercialização da madeira.
“Poucas culturas vão bater a rentabilidade do eucalipto, se compararmos com as tradicionais. O problema é que o eucalipto é uma cultura de longo prazo”, afirma.
Ele ressalta que o retorno de uma floresta pode ser competitivo, mas o produtor precisa esperar anos para recebê-lo. Na agricultura anual, a receita chega em um intervalo menor, o que influencia decisões de investimento.
Daniela Romão, por outro lado, considera que as atividades não precisam ser tratadas apenas como concorrentes. Segundo ela, as florestas podem ocupar áreas menos aptas para a agricultura e contribuir para diversificar a renda rural.
As áreas de silvicultura não ocupam necessariamente as áreas agrícolas. Elas geralmente ocupam terras um pouco mais fracas, que hoje estão com pastagens degradadas, afirma.
A produtora acredita que agricultura, pecuária e silvicultura podem conviver em sistemas integrados, desde que cada atividade seja direcionada às características da propriedade.
Rodrigo Carlos Batista de Sousa também avalia que a silvicultura pode complementar outras atividades agropecuárias. Para ele, o desafio é tornar o investimento mais atrativo por meio de crédito acessível, assistência técnica e mecanismos que reduzam a incerteza sobre a comercialização.
Clima exige adaptação dos plantios
As condições climáticas representam outro risco para a atividade. Cristiano Franco afirma que, atualmente, sua principal preocupação é a mudança no regime de chuvas e a necessidade de selecionar materiais genéticos mais resistentes à estiagem.
O produtor relata que trabalha com plantios de eucalipto e observa alterações na distribuição das chuvas em comparação com o início de sua atuação no setor, há cerca de 18 anos.
“O clima tem mudado muito. As chuvas têm se concentrado e não estão mais bem distribuídas”, afirma.
Ele lembra que o desenvolvimento de clones de eucalipto adaptados às condições de cada região exige anos de pesquisa e seleção. Diante de períodos secos mais prolongados e temperaturas elevadas, o setor precisa buscar materiais capazes de suportar essas condições.
“Hoje, o maior medo do silvicultor é a mudança climática. A gente precisa trabalhar material genético pensando nas mudanças climáticas”, diz.
Rodrigo Carlos Batista de Sousa também cita secas, incêndios florestais, pragas e doenças entre os riscos que podem prejudicar o estabelecimento das mudas e a produtividade das áreas plantadas. Para ele, o planejamento deve considerar as características de cada região e adotar práticas de manejo capazes de reduzir os impactos ambientais.
O engenheiro florestal destaca que monoculturas mal conduzidas podem provocar perda de biodiversidade, compactação e empobrecimento do solo. O respeito às áreas de preservação permanente e à reserva legal, a manutenção de corredores de vegetação nativa e a organização dos plantios em mosaicos são medidas que ajudam a diminuir esses riscos.
Produção florestal pode reduzir pressão sobre vegetação nativa
Os representantes do setor defendem que a ampliação das florestas plantadas seja associada à recuperação de áreas degradadas e à conservação da vegetação nativa. A produção comercial de madeira pode fornecer matéria-prima para energia e indústria, reduzindo a dependência de recursos extraídos de florestas naturais.
Daniela Romão afirma que a silvicultura também tem papel na produção de madeira nobre. Ela trabalha com mogno e avalia que o cultivo comercial pode contribuir para reduzir a pressão sobre espécies encontradas em áreas naturais.
A produtora ressalta que a ocupação de áreas degradadas precisa ser feita com critérios. Nem todo terreno deve receber uma floresta comercial, e áreas com fragilidade ambiental podem exigir restauração ou regeneração natural.
Cristiano Fernandes Franco afirma que a Goflor pretende estimular tanto a produção florestal quanto a recuperação de vegetação nativa. Segundo ele, a proposta é trabalhar com produtores e empresas para recompor áreas naturais sem transferir integralmente o custo ao proprietário rural, quando houver condições de parceria.
Eu acho que o aproveitamento dessas áreas degradadas é uma grande oportunidade para o produtor ganhar dinheiro e fazer a coisa correta, afirma.
A recuperação ambiental também pode fazer parte da estratégia das empresas que buscam atender exigências de compradores e investidores. Daniela relata que empreendimentos florestais podem combinar áreas de produção com áreas destinadas à conservação, embora a proporção e as obrigações dependam de cada projeto e da legislação aplicável.
Mercado exige planejamento para evitar nova crise
O histórico da silvicultura em Goiás mostra que a expansão de plantios sem demanda consolidada pode provocar perdas. Felipe Comelli lembra que o aumento dos investimentos no início dos anos 2010 foi seguido por uma crise quando a oferta superou a capacidade de consumo do mercado.
O cenário atual é diferente, com aumento da demanda industrial e valorização da madeira. Ainda assim, ele recomenda cautela, especialmente aos pequenos e médios produtores que pretendem retornar à atividade diante dos preços mais altos.
“Quando o preço melhora, muita gente entra, e isso pode dar um efeito rebote lá no preço”, afirma. Por isso, Felipe Comelli defende que os produtores busquem acordos com compradores para diminuir o risco de uma nova queda de preços no momento da colheita.
A Goflor pretende mapear, a partir de 2027, as regiões com maior demanda e aproximar os produtores das indústrias consumidoras. A intenção é incentivar novos plantios em locais onde a madeira possa ser transportada a custos viáveis.
“Não adianta plantar lá no norte de Goiás se o consumo maior está no sudoeste, na região de Rio Verde. Essa madeira vai chegar lá a 500 quilômetros, e é inviável transportar a biomassa por essa distância toda”, diz Cristiano Fernandes Franco.
A iniciativa busca evitar que o aumento da área plantada ocorra sem conexão com o mercado. O planejamento também deverá considerar a disponibilidade de mão de obra, a capacitação técnica, os equipamentos de colheita e a infraestrutura necessária para transportar a produção.
Perspectivas dependem de investimento e coordenação
A recuperação da silvicultura goiana dependerá da capacidade de transformar o planejamento em condições efetivas para novos plantios. Os entrevistados apontam que o Estado tem áreas com potencial, demanda industrial e oportunidades de diversificação, mas precisa enfrentar as dificuldades que afastaram produtores nos últimos anos.
A Seapa informa que o governo trabalha na elaboração da política florestal a partir do Plano Diretor. Entre as medidas em discussão estão a dinamização do licenciamento, a adaptação de regras tributárias e fiscais, a identificação de polos florestais e a aproximação entre produtores e consumidores.
O Sebrae, por sua vez, destaca a possibilidade de ampliar a participação de pequenos negócios na cadeia, com prestação de serviços de preparo do solo, produção de mudas, manejo, colheita, transporte, manutenção de equipamentos e apoio às indústrias.
Para Douglas Paranahyba, a coordenação entre governo, setor produtivo e empresas será determinante para que o potencial identificado se transforme em investimento.
Com esse planejamento, é possível avançar de uma maneira mais organizada, estruturada e com vários atores, tanto do setor privado quanto do público, caminhando juntos, afirma.

O economista avalia que o aumento dos preços da madeira pode estimular novos empreendimentos, mas considera importante que as decisões sejam tomadas com informações sobre demanda, logística e viabilidade econômica.
Já Rodrigo Carlos Batista de Sousa ressalta que a queda de 13,6% em um único ano merece atenção, mas não permite concluir, isoladamente, que a silvicultura esteja em retração estrutural. A evolução dos próximos anos será importante para verificar se a redução decorreu de um intervalo entre colheita e replantio ou de uma mudança mais permanente no uso da terra.
A questão central é o tempo. Enquanto uma indústria pode ampliar sua capacidade em um período relativamente curto, a formação de uma floresta comercial exige anos. Se o plantio não acompanhar a expansão da demanda, a diferença entre oferta e consumo pode se aprofundar justamente quando novos empreendimentos estiverem operando em plena capacidade.
A aposta do setor é que o Plano Diretor Florestal e a política estadual ajudem a criar condições para que Goiás amplie a produção sem repetir os erros do passado. O objetivo é estruturar uma cadeia capaz de abastecer as agroindústrias, atrair novos investimentos e gerar oportunidades econômicas, com planejamento territorial, segurança jurídica e responsabilidade ambiental.
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