Demissão voluntária da maior autoridade em Cerrado no Brasil evidencia crise na PUC Goiás

Pesquisador Altair Sales Barbosa deixou os quadros da instituição em desacordo ao apoio recebido para realização de pesquisas de campo e pelo processo de precarização das condições de trabalho

Ex-professor da PUC-Goiás Altair Sales: críticas em relação à falta de projetos da Universidade em defesa da bandeira do meio ambiente

Ex-professor da PUC-Goiás Altair Sales: críticas em relação à falta de projetos da Universidade em defesa da bandeira do meio ambiente

Frederico Vitor

O professor Altair Sales Barbosa, um dos maiores especialistas e conhecedores do bioma Cerrado, deixou os quadros da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) na semana passada em meio a uma crise que teve início com a recente demissão 14 professores dos quadros da instituição. Com mais de 40 anos de vida acadêmica, sendo dele a ideia de construir o Memorial do Cerrado, um complexo científico que funciona no Campus 2 da universidade, não estava satisfeito com a forma com que a área de pesquisa da universidade é tratada. Outro motivo seria em relação ao processo de precarização das condições de trabalho e a falta de amparo às pesquisas de campo.

Como professor e pesquisador, Altair Sales tem graduação em Antropologia pela Universidade Católica do Chile e doutorado em Arqueologia Pré-Histórica pelo Museu Nacional de História Natural, em Washington (EUA). Mostrando-se bastante triste, ele concedeu entrevista ao Jornal Opção na sede do Sindicato dos Professores do Estado de Goiás (Sinpro Goiás), em Goiânia, e preferiu economizar nas palavras. Segundo ele, a PUC está andando na contramão da história, na medida em que prioriza outros setores em detrimento da área de pesquisa. “Eles estão utilizando a pesquisa como mercadoria de troca e se esqueceram de incentivar os verdadeiros cientistas”, diz o professor.

Altair Sales reconhece que é difícil ter nas universidades privadas a cultura de incentivo à pesquisa. Ele lembra que na PUC Goiás todos os trabalhos desenvolvidos na área eram levados a cabo graças aos recursos oriundos de programas de fomentos, como do Conselho Nacional de Desenvol­vimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg). Segundo ele, a instituição tem seguido o raciocínio de que o dinheiro de alunos não pode ser investido em pesquisa. “É uma falácia dizer que aluno não se interessa por pesquisa. O espaço acadêmico é a casa da sabedoria e da produção científica”, defende.

Altair Sales teceu críticas em relação à falta de projetos da PUC em defesa da bandeira do meio ambiente. Em seu entendimento, a instituição perdeu a chance de sair na frente de demais universidades do Brasil, e de outros países, ao deixar de defender a preservação do Cerrado, uma matriz ambiental que, segundo ele, já se encontra em vias de extinção. O pesquisador lembra que a bandeira de defesa do meio ambiente vai ao encontro da Encíclica lançada pelo Papa Francisco, que é uma carta voltada às questões ambientais. “A PUC poderia ser vanguarda na luta pelo Cerrado, propondo um novo estilo de vida”, lamenta o professor.

Na carta em que explica os motivos que o levaram a deixar os quadros da PUC Goiás, ele deixa claro que a decisão de saída foi uma vontade própria aproveitando um espaço legal, o Programa de Demissão Voluntária (PDV), existente na instituição e fruto de acordos assinados com as entidades sindicais. Em um trecho do texto, ele diz que é grato à instituição ressaltando que quase tudo que conseguiu na vida foi graças ao apoio da universidade. “É uma pena porém que algumas pessoas queiram transformar os bosques que na universidade existiam num matagal de espinhos”, diz um trecho da carta.

Associação de Professores diz que há uma crise institucional na PUC Goiás

A Associação de Professores da Universidade Católica de Goiás (APUC) diz por meio de sua assessoria de imprensa, que as recentes ondas de demissões e a saída do professor Altair Sales evidenciam um clima de crise institucional na PUC Goiás. Segundo a entidade, muitos outros profissionais estão procurando PDV não por ser um plano atrativo, mas sim por não suportarem mais o clima de insatisfação que tem dominado o meio acadêmico da universidade.

Ainda de acordo com a APUC, uma das principais reclamações dos professores é a falta de diálogo e de democracia interna da instituição. As deliberações estariam sendo tomadas de forma arbitrárias, sem a direção da universidade consultar previamente a comunidade acadêmica. Há também a recorrente queixa de um processo de precarização das condições de trabalho, algo que segundo a entidade classista já vem ocorrendo ao longo dos anos.

A APUC afirma ainda que os professores têm reclamado que a PUC Goiás investe mais em estrutura física do que em seus quadros de pessoal. Além disso, a universidade estaria relutando em negociar com as entidades sindicais o acordo coletivo de trabalho com a categoria. Outra reclamação é em relação aos contratos com professores, que estariam sendo firmados em condições frágeis e instáveis aos docentes. No dia 26 de agosto, a APUC fará uma assembleia em que pode terminar com a decisão de uma greve, que seria a primeira depois de vários anos.

A Assessoria de Imprensa da PUC Goiás foi procurada pela reportagem, mas a instituição preferiu não comentar as acusação da APUC e os motivos que levaram o professor Altair Sales a deixar os quadros da instituição. Durante a semana, o Jornal Opção encaminhou um e-mail com perguntas que não foram respondidos até o fechamento.

Na tarde de sexta-feira, 14, a reportagem tentou novamente falar com a assessoria da PUC Goiás, que informou que a direação não se manifestaria sobre o assunto.

Legado deixado pelo pesquisador, Memorial do Cerrado está inacabado

Idealizado por Altair Sales, o Me­mo­rial do Cerrado foi criado em 1999 como um projeto inserido no Plano Diretor do Instituto do Tró­pi­co Subúmido (ITS). Durante a sua concepção, o projeto recebeu muitas críticas, mas com o tempo se desenvolveu e, atualmente, recebe em média 800 visitantes diários, e é considerado um dos lugares mais bonitos de Goiânia. O complexo científico funciona no Campus 2 da PUC e reúne espaços que representam as diversas formas de ocupação do Cerrado e os modelos de relacionamento com a natureza e com a sociedade.

Um fato que incomodou o professor Altair Sales foi a falta de diálogo em relação às obras de construção do Centro de Convenções da PUC, situado ao lado do Memorial. Para ele, o novo empreendimento da universidade não seria um problema em si, a questão é que não houve uma consulta prévia entre a direção da universidade e o pesquisador, já que o Memorial do Cerrado ainda se encontra inacabado. “Não houve diálogo em relação à organização dos espaços no Campus 2. Quando propunha alguma iniciativa logo descobria que uma empresa terceirizada já tinha um projeto pronto e aprovado para ser executado na área”, diz.

O Memorial do Cerrado, um espaço que conta a história geológica, biótica e as evoluções da flora e da fauna do bioma, também aglutina várias vilas cenográficas. O conjunto destes espaços ainda não está completo como planejado em seu projeto original. Como tais vilas não foram erigidas de forma simultânea, ainda falta retratar outros tipos de habitação típica do Cerrado, como as oficinas rurais. Segundo o professor Altair Sales, resta construir a vila cenográfica do garimpo, que vai retratar um período fundamental na ocupação do Centro-Oeste, em especial de Goiás. Segundo ele, o espaço é uma marca da universidade ao qual dezenas de alunos visitam diariamente, o que o transformou em um verdadeiro marketing espontâneo para a instituição.

Além de abrigar o Memorial do Cerrado, Altair Sales lembra que existe no Campus 2 uma imensa área verde com várias nascentes, córregos e ambientes com árvores raras peculiares do Cerrado. Ele conta que está preocupado com os rumos deste espaço verde, um ecossistema raro e preservado dentro de um perímetro urbano que está cercado por condomínios de alto padrão. “Há uma riqueza imensa em termos de biodiversidade no local, no entanto não há diálogo e planejamento para preservá-lo”, diz.

Leia os principais trechos da nota de esclarecimento do professor e pesquisador Altair Sales:

Eu, professor Altair Sales Barbosa venho através desta nota, agradecer algumas notícias que foram divulgadas na imprensa sobre minha saída da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Sei que essas notas foram bem intencionadas e tomei conhecimento delas através da comunicação eletrônica.

Agradeço, porque elas permitiram que eu recebesse centenas de manifestações solidárias de colegas da PUC Goiás, da UFG, várias outras Universidades Brasileiras, como também de alunos, amigos, Sociedade Ambientalista Brasileira do Cerrado, Sociedade de Arqueologia Brasileira e outras Organizações não Governamentais.

Aproveito a oportunidade para fazer alguns esclarecimentos: Não fui demitido da instituição, minha saída foi por vontade própria aproveitando um espaço legal que é o Programa de Demissão Volun­tária, existente na PUC Goiás, fruto de acordos assinados com as instituições sindicais.

Tenho dezenas de cadernos com anotações de campo que precisam ser organizadas para divulgação. Alguns dados precisam ser checados localmente e a atual estrutura da Universidade não mais permite essas ações prolongadas em campo. E, a não organização desses dados pode significar algum prejuízo para a Ciência Brasileira. Também tenho em mente a execução juntamente com alguns amigos e intelectuais, de projetos educativos, alguns dos quais propostos à própria PUC. Tenho fé que essas novas iniciativas irão abrir vários caminhos.

Sou muito grato a hoje denominada Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Quase tudo que consegui na vida foi graças ao apoio desta Instituição. É uma pena porém que algumas pessoas queiram transformar os bosques que na universidade existiam num matagal de espinhos.

Digo “pena” porque nesse exato momento em que o Papa Francisco I exorta na sua Encíclica Louvado Sejas Meu Senhor, para que possamos construir um mundo mais sadio, cujos caminhos perpassam pela educação e respeito ao ser humano, a PUC Goiás parece estar caminhando na contra mão, dos cânticos graciosos de São Francisco de Assis.

Dentro dessa ótica, quero sair da Universidade como entrei. Amigo de todos os colegas que sempre respeitei e respeito, dentro dos princípios da educação, sem arrogância, prepotência e superioridade. Quero deixar a PUC Goiás com o coração limpo e sem mágoa, como o ouro depois de purificado no crisol.

Aproveito a oportunidade para mencionar que: lendo o Livro dos Provérbios da Bíblia Cristã, aprendi muito sobre as maldades da soberbia. Nos últimos tempos, confesso que sentia falta de uma presença maior do professor Wolmir Amado dentro da Universidade, porque se me ouvisse, talvez entendesse a profecia que lhe fiz através de uma carta escrita. Mas entendo seus compromissos de agenda.

Gostaria de deixar de forma especial um abraço afetuoso ao professor Eduardo Rodrigues da Silva, pró-reitor de Comunicação, ao professor José Antônio Lôbo pró-reitor de Saúde, pelo carinho que sempre me dedicaram. Da mesma forma, deixo meu afeto e agradecimento a todos meus colegas e a todos que se solidarizaram comigo. Que Nossa Senhora Aparecida vos proteja!

2 respostas para “Demissão voluntária da maior autoridade em Cerrado no Brasil evidencia crise na PUC Goiás”

  1. Avatar Francisco Delmondes Bentinho disse:

    Dr. Altair Sales Barbosa, hoje a maior sumidade, em si falando do Bioma Cerrado, teve um inicio de trabalho excelente, trazendo para a comunidade científica os mais importantes resultados para se conhecer a biodiversidade deste imenso torrão do Centro Oeste Brasileiro.
    A felicidade de poder ter conhecido e até trabalhado com Dr. Altair Sales Barbosa, num momento em que na Diretoria do Departamento Cultural dos Centros do Professores de Goiás, partíamos para o interior nos finais de semana para em contato com os professores locais levar alguns conhecimentos e adquirir a experiência de vida que acontece no campo, com os professores de cada município que vistamos em nossas caminhadas.
    Deixar os quadros da PUC/GO, e parar trabalhos em andamento, só quem perde é a comunidade científica, pelos grandes avanços que podem ser alcançados om a experiência e capacidade de alguém, com é o Dr. Cerrado (como é conhecido o Dr. Altair Sales Barbosa. Um fraterno Abraço ao amigo Altair Sales Barbosa de
    Francisco Delmondes Bentinho – e-mail: [email protected]

  2. Avatar Luiz Freitas disse:

    A qualidade da faculdade vai diminuindo, mas a subvenção do Poder Público (FIES, Prouni, etc.) continua a mesma, ou até aumentando, quem sabe…. Isso é o Brasil…

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