Cultura do estupro: quem bebe cerveja e faz xixi sentado depois?

A bifurcação dos caminhos de um menino alemão e um brasileiro em relação ao mundo feminino começa já com a forma com que é exposto a simples comerciais de bebida

Anúncio de publicidade de cerveja em revista: exposição explícita do corpo feminino como mercadoria

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Elder Dias

Thomas tem 8 anos e mora na cidade de Lage. Entra no banheiro para fazer xixi. Abaixa as calças e senta-se no vaso. A porta está aberta e o pai o flagra naquela cena. Surpreso, ele exclama:

— Garoto, até que enfim você aprendeu como tem de ser! Sua mãe deveria ter visto isso!

O menino responde com o sorriso alegre de quem realmente fez a coisa certa. Levanta-se, limpa o “pipiu” com o papel higiênico, ajeita-se e ganha um abraço de Marco.

Nem Thomas nem Marco são brasileiros. A cidade em que moram, também não. Lage tem 36 mil habitantes e fica no nordeste da Alemanha. Sim, os homens alemães aprendem desde cedo algo que os latinos, machões, jamais ensinariam a seus filhos: “mijar sentado”. E é aqui que começam grandes diferenças entre as culturas. Os germânicos têm uma preocupação prática — querem que a privada continue limpa para a próxima pessoa a usá-la e o jato de urina de um homem em pé é bem pouco favorável a isso. A cultura nacional tem outro viés: por prezar uma dada visão de masculinidade, vai preferir que se suje a louça sanitária com respingos fortes a economizar o trabalho doméstico, o qual naturalmente ficará a cargo da mãe. Nasce a bifurcação do caminho de um Thomas nascido na Alemanha e qualquer outro homônimo seu, mas brasileiro, o que será só um primeiro passo para desandá-los em indivíduos muito diferentes.

Durante sua vida toda, o Thomas alemão, por exemplo, jamais verá uma propaganda de cerveja que exponha mulheres como objetos sexuais – ainda que seu país seja conhecido como a terra da cerveja e tenha como maior tradição nacional a Oktoberfest, quase um culto à bebida. A não ser que venha ao Brasil, onde o desafio será o oposto: um comercial que fale das qualidades da própria bebida em vez dos atributos do corpo feminino.

E aqui começamos a falar, então, da tal “cultura do estupro” de um modo particular, que não se apega ao conceito estrito teorizado pelo feminismo. Dispondo de uma visão alargada, é na propaganda de uma Skol que nasce a cultura do estupro. Desnecessário procurar vídeos com cenas quase explícitas de sexo simulado (ou não) nos bailes funk: a origem de crimes como o que dezenas de homens cometeram contra a garota de 16 anos no Rio de Janeiro está muito mais próxima, e até internalizada, do que se pode imaginar.

Primeiramente é bom relembrar que estupro, mais do que um ato sexual, é uma demonstração de poder. Assim como o machismo é um tipo de poder. E ele não se tornou presente a partir dos “pancadões” do morro. A violência contra o querer da mulher foi erguida de forma constitutiva em nossa sociedade durante séculos e se encontra exposta até mesmo em letras simplórias da tradicional música caipira. Em “Boiadeiro de Palavra”, Tião Carreiro e Pardinho cantam: “Esses cabelos compridos/ São minha maior riqueza/ Se um dia você cortar/ ‘Nóis separa’ na certeza/ Um mês depois de casado/ O cabelo ela cortou/ Boia­dei­ro de palavra/ Nessa hora confirmou/ No salão que a esposa foi/ Com ela ele voltou/ Mandou sentar na cadeira/ E desse jeito falou/ ‘Passe a navalha no resto/ Do cabelo que sobrou’/ (…) Boiadeiro caprichoso/ Caprichou mais na pirraça/ Fez a morena careca/ Dar uma volta na praça”.

Não aceitar a escolha da mulher pode começar na roupa que ela vestir e a­cabar por não se conformar com uma separação, mesmo que esta venha depois de agressões continuadas. Quantos casos de assassinatos de mulheres ainda teremos com esse roteiro?

Resultado da busca no Google por propagandas de cerveja na Alemanha (esquerda) e no Brasil (direita): se uma imagem vale mesmo mais que mil palavras, o texto desta página nem precisaria ter sido escrito

Resultado da busca no Google por propagandas de cerveja na Alemanha (esquerda) e no Brasil (direita): se uma imagem vale mesmo mais que mil palavras, o texto desta página nem precisaria ter sido escrito

O machismo aflorado é o início do estupro, como o primeiro gole é o começo do porre. E voltamos à mesa do bar: o simples ato de “beber cerveja” passa recibo da visão machista dos pu­blicitários tupiniquins. Faça o teste: vá ao Google Imagens e digite “propaganda cerveja alemanha”; depois faça o mesmo trocando “alemanha” por “brasil”. Da tela, vão desaparecer copos e canecas — e aparecer corpos e canelas.

Nessa mesma pesquisa, verá que na primeira página das imagens nacionais aparece um anúncio intitulado “É pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra”. É da marca Devassa, apresentando sua cerveja escura. Uma aula de como fazer a coisa errada, uma verdadeira ode gráfica à cultura do estupro. Querem que você beba cerveja: uma cerveja “Devassa negra”, “encorpada”, “estilo dark ale”, “cremosa” e “com aroma de malte torrado”. Quase comestível. Quase?

Ao contrário do menino alemão, o garoto nacional é adestrado desde sempre para se diferenciar de uma menina. Para ter ideia disso, basta imaginar como funcionaria a cabeça de do pai brasileiro padrão ao pegar um filho de 8 anos sentando-se para apenas urinar. Se mulheres fazem “assim”, homens “não podem” fazer. E vice-versa: dão-se ao rapaz direitos que não são concedidos à garota. A primeira e precoce transa de um adolescente é vista com benevolência e até orgulho pelo pai; já se a experiência ocorre com a filha, ainda nos dias de hoje isso pode ser caso de deserção ou até morte. Se for “ele”, é mérito; se for “ela”, é culpa.

Por essas e outras é que, muito mais do que as mulheres, quem deveria se ater à cultura do estupro e alertar sobre ela seriam os próprios homens. E a forma de tornar isso eficiente são por medidas polêmicas e de longo prazo. Entre elas, mudanças na legislação que desfavoreçam a apologia à exploração do corpo feminino; endurecimento das penas de crimes contra a mulher; e a formatação de uma educação não machista para as próximas gerações. Dos três itens, o mais difícil é, sem dúvida, o último. Por exemplo, leis mudam, como o aumento do rigor da pena para estupro coletivo, aprovado no Senado semana passada. Mas, assim como o racismo, o machismo é algo que corre nas veias de todo um povo. Ou você já ensinou seu garotinho a se sentar no vaso para o xixi?

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Fernando Justus

Com certeza o brasil é um pais com muito machismo na cultura,isso é ruim com ctz, mas esse papo de “visão machista dos publicitários tupiniquin” é bobeira, o publicitário precisa vender p o publico alvo dele, é só uma questão de mercado, a publicidade só é daquela maneira pq a maior parte do publico que compra pensa da quela maneira, isso pouco tem haver com a visão do publicitário, isso é estrategia de mercado.

Adalberto De Queiroz

Uma porrada e bem dada. Punched#1.