Crise na saúde pública de Rio Verde afeta pacientes

Usuária do sistema aguarda há mais de um ano por exames de ultrassonografia na mama e mamografia; obras paradas também são evidências de má gestão

Cozinheira Elenice Bueno, de 47 anos: “Há quatro meses descobri um nódulo no estômago e pedras na vesícula. Pelo jeito vou ter que esperar um ano, isso se eu conseguir a cirurgia”

Cozinheira Elenice Bueno, de 47 anos: “Há quatro meses descobri um nódulo no estômago e pedras na vesícula. Pelo jeito vou ter que esperar um ano, isso se eu conseguir a cirurgia”

Cezar Santos

Nos últimos anos, a saúde pública em Rio Verde, no Sudoeste goiano, vive uma situação que muitos munícipes chamam de caos. Usuários dos serviços de saúde sob responsabilidade da Prefeitura reclamam que faltam medicamentos, equipamentos para diagnóstico e médicos, entre outras deficiências inaceitáveis para um município que arrecada mais de R$ 60 milhões ao mês. O pior é que, ainda sim, a administração pública não consegue resolver os problemas e gerir os recursos da saúde.

Em entrevista a uma emissora de rádio de Rio Verde, o prefeito Juraci Martins (PSD) declarou que a Secretaria tem um rombo de R$ 20 milhões. Além disso, em janeiro deste ano, uma operação do Ministério Pú­blico Estadual investigou o desvio de itens hospitalares, irregularidades envolvendo servidores da Secretaria Municipal de Saúde.

Lembrando que os problemas éticos na área de saúde em Rio Verde vêm desde a época do ex-secretário Paulo do Vale, que sofreu duas condenações na Justiça goiana por atos de improbidade administrativa e lesão ao erário, referentes ao período em que era titular da Pasta.

Neste ano, Paulo do Vale passou a ser alvo de investigação da Polícia Federal por desvios de recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) na clínica de sua propriedade. Paulo, mesmo sendo secretário, mantinha contrato com a Prefeitura de Rio Verde, recebendo duplamente da municipalidade como gestor e empresário. Lembrando ainda que no ano passado, a promotora de Justiça Renata Dantas de Morais e Macedo propôs ação civil pública contra o município e a empresa Art Plus Comunicação e Marketing Ltda., no valor de quase R$ 3 milhões. Segundo o Ministério Público, a Prefeitura estava priorizando a propaganda em vez de ações efetivas, ao estabelecer contratos do Fundo Municipal de Educação com o próprio município e do Fundo Municipal de Saúde, para prestação de serviços de publicidade e divulgação dos programas e campanhas institucionais.

Ex-secretário Paulo do Vale: problemas na área de saúde vêm desde que ele era titular da Pasta

Ex-secretário Paulo do Vale: problemas na área de saúde vêm desde que ele era titular da Pasta

E pela quantidade de reclamações de rio-verdenses nas redes sociais e na imprensa, a maré de má gestão e corrupção continua evidente, provocando efeitos na falta de estrutura para atender à crescente demanda em Rio Verde e de pacientes de cidades vizinhas. A cozinheira Elenice Bueno, de 47 anos, é um exemplo.

Elenice Bueno aguarda há mais de um ano por uma ultrassonografia na mama, além da mamografia. “Se não bastasse isso, há quatro meses descobri um nódulo no estômago e pedras na vesícula. Pelo jeito vou ter que esperar mais um ano de novo, isso se eu conseguir a cirurgia”, reclama.

Segundo Elenice, o único médico no Centro de Atendimento Integrado à Saúde (Cais) que poderia realizar o procedimento está de férias e retorna no dia 4 de agosto. “E a agenda está lotada até metade de outubro. Uma funcionária do Cais me disse que se até novembro eu não conseguir, só vou fazer a cirurgia em fevereiro do ano que vem”.

Enquanto isso, Elenice sofre com as fortes cólicas decorrentes da pedra na vesícula e, mais uma vez, precisa recorrer ao sistema público municipal de saúde. “Quando sinto dores vou para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Esses dias cheguei lá às 15 horas e fui ser atendida às 23 horas. Um absurdo! Em Rio Verde, pobre morre se for esperar atendimento na rede pública”, critica.
Obras

O descaso que envergonha e penaliza a saúde em Rio Verde se comprova também nas obras que deixaram de ser entregues à comunidade. Um exemplo é o Hospital Materno Infantil, monumento em construção que é a marca da incapacidade de gestão pública em Rio Verde. A obra tem recursos federais na ordem de R$ 14 milhões, foi iniciada em junho de 2014 e com prazo de conclusão em dois anos. O prazo venceu e a construção está longe de ser concluída. Nesse marasmo, recém-nascidos que dependem de uma UTI Neonatal precisam ser transferidos às pressas para Goiânia.

Outro exemplo é a construção de mais uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Rio Verde, com investimentos de R$ 2,2 milhões. O dinheiro para o início da obra já foi liberado e está nos cofres da Prefeitura, mas a construção nem sequer teve início. A alegação da administração municipal é de que faltam recursos para manter a unidade. Mais uma justificativa não aceita pela população, que enfrenta a demora no atendimento na única UPA de Rio Verde.

Inerte aos problemas, Prefeitura diz que situação é de normalidade

Obra do Hospital Materno Infantil, em Rio Verde: com recursos federais na ordem de R$ 14 milhões, foi iniciada em junho de 2014 ...

Obra do Hospital Materno Infantil, em Rio Verde: com recursos federais na ordem de R$ 14 milhões, foi iniciada em junho de 2014 …

... com prazo de conclusão em dois anos, mas a construção está longe de ser concluída

… com prazo de conclusão em dois anos, mas a construção está longe de ser concluída

A reportagem procurou a secretária de Saúde de Rio Verde, Letícia Rosa Silva Marques, para responder as questões levantadas pela paciente Elenice Bueno. A informação na pasta foi de que a secretária estava em viagem, mas a assessoria de imprensa respondeu aos questionamentos.

Falta de medicamentos, equipamentos para diagnóstico e médicos nas unidades:
Resposta: Atualmente a rede municipal de saúde tem em seu quadro médico mais 100 profissionais médicos das mais diversas áreas/especialidades disponíveis para atendimento à população. Todas as unidades de saúde do município trabalham com agendamento de consulta médica e odontológica, sendo devidamente munidas de equipamentos e material humano adequado para o atendimento. Todos os exames de BAIXA, MÉDIA e ALTA complexidade são realizados na rede municipal de saúde, exames de ALTISSIMA complexidade são encaminhados para Goiânia. Vale destacar que a rede municipal de saúde conta com duas farmácias destinadas a distribuição de medicamentos; uma específica para medicamentos especiais de alto custo e outra para medicamentos básicos.

O único médico no Cais que poderia realizar o procedimento em Elenice Bueno está de férias e retorna só no dia 4 de agosto.
Resposta: Não confere, pois de JANEIRO a ABRIL de 2016, apenas a unidade Cais realizou 17.306 consultas médicas em todas as especialidades oferecidas, bem como 45.736 exames laboratoriais no mesmo período.
Sobre a paciente ter chegado à UPA às 15 horas e ser atendida às 23 horas.
Resposta: A UPA de Rio Verde segue rigorosa determinação do Ministério da Saúde quanto ao procedimento de atendimento à população, sendo estabelecido por esse órgão a aplicação do Pro­tocolo de Manchester (Sis­te­ma de Classificação de Risco por Cores), dando prioridade de atendimento aos pacientes classificados via triagem médica como mais graves.

A admissão do prefeito Juraci Martins, em recente entrevista a uma emissora de rádio de Rio Verde, sobre um rombo de R$ 20 milhões na Secretaria.
Resposta: Trata-se de um déficit orçamentário que foi corrigido através de revisão contábil e adequação financeira, não existindo qualquer “rombo” no que tange a dívidas ou falta de pagamentos.

Em janeiro deste ano, uma operação do Ministério Público Estadual investigou o desvio de itens hospitalares, irregularidades envolvendo servidores da Secretaria Municipal de Saúde.
Resposta: A Secretaria Muni­cipal de Saúde iniciou um procedimento administrativo junto as investigações do Ministério Público, visando colaborar com o órgão. Os servidores apontados na investigação foram afastados de suas funções e sofreram as sanções cabíveis, o processo judicial ainda está em curso.

O Hospital Materno Infantil, obra com recursos federais na ordem de R$ 14 milhões, iniciada em junho de 2014 e com prazo de conclusão em dois anos. O prazo venceu e a construção está longe de ser concluída.
Resposta: Constantes atrasos em repasses de verba do governo federal comprometeram o andamento da obra, bem como problemas com a empresa ganhadora do processo de licitação. Atual­mente uma nova construtora as­su­miu a obra que está em pleno andamento.

Construção de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), com investimentos de R$ 2,2 milhões. Consta que o dinheiro para o início da obra já foi liberado e está nos cofres da Pre­feitura, mas a cons­trução nem sequer teve início.
Resposta: A construção de uma segunda UPA em Rio Verde está convencionada a uma parceria entre Governo Federal e Mu­ni­cipal. Consta que não houve a li­beração da verba oriunda do go­verno federal para iniciar as obras, inexistindo dessa forma verba liberada para essa finalidade. l

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