A crise do jornalismo na era da pós-verdade

Qual o papel do jornalista em um momento histórico em que todos são mídia? Se notícias superficiais, ou mesmo falsas, tomam conta das redes sociais, é hora de a profissão se reencontrar

Não há um descrédito generalizado da população em relação à chamada mídia tradicional. O que existe são veículos que não sabem o que fazer diante da velocidade de produção e compartilhamento de notícias nas redes sociais | Foto: Telegraph

A distopia orwelliana ex­pres­sa em “1984” é considerada profética e, de muitas maneiras, de fato é, pois, em tempos de Google, não é difícil imaginar um monitoramento como o do Grande Irmão – não são smartphones verdadeiras teletelas, e­quipamentos que monitoram a todos, inclusive dentro de suas próprias casas?

Por certo não vivemos num tempo de tirania e de explícito controle de informações, mas, em linhas gerais, podemos dizer que George Orwell acertou. O que poderia causar espanto ao autor inglês talvez fosse o fato de a sociedade optar livremente por não ter conhecimento da “verdade”, preferindo a ficção aos fatos.

Essa escolha é apontada por Steve Tesich, dramaturgo sérvio-americano que publicou na revista “The Nation”, em 1992, o artigo “A Government of Lies” falando que os EUA entraram em estado de “aversão à verdade” no período pós-Watergate, escândalo que culminou na renúncia do então presidente Richard Nixon.

No texto, Tesich argumenta que o caso Watergate, que revelou como o republicano Richard Nixon espionou o partido Democrata e utilizou uma rede de conspiração para se reeleger em 1972, causou no estadunidense certa exaustão no que diz respeito à intensidade de informações sobre a corrupção de seu presidente.

Embora a democracia tenha triunfado e o país voltado ao caminho certo após a renúncia do presidente corrupto, Tesich aponta que o resultado desse cansaço foi uma “fuga da verdade”: “Ou porque as revelações de Watergate eram muito duras, além de seguidas da abertura dos bastidores da guerra no Vietnã, que estava re­pleta de crimes e revelações próprias [o escândalo da Guerra do Vietnã estourou em 1971], ou porque Nixon foi tão rapidamente perdoado [recebeu o perdão ainda em 1974, ano de sua renúncia, por seu sucessor, Gerald R. Ford], começamos a fugir da verdade”.

De acordo com ele, os estadunidenses começaram a associar a verdade a más notícias e a população não queria mais notícias ruins, “não importa o quão verdadeiro e vital para a saúde do país como nação” fossem. Assim, o que aconteceu foi um “pedido” das pessoas ao governo para que as protegesse da verdade.

Nesse ponto, o dramaturgo ar­remata o pensamento ao dizer que, após essa escolha do povo es­tadunidense, o país rapidamente se tornou protótipo de um povo que não poderia sequer ser imaginado pelos totalitaristas, a­final todos os ditadores da história do mundo tiveram que trabalhar arduamente para suprimir a verdade e eles, por escolha própria, ha­viam adquirido um mecanismo es­piritual capaz de despir a verdade de qualquer significado. “De maneira fundamental nós, como po­vo livre, decidimos espontaneamente que queríamos viver em uma espécie de mundo da pós-verdade.”

Seria essa informação a causar espanto em George Orwell? Tal­vez, e não apenas pelo fato de serem os EUA, mas porque, menos de 30 anos depois, o cenário seria identificado em praticamente todo o Ocidente. Dessa forma, é possível dizer que foi Tesich o profeta, sendo o “criador” de uma palavra que pode servir de definição à era atual e que, apesar de ter sido empregada com certa cons­tância ao longo da última dé­ca­da, somente agora o mundo pa­re­ce ter compreendido seu significado – tanto que a Ox­ford Dictionaries identificou, no ano passado, um crescimento de 2.000% no uso do vocábulo, que não à toa foi escolhido como “palavra do ano”.

A explicação dada pelo departamento da Universidade de Oxford é que o contexto político mundial, marcado pela divulgação e aceitação de notícias falsas, sobretudo nas eleições presidenciais estadunidenses que elegeram Donald Trump e no processo de saída da Inglaterra da União Europeia, chamou a atenção do mundo para o conceito.

Para a Oxford Dictionaries, pós-verdade trata de algo que se refira ou denote “circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal.” Em outras palavras, o termo se refere ao momento em que a população prefere boatos a fatos.

Que tipo de boatos? Oxford cita como exemplo a notícia divulgada pela campanha de Trump de que Barack Obama seria o fundador do Estado Islâmico (EI). Que a in­formação é esdrúxula, não há dúvidas, mas é fato que muitos acreditaram, seja pela posição ideológica contrária à de Obama ou pelo pavor causado por uma possível invasão do EI.

“Ah”, o leitor pode dizer, “políticos dizem mentiras e, sobretudo em época de campanha eleitoral, sempre há quem acredite”. Realmente. Po­rém, o contexto é um tanto diferente. O editorial “Art of the lie” da revista bri­tânica “The Economist” define bem: “A política da pós-verdade é mais que apenas uma invenção das eli­tes. O termo revela algo novo: que a verdade não é falsificada, nem contestada, mas de importância secundária”.

Os pensamentos de Tesich e “The Economist” explicam, entretanto, apenas a parte política da questão e a “era da pós-verdade” não está associada apenas a isso. Ralph Keys, em “The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life”, diz que na era da pós-verdade todos os limites entre verdade e mentira, honestidade e desonestidade, ficção e não-ficção, não são claros.

Luiz Signates: “Jornalismo deve entender que perdeu o lugar privilegiado da notícia” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Para Keys, a era da pós-verdade é o resultado de um processo em que “enganar se torna um desafio, um jogo e, finalmente, um hábito”. Seguindo esse raciocínio, vivemos, então, no momento histórico em que enganar é um hábito em todas as áreas e por razões diversas. “Não sabemos com quem estamos lidando no dia a dia e a decepção já virou uma rotina. Não à toa, a investigação particular é um dos setores em ascensão na economia”, diz em seu livro.

A análise de Keys é um tanto alarmista, mas chama a atenção para um ponto interessante. Segundo ele, o “grande motivo” para o estabelecimento desse hábito de enganar se dá não apenas pelo “desdém pós-moderno pela verdade”, mas principalmente pela flexibilização da ética das mais variadas profissões, de políticos a advogados, de acadêmicos a profissionais do entretenimento.

E como fica o jornalismo nesta era? Voltemos à definição dada pela Oxford, a qual atribui a era da pós-verdade não apenas ao crédito dado a notícias não-verdadeiras, mas também ao descrédito àquelas consideradas “verdadeiras”. Isso significa, portanto, que a era da pós-verdade coloca em xeque a chamada mídia tradicional? De certo modo, sim, visto que foi papel tradicional da imprensa a construção de narrativas baseadas na checagem de fatos para informar a sociedade.

O grande abalo ao jornalismo tradicional, porém, não vem sequer da descrença popular em seu papel, mas de sua inabilidade em se adaptar à era em que todos são mídia e em que já não há lugar para a chamada mídia tradicional – rádio, jornal e televisão –, aquela cujo papel sempre foi o de definir o que é notícia e que tinha o privilégio do furo, isto é, de dar a notícia em primeira mão.

“Com a incidência da internet, esses privilégios foram perdidos”, diz o professor do programa de mestrado da Faculdade em Comunicação da UFG, Luiz Signates. “A fonte ocupou o lugar da mídia e, atualmente, é ela quem dá a notícia. O jornalismo não é mais, prioritariamente, de notícias e isso desloca o jornalista de seu lugar tradicional. A crise está aí”, explica.

A consequência disso é a aposta dos veículos em conteúdos de alta circulação para se recuperar da perda de audiência, de leitura e, consequentemente, de financiamento. “Aí o jornalismo vira entretenimento para tentar fazer o jogo da internet, que é rápida e sem compromisso com a verdade, pois só está buscando audiência para tentar manter algum interesse de financiamento, seja estatal ou privado”, afirma Signates.

Existe, contudo, um paradoxo nes­sa crise, pois, se há dificuldades por parte da mídia tradicional, o professor observa que, em contrapartida, se analisada a forma como notícias circulam na internet, “veremos que ainda existe um lugar privilegiado para o jornalismo, não como quem dá a notícia, mas como quem a interpreta. As pessoas, quando veem uma notícia estranha, verificam, nos sites dos jornais, se aquilo é verdadeiro. Se os jornais estiverem noticiando, é; se não, é mentira.”

Caio Túlio Costa: “O jornalista é ainda mais necessário na era da pós-verdade” | Foto: Arquivo

Logo, se há desconfianças sobre o jornalismo atual, é ele quem ainda garante credibilidade a certas notícias. “Então”, conclui Signates, “o papel do jornalismo atual é o de conferir credibilidade às notícias que circulam na internet, que é um meio de comunicação de baixa credibilidade, e não o de noticiar. Essa função, o jornalismo já perdeu. E é por isso que precisamos de um jornalismo de alta qualidade. Se não for assim, a profissão não se manterá viva.”

Quem atesta a credibilidade ainda existente no jornalismo atual é Caio Túlio Costa, jornalista e fundador da ferramenta de monitoramento digital Torabit. Segundo ele, os dados do Google mostram que, em qualquer país, os sites com maior relevância ainda são os da imprensa tradicional. “E isso se dá pela credibilidade. Às vezes, aparecem produtos jornalísticos não tradicionais, mas que também têm relevância. Se existem boatos, isso só torna o jornalista mais necessário ainda”, afirma.

Caio Túlio diz que distorções de informações, boatos e notícias falsas sempre existiram e que, portanto, a era da pós-verdade não é uma grande novidade. “A novidade está no fato de a internet ampliar isso e o desafio do jornalista é descobrir como utilizar os recursos de investigação, de análise crítica etc., para passar ao público informações com credibilidade, entendendo que ninguém tem o monopólio da verdade, nem o jornalista”, explica.

Se conseguir fazer isso, o jornalismo pode começar a superar sua crise, que é gerada pela tentativa de manter o modelo tradicional no meio econômico digital, que é outro mundo e que tem outro jeito.

Notícias falsas e as iniciativas para contê-las

Ângela Moraes: “As pessoas não entendem o perigo de produzir e divulgar notícias falsas” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Se o termo pós-verdade ga­nhou evidência, foi devido à intensidade de notícias falsas divulgadas, sobretudo no ano passado, em relação à política estadunidense e europeia. No Brasil não foi diferente, dado o período político conturbado vivido pelo País, com inúmeros escândalos de corrupção e uma presidente que perdeu seu cargo. Inúmeras foram as informações sem embasamento na realidade divulgadas e compartilhadas.

Nesse contexto, o jornalismo pode acabar endossando esse tipo de informação – algumas vezes por descuido, outras de propósito – e, mesmo isso, não é novidade. Ângela Moraes, professora do mestrado em Comunicação da UFG, diz que são vários os registros de notícias falsas publicadas, inclusive com jornais se posicionando a favor de golpes ou alguns tipos de governos, mesmo que seja necessário mentir sobre alguma coisa.

Agora, ela se diz otimista e vê que alguns jornais já estão mais cautelosos em divulgar certas notícias que circulam pela internet e aponta que a própria população já consegue desconfiar de algumas notícias, ficando receosa de compartilhar sem antes verificar se aquilo é verdade ou não. “O próprio Facebook tenta conseguir mecanismos de diminuir o compartilhamento de notícias falsas e há inclusive projetos de lei sobre o assunto. Então, são iniciativas que criam uma perspectiva de melhora no cenário”, relata.

Agora, os cuidados em relação ao assunto não cessam, visto que a internet de fato superdimensiona a divulgação de falsas informações, pois mais pessoas têm acesso. Ângela constata: “A disseminação da mentira on-line é mais fácil porque o internauta não tem compromisso com a verdade e, às vezes, age pela emoção ou por posicionamentos ideológicos. Além disso, não há preocupação em checar notícias”.

A solução, assim, é descobrir caminhos para superar isso. “E envolvidos nisso estão tanto as empresas de comunicação, que precisam viabilizar o próprio negócio para garantir uma informação de qualidade para o cidadão, quanto a população, que precisará passar por um processo de educação para a comunicação, já que o fascínio pela tecnologia, muitas vezes, faz com que as pessoas não se atentem para o perigo de produzir ou disseminar informações falsas”, ressalta a professora.

Há, entretanto, outras forças en­volvidas na questão. O Face­book, por exemplo, lançou na semana passada, em parceria com a ONG First Draft, um guia para que seus usuários identifiquem notícias falsas, evitando assim o compartilhamento desse tipo de conteúdo. A em­presa de Mark Zu­ckerberg foi alvo de inúmeras críticas no ano passado por não conseguir frear o intenso compartilhamento de notícias falsas durante as eleições presidenciais nos Estados Unidos (EUA).

O guia deve ser disponibilizado em breve e ficará no topo do Feed de Notícias dos usuários do Brasil e de outros 13 países, como Argen­tina, Colômbia e México. A ferramenta faz parte do Projeto Facebook para Jornalismo, lançado em janeiro deste ano, e recomenda ao usuário, por exemplo, verificar a URL do site, investigar fontes da informação ou procurar por outras notícias sobre o mesmo tema em publicações de outros sites.

A Organização das Nações Unidas (ONU) também se pronunciou sobre o assunto, divulgando, no início de março, uma declaração dizendo que a propagação de notícias falsas, que geram desinformação, é uma preocupação global. O documento é assinado pelos relatores especiais da ONU sobre Liberdade de Opinião e Expressão em todos os continentes, reafirmando declarações passadas sobre o tema – a primeira é de novembro de 1999 – e trazendo uma série de recomendações acerca do tema.

Um dos pontos tratados diz respeito ao fato de que “agentes estatais não devem fazer, patrocinar, encorajar ou difundir notícias que saibam ser falsas (desinformação) ou que demonstrem um descuido imprudente pela informação verificável (propaganda)”. O documento também traz advertências sobre o papel do jornalismo. No tópico “Jornalistas e Meios de Comunicação”, a declaração diz:

“a. Os meios de comunicação social e os jornalistas devem, se for o caso, apoiar sistemas eficazes de autorregulação, seja em setores específicos dos meios de comunicação (como órgãos fiscalizadores da imprensa) ou em meios de comunicação individuais, que incluem normas sobre a luta pela precisão das notícias, inclusive oferecendo direito de correção e/ou resposta sobre declarações imprecisas.

“b. Os meios de comunicação social devem considerar a inclusão de uma cobertura crítica sobre a desinformação como parte de seus serviços, de acordo com seu papel de vigilância social, sobretudo durante períodos eleitorais e de debates sobre questões de interesse público”.

Nesse interim, os países também começam a se movimentar para tentar conter a propagação de falsas notícias. Alemanha e França, por exemplo, já aprovaram leis que tornam crime a produção e divulgação de notícias com conteúdo falacioso. Nos EUA, um fundo de pesquisa foi criado para combater notícias falsas. O programa é iniciativa de um grupo de associações, empresas de tecnologia, em conjunto com a Universidade Pública de Nova York (CUNY). O investimento inicial deve ser de 14 milhões de dólares.

No Brasil, uma proposta tramita na Câmara Federal. Trata-se do projeto de lei 6812/17, de autoria do deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), que torna crime “a divulgação ou compartilhamento de notícia falsa ou prejudicialmente incompleta na internet”, prevendo pena de detenção de 2 a 8 meses e pagamento de multa, valor que deverá ser revertido para Fundo de Defesa dos Direitos Difusos. O projeto deve ser analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) e depois segue para o Plenário.

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