É praticamente unanimidade entre economistas e operadores do mercado: a recessão econômica dá cada vez mais sinais de que pode acabar, mas o caminho para plena recuperação é longo

Ministro Henrique Meirelles traça o caminho certo, mas a plena recuperação econômica é um processo longo| Foto: Lula Marques/ Agência PT

O crescimento de mísero ponto porcentual no PIB durante o primeiro trimestre deste ano foi uma ótima notícia, mas o presidente Michel Temer erra a mão de forma exagerada ao anunciar o fim da recessão econômica que atirou o Brasil num poço sem fundo. Pelo menos, é o que dizem praticamente todos os economistas e operadores do mercado brasileiro. Lá fora, a repercussão foi boa, mas igualmente contida. Afinal, o Brasil saiu ou não do processo recessivo? Não, ainda não, infelizmente, apesar da euforia do presidente. O caminho traçado pela equipe comandada por Henrique Meirelles está certo, mas a plena recuperação será um longo processo, e certamente poderá acontecer solavancos negativos em algum período.

Isso sem falar na devastação que tem sido provocada pela crise moral que atingiu em cheio o Palácio do Planalto, com inegáveis reflexos na composição da base governista no Congresso Nacional. Mas se esse é o quadro, por que o presidente se comportou de maneira tão exagerada? A resposta é simples do ponto de vista político. A recuperação da economia, com a superação da crise econômica, é a única âncora do seu governo. Sem isso, Temer seria comandante de um barco à deriva em meio ao mar agitado da política brasileira nos últimos anos, e certamente seria apeado do poder.

TSE

Nem assim ele está garantido no cargo até dezembro do ano que vem. Na terça- feira, 6, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vai começar, finalmente, a julgar o processo movido pelo PSDB contra a chapa Dilma-Temer por abuso do poder econômico. E sobre o possível resultado desse julgamento já se falou de tudo um pouco. Antes de explodir a delação atômica de Joesley Batista e suas gravações, especulou-se sobre duas teses. Na primeira, o TSE encontraria uma brecha qualquer para separar a chapa, jogando toda a encrenca em Dilma e livrando a cara de Temer. A segunda tese versou sobre uma espécie de complô jurídico para não cassar o presidente de nenhuma forma, mesmo com todas as evidências reconhecidas pelo ministro-relator, Herman Benjamin.

No pós-delação, a situação piorou bastante. Em determinado momento, logo após o vazamento de parte do teor do que os delatores confessaram, chegou-se a dar como certa a renúncia de Temer. Ele precisou fazer dois pronunciamentos para conseguir desmentir que renunciaria. Na semana passada, a tese mais significativa sobre o comportamento do TSE é a de um ou dois ministros peçam vistas do processo, e o julgamento iria se estender até não mais poder.

É também por essa razão que Temer politizou o bom resultado do PIB no primeiro trimestre, de maneira a tentar ganhar musculatura para permitir qualquer composição no TSE que não altere o curso estabelecido atualmente pelo governo dele. O único problema é que sua base no Congresso já nem de longe tem o mesmo poder de fogo que tinha antes, e é aí que mora outro grande perigo.

As reformas que estavam sendo discutidas, e apesar de muito barulho, caminhavam rumo à aprovação, simplesmente estancaram. A base não parece disposta a arcar com o custo de aprovar nada enquanto o TSE não definir se Temer fica ou é expulso do Palácio.

Esse quadro de incerteza política afeta a perspectiva, que ainda assim é positiva, mas com uma margem apertadíssima em relação ao pessimismo, da classe empresarial. A queda vertiginosa da inflação e a redução aos saltos da taxa referencial de juros, a Selic tiveram como consequência primeira mudar o modo como os empresários estavam observando o comando econômico. A instabilidade do mandato de Temer se reflete imediatamente nessa taxa de otimismo.

A conclusão mais razoável, peneirada nas opiniões dos especialistas, é mesmo de que a crise ainda não deixou de assustar, embora venha assustando cada vez menos. Como ninguém tem a mínima certeza do que pode acontecer no Brasil em uma semana, por exemplo, quem tem dinheiro para investir vai aguardar mais um pouco. E a crise, portanto, vai continuar.